Autor: William Gibson
Título: Neuromancer
Tradução: Abdoulie Sam Boyd e Lumir Nahodil
Data Publicação Original: 1984
Data da Digitalização: 2002

Esta obra não possui direitos autorais pode e deve ser reproduzida no todo ou em parte, além
de ser liberada a sua distribuição, preservando seu conteúdo e o nome de seu autor.

2

AGRADECIMENTOS

A Bruce Sterling, a Lewis Shiner, a John
Shirley, Helden. E a Tom Maddox,
o inventor do ICE.
E aos outros, que sabem por quê.

3

Para Deb
que tornou isto possível
com amor



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BLUES DE CHIBA CITY


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1
O céu por cima do porto tinha a cor de uma TV que saiu do ar. — Não é
que eu queira — Case ouviu enquanto abria caminho pela multidão que
estava na porta do Chat. — Mas é como se o meu corpo tivesse criado, por si
mesmo, esta enorme dependência da droga.
Obviamente uma voz Sprawl e uma piada Sprawl. O Chatsubo era um
bar para expatriados profissionais; era possível freqüentá-lo assiduamente
durante uma semana e jamais ouvir duas palavras em japonês.
Ratz estava de serviço no balcão, com o braço protético balançando
monotonamente, enchendo uma bandeja de copos com Kirin tirada sob
pressão. Reparou em Case e sorriu, exibindo uma dentadura que mais
parecia uma trama formada por aço da Europa do Leste e matéria de cor
castanha em decomposição. Case encontrou um lugar junto ao balcão entre o
impossível bronzeado solar de uma das prostitutas do Lonny Zone e o rígido
uniforme naval de um africano alto, cujos malares estavam rodeados de filas
bem-defini-das de cicatrizes tribais.
— O Wage já esteve aqui com dois capangas — informou Ratz, ao
mesmo tempo que empurrava um dos copos com mão hábil. — Talvez
estivesse te procurando, Case.
Case encolheu os ombros. A moça da sua direita deu uma risadinha e
tocou-o com o cotovelo.
O sorriso do barman tornou-se mais aberto. A feiúra do homem
constituía motivo de lenda: numa época de beleza ao alcance do bolso, havia
nela qualquer coisa de heráldico.
A antigüidade em forma de braço chiou quando estendeu para agarrar
mais uma caneca; tratava-se de uma prótese militar russa, um manipulador
de sete funções com realimentação de energia, envolvido em um plástico
sujo e cor-de-rosa.
— Você é demais como artista, Herr Case! — rosnou Ratz; o grunhido
servindo como uma gargalhada. Cocou sua barriga protuberante com a garra
cor-de-rosa sobre a camisa branca. — Você é um artista de pequenas e
engraçadas transações.
— Claro — retorquiu Case, bebendo um gole da cerveja —, alguém tem
que ser o engraçado aqui. Certamente o fodido não é você.
A risadinha da puta subiu uma oitava.
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— Nem você, irmãzinha. Portanto, desapareça, ok? O Zone é meu amigo
pessoal.
Ela olhou Case bem nos olhos e produziu o que era o mais brando som
de desprezo possível com um mínimo de movimento de lábios; e foi embora.
— Meu Deus! — queixou-se Case. — Que merda de espelunca é esta?
Um homem já não pode tomar um trago sossegado.
— Ah! — replicou Ratz, limpando o tampo de madeira cheio de marcas
com um trapo. — O Zone dá porcentagem. Quanto a você, permito que
freqüente isto pelo valor do divertimento que você representa.
No momento em que Case agarrava de novo o copo de cerveja, um
desses estranhos instantes de silêncio caiu como se uma centena de
conversas, independentes umas das outras, tivesse atingido simultaneamente
a mesma pausa. A risadinha da puta soou então mais estridente, tingida por
uma certa histeria.
— Um anjo passou — resmungou Ratz.
— Os Chineses — berrou um australiano bêbado — os malditos
Chineses é que inventaram o entrelaçador de nervos. Eu prefiro, em qualquer
hora, um trabalhinho de nervos em terra firme. Um trabalho perfeito, cara.
— Bem, isso... — falou Case para o copo a sua frente, com toda a
amargura subindo subitamente como um sabor de fel — é apenas uma bela
conversa de merda.
Os Japoneses já tinham esquecido mais neurocirurgia do que os Chineses
alguma vez haviam conhecido. As clínicas clandestinas de Chiba City
estavam permanentemente na frente: todos os meses, técnicas
completíssimas ficavam superadas; contudo, não havia meio de conseguirem
reparar o estrago que lhe havia sido causado naquele hotel de Memphis.
Um ano aqui e ainda continuava sonhando com o ciberespaço, enquanto
sua esperança se enfraquecia noite após noite. A despeito de toda a droga
tomada, de todas as esquinas dobradas em Night City, ainda vislumbrava
durante o sono a matriz, a brilhante esteira de lógica desdobrando-se pelo
vazio sem cor... O Sprawl era um estranho caminho de regresso a casa agora,
através do Pacífico; contudo ele continuava a ser um homem sem console,
u m cowboy do ciberespaço. Meramente outro biscateiro, tentando
sobreviver.
Mas os sonhos regressavam continuamente, durante a noite japonesa,
como um vodu elétrico, e nesses momentos ficava chorando, suplicando no
meio do sono, e acordava sozinho em plena escuridão, enrolado na coberta
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num hotel qualquer de urnas, com as mãos fincadas na cama de espuma
plástica, comprimida entre os dedos, numa tentativa de obter o console que
não estava lá.
— Vi sua garota ontem à noite — informou Ratz, ao mesmo tempo que
lhe passava a segunda Kirin.
— Não tenho nenhuma — replicou, e bebeu um gole.
— A Linda Lee.
Case balançou a cabeça.
— Sem garota? Sério? Apenas o negócio, amigo artista? A dedicação ao
comércio? — O s o l h i n h o s c a s t a n h o s d o b a r m a n e n t e r r a v a m -se
profundamente na carne carregada de rugas. — Acho que gostava mais de
você quando andava com ela. Ria mais. Uma noite destas você fica
demasiadamente artístico e acaba parando num tanque de clínica como
estoque de peças sobressalentes.
— Você está partindo meu coração, Ratz
Case acabou a cerveja, pagou e saiu, com os ombros altos e estreitos
curvados sob o seu blusão de nylon cáqui manchado. Ao mesmo tempo que
abria caminho entre a multidão do Ninsei, sentia o cheiro rançoso do seu
próprio suor.
Case estava com 24 anos. Aos 22, já era um cowboy, um ladrão, um dos
melhores do Sprawl. Treinado pelos melhores, McCoy Pauley e Bobby
Quine, figuras lendárias do negócio, operava com uma alta taxa de
adrenalina quase permanente, numa mistura de juventude e competência,
integrado em seu comportamento ciberespacial, que lhe projetava a
consciência separada do corpo na alucinação consensual da matriz. Um
ladrão que trabalhava para outros ladrões, mais ricos, que forneciam o
software necessário para conseguir penetrar nas paredes reluzentes dos
sistemas das grandes empresas e abrir janelas para os riquíssimos campos de
dados.
Cometera o erro clássico, o erro que havia jurado jamais cometer:
roubara os patrões. Guardou alguma coisa para si e tentou passá-la através de
um receptador em Amsterdã. Ainda não sabia bem como é que fora
descoberto, nem isso era coisa que interessasse agora. Esperou a morte,
então, mas eles apenas sorriram. Claro que era bem-vindo, disseram-lhe,
bem-vindo ao dinheiro, pois iria precisar dele. Porque — e continuavam a
sorrir — iriam providenciar para que nunca mais pudesse trabalhar.
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Danificaram seu sistema nervoso com uma microtoxina russa, do tempo
da guerra.
Amarrado a uma cama de hotel, em Memphis, com as suas capacidades
sendo consumidas mícron a mícron, alucinou durante trinta horas seguidas.
O estrago fora minucioso, sutil e extremamente eficaz.
Para Case, que havia vivido na incorpórea exaltação do ciberespaço, isso
constituiu a Queda. Nos bares que freqüentara quando era um cowboy no
auge, a atitude de elite era de um certo desprezo pela carne. O corpo era
carne; Case caíra na prisão do próprio corpo.
Convertera o total de suas posses em ienes novos, um gordo pacote do
velho papel-moeda que continuava interminavelmente a circular através do
circuito fechado dos mercados negros mundiais, como as conchas dos
habitantes das ilhas Trobiand. Era difícil no Sprawl efetuar qualquer negócio
legítimo com dinheiro vivo; no Japão era quase ilegal.
Tinha adquirido aí, no Japão, uma certeza firme e absoluta de que
encontraria a cura. Em Chiba City. Ou numa clínica registrada, ou numa
zona sombria da medicina clandestina, sinônimo de transplantes, separação
do sistema nervoso, microbiônica biotecnológica. Chiba constituía um pólo
de atração para subculturas tecno-criminais do Sprawl.
Uma vez em Chiba, vira o desaparecimento dos seus ienes novos, ao fim
de dois meses de circuito por exames e consultas. Os homens das clínicas
clandestinas, a sua derradeira esperança, limitavam-se a admirar a eficiência
com que ele fora mutilado, e sacudiam lentamente a cabeça.
Agora, dormia nas urnas mais baratas, as que ficavam junto ao porto, sob
os projetores de quartzo-halogêneo que iluminavam as docas durante toda a
noite, como se estas fossem enormes palcos; onde não era possível ver as
luzes de Tóquio devido ao clarão do céu que luzia como um aparelho de
televisão, nem sequer o logotipo holográfico no topo da torre da Fuji Electric
Company. A Baía de Tóquio era um espaço negro onde as gaivotas
circulavam sobre mantas errantes de espuma de borracha plástica branca.
Além do porto, espalhava-se a cidade, as cúpulas das fábricas dominadas
pelos amplos cubos das sedes das grandes empresas. O porto e Chiba
encontravam-se separados por uma zona fronteiriça de ruas antigas. Uma
zona sem nome oficial, a Night City, com o Ninsei no centro.
Durante o dia, os bares do Ninsei ficavam fechados e descaracterizados,
à espera, com os néons apagados, os hologramas inativos, sob um céu
prateado e venenoso.
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Numa casa de chá de nome Jarre de Thé, situada duas quadras à direita
do Chat, Case engoliu a primeira pílula da noite com café expresso duplo;
tinha a forma de um octógono cor-de-rosa achatado — uma variedade
potente da dextrina brasileira que comprara de uma das garotas do Zone.
As paredes do Jarre eram revestidas de espelhos, com uma moldura de
néon vermelho em volta de cada um.
A princípio, quando se encontrara sozinho em Chiba, com pouco
dinheiro e menos esperança ainda de encontrar cura, entrara numa espécie de
aceleração terminal, arrancando grana com uma intensidade tão fria que mais
parecia outra pessoa. No primeiro mês, matara dois homens e uma mulher
por somas que um ano antes seriam ridículas para ele. O Ninsei desgastara-o
até ao ponto em que a própria rua parecia uma exteriorização de um desejo
de morte qualquer, um veneno secreto que ignorara transportar consigo.
Night City era como uma experiência alucinante de darwinismo social,
concebida por um investigador aborrecido que mantivesse permanentemente
o polegar em pressão sobre o botão de movimento acelerado para a frente.
Se um homem desistia de tentar desenrascar-se, afundava-se sem deixar
quaisquer vestígios; se andasse depressa demais, quebrava a frágil tensão de
superfície do mercado negro; de qualquer modo, desaparecia, nada deixando
de si a não ser uma vaga recordação na memória de um homem como Ratz,
ainda que o coração, ou os pulmões, ou os rins pudessem sobreviver, a
serviço de um homem qualquer, com ienes novos suficientes para os tanques
da Clínica.
O negócio aí era um constante sussurro subliminal, e a morte, uma
punição aceita para a preguiça, o desleixo, a falta de elegância, o fracasso de
não se conseguir dar satisfação às exigências de um intrincado protocolo.
Sozinho,sentado a uma mesa n o J a r r e d e T h é , com o octógono
começando fazer efeito, algumas gotas de suor surgindo nas palmas da suas
mãos, e subitamente consciente de cada um dos seus cabelos, que lhe
formigavam nos braços e no peito, Case sabia, já há algum tempo, que
começara um jogo consigo mesmo, um jogo muito antigo, sem nome, um
último jogo de paciência.
Não trazia nenhuma arma, já não se preocupava em tomar as mais
básicas precauções. Aceitava os negócios mais perigosos, mais marginais, e
tinha a reputação de conseguir arranjar tudo o que lhe era pedido. Uma parte
de si sabia que o halo de autodestruição era luminosamente óbvio para os
seus clientes, que com regularidade se tomavam cada vez menos; essa
mesma parte de si próprio, porém, acalentava-se no reconhecimento de que
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era apenas uma questão de tempo. E essa era a parte que, certa na sua
expectativa de morte, mais odiava o pensamento em Linda Lee.
Encontrara-a, em uma noite de chuva, numa sala de jogos.
Sob fantasmas brilhantes ardendo através de uma fumaça azulada de
cigarros, de hologramas do Castelo do Feiticeiro, da Guerra de Tanques na
Europa, da linha do horizonte nova-iorquino... Recordava-se agora como
fora: o rosto banhado na incansável luz do laser, as feições reduzidas a um
código; as maçãs do rosto ardendo vermelhas, enquanto o Castelo do
Feiticeiro se incendiava; a fronte banhada de azul-celeste quando Munique
cedia na Guerra dos Tanques; a boca atingida por um raio de ouro quente ao
mesmo tempo que um cursor deslizante fazia faiscar a parede de um canyon
de arranha-céus.
Nessa noite, estava na melhor das disposições: com um pacote de
quetamina de Wage a caminho de Yokoama e o dinheiro já no bolso. Entrara
para escapar da chuva quente que fustigava ao longo do passeio do Ninsei, e,
fosse como fosse, ela havia-lhe sido destinada, um rosto destacado entre as
dúzias que permaneciam presas nos painéis de comando dos jogos, absorta
no jogo em que se envolvia. A expressão na cara da garota fora a mesma que
ele pudera observar, horas mais tarde, na face adormecida na urna do porto:
o lábio superior fazendo lembrar o traço que as crianças desenham para
representarem um pássaro em pleno vôo.
Uma vez atravessado o salão para conseguir ficar junto dela, sentindo-se
o máximo por causa do negócio que havia feito, Case reparou no olhar de
relance que a garota lhe lançara: olhos cinzentos pintados de rimei preto,
borrado, uns olhos de animal fixado pelos faróis de um automóvel em
aproximação.
A noite que passaram juntos prolongara-se até de manhã, até dois
bilhetes de hovercraft e a primeira viagem de Case através da Baía.
Continuava chovendo incessantemente em Harakuju; a chuva formava
pequenas contas sobre o blusão de plástico dela e as crianças de Tóquio
passavam em desfile pelas butiques famosas, vestindo capas pretas e
mocassins brancos; por fim, a moça ficara imóvel, ao seu lado, no meio da
algazarra da meia-noite característica de um salão de pachinko e pegara-lhe
na mão como uma criança.
Foi preciso um mês para que o regime de droga e tensão em que se
movimentava transformasse esses olhos, perpetuamente espantados, num
jogo de necessidade reflexiva. Observara a sua personalidade fender-se,
como um iceberg, largando os fragmentos à deriva, até que finalmente
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percebeu a crua necessidade, a armadura esfomeada do vício. Observara-a
quando ela vivia a expectativa da próxima dose com uma concentração tal
que lhe fazia lembrar um louva-a-deus como os que eram vendidos nas
barracas do Shiga, ao lado dos tanques de carpas azuis, mutantes, e grilos em
gaiolas de bambu.
Fixou o anel escuro que a borra deixara na xícara vazia, que vibrava à
velocidade da droga que ingerira. O laminado castanho do tampo da mesa
era opaco, com uma patina de estanho rabiscado. Enquanto a dextrina subia
pela sua coluna, considerou quantos impactos por acaso teriam sido
necessários para criar uma superfície como essa. A decoração do Jorre
caracterizava-se por um estilo perfeitamente datado, do século anterior, mas
anônimo: uma incômoda mistura de plástico japonês tradicional e milanês
pálido; tudo parecia estar revestido por uma película sutil, como se os nervos
desarranjados de um milhão de clientes houvessem, de algum modo, atacado
os espelhos e os plásticos, outrora brilhantes, deixando todas as superfícies
escurecidas por algo que nunca mais poderia ser lavado ou extraído.
— Olá, Case...
Case olhou para cima e encontrou os olhos cinzentos ornados de rimei; a
garota tinha as pálpebras cobertas com um tipo de sombra francesa,
desbotada, e calçava tênis brancos, novos.
— Tenho andado a sua procura, cara. — Ela ocupou o lugar na sua frente
e apoiou os cotovelos na mesa. As mangas do macacão azul que vestia
haviam sido arrancadas; automaticamente Case examinou-lhe os braços para
ver se descobria vestígios de agulha. — Quer um cigarro?
Tirou um pacote amassado de cigarros Yeheyuan com filtro e estendeulhe. Case aceitou-o e deixou que ela o acendesse com um isqueiro vermelho.
— Anda dormindo bem, Case? Tem um ar cansado.
A pronúncia situava-se ao sul do Sprawl, para os lados de Atlanta. A
pele debaixo dos olhos era pálida e tinha um aspecto pouco saudável, mas a
carne apresentava-se ainda macia e firme. Tinha 20 anos. Alguns traços de
dor, recentes, começavam a marcar sua pele junto aos cantos da boca. Usava
o cabelo escuro puxado para trás, preso por uma fita de seda estampada. O
desenho tanto podia representar microcircuitos como um mapa de cidade.
— Se me lembrar de tomar as minhas pílulas, com certeza que não —
disse ele, ao mesmo tempo que uma onda física de necessidade o atingia, o
desejo, a solidão circulando no comprimento de onda da anfetamina.
Lembrou-se do cheiro da sua pele na escuridão superaquecida de uma
urna junto do porto e dos dedos dela entrelaçados, descrevendo um círculo
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por cima das suas costas.
Apenas a carne, pensou, e as suas necessidades.
— O Wage — disse a garota — quer te ver com um buraco na cara.
Acendeu o cigarro.
— Quem é que diz isso? O Ratz? Andou falando com o Ratz?
— Não. Foi a Mona. O novo gigolô dela é um dos rapazes do Wage.
— Eu não devo tanto a ele que justifique isso. De qualquer modo, se ele
me liquida aí é que não recebe mesmo a grana.
Case encolheu os ombros.
— Agora, há muita gente devendo dinheiro pra ele, Case. Talvez você
sirva de exemplo. É melhor tomar cuidado.
— Claro. E você, Linda, tem onde dormir?
— Dormir? — sacudiu a cabeça. — Claro que tenho, Case. Estremeceu,
ao mesmo tempo que se inclinava sobre a mesa. Tinha o rosto coberto por
uma película de suor.
— Tome — disse Case.
E, metendo a mão no bolso do blusão, tirou dela uma nota amarrotada de
cinqüenta. Automaticamente, alisou-a debaixo da mesa, dobrou-a em quatro
e passou-lhe.
— Vai lhe fazer falta, amor. É melhor dá-la ao Wage.
Havia algo nos olhos da garota que ele não conseguia ler, algo que nunca
tinha visto antes.
— Devo ao Wage muito mais do que isso. Fique com ela. Estou prestes a
receber mais dinheiro — mentiu ele, enquanto observava os seus ienes novos
desaparecerem na bolsa de zíper.
— Veja lá se recebe esse dinheiro, Case. Tenta encontrar o Wage o mais
depressa possível.
— Até à próxima, Linda;— disse, e levantou-se.
— Está bem. — Uma zona milimétrica de cor branca surgiu sob cada
uma das pupilas da garota. Sanpaku. — Não se esqueça de olhar pra trás,
cara.
Case disse que sim com a cabeça, ansioso para andar.
Olhou para trás, quando a porta de plástico se fechou atrás de si, e
reparou nos olhos da moça refletidos numa gaiola de néon vermelho.
Era uma sexta-feira à noite no Ninsei.
Passou pelas barracas de yakitori e salões de massagem, por um café, de
nome Beautijul Girl, pelo ribombar eletrônico de um salão de jogos.
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Afastou-se, para dar passagem a um sarariman vestido de preto, e reparou
no logotipo da Mitsubishi-Genentech tatuado nas costas da mão direita do
homem.
Seria autêntico? Se fosse, pensou, o homem teria confusão pela frente; se
não fosse, era bem-feito. Costumava-se aplicar aos empregados da M-G,
acima de certo nível, microprocessadores avançados que monitoravam os
níveis de mutagenes na circulação sangüínea. Aparelhagem desse tipo
constituía uma tentação para muita gente em Night City que, eventualmente,
estaria disposta a fazer tudo para que o seu possuidor fosse parar,
discretamente, em uma clínica clandestina.
O sarariman era japonês, mas a multidão do Ninsei era uma multidão
gaijin: grupos de marinheiros recém-saídos do porto, turistas solitários e
nervosos à caça de prazeres não incluídos em nenhum guia, figurões do
Sprawl exibindo transplantes e aplicações, e uma dúzia de espécies distintas
de oportunistas, todos enxameando a rua, num complexo bailado de desejo e
comércio.
Havia inúmeras teorias que explicavam por que Chiba City tolerava o
enclave do Ninsei, mas Case achava que a Yakuza era capaz de preservar o
local como uma espécie de parque histórico — uma lembrança das origens
humildes. Contudo, não deixava igualmente de haver uma certa lógica na
idéia de que as tecnologias em expansão necessitavam de zonas fora da lei;
portanto, Night City não existiria por causa dos seus habitantes, mas como
um campo de atuação, deliberadamente não-supervisionado, para a própria
tecnologia.
Linda teria razão? Perguntou-se olhando fixamente as luzes. Wage o
mataria apenas para dar um exemplo? Não havia muita lógica nisso, mas a
verdade é que Wage negociava principalmente com produtos biológicos
proscritos e as pessoas diziam que era preciso um cara ser muito doido para
se dedicar a isso.
Mas Linda dissera que Wage queria vê-lo morto. A intuição primária,
que Case normalmente tinha para negócios de rua, dizia-lhe que, na
realidade, nem o comprador nem o vendedor necessitavam dele. O negócio
de um intermediário é tomar-se um mal necessário. O nicho duvidoso que
Case esculpira para si na ecologia criminal de Night City havia sido
esculpido com mentiras, escavado, pelo menos uma vez em cada noite, por
meio de traição. Agora, ao pressentir que as paredes começavam a ruir,
sentiu o fio cortante de uma estranha euforia.
Na semana anterior, atrasara a transferência de um extrato glandular
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sintético, conseguindo com isso comercializá-lo a retalho, com uma margem
de lucro mais ampla do que era habitual. Sabia bem que Wage não tinha
gostado. Este era o seu principal fornecedor; estava há nove anos em Chiba e
era um dos poucos negociantes que conseguira forjar ligações com o
establishment criminal, rigidamente estratificado, além das fronteiras de
Night City. Materiais genéticos e hormonais chegavam ao Ninsei por
caminhos intrincados, ao longo de uma cadeia complexa de fachadas e
coberturas. Wage conseguira, uma vez, por um processo qualquer, conhecer
o percurso no sentido inverso e agora gozava de contatos firmes em uma
dúzia de cidades.
Case estava então examinando com atenção uma vitrine. A loja vendia
pequenos objetos brilhantes aos marinheiros. Relógios, navalhas de mola,
isqueiros, gravadores de vídeo portáteis, conjuntos simstim, pesadas
pulseiras manriki e shuriken. Sempre se sentira fascinado pelos shuriken,
estrelas de aço com pontas aguçadas como facas. Alguns eram cromados,
outros pretos, outros ainda apresentavam uma superfície multicolorida como
óleo em água. O que mais o atraía, entretanto, eram as estrelas cromadas.
Estavam cravadas num fundo vermelho de camurça por meio de espirais
quase invisíveis de linha de pesca de nylon, com os centros estampados com
dragões ou símbolos de yin yang. O néon da rua iluminava-os e o seu reflexo
torcia a luz, de tal modo que ocorreu a Case serem essas as estrelas sob as
quais viajava — o seu destino encontrava-se soletrado numa constelação de
cromo barato.
— Julie — disse às estrelas. — É hora de visitar o velho Julie. Ele
saberá.
Julius Deane tinha 135 anos, conseguidos à custa da manutenção de um
metabolismo continuamente forçado, traduzida no dispêndio de fortunas
semanais em soros e hormônios. A primeira barreira vencida na luta contra o
envelhecimento ocorrera durante uma peregrinação anual a Tóquio, onde
cirurgiões genéticos haviam reprogramado o seu ADN — um procedimento
não-existente em Chiba. Em seguida, voara até Hong Kong para encomendar
um fornecimento de camisas e temos para um ano. Assexuado e de uma
paciência extrema, sua grande satisfação e alegria pareciam residir em uma
adoração pelas formas esotéricas das roupas.
Case nunca o tinha visto duas vezes com ó mesmo temo, embora o seu
guarda-roupa desse a idéia de ser unicamente constituído por meticulosas
reconstruções de vestuário do século passado. Exibia lentes prescritas por
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oftalmologista, montadas em aro de ouro rendilhado, polidas a partir de
placas finas de quartzo sintético e cortadas como os espelhos de uma casa de
bonecas vitoriana.
O escritório ficava num armazém atrás do Ninsei, parte do qual parecia
ter sido decorado de uma maneira dispersa, anos atrás, com uma coleção,
escolhida ao acaso, de mobiliário europeu, como se Deane tivesse alguma
vez pensado em usar o local como a sua casa. Encostadas em uma parede da
sala, onde Case aguardava, algumas estantes neo-astecas apanhavam pó. Um
par de lâmpadas debruçava-se desajeitadamente sobre uma mesinha de café
baixa, de aspecto Kandinsky, feita de aço laçado em vermelho. Um relógio,
estilo Dali, pendia da parede entre as estantes, com a face distorcida
afundando-se na direção do chão de cimento. Os ponteiros eram hologramas
que, à medida que rodavam, se alteravam para estar de acordo com a face;
porém, nunca dava a hora correta. A sala estava cheia de módulos de fibra de
vidro branco de navio que exalavam um odor de gengibre em conserva.
— Parece que não há problema com você, filho — disse a voz
descorporizada de Deane. — Entre, entre.
A porta maciça, uma imitação de pau-rosa, situada à esquerda das
estantes, moveu-se pela ação de ferrolhos magnéticos. Sobre o plástico, uma
indicação, JULIUS DEANE IMPORT EXPORT, encontrava-se inscrita com
maiúsculas auto-adesivas. Se o mobiliário, disperso pelo falso hall, sugeria o
fim do século passado, o escritório, por outro lado, parecia pertencer ao seu
início.
A face rosada de Deane, inteiramente livre de quaisquer cicatrizes, olhou
para Case de um foco de luz produzido por um candeeiro antigo de latão,
equipado com uma cúpula retangular de vidro verde-escuro. O importador
encontrava-se barricado atrás de uma grande escrivaninha de aço verde,
flanqueado de ambos os lados por altos armários de gavetas, feitos de uma
espécie de madeira clara. O gênero de móvel, supôs Case, que havia outrora
servido para arquivar registros de qualquer coisa. O tampo da escrivaninha
estava entulhado de cassetes, de rolos de papel de impressora amarelados e
algumas peças de uma espécie de máquina de escrever de corda, uma
máquina que, assim parecia, Deane nunca havia conseguido tornar a montar.
— O que é que o traz por aqui, rapaz? — perguntou Deane, oferecendolhe um caramelo pequeno embrulhado em papel de quadrados azuis e
brancos. — Prove um. São Ting Ting Djah, os melhores.
Case recusou o gengibre, sentou-se numa cadeira giratória de madeira e
passou o polegar pela costura puída de uma perna de seu jeans pretos.
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— Julie, ouvi dizer que o Wage quer me liquidar.
— Ah, muito bem. E onde é que ouviu dizer isso, se não sou indiscreto?
— De pessoas.
— Pessoas? — perguntou Deane, ao mesmo tempo que atacava um
caramelo de gengibre. — Que tipo de pessoas? Amigos?
Case fez que sim com a cabeça.
— Não é assim tão fácil saber sempre quais são os nossos amigos, não é
verdade?
— Devo-lhe algum dinheiro, Deane. Ele comentou alguma coisa com
você?
— Não tenho estado em contato com ele ultimamente. — Dito isso,
suspirou. — Se eu soubesse, de fato, claro que podia não estar em situação
de lhe dizer. As coisas são como são, você compreende.
— As coisas?
— Ele é um contato importante, Case.
— Claro. Ele quer mesmo me matar, Julie?
— Não que eu saiba. — Deane encolheu os ombros. Podiam muito bem
estar discutindo o preço do gengibre. — Se chegarmos à conclusão de que se
trata de um boato falso, volte daqui a uma semana e vou lhe arranjar
qualquer coisa em Singapura.
— No Hotel Nan Hai, na rua Bencoolen ?
— Filho, você tem língua nervosa...
Deane sorriu. A escrivaninha de aço estava carregada com uma fortuna
em equipamento de escuta.
— Até a próxima, Julie. Irei cumprimentar o Wage.
Deane levou os dedos até o pescoço para sacudir o pó no nó perfeito da
gravata de seda clara.
Ainda não estava a uma quadra do escritório de Deane quando uma
sensação o atingiu: uma súbita consciência celular de que alguém o
perseguia e muito de perto.
O cultivo de uma certa paranóia domesticada era algo com que Case
sempre contara. O truque consistia em não a deixar fugir ao controle. Mas
isso podia ser um beco sem saída com vários octógonos ingeridos.
Lutou contra a subida de adrenalina e deu às feições estreitas o ar de uma
máscara de lazer aborrecido, enquanto andava como se fosse levado pela
multidão. Quando ia passar por uma vitrine escura, parou.
A loja era uma butique cirúrgica, fechada para reformas. Com as mãos
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nos bolsos, ficou olhando para um losango achatado de carne de cultura,
exposta sobre um pedestal esculpido em imitação de jade. A cor da pele o
fazia lembrar as prostitutas do Zone; tinha uma tatuagem do feitio de um
mostrador digital, ligada a um microprocessador subcutâneo.
Por que se incomodar com cirurgia, ficou pensando, enquanto o suor
escorria pelas suas costelas, quando era possível trazer a coisa dentro do
bolso?
Sem se mexer, ergueu o olhar e examinou o reflexo da multidão que
passava.
Lá.
Atrás dos marinheiros que vestiam caquis de mangas curtas. Cabelo
escuro, óculos espelhados, roupa escura, elegante...
E, de repente, não mais ao alcance da vista.
Case começou a correr, encurvado para a frente e para baixo, desviando
dos corpos com que cruzava.
— Me aluga uma arma, Shin?
O rapaz sorriu.
— Daqui a duas horas. — Os dois estavam no fundo de uma barraca de
sushi, em Shiga, no meio do cheiro de marisco fresco e cru. — Volte daqui a
duas horas, cara.
— Preciso de uma agora. Não tem nada pra já?
Shin vasculhou por trás de algumas latas que estavam cheias de rábano
em pó. Tirou um pacote estreito, embrulhado em um plástico cinza.
— Taser. Uma hora, vinte ienes novos, trinta de depósito.
— Merda! Não é nada disso. Eu preciso de uma arma. Como se eu
tivesse que atirar em alguém, sacou ?
O garçom encolheu os ombros e tornou a colocar o pacote atrás das latas
de rábano.
— Daqui a duas horas.
Entrou pela loja adentro sem se preocupar em olhar para o mostruário de
shuriken; aliás, ele nunca havia arremessado nenhum na sua vida.
Comprou dois pacotes de Yeheyuans, utilizando um cartão
microintegrado que lhe dava o nome de Charles Derek May. Sempre era
preferível a Truman Starr, o melhor que havia conseguido para um
passaporte.
A mulher japonesa, atrás do terminal, parecia ter alguns anos mais do
18

que Deane, mas qualquer deles sem o benefício da ciência. Case tirou do
bolso um rolo já magro de ienes novos e mostrou-o.
— Quero comprar uma arma.
A mulher apontou para uma caixa cheia de navalhas.
— Não — disse Case. — Não gosto de navalhas.
Ela tirou então uma caixa oval que estava debaixo do balcão. Tinha uma
tampa de cartão amarelo, com a imagem estampada, tosca, de uma cobra em
espiral com um capuz. Dentro havia oito cilindros idênticos, envolvidos em
papel fino. Case observou os dedos castanhos sarapintados desembrulhando
um. A japonesa o ergueu para que ele pudesse examinar melhor: tratava-se
de um tubo de aço sem brilho com uma correia de cabedal numa
extremidade e uma pequena pirâmide de bronze na outra; em seguida,
agarrou o tubo com uma das mãos e, ao mesmo tempo que mantinha a
pirâmide entre o polegar e o indicador da outra mão, puxou-o para fora. Três
segmentos telescópicos de mola helicoidal, devidamente lubrificados,
deslizaram então para fora do tubo e ficaram bloqueados.
— Cobra — disse a mulher.
Do outro lado do estremecimento do néon do Ninsei, o céu apresentavase com uma tonalidade cinzenta opaca. O ar havia mudado para pior; parecia
ter dentes e metade das pessoas usava máscaras com filtro. Case demorara
dez minutos num banheiro, tentando descobrir um processo conveniente de
esconder a Cobra; finalmente optou por enfiá-la no cós do jeans, ficando o
tubo em posição oblíqua de encontro ao estômago. A ponta em forma de
pirâmide viajava entre as costelas e o forro do blusão: dava a idéia de que ia
cair no chão a qualquer momento. Entretanto, sentiu-se melhor assim.
O Chat não era, de fato, um bar de negócios, mas, mesmo assim,
conseguia atrair, durante as noites da semana, uma clientela de algum modo
integrada ao meio. Nas sextas-feiras e sábados, porém tudo se passava de
maneira diferente: os clientes habituais ainda se encontravam lá, pelo menos
a maioria, mas ficavam sumidos por trás de um afluxo de marinheiros e dos
especialistas que vinham na sua caça.
Quando Case entrou, empurrando as meias portas, procurou Ratz com
um olhar, mas o barman não estava visível. Lonny Zone, o gigolô da casa,
observava com olhar e interesse vítreos, numa atitude paternal, uma das suas
garotas que começara a trabalhar um marinheiro jovem. Zone era viciado
num tipo de hipnótico que os japoneses chamavam de "Bailarinos nas
Nuvens".
19

Quando Case conseguiu captar a atenção de Zone, fez um sinal para que
se juntasse a ele.
Zone foi para onde Case estava, caminhando como se vagueasse ao
acaso pelo meio das pessoas e exibindo uma expressão plácida e cansada.
— Viu o Wage esta noite, Lonny?
Zone olhou-o com a sua calma habitual. Fez que não com a cabeça.
— Tem certeza?
— Pode ser que o tenha visto no Namban. Talvez há duas horas.
— Estava com dois caras? Um deles era magro, de cabelo escuro, talvez
com um casaco escuro?
— Não — disse finalmente Zone, exibindo a fronte habitualmente lisa,
cheia de rugas, sugerindo o esforço que estava fazendo para se lembrar de
tantos pormenores insignificantes. — Caras importantes. Politiqueiros. — Os
olhos de Zone mostravam muito pouco do branco e muito menos de íris;
tinha as pupilas dilatadas e enormes. Encarou Case durante um tempo e, em
seguida, baixou o olhar. Foi então que notou o volume que o chicote de aço
fazia. — Está querendo pegar alguém?
— Adeusinho, Lonny. Case abandonou o bar.
Quem o perseguia, regressara. Tinha certeza Sentiu uma espécie de
excitação como se fosse atingido por uma facada; octógonos e adrenalina
misturavam-se com algo mais. — Está curtindo isso, pensou, você é pirado.
Talvez porque, através de um processo estranho, mas muito aproximado,
aquilo era como uma operação na matriz. O desgaste suficiente, o tipo de
confusão, desesperada, estranhamente arbitrária, tudo isso era suficiente para
conseguir ver o Ninsei como se fosse um campo de dados, como acontecera
uma vez, quando a matriz o fizera parecer proteínas operando para distinguir
diferentes tipos de células. Então, uma pessoa podia deixar-se cair, num
ziguezague deslizante, em alta velocidade, absolutamente envolvido, mas, ao
mesmo tempo, fora de tudo; e, em todo o lado, a dança da transação, a
informação interagindo, os dados feito carne nos labirintos do mercado
negro.
Vá a eles, disse Case a si mesmo, engane-os; é a última coisa que eles
esperam. Estava a meia quadra do salão de jogos onde vira Linda Lee pela
primeira vez.
Partiu disparado através do Ninsei, destroçando um grupo de marinheiros
que transitava calmamente. Um deles gritou-lhe qualquer coisa em
português. Num minuto já estava transpondo a entrada; o som desabava
20

sobre si como se fosse a espuma de uma enorme onda; sons subsônicos
pulsavam na boca do seu estômago. Alguém conseguiu acertar uma bomba
de dez megatoneladas, na Guerra dos Tanques; uma explosão simulada
inundou o salão de som branco, enquanto uma bola de fogo, fantástica, com
a forma de um holograma, construía um cogumelo na parte superior do
salão.
Virou velozmente e subiu um lance de degraus de madeira não-pintada.
Já tinha vindo aqui uma vez com o Wage para discutir um negócio com um
tipo chamado Matsuga. Lembrava-se do hall, do carpete manchado e da
fileira de portas que davam acesso a outros tantos escritórios, pequenos
como cubículos. Havia uma porta aberta. Uma moça japonesa que vestia
uma camiseta preta, sem mangas, olhou-o sobre o terminal branco; atrás
pendia um pôster figurando a Grécia, com o azul do Egeu salpicado por
ideogramas bem desenhados.
— Mande chamar a segurança — disse-lhe Case.
Em seguida, disparou pelo corredor para fora da vista dela. As duas
últimas portas estavam fechadas e, presumiu, trancadas. Deu então um chute
violento, com a sola de um dos sapatos, na última porta revestida de laça
azul. Ouviu-se um estouro e algumas peças de quinquilharia barata caíram
da porta fendida. Estava escuro lá dentro; apenas a sugestão da curva branca
de uma sala de terminal de computador. Com rapidez, ficou junto à porta da
direita; agarrou então um puxador transparente de plástico, ao mesmo tempo
que exercia nele toda a pressão de que era capaz. Algo estalou, e num
instante estava lá dentro.
Havia sido aí que ele e Wage tinham se encontrado com o Matsuga, mas,
independente da companhia em que este operava, fazia muito tempo que ela
desaparecera. Já não havia terminal nenhum, nem nada; apenas a luz que
vinha do beco por trás do salão, filtrada pelo plástico coberto de fuligem.
Conseguiu distinguir uma espiral de fibras ópticas, que saía de uma tomada
na parede, uma pilha de caixas de comida, abandonadas, e um ventilador
sem pás. A janela tinha uma única almofada de plástico barato.
Case tirou o blusão e com ele fez uma espécie de ligadura na mão direita
e bateu. A janela estalou, mas foram necessárias mais duas pancadas para
soltar a almofada da moldura. Por cima do caos abafado dos jogos,
começou-se a ouvir o som intermitente de um alarme que fora disparado, ou
pela janela quebrada, ou pela moça do começo do corredor.
Ele voltou-se, vestiu o blusão, esticou a cobra até o máximo de extensão.
Com a porta fechada, contava que o seu perseguidor pensasse que ele
21

tinha seguido pela outra porta, a que ele quase fizera soltar -se
completamente dos gonzos. A pirâmide de bronze da cobra começou a
oscilar com suavidade; a haste de mola de aço amplificava a pulsação.
Nada aconteceu; havia apenas a agitação do alarme, as explosões dos
jogos e o seu coração martelando. Quando o medo apareceu, foi um amigo
meio esquecido. Não era o mecanismo rápido e frio da paranóia causada pela
dextrina, apenas simples medo animal. Havia vivido tanto tempo em
permanente ansiedade que quase esquecera o que era o verdadeiro medo.
O cubículo era o tipo de lugar onde as pessoas morriam. Podia morrer aí.
Eles podiam estar armados...
Um ruído de pancada no outro extremo do corredor. Uma voz de homem
berrando qualquer coisa em japonês. Um grito agudo de terror e novamente
um outro ruído de pancada.
E sons de passos, pouco apressados, que se aproximavam.
Passando pela porta fechada; passando durante o tempo de três rápidas
batidas do coração; e voltando. Um, dois, três. Sentiu um salto de bota
raspando o chão.
Deu-se então o colapso da coragem induzida pelo último octógono
tomado. Recolheu a cobra no punho e voou para a janela. Passou por ela,
pulou para o outro lado e caiu, antes que tivesse consciência do que estava
fazendo. O choque com o solo provocou ondas de dor nos tornozelos.
Um jato estreito de luz, vindo de uma portinhola de serviço meio aberta,
iluminava uma pilha de fibras ópticas jogadas fora e um console avariado.
Caíra de cara sobre uma placa de circuitos; rolou sobre si mesmo em direção
à sombra que o console projetava. A janela do cubículo surgia como um
quadrado de luz fraca. O alarme continuava ressoando, mais forte nesse
local, contudo, a parede traseira abafava o troar dos jogos.
Uma cabeça surgiu, emoldurada pela janela e em contraluz em relação às
lâmpadas fluorescentes do corredor. Em seguida, desapareceu para regressar
quase imediatamente; não lhe era possível, porém, perceber as feições:
apenas o brilho de prata faiscando nos olhos.
— Merda! — disse alguém com voz de mulher e pronúncia do Sprawl
setentrional.
A cabeça desapareceu de novo. Case permaneceu deitado sob o console
durante uma longa contagem até 20, e depois se levantou. Empunhava ainda
a cobra de aço, e foram necessários alguns segundos para ter consciência do
que acontecia. Hesitante, coxeou pelo beco abaixo, tomando todo o cuidado
com tornozelo esquerdo.
22

A pistola do Shin era uma imitação vietnamita, com uns bons vinte e
cinco anos, da cópia sul-americana de uma Walther PPK, de ação dupla ao
primeiro tiro e recuo bastante violento. Fora calibrada para projéteis de 22,
mas Case teria preferido explosivos de nitrochumbo às setas chinesas, ocas,
que Shin lhe vendera. Contudo, sempre era uma arma de tiro e mais nove
cargas de munições; por isso, enquanto percorria as ruas, Shiga abaixo,
depois de ter largado a barraca de sushi, ficou acariciando-a dentro do bolso
d o blusão. Os lados da coronha eram de plástico vermelho brilhante,
modelados na forma de um dragão em pé, algo que convidava a passar o
polegar em cima. No Ninsei, havia jogado fora a cobra, dentro de um
container de lixo, e engolido mais um octógono.
A pílula ativou seus circuitos; acompanhou o trânsito, na direção do
Ninsei e, em seguida, virou para o Baiitsu. Chegou então à conclusão que o
seu perseguidor o havia abandonado, isso o fez pensar que as coisas estavam
melhorando. Tinha chamadas para fazer, negócios para fechar: coisas que
não podiam esperar.
Após percorrer uma quadra, já no Baiitsu, ao lado do porto, deparou-se
com um edifício de dez andares, revestido de tijolo amarelo e de aspecto
pouco recomendável. Nessa hora, as janelas estavam fechadas, mas a quem
se desse o trabalho de esticar o pescoço era possível perceber um clarão
fraco no telhado. Um letreiro de néon, apagado, continha uma inscrição,
Hotel Econômico, cheio de ideogramas.
O acesso era feito através de um beco fora do centro do Baiitsu; aí, um
elevador aguardava na base de uma coluna transparente. Este, tal como o
Hotel Econômico, era uma extensão, fixado contra o edifício por meio de
bambus e resina sintética. Case subiu para a gaiola de plástico e utilizou a
sua chave: um dispositivo de fita magnética rígida, sem quaisquer marcas.
Tinha alugado aí uma urna, por semana, desde que chegara à Chiba:
porém, jamais dormira no Econômico, pois normalmente dormia em lugares
mais ordinários ainda.
O elevador cheirava a perfumes e cigarros; as paredes da gaiola
encontravam-se riscadas e cheias de marcas de dedos. Quando passava pelo
quinto andar, teve oportunidade de observar as luzes do Ninsei. Tamborilou
os dedos na coronha da pistola ao mesmo tempo que a gaiola afrouxava com
um silvo gradual. Como sempre, a parada provocava um safanão violento,
mas Case já estava preparado para ele. Saiu para o hall que servia o local:
uma combinação de sala de espera e gramado.
23

No centro de um tapete quadrado de grama plástica verde, estava um
jovem japonês atrás de um console em C, que lia um livro. As umas brancas,
de fibra de vidro, distribuíam-se por uma estrutura com a forma de andaime:
seis fileiras de urnas, mais dez laterais.
Case fez um aceno de cabeça na direção do rapaz, mancando pela relva
plástica até a escada mais próxima. O complexo tinha um telhado de material
laminado plástico, através do qual soprava um vento forte; quando chovia, o
telhado deixava passar água; contudo, era bastante difícil abrir as umas sem
chave.
A grelha, que constituía o pavimento do passeio de acesso, vibrava com
o seu peso, enquanto avançava pela terceira fila até o número 92. As urnas
tinham três metros de comprimento com portinholas ovais de um metro de
largura, a altura era um pouco menos de um metro e meio. Introduziu a
chave na ranhura e aguardou que a verificação fosse efetuada pelo
computador do hotel. Os ferrolhos magnéticos deslizaram suavemente e a
portinhola levantou-se com um pequeno ruído de molas. Entrou rastejando,
enquanto as luzes fluorescentes cintilavam. Fechou então a portinhola e, com
uma pancada no painel de comando, ativou o fecho manual.
Com exceção de um vulgar computador portátil Hitachi e de uma geleira
de isopor, não se encontrava mais nada no número 92. A geleira continha
apenas os restos de três placas de dez quilos de gelo seco, cuidadosamente
embrulhadas em papel para evitar a evaporação, e um frasco de laboratório,
rodeado de alumínio.
Agachando-se sobre a placa que servia simultaneamente de chão e de
cama, Case tirou a pistola do Shin do bolso e colocou-a em cima da geleira.
Em seguida, tirou o blusão. O terminal de serviço na uma estava instalado na
parede, no lado oposto de um painel que listava o regulamento da casa em
sete línguas. Tirou o telefone rosado do descanso e extraiu-lhe da memória
um número de Hong Kong; deixou que tocasse cinco vezes e desligou. O
comprador para os três megabytes de RAM pirata que se encontrava no
Hitachi não respondeu à chamada.
Digitou então um número de Shinjuku, em Tóquio.
Uma mulher respondeu qualquer coisa em japonês.
— O Homem Serpente está?
— Folgo muito em ouvi-lo — disse o Homem Serpente, falando por uma
extensão. — Tenho estado à espera da sua chamada.
— Tenho a música que o senhor queria — informou, dando uma olhada
para a geleira.
24

— Ótimo. Só que agora estamos com um problema de dinheiro
disponível. Você pode esperar?
— Grana, cara. Preciso demais do dinheiro... O Homem Serpente
desligou.
— Filho da puta! — disse Case para o telefone que zunia, e olhou a
pequena pistola barata.
— Dramático — disse. — A coisa tá dramática esta noite.
Case entrou pelo Chat adentro, uma hora antes de amanhecer, com as
mãos metidas nos bolsos do blusão; uma delas segurava a pistola alugada, a
outra, o frasco de alumínio.
Ratz estava numa mesa dos fundos bebendo água Appolinaris em um
caneco de cerveja; os seus cento e vinte quilos de carne pastosa sentavam-se,
apoiados contra a parede, numa cadeira que estalava. De serviço no bar,
estava um moço brasileiro, de nome Kurt: atendia um pequeno grupo
constituído, na sua maioria, por bêbados silenciosos. O braço plástico de
Ratz produzia um som de besouro quando levantava a caneca para beber.
Uma camada de suor cobria sua cabeça rapada.
— Está com mau aspecto, amigo artista — disse, faiscando os dentes
úmidos e deteriorados.
— Estou excelente — respondeu Case, arreganhando os dentes como
uma caveira. — Superlegal.
Deixou-se cair na cadeira de frente ao Ratz, continuando a manter as
mãos nos bolsos.
— Claro. Andando de um lado para o outro nesse abrigo portátil de
drogas e copos. Uma proteção contra emoções maiores, não é?
— Larga do meu pé, Ratz. Viu o Wage?
— Proteção contra o medo e a solidão — prosseguiu o barman. — Dê
ouvido ao medo, Case. Olhe que o medo é seu amigo.
— Ouviu alguma coisa sobre uma briga num salão de jogos esta noite?
Sabe se houve alguém ferido?
— Parece que algum pirado cortou um segurança. — Encolheu os
ombros. — Dizem que foi uma moça.
— Tenho de falar com o Wage, Ratz, eu...
— Ah... — A boca de Ratz estreitou-se, comprimida numa linha única.
Olhou para trás de Case, na direção da entrada.
— Acho que está quase falando com ele...
A imagem do shuriken na vitrine passou pela mente de Case como uma
25

visão rápida. A pistola que tinha na mão ficou escorregadia com o suor.
— Herr Wage! — disse Ratz, estendendo lentamente o manipulador corde-rosa como se esperasse que o apertassem. — Que prazer! São tão poucas
vezes que temos a honra...
Case voltou a cabeça e encarou Wage: era uma máscara queimada pelo
sol. Os olhos eram transplantes Nikon, de cultura, verde-marinhos. Vestia
um terno de seda cor de bronze metalizado, escuro, e usava em cada um dos
pulsos uma pulseira singela de platina. Encontrava-se flanqueado pelos
guarda-costas, dois jovens quase idênticos, de braços e ombros inchados por
músculos enxertados.
— Como é que vai, Case?
— Cavalheiros! — disse Ratz, pegando com a garra plástica cor-de-rosa
o cinzeiro cheio que estava sobre a mesa. — Não quero barulho aqui. — O
cinzeiro era de plástico espesso, inquebrável e tinha uma propaganda da
cerveja Tsingtao. Ratz esmagou-o com lentidão, provocando uma cascata de
pedaços de plástico verde sobre o tampo da mesa. — Sacaram?
— Escuta aqui, doçura — disse um dos gorilas —, quer experimentar
isso comigo?
— Não precisa mirar as pernas, Kurt — disse Ratz, em tom de conversa.
Case olhou para o fundo do bar e reparou no moço brasileiro que se tinha
posto de pé, junto ao balcão, com uma espingarda de canos curtos, Smith &
Wesson , apontada para o trio. O cano da coisa, feito de uma liga fina como
papel, envolvido por um quilômet r o d e f i l a m e n t o d e v i d r o , e r a
suficientemente largo para engolir um punho. O carregador, em forma de
armação esquelética, exibia cinco cartuchos grossos, cor de laranja,
subsônicos de sacos de areia.
— Tecnicamente não-letais — informou Ratz.
— Obrigado, Ratz — disse Case. — Devo-lhe uma.
— Não me deve nada. Estes aqui — e olhou com uma certa animação
para Wage e os capangas — é que já deviam saber como é. Ninguém faz
nada a ninguém no Chatsubo.
Wage tossiu.
— Quem é que está querendo fazer alguma coisa a alguém? Só queremos
falar de negócios. Case e eu, nós trabalhamos juntos.
Case sacou a 22 do bolso e colocou na altura da barriga de Wage.
— Ouvi dizer que anda com a intenção de me liquidar.
A garra cor-de-rosa de Ratz fechou-se em volta da pistola de tal maneira
que Case teve de abrir a mão.
26

— Olhe aí, Case, que caralho é que se passa com você? Está pirado ou o
quê? Que conversa de merda é essa, que eu estou tentando te matar? —
Wage virou-se para o rapaz a sua esquerda. — Vocês dois voltem para o
Namban e esperem lá por mim.
Case seguiu atentamente os dois, enquanto atravessavam o bar, que já se
encontrava totalmente deserto, à exceção de Kurt e de um marinheiro bêbado
aninhado no chão, junto à base de um dos bancos do bar. O cano da Smith &
Wesson acompanhou o percurso dos dois até a porta, e depois voltou a cobrir
Wage. O carregador da pistola de Case rolou com ruído sobre a mesa. Ratz
manteve a pistola na garra e empurrou o projétil para fora da câmara.
— Quem é que disse que eu ia matar você, Case? — perguntou Wage.
— Linda.
— Quem é que disse isso, cara? Alguém por aí anda tentando enroscá-lo,
ou quê?
O marinheiro grunhiu qualquer coisa e vomitou com enorme barulho.
— Leve-o daqui para fora — gritou Ratz para Kurt, que estava sentado
sobre a borda do balcão, com a Smith & Wesson atravessada nas pernas e
acendendo um cigarro.
Case sentiu o peso da noite caindo-lhe em cima como se fosse um saco
de areia molhada ajeitando-se atrás dos olhos. Tirou o frasco do bolso e
ofereceu-o a Wage.
— Tudo o que eu tenho. Pituitárias. Rendem cem se você se mexer
depressa. Tinha o resto numa RAM, mas desapareceu.
— Sente-se bem, Case? — O frasco já sumira por trás de uma lapela cor
de bronze metalizado. — Fica claro que isto assim está bem, ajusta por hora
as nossas contas. Mas você está com mau aspecto. Parece merda prensada.
Seria bom se fosse pra um lado qualquer e dormisse.
— Claro. — Case levantou-se e sentiu que o Chat oscilava a sua volta.
— Bem, eu ainda tinha cinqüenta, mas dei pra uma pessoa.
Deu uma risada. Apanhou o carregador da 22 e o cartucho solto e
deixou-os cair no bolso.
— Tenho que ver o Shin, pra reaver o meu depósito.
— Vá pra casa — disse Ratz com um certo ar de embaraço, girando na
cadeira que estalava — vá pra casa, artista.
Sentiu o olhar de ambos seguindo-o quando atravessava o salão e abria
caminho através das portas plásticas.
— Puta — disse para o tom rosado por cima de Shiga.
27

Lá embaixo, o Ninsei, os hologramas desapareciam como fantasmas e a
maior parte das luzes de néon já estava morta e fria. Tomou por um tubo de
plástico um pouco de café expresso num vendedor ambulante e prestou
atenção ao Sol, que nascia.
— Ponha-se a quilômetros, querida. Cidades como esta são pra gente que
gosta do percurso descendente.
Mas não era realmente isso que estava em questão e começava a ser
difícil manter a sensação de ter sido traído. No fim das contas, ela apenas
pretendia um bilhete de regresso e uma RAM do Hitachi podia servir-lhe
para adquirir um, se soubesse encontrar o escoamento certo. E também o que
tinha acontecido com os cinqüenta: quase os havia recusado..Era a
consciência de que em breve iria tirar-lhe todo o resto que ele possuía.
Quando saiu do elevador era ainda o mesmo rapaz que estava na
escrivaninha; o livro, porém, era outro.
— Cara — disse Case do meio da grama plástica — não precisa me
dizer. Já sei como foi. Uma mulher bonita apareceu aqui pra me visitar e
disse que tinha a minha chave. Uma boa gorjetazinha, talvez uns cinqüenta
ienes novos, hein? — O rapaz pousou o livro. — Uma mulher — prosseguiu
Case, desenhando um traço na testa com o polegar —, sedas...
Deu um sorriso rasgado. O rapaz sorriu também e fez que sim com a
cabeça.
— Obrigadinho, babaca — concluiu.
Já no passadiço de acesso, teve problemas com o fecho da urna. Ela
quebrara-o, decerto, quando o tentara forçar. Principiante. Ele sabia onde
arranjar uma caixa preta que era capaz de abrir tudo no Econômico. As
lâmpadas fluorescentes acenderam-se quando entrou rastejando.
— Fecha o trinco devagarinho, amigo. Ainda traz aquela coisa especial
de sábado à noite que alugou do criado?
Ela estava lá, sentada, de costas para a parede, na outra extremidade da
cama; tinha os joelhos erguidos e descansava os pulsos neles; a boca do cano
de uma pistola de flechas surgiu nas suas mãos.
— Você que é a do salão de jogos? — Empurrou o trinco para baixo. —
Onde é que está a Linda?
— Dê a volta no comutador do trinco. Ele obedeceu.
— É a sua garota? Linda? Case confirmou com a cabeça.
— Foi embora e levou o seu Hitachi. Muita nervosa, a moça. E a arma?
Usava óculos espelhados; o vestuário era preto e os saltos das botas pretas
enterravam-se profundamente na espuma do chão.
28

— Devolvi ao Shin e recebi o depósito. Vendi as munições por metade
do que tinha pago por elas. Quer o dinheiro?
— Não.
— Gelo seco? É tudo o que tenho agora.
— Que é que lhe deu esta noite? Por que é que você fez aquela cena toda
no salão? Tive de machucar o guarda que veio me pegar.
— Linda me disse que você andava atrás de mim pra me liquidar.
— Linda disse isso? Mas se eu antes de entrar aqui nunca tinha visto...
— Você não trabalha para o Wage?
A garota sacudiu a cabeça negativamente. Case reparou que os óculos
estavam implantados cirurgicamente, selando-lhe as órbitas. As lentes de
prata pareciam crescer a partir da pele macia e pálida por cima das maçãs do
rosto, emolduradas por cabelo curto e negro. Os dedos encrespados em volta
da flecheira eram esguios e brancos, com as extremidades de cor vinho
polido. As unhas davam a idéia de serem artificiais.
— Tenho a impressão de que você pirou, Case. Apareci e ajustou-me
logo na sua imagem de realidade.
— Bem, então que é que quer de mim, madame? — disse, deixando-se
cair de encontro à fechadura.
— Quero você. Um corpo vivo com um cérebro ainda razoavelmente em
condições, intacto. Molly é o meu nome, Molly. Venho buscá-lo para o levar
ao homem pra quem trabalho. Apenas quer falar com você, é tudo. Ninguém
quer te fazer mal.
— Ótimo.
— Exceto eu, que as vezes magôo as pessoas, Case. Acho que isso tem a
ver com a maneira como foram montados os meus circuitos. — Usava jeans
pretos de couro justo, e um blusão volumoso, também preto, feito de um
material mate que parecia absorver a luz. — Se eu guardar esta arma, você
se comporta bem, Case? Tem o jeito de quem gosta de arriscar.
— Oh, sou do tipo calmo. Não há problema, sou mesmo um cara de paz.
— Está bem, cara. — A flecheira desapareceu no blusão preto. —
Porque, se tentar me foder, arrisca a mais estúpida chance de toda sua vida.
A garota estendeu as mãos com as palmas para cima e os dedos
ligeiramente separados, e, produzindo um clique dificilmente audível, dez
lâminas de bisturi, de gume duplo, com quatro centímetros, deslizaram de
encaixes existentes sob as unhas cor de vinho.
Sorriu. As lâminas recolheram-se lentamente.
29

2
Depois de um ano de urnas, o quarto no vigésimo quinto andar no Chiba
Hotel parecia enorme. Tinha dez metros por oito; era uma meia suíte. Uma
máquina de café Braun fumegava sobre uma mesa baixa, junto às portas de
vidro que abriam para uma varanda estreita.
— Beba um pouco de café. Tem o ar de quem precisa disso.
A garota tirou o blusão preto; a flecheira pendia-lhe sob o braço, dentro
de uma sovaqueira de nylon preto. Vestia uma camiseta cinza sem mangas,
com zíper, simples, em cada um dos ombros. À prova de balas, concluiu
Case, colocando café em uma caneca vermelha, brilhante. Sentia os braços e
as pernas como se fossem de madeira.
— Case. — Este olhou na direção da voz e viu o homem pela primeira
vez. O roupão abria na sua cintura, exibindo um peito largo, musculoso e
sem pêlos, uma barriga plana e rija. Tinha olhos azuis, tão claros que fizeram
Case pensar em lixívia. — O Sol jâ se levantou, Case. Hoje é o seu dia de
sorte, rapaz.
Case deu uma chicotada com o braço para o lado, mas o homem evitou
com facilidade o café fervendo. Uma mancha castanha escorreu pela parede
abaixo, uma parede que imitava papel de arroz. Reparou no brinco de ouro,
anguloso, cravado na orelha esquerda. Forças Especiais. O homem sorriu.
— Beba o seu café — disse Molly. — Você é muito bom, mas não vai a
lugar nenhum enquanto Armitage não disser o que tem pra lhe dizer.
Sentou-se de pernas cruzadas sobre um almofadão de seda e começou a
desmontar a flecheira sem olhar para ela. Os espelhos gêmeos seguiram seu
rastro quando Case atravessou o quarto em direção à mesa e tornou a encher
a caneca.
— É muito novo para se lembrar da guerra, não é, Case? — Armitage
30

passou as costas de uma mão larga pelo cabelo castanho escuro cortado
curto.
No pulso brilhava uma pulseira pesada de ouro. — Leningrado, Kiev,
Sibéria. Nós inventamos você na Sibéria, Case.
— Que é que isso quer dizer?
— A Garra Penetrante, Case. Já ouviu este nome, com certeza.
— Foi uma missão qualquer durante a guerra, não foi? Tentaram entrar
num núcleo russo utilizando programas de vírus, certo? Sim, ouvi falar
disso. E que ninguém saiu de lá vivo.
Sentiu uma tensão abrupta no ar. Armitage foi até à janela e olhou para a
baía de Tóquio.
— Isso não é verdade. Houve uma unidade que conseguiu regressar a
Helsinque, Case.
Case encolheu os ombros e bebeu um pouco de café.
— Você é um cowboy do ciberespaço. Os protótipos dos programas que
usa para entrar nos bancos industriais de dados foram criados para a Garra
Penetrante no assalto ao núcleo computacional de Kirensk. O módulo básico
era constituído por uma Asa Noturna equipada com um microlight um
piloto, uma matriz e um jóquei. Estávamos desenvolvendo um vírus
chamado Toupeira. A série Toupeira foi a primeira geração de programas
autênticos de intrusão.
— Icebreaker — disse Case por cima do bordo da caneca vermelha.
— Sim, Icebreaker: quebra-gelos. Foi como chamaram às proteções: ICE
de Instrumentos de Contra-Espionagem.
— O problema, meu caro senhor, é que já não sou mais um jóquei, de
maneira que é melhor ir andando...
— Eu estava lá, Case. Estava lá quando eles inventaram a sua espécie.
— Você me tem na mão, camarada, e aos da minha espécie, se quiser.
Além disso, é bastante rico para contratar garotinhas caras, equipadas com
lâminas de barbear, para me trazerem pelo rabo até aqui. Mas isso é tudo.
Não vou penetrar em porra nenhuma de sistema, pra você ou pra quem quer
que seja. — Atravessou a sala até à janela e olhou para baixo, — Ali é onde
eu vivo agora.
— O perfil que traçamos indica que você anda tentando convencer a
cidade a matá-lo quando não estiver olhando.
— Perfil?
— Nós construímos um modelo minucioso, compramos uma volta por
todos os seus pseudônimos e o examinamos com um software militar. Você
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é um suicida, Case. O modelo lhe dá um mês de sobrevivência lá fora; e a
nossa projeção médica diz que você precisa de um pâncreas novo dentro de
um ano.
— Nós? — Encarou os olhos azuis desmaiados. — Nós, quem?
— Como reagiria se lhe dissesse que podemos corrigir a sua deficiência
neural, Case?
Armitage surgiu subitamente a Case como se estivesse esculpido num
bloco de metal: inerte e enormemente pesado. Uma estátua. Sabia que isso
era um sonho e que em breve acordaria. Armitage não falaria mais. Os
sonhos de
Case terminavam sempre com imagens paralisadas desse gênero, e era
chegada a hora deste terminar.
— Que é que você diria, Case?
Case olhou para fora em direção à baía e estremeceu.
— Diria que essa é uma conversa de merda. Armitage fez um
movimento negativo com a cabeça.
— Nesse caso perguntava quais seriam as suas condições.
— Não muito diferentes daquelas a que está acostumado, Case.
— Deixemos o homem dormir um pouco, Armitage — disse Molly do
seu almofadão, com peças componentes da flecheira espalhadas sobre a
seda, como se fossem um quebra-cabeça caro. — Ele está descontrolado.
— As condições — disse então Case — e já. Agora mesmo. Ainda
estava tremendo. Não conseguia deixar de tremer.
A clínica era anônima, de consultas caríssimas: um amontoado de
pavilhões simples, separados por pequenos jardins bem cuidados. Lembravase do local: conhecera-o na primeira ronda de visitas que fizera no seu
primeiro mês em Chiba.
— Assustado, Case. Você realmente está assustado.
Era domingo à tarde e ele estava com Molly numa espécie de pátio, um
pequeno jardim, no meio de pedras brancas, um canteiro de bambus verdes e
saibro negro disposto em fileiras em ondas suaves. Uma coisa que parecia
um enorme caranguejo de metal fazia de jardineiro e cuidava do canteiro.
— Vai funcionar, Case. Você nem faz idéia do tipo de material que o
Armitage tem. Ele vai pagar o serviço que estes caras dos nervos vão fazer
com um programa que ensina como é que deve ser feito. Isso vai colocá-los
uns bons três anos à frente da concorrência. Tem uma idéia de quanto vale
isto?
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A garota enganchou os dedos no cós do jeans de couro e balançou para
trás, equilibrando-se nos saltos laçados das botas à cowboy de cor vermelhocereja. As biqueiras estreitas eram envolvidas por prata brilhante mexicana.
As lentes eram mercúrio sem expressão e olhavam-no com uma calma de
inseto.
— Você é uma samurai de rua — disse Case. — Há quanto tempo
trabalha pra ele?
— Há uns dois meses.
— E antes disso?
— Pra um outro qualquer. Moça trabalhadora, você sabe... Case acenou
com a cabeça.
— É engraçado, Case...
— Que é que é engraçado?
— Como eu o conheço. Isto é, o perfil que ele tem. Sei como é que você
está circuitado.
— Você não me conhece, irmãzinha.
—Você é um cara legal, Case. O que teve se chama apenas pouca sorte.
— E ele? Também é um cara legal?
O caranguejo robô deslocou-se na direção dos dois, definindo o caminho
por entre as ondas de saibro. A carapaça de bronze podia muito bem ter uns
mil anos. Quando estava a um metro das botas dela, disparou uma pequena
explosão de luz, imobilizando-se em seguida para analisar os dados obtidos.
— Aquilo em que sempre penso em primeiro lugar, Case, é no meu
querido rabinho.
O caranguejo havia alterado o rumo para a evitar; ela, porém, chutou-o
com uma precisão delicada, fazendo com que a ponta da bota tilintasse na
carapaça. A coisa caiu de costas, mas os membros de bronze depressa a
colocaram direita novamente.
Case sentou-se numa das pedras, atacando a simetria das ondas de saibro
com a ponta dos sapatos. Começou a procurar cigarros nos bolsos.
— Na camisa — disse ela.
— Quer responder minha pergunta?
Tirou um cigarro Yeheyuan amassado do maço, e deixou que ela o
acendesse com uma placa fina de aço alemão que mais parecia pertencer a
uma mesa de operações.
— Bem, se quer que lhe diga, o homem está efetivamente atrás de
qualquer coisa. Agora anda cheio de dinheiro, que antes não tinha. E mais:
arranja cada vez mais dinheiro. — Case notou uma certa tensão em volta da
33

boca da garota. — Ou talvez seja alguma coisa andando atrás do homem.
Ela estremeceu.
— Que é que isso quer dizer?
— Não sei muito bem. Só sei que não sei quem é ou pra quem é que nós
trabalhamos.
Case olhou os espelhos gêmeos. Quando deixara o Hilton, no sábado de
manhã, havia regressado ao Econômico e dormido durante dez horas. Em
seguida, começou um longo passeio, sem destino, pelo perímetro de
segurança do porto, olhando para as gaivotas que desenhavam círculos além
do cais. Se ela o tinha perseguido, conseguira fazer um bom trabalho. Case
evitara Night City; esperara na urna pela chamada de Armitage. E agora, este
pátio calmo no domingo à tarde e a moça com corpo de ginasta e mãos de
conspiradora.
— Se fizer o favor de entrar já, o anestesista está a sua espera.
O assistente técnico curvou-se numa saudação e entrou na clínica sem se
preocupar se Case o seguia ou não.
Um cheiro de aço frio. Uma sensação de gelo acariciando sua espinha.
Perdido, tão pequeno, no meio daquela escuridão, com as mãos geladas e a
imagem do corpo desaparecendo por corredores de céu de televisão. Vozes.
Em seguida, um fogo negro conseguiu encontrar os afluentes de ligação aos
nervos e houve uma dor muito além daquilo a que o nome de dor é dado...
Fica quieto. Não se mexa.
E o Ratz estava lá, e a Linda Lee, o Wage e o Lonny Zone, uma centena
de rostos da floresta de néon, marinheiros e vigaristas e prostitutas, lá onde o
céu é de prata envenenada, muito além do cais e da prisão do crânio.
Merda, não se mexa.
Onde o céu desaparecia da barulhenta eletricidade atmosférica para
ausência de cor da matriz e ele olhava rapidamente os shurikens, as suas
estrelas.
— Pare com isso, Case, deixe-me encontrar a sua veia!
Ela cavalgava-lhe o peito com uma seringa plástica, azul, na mão. — Se
não ficar quieto, corto a merda da sua garganta. Ainda está cheio de
inibidores de endorfina.
Acordou e a moça estava estendida ao seu lado no escuro.
Sentia o pescoço quebradiço como se fosse de ramos frágeis. O meio da
34

sua espinha latejava. Imagens formavam-se e reformavam-se continuamente:
uma montagem cintilante de torres do Sprawl e cúpulas do Fuller, de figuras
opacas que se moviam na sua direção na sombra debaixo de uma ponte ou de
uma passagem aérea...
— Case? Já é quarta-feira, Case. — Ela moveu-se, rolando sobre o
ventre e estendendo um braço em sua direção. Case sentiu um seio roçando
seu ante-braço e ouviu-a tirar a tampa de uma garrafa de água. — Tome. —
Colocou a garrafa na mão dele. — Sou capaz de ver no escuro, Case. Tenho
microcanais de amplificação de imagem em minhas lentes.
— As minhas costas doem.
— É no lugar que substituíram o fluido. Eles também fizeram uma
transfusão de sangue. Mudaram seu sangue pra que tivesse direito a um
pâncreas, incluído no negócio; e algum tecido novo no seu fígado, quanto à
parte dos nervos, não sei. — Recostou-se para trás a seu lado. — São
2:43:12 da manhã, Case. Tenho um relógio digital integrado ao meu nervo
óptico.
Case sentou-se e tentou beber um gole da garrafa. Engasgou-se e tossiu,
enquanto a água morna lhe borrifava o peito e as coxas.
— Tenho que pôr o sistema funcionando — disse ele a si mesmo.
Tentava apanhar a roupa. — Tenho de saber...
Ela riu. As mãos pequenas, mas fortes, imobilizaram seus braços.
— Sinto muito, valentão. Tem que esperar oito dias. Seu sistema nervoso
cairia no meio do chão se tentasse fazer uma coisa dessas agora. Ordens do
médico. Mas eles acham que isso vai funcionar, fica frio.
Case deixou-se cair de novo.
— Onde é que estamos?
— Em casa. No Hotel Econômico.
— Onde está o Armitage?
— No Hilton, vendendo contas coloridas aos nativos ou qualquer coisa
do gênero. Estamos quase saindo daqui, cara. Amsterdam, Paris e, em
seguida, novamente o Sprawl. Tocou seu ombro. — Vire. Vou fazer uma
boa massagem.— deitou-se de bruços sobre o estômago, com os braços
esticados para frente e as pontas dos dedos contra as paredes da urna. A
garota montou-o na cintura, ajoelhando na espuma plástica do chão, e ele
sentiu seu jeans, fresco, em contato com a sua pele. Os dedos dela
esfregavam seu pescoço.
— Por que é que não está no Hilton?
Ela respondeu-lhe, alcançando o traseiro e desenhando-lhe, suavemente,
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círculos no testículo com o polegar e o indicador. Balançou nessa posição,
no escuro, durante um minuto, ereta em cima dele, e com a outra mão
afagando seu pescoço. O couro do jeans estalava suavemente com o
movimento. Case mudou de posição ao sentir um endurecimento contra a
espuma.
Tinha a cabeça latejando, mas a fragilidade do pescoço parecia diminuir.
Ergueu-se sobre um cotovelo, rolou completamente sobre si mesmo e
deixou-se cair na espuma, ao mesmo tempo que a puxava para baixo de si,
lambia seus seios, cujos bicos rijos e pequenos roçavam, úmidos, seu rosto.
Conseguiu encontrar o fecho do jeans de couro e puxou-o para baixo.
— Deixe comigo — disse ela — eu consigo ver.
Ouviu o som da calça sendo despida; sentiu-a lutar com ela, estendida a
seu lado, até conseguir chutá-la para longe. Passou uma perna por cima e ele
tocou seu rosto. Deu com a inesperada dureza das lentes implantadas.
— Não faça isso — pediu ela. — As marcas dos dedos.
Então a moça ficou de novo em cima dele, agarrou sua mão e levou-a
para trás de si; o polegar de Case percorreu-lhe a fenda das nádegas e os
dedos restantes espalharam-se pelo sexo. Quando ela começou a descer, as
imagens voltaram a pulsar, os rostos, os fragmentos de néon indo e voltando.
A garota deslizou por cima do seu corpo e ele sentiu as costas delas
arquearem convulsivamente. Nessa posição, montou-o com firmeza, fazendo
ela mesma a penetração, e em seguida moveu-se para baixo e para cima,
repetidamente, até que ambos gozaram: o orgasmo dele produzindo clarões
azuis num espaço intemporal, numa vastidão como a matriz, onde os rostos
se fragmentavam e explodiam por corredores de furacões, e as coxas dela
eram fortes e úmidas no encontro com os seus quadris.
No Ninsei, uma concentrada versão do dia-a-dia da população cruzava os
movimentos da dança. Ondas de som rolavam das arcadas e dos salões de
pachinko.
Case olhou dentro do Chat e viu Zone observando as suas garotas na
fraca luz e cheirando à cerveja. Ratz estava atendendo no bar.
— Ei, Ratz, você viu o Wage?
— Não esta noite — ele fez questão de levantar uma sobrancelha
interrogadora para Molly.
— Se você o vir, fala que eu tenho a grana dele.
— Mudança de sorte, meu artista?
— Ainda é cedo pra falar qualquer coisa.
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— Bem, tenho que falar com um cara — disse Case, vendo o próprio
reflexo nas lentes dela. — Preciso me desfazer de um negócio.
— O Armitage não iria gostar se eu não o acompanhasse. — Molly
estava com as mãos nos quadris debaixo do relógio de Deane, quase
desfazendo-se.
— O cara não fala comigo se você estiver por perto. Com o Deane não
me preocupo. Ele sabe bem tomar conta de si. Mas tenho gente que se
afunda se eu deixar Chiba sem dar satisfação. É a minha gente, percebe?
A boca da moça endureceu. Acenou negativamente com a cabeça.
— Tenho gente em Singapura, contatos de Tóquio em Shinjuku e
Asakuza. Esses caras vão mesmo se ferrar, compreende? — mentiu Case,
pondo a mão no ombro do blusão dela. — Cinco minutos. Só cinco. Pelo seu
relógio, está bem?
— Não é pra isso que me pagam.
— Aquilo pra que é paga é uma coisa. Agora eu deixar morrer alguns
amigos autênticos, só porque você é demasiada literal acerca das suas
instruções, já é outra coisa.
— Vá se foder. Isso de amigos autênticos é besteira. Você quer é entrar
só pra caçar informações a nosso respeito com seu amigo contrabandista.
Molly colocou uma bota sobre a mesa baixa de café, estilo Kandinsky,
coberta de pó.
— A sua parceira aí, Case amigo, tem o ar de quem anda bem armada,
além de ter a cabeça cheia de sílica. O que é que tá acontecendo? A tosse
fantasmagórica de Deane parecia pendurada no ar entre eles.
— Agüenta aí, Mie. Já vou entrar. Sozinho.
— Com certeza, meu filho. Pode sempre contar comigo.
— Tudo bem — disse então a garota — entra. Mas só cinco minutos. Se
demorar mais, entro e vou foder aí o seu amigo direitinho...
permanentemente. E, enquanto isso, pense a respeito.
— Do quê?
— Por que é que estou fazendo esse favor.
Girou sobre si e afastou-se, para além dos módulos brancos empilhados
de gengibre em conserva.
— Andando em companhia mais estranha que a habitual, Case? —
perguntou Julie.
— Julie, ela se mandou. Posso entrar? Por favor, Julie? Os trincos
abriram-se. — Devagar, Case — falou a voz.
37

— Abra a fábrica, Julie, não há nada escondido — disse Case, sentandose na cadeira giratória.
— Está sempre aberta — disse Deane mansamente, puxando uma arma
que se encontrava no interior aberto de uma velha máquina de escrever
mecânica e apontando-a cuidadosamente para Case. Era uma arma de abrir
barriga, um revolver Magnum com o cano cortado parecendo um coto. A
parte da frente do anel do gatilho fora eliminada e a coronha encontrava-se
envolvida por algo que parecia fita isolante antiga. Case pensou que não
ficava nada bem nas mãos rosadas e cuidadas de Deane. — Apenas
precaução, você entende? Não é nada pessoal. Muito bem. Agora me diz o
que você quer.
— Preciso de uma aula de história, Julie. E informação sobre alguém.
— Qual a jogada, garoto?
A camisa de Deane era de algodão riscado e o colarinho branco e rígido,
como se fosse de porcelana.
— Eu, Julie. Estou de partida. Vou desaparecer. Mas preciso de um
favor.
— Informação sobre quem, garoto?
— O nome é Armitage. Está numa suíte do Hilton. Deane pousou a
Magnum.
— Fica quieto, Case. — Extraiu alguma coisa de um terminal portátil de
computador. — Parece que você sabe tanto como a minha rede, Case. O
cavalheiro parece ter um arranjo temporário com a Yakuza e os filhos do
crisântemo de néon têm processos que protegem os seus aliados de sujeitos
como eu. Não tenho nenhuma outra fonte. Vamos então à história. — Pegou
de novo a arma, mas não a apontou para Case. — Que tipo de história?
— A guerra. Esteve na guerra, Julie?
— A guerra? Que é que há pra saber? Durou apenas três semanas.
— A Garra Penetrante.
— Excelente. Já não ensinam história hoje em dia? Foi um sangrento e
grandioso futebol político do pós-guerra, foi sim . Uma viagem ao inferno de
ida e volta passando pelo portão de Watergate. O seu patrão, Case, o seu
patrão no Sprawl, esteve dentro. Mas onde, McLean? Nos abrigos, durante
toda essa história... grande escândalo. Um enorme desperdício de carne
jovem patriótica para testar um nova tecnologia qualquer. Mais tarde, veio se
saber que eles tinham conhecimento de tudo acerca das defesas dos Russos.
Sabiam dos emps, das armas de vibração magnética, disso tudo. Mas mesmo
assim mandaram todos esses rapazes, apenas para ver como era. — Deane
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estremeceu. — Os turcos mataram para os camaradas russos.
— Houve algum desses caras que se safasse?
— Meu Deus! Faz uma porrada de tempo... Mas acho que houve uns
poucos que conseguiram. Uma das equipes. Dominaram uma nave soviética.
Um helicóptero. Conseguiram voar de volta até a Finlândia. Claro que não
tinham os códigos de entrada e tiveram que enfrentar a porra de urna luta
com as forças de defesa finlandesas. Eram caras das Forças Especiais. —
Deane fungou. — Foi um inferno.
Case acenou com a cabeça. O cheiro de gengibre de conserva era
opressivo.
— Sabe que passei a guerra em Lisboa — disse Deane, pousando de
novo a arma. — Um lugar maravilhoso, Lisboa.
— Em serviço, Julie?
— Não foi bem isso. Mas participei, de fato, de alguma ação. — Deane
deu um sorriso cor-de-rosa. — Espantoso, que mercado a guerra pode
proporcionar a um cara como eu.
— Obrigado, Julie. Te devo uma.
— Não deve nada. E adeus.
Mais tarde diria para si mesmo que aquela noite no Sammi tinha sido
errada desde o início, seguira em companhia de Molly pelo corredor,
tropeçando na confusão de talões de bilhetes e xícaras de isopor, tivera a
premonição do que estava para acontecer: a morte de Linda, chegando...
Depois de ter estado com Deane, tinham seguido para o Namban e pago
a dívida de Wage com um maço de ienes novos de Armitage. Wage gostara
muito disso, os seus rapazes gostaram menos e Molly, ao lado de Case, havia
arreganhado os dentes, num riso de felina intensidade, imóvel, obviamente
ansiando para que um deles tomasse qualquer iniciativa. Em seguida, foi até
o Chat para um drinque.
— Está perdendo o seu tempo, cowboy — disse Molly quando Case
tirava um octógono do bolso do blusão.
— Como assim? Quer um? — perguntou Case, oferecendo-lhe a pílula.
— O seu pâncreas novo, Case, e essas válvulas no fígado, Armitage os
fez para ultrapassarem essa merda. — Deu um toque no octógono com a
unha cor de vinho. — Você está quimicamente incapaz das anfetaminas ou a
cocaína fazerem algum efeito.
— Uma merda! — disse. Olhou o octógono e, em seguida, olhou para
ela.
39

— Engula. Coma uma dúzia. Não vai acontecer nada. Ele tomou. Nada
aconteceu.
Três cervejas mais tarde, a garota perguntava ao Ratz sobre as lutas.
— No Sammi — informou Ratz.
— Vou passar por lá — disse Case. — Ouvi dizer que lá os caras
combatem até se matarem uns aos outros.
Uma hora mais tarde, Molly comprava os bilhetes de uma tailandesa
magricela com uma camiseta branca e um par de calças de rúgbi largos.
O Sammi era uma cúpula cheia de ar situada por trás de um armazém no
porto, feita de material plástico cinzento, esticado, e reforçado por uma rede
de cabos finos de aço. O corredor, com uma porta em cada extremidade,
funcionava como respiradouro, bastante tosco, que mantinha o diferencial de
pressão necessário para suportar a cúpula. A intervalos regulares, alguns
anéis fosforescentes estavam aparafusados no teto; se bem que mais
quebrados do que intactos. A atmosfera estava abafada e pesada com todo
aquele cheiro de suor e cimento.
Nada disso preparara Case para a arena, a multidão, o rumor tenso, as
figuras de luz que se encontravam por baixo da cúpula. Terraços de cimento
subiam gradualmente em filas até uma espécie de plataforma central, um
ringue cercado por uma massa brilhante de equipamentos de projeção. Não
havia luzes, à exceção dos hologramas que volteavam e cintilavam acima do
ringue, reproduzindo os movimentos dos dois homens lá embaixo. Camadas
de fumaça de cigarro subiam das filas de cimento, pairando, até se chocarem
nas correntes de ar provocadas pelas turbinas que suportavam a cúpula. Não
se ouvia um som, a não ser o ruído abafado das turbinas e a respiração
amplificada dos lutadores.
Através das lentes de Molly circulavam cores refletidas, enquanto os
lutadores evoluíam. Os hologramas eram amplificações de dez vezes: nessa
escala, as lâminas que empunhavam tinham um pouco menos de um metro
de comprimento. O modo de empunhar a lâmina do especialista é o mesmo
do esgrimista, lembrou-se Case: os dedos encolhidos e o polegar alinhado
com a espada. As lâminas pareciam mover-se por vontade própria,
deslizando, com uma lentidão ritual, pelos arcos e passes da dança, ponto a
ponto, enquanto os homens aguardavam a oportunidade de uma abertura. O
rosto de Molly, voltado para cima, tinha uma expressão calma e suave,
olhando atentamente.
— Vou buscar alguma coisa pra comer — disse Case.
A garota concordou com a cabeça, perdida na contemplação da dança.
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Ele não estava gostando do local.
Voltou-se e entrou na zona escura. Escura demais. Calma demais.
A multidão, reparou, era constituída na sua maioria por japoneses; não se
tratava propriamente de gente de Night City. Técnicos vindos das sedes. Isso
o fez supor que a arena tinha a aprovação de alguma comissão empresarial
para ocupação de tempos livres. Por um instante, divagou sobre o que seria
trabalhar a vida inteira para uma zaibatsu. Alojamento da companhia, hino
da companhia, funeral da companhia.
Percorreu quase uma volta completa pela cúpula, até chegar às tendas de
comida. Comprou yakitori no espeto e duas caixas de cerveja. Ao olhar para
cima, para os hologramas, reparou que o peito de um dos lutadores já se
encontrava manchado de sangue. Um pouco de molho espesso escorreu do
espeto e derramou pelos nós dos seus dedos.
Sete dias apenas e já estava como antes. Se fechasse os olhos agora, seria
capaz de ver a matriz.
As sombras desenhavam arabescos torcidos enquanto os hologramas
balançavam na sua dança.
Foi então que o medo fez sua nuca começar a doer. Um suor frio
espalhou-se pelas suas costas. A operação não tinha sido bem-sucedida. Ele
ainda estava ali, todo carne, sem Molly à sua espera, com os olhos fixos nas
lâminas dançarinas, sem o Armitage no Hilton, com bilhetes e um passaporte
novo e dinheiro. Era tudo um sonho, uma fantasia patética qualquer... Sua
visão embaçou com algumas lágrimas tépidas.
Sangue jorrou de uma jugular numa bolha vermelha de luz. Nesse
momento, a multidão gritava, levantava-se, delirava — ao mesmo tempo que
uma das figuras caía e o holograma desaparecia, cintilando...
Sentiu um vômito na garganta. Fechou os olhos, inspirou
profundamente, e quando os abriu viu Linda Lee passando junto dele com os
olhos cinzentos cegos de medo. Usava o mesmo tipo de sombra francesa nos
olhos.
Num instante, não a viu mais. Tinha desaparecido na sombra.
Teve um reflexo, puro, sem qualquer intenção: jogou fora as cervejas e o
frango e correu atrás dela. Podia tê-la chamado pelo nome, mas poderia não
ser ela.
A imagem insistente de uma linha muito fina de luz vermelha. E o
cimento seco sob as solas finas dos sapatos dela.
O tênis branco brilhante da moça, já muito próximo da parede
encurvada, e ainda a linha fantasma do laser queimando e pulsando em seus
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olhos, enquanto corria.
Alguém o derrubou e as palmas das mãos feriram-se no contato com o
cimento.
Rolou pelo chão, ao mesmo tempo que chutava o ar, não conseguindo
estabelecer a ligação entre uma coisa e outra. Um jovem magro, de cabelo
louro espetado, iluminado em contraluz por uma auréola multicor,
debruçava-se sobre ele. Em cima, no ringue, um vulto voltava-se para o
público com a lâmina bem erguida. O rapaz sorriu e tirou qualquer coisa da
manga: uma faca, manchada de vermelho, quando um terceiro raio de luz
passou por eles em direção ao escuro. Case viu a lâmina mergulhar para a
sua garganta como a vara de um rabdomante.
O rosto apagou-se no meio de uma nuvem de explosões microscópicas:
as flechas de Molly, disparadas a vinte séries por segundo. O rapaz tossiu
convulsivamente uma vez apenas e caiu sobre as pernas de Case.
Já estava de novo andando a caminho das tendas, na escuridão. Olhou
para baixo, na expectativa de ver a agulha rubi aparecer-lhe no peito. Nada.
Foi então que descobriu a garota. Estava estendida no chão, junto à base de
um pilar de cimento, com os olhos fechados. Havia no ar um cheiro de carne
cozida. A multidão gritava o nome do vencedor. Um vendedor de cerveja
limpava as torneiras com um trapo escuro. Um tênis branco, de alguma
maneira, soltara-se e jazia ao lado dela.
Siga o caminho ao longo da parede. Uma curva de cimento. Mãos nos
bolsos. Continue a andar. Além dos rostos que não vê. Todos os olhares
erguidos para a imagem do vencedor por cima do ringue. Uma face européia,
enrugada, dançou fugazmente ao clarão de um fósforo, com os lábios
envolvendo a haste curta de um cachimbo de metal. Um cheiro de haxixe.
Case prosseguiu a marcha sem sentir coisa alguma.
— Case! — Os espelhos surgiram de dentro da sombra densa. — Está
bem?
Algo chiou e borbulhou no escuro atrás dela.
Ele fez um gesto com a cabeça.
— O combate acabou, Case. É hora de irmos pra casa.
Tentou passar por ela, voltar à escuridão onde alguém morria. Ela o
impediu, pondo uma mão no seu peito.
— Eram amigos do seu sórdido amigo. Mataram a sua garota ao invés de
você. Nunca teve jeito pra arranjar amigos nesta cidade, não é? Conseguimos
fazer um perfil parcial do velho filho da puta, quando fizemos o seu.
Homem, um cara capaz de queimar quem quer que seja por alguns ienes
42

novos. Aquele que ficou ali atrás disse que a apanharam quando tentava
passar a sua RAM. Muito mais barato dar um fim nela e ficar com o
material. Pouparam algum dinheiro...Fiz com que o cara do laser me dissesse
tudo. Foi coincidência estarmos aqui, mas eu tinha de ter certeza.
A boca dela estava com um ar duro, os lábios comprimindo-se numa
linha fina.
Case sentiu-se como se o cérebro estivesse em curto-circuito.
— Quem? — perguntou. — Quem é que os mandou?
Ela estendeu-lhe um saco de gengibre de conserva manchado de sangue.
Notou que as mãos da garota estavam pastosas de sangue.
Lá atrás, na sombra, alguém produziu alguns sons úmidos e morreu.
Depois do descanso pós-operatório na clínica, Molly levou-o até o porto.
Armitage estava à espera. Tinha fretado um hovercraft. Ás últimas coisas
que Case viu de Chiba City foram os ângulos escuros das sedes. Em seguida,
uma neblina caiu sobre as águas negras e os cardumes errantes de dejetos.

43

EXPEDIÇÃO PARA COMPRAS

44

3
Em casa. A casa era o EMAB, o Eixo Metropolitano Atlanta-Boston, o
Sprawl.
Programe um mapa que mostre a taxa de freqüência da troca de dados
numa tela muito grande, com cada pixel valendo mil megabytes, Manhattan
e Atlanta representadas por duas zonas brancas brilhantes. Deixe que elas
comecem a pulsar e que a rapidez das transações ameace sobrecarregar a
simulação. O mapa está prestes a tornar-se uma supernova. Calma aí.
Aumente a escala. Cada pixel, um milhão de megabytes. Com cem milhões
de megabytes por segundo, começa a reconhecer blocos definidos na parte
central de Manhattan, os contornos de parques industriais centenários
circulando o antigo núcleo de Atlanta...
Case acordou de um sonho que misturava aeroportos, as roupas de couro
negro de Molly movendo-se a sua frente no meio das multidões circulantes
em Narita, Schipol, Orly... Observou-se comprando um frasco de plástico,
achatado, de vodka dinamarquesa num quiosque qualquer, uma hora antes
do amanhecer.
Em algum lugar, lá embaixo, nas fundações de cimento e ferro do
Sprawl, um trem fazia uma corrente de ar pelo túnel. O trem não fazia
barulho ao deslizar sobre o amortecedor de indução, mas o ar deslocado
cantava ao longo do túnel, num tom muito baixo entrando nas subsônicas.
As vibrações chegavam até o estúdio onde estava deitado e levantavam
poeira das fendas existentes do assoalho de tacos ressecados.
Ao abrir os olhos, viu Molly, nua e quase ao seu alcance, deitada sobre
uma placa de espuma plástica cor-de-rosa e nova. Por cima da sua cabeça a
luz do Sol filtrava-se através da grelha, manchada de depósitos de carvão, de
uma clarabóia. Uma placa integrada havia substituído meio metro quadrado
de vidro: dela partia um cabo cinzento grosso que ficava suspenso a alguns
centímetros do chão. Case permaneceu deitado sobre um dos lados e
observou a respiração da garota, os seios, a curva de um flanco definido com
a elegância funcional da fuselagem de um avião de combate. O corpo era
magro, correto; os músculos, como os de uma bailarina.
O quarto era amplo. Sentou-se. Com exceção do diva cor-de-rosa, largo,
e de duas mochilas brancas de nylon, novas e idênticas, que se encontravam
junto dele, o quarto estava vazio: paredes nuas, sem janelas, uma única porta
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de emergência, de aço, pintada de branco. As paredes haviam sido pintadas
com inúmeras mãos de tinta de látex branco. Uma fábrica. Conhecia o tipo
de estúdio, o tipo de edifício; os seus moradores deviam trabalhar na
Interzona, onde a arte não era propriamente um crime, mas também onde o
crime não era propriamente uma arte. Estava em casa.
Com um salto, pôs os pés no chão. O assoalho era formado por pequenos
tacos de madeira, com alguns faltando e outros soltos. Sua cabeça doía
Lembrou-se de Amsterdã, de outro quarto na Cidade Velha, separada do
Centrum, dos edifícios centenários: Molly, de regresso da margem do canal
com suco de laranja e ovos, Armitage saíra numa expedição misteriosa, e
ambos passeando sozinhos pela Praça Dam até chegarem a um bar da
avenida Damrak que ela conhecia. Paris era um sonho confuso. Compras.
Ela tinha-o levado às compras.
Levantou-se, enfiou um enrugado jeans preto e novo, que se encontrava
aos seus pés, e, em seguida, ajoelhou-se perto das mochilas.
Abriu a primeira, que pertencia a Molly: roupa cuidadosamente dobrada
e pequenos aparelhos de aspecto caro. O segundo estava entupido de coisas
que ignorava possuir: livros, fitas magnéticas, um sistema simstim, roupa
com etiquetas francesas e italianas. Por baixo de uma camiseta verde,
descobriu um pacote achatado, embrulhado em papel de origami, papel
japonês reciclado.
Quando abriu, o papel rasgou-se e uma estrela de nove pontas, brilhante,
caiu no chão, ficando espetada, de pé, numa fenda do assoalho.
— Um presente — disse Molly. — Reparei que estava sempre olhando
para elas.
Ele voltou-se e viu-a sentada na cama de pernas cruzadas, calmamente
cocando a barriga com as unhas cor de vinho.
— Vem alguém, mais tarde, pra fazer isto seguro — disse Armitage, que
estava de pé, na porta de entrada do quarto com uma chave magnética
antiquada na mão.
— Eu posso cuidar disso — ela falou. — Tenho equipamento que
chegue: perímetro infravarredor, alarmes...
— Não — disse ele, fechando a porta. — Quero que isto fique seguro.
— Como quiser.
A garota vestia uma camiseta de malha escura, enfiada dentro dos
calções largos de algodão preto.
— Já se meteu em confusão, Armitage? — perguntou Case, de onde
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estava cora as costas encostadas contra a parede.
Armitage não era mais alto do que Case, mas os ombros largos e a
postura militar davam a idéia de que ele enchia a entrada da porta. Vestia um
terno italiano sóbrio e segurava na mão uma pasta de couro preto macio. Já
não usava o brinco das Forças Especiais. As feições elegantes e
inexpressivas exibiam a beleza das boutiques cosméticas, numa mistura
conservadora dos principais tipos médios de rostos do decênio anterior. O
brilho pálido dos olhos aumentava o efeito da máscara. Case começou a
lamentar ter feito a pergunta.
— Quero dizer, uma porção de caras das Forças acabaram como policiais
ou seguranças de empresas — acrescentou, sentindo-se desconfortável.
Molly passou-lhe uma xícara de café fumegante.
— O servicinho que você mandou que eles fizessem no meu pâncreas foi
do tipo que a polícia faz como rotina.
Armitage fechou a porta e ficou diante de Case.
— Você é um cara de sorte, Case. Devia me agradecer.
— Devia? Case deu uma chupada ruidosa no café.
— Precisava de um pâncreas novo. O que compramos para você liberta-o
de uma dependência perigosa.
— Obrigadinho, mas eu estava gostando dessa dependência.
— Ótimo, porque então tem uma nova.
— Como é que é?
Case levantou o olhar do café. Armitage sorria.
— Tem quinze sacos de toxinas ligados ao revestimento interior de
algumas artérias principais. E os sacos estão se dissolvendo. Cada um deles
contém uma microtoxina. Você já está suficientemente familiarizado com os
efeitos dessa microtoxina: foi exatamente a que o seu antigo patrão lhe
aplicou em Memphis.
Case pestanejou ao mesmo tempo que olhava para a máscara sorridente.
— Tem tempo de sobra para executar aquilo para o qual o contratei,
Case, e só para isso. Faça o trabalho, que depois lhe injeto uma enzima para
dissolver a ligação dos sacos com as artérias, sem os abrir; é claro que, em
seguida, vai precisar de uma transfusão de sangue. Caso contrário, os sacos
se derretem e você regressa à situação de quando o encontrei. De modo que,
como vê, precisa de nós. Precisa de nós tanto como quando como o tiramos
da sarjeta.
Case olhou para Molly. A moça estremeceu.
— Agora, pegue o elevador de serviço e traga as malas que estão lá
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embaixo. — Armitage deu-lhe a chave magnética. — Vamos. Você vai
gostar disso. E como se fosse uma manhã de Natal.
Era verão no Sprawl, com um monte de gente pelas ruas, oscilando como
relva soprada pelo vento: um prado de carne carregado por redemoinhos de
necessidade e gratificação.
Case estaca sentado com Molly na borda de um muro baixo de cimento
de uma fonte seca, com os raios solares filtrando pelo céu. Fazia uma
recapitulação das fases da sua vida, motivada pelo interminável fluxo de
rostos que passavam. Primeiramente, uma criança de olhos empapuçados,
um rapaz da rua de mãos relaxadas e prontas a entrar em ação, pendentes ao
lado do corpo; depois, um adolescente de face macia e enigmática sob os
óculos vermelhos. Case lembrou-se de ter lutado num telhado aos 17 anos,
um combate silencioso iluminado pelo brilho rosado da curvatura matinal do
horizonte.
Mexeu-se sobre o cimento, sentindo-o áspero e frio através da sarja preta
fina. Não havia nada que se parecesse com a dança elétrica do Ninsei. Este
era um comércio diferente, um ritmo diferente, sob um cheiro de fast food,
perfume e suor fresco de Verão.
O sistema estava a sua espera, no sótão um ciberespaço 7 Ono-Sendai.O
local estava cheio de moldes brancos separados da embalagem, várias fitas
plásticas amarrotadas e minúsculas esferas de espuma. O Ono-Sendai; o
computador Hosaka mais caro do próximo ano; um monitor Sony; uma dúzia
de disquetes de ICE para grandes corporações; uma máquina de café Braun.
Armitage aguardou a aprovação de Case e saiu.
— Onde ele vai? — perguntou Case a Molly.
— Ele gosta de hotéis. Hotéis grandes. O mais próximo possível de
aeroportos. Vamos pra rua.
Colocou uma roupa velha, do tipo excedente do exército, com uma dúzia
de bolsos de feitios esquisitos, e um par de óculos pretos, enormes, que lhe
tapavam totalmente as aplicações espelhadas.
— J á s a b ia da merda das toxinas? — perguntou-lhe quando se
encontravam junto da fonte. Ela sacudiu a cabeça. — Acha que é verdade?
— Talvez sim, talvez não. Funciona de outra maneira.
— Você sabe de algum jeito que eu possa descobrir.
— Não — disse ela, ao mesmo tempo que erguia a mão num pedido de
silêncio. — Esse tipo de coisa é muito sutil pra poder ser detectado num
monitor. — Em seguida moveu de novo os dedos, como quem dizia: espera.
— Aliás você não está se importando muito com isso. Vi quando afagava o
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Sendai; cara, era mesmo pornográfico. — Riu.
— Então que é que ele tem sobre você? Como é que ele consegue ter na
mão a "moça trabalhadora"?
— Orgulho profissional, querido, é tudo — e de novo o sinal pedindo
silêncio. — Vamos tomar o café da manhã, está bem? Ovos e bacon
autêntico. Provavelmente vai dar cabo de você, habituado como está a comer
durante tanto tempo os camarões recondicionados de Chiba. Vamos lá tomar
o metrô até Manhattan pra tomar um autêntico café da manhã
Tubos de néon apagados soletravam METRO HOLOGRAFIX em
maiúsculas poeirentas. Case pautou um resto de bacon que havia se alojado
entre os dentes da frente. Desistira já de perguntar onde é que iam e por que;
cotoveladas nas costelas e o sinal de silêncio era tudo o que obtinha como
resposta. A garota falava sobre a moda da época, sobre esporte, sobre um
escândalo político na Califórnia do qual ele jamais ouvira falar.
Deu uma olhada na rua deserta, sem saída. Uma folha de jornal voava,
rolando para lá do cruzamento: ventos peculiares, resultantes de fenômenos
de confluência de correntes de ar diversas por cima das cúpulas. Case
espreitou pela janela que se encontrava por baixo do letreiro apagado.
Decididamente o Sprawl dela não era o seu Sprawl. Tinha-o arrastado por
uma dúzia de bares e clubes que ele jamais havia visto, dirigindo as
operações, normalmente apenas com um aceno de cabeça. Um modo de
manter contatos provavelmente.
Algo se moveu na sombra, no interior da Metro Holografix.
A porta era constituída por uma chapa ondulada. Diante dela, Molly
agitava as mãos numa complicada seqüência de gestos que ele não era capaz
de acompanhar. Conseguiu perceber o sinal de dinheiro: o polegar
esfregando a ponta do indicador.
A porta se abriu pelo lado de dentro e a garota levou-o até um local que
fedia a poeira. Entraram numa espécie de depósito, um espaço amplo cheio
de ferro velho que se espalhava pelo chão até às paredes revestidas de
prateleiras com livros desfazendo-se. O ferro velho parecia algo que tivesse
crescido: fungos de metal torcido e plástico.
Era possível escolher um objeto e isolá-lo do resto, certamente, mas no
mesmo instante ficava-se com a idéia de que continuava confundindo-se
com a totalidade: o interior de um aparelho de televisão tão antigo que ainda
possuía válvulas de vácuo em vidro; uma antena parabólica amassada; uma
caixa de fibra entupida de extensões corroídas de tubagem de alumínio. Uma
pilha enorme de revistas velhas caíra em cascata para a área livre: carne de
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verões perdidos, olhando para cima sem ver, enquanto Case continuava
seguindo a garota, de novo para trás, através de um vale estreito que parecia
um túnel, forrado por mais ferro velho prensado. Ouviu a porta fechar. Não
olhou para trás.
O túnel terminava com um antigo cobertor de exército tapando a porta de
entrada. Um jato de luz branca inundou-os, quando Molly entrou.
Quatro paredes quadradas de plástico branco liso, o teto do mesmo tipo ,
o chão coberto por mosaicos brancos, tipo hospital, modelados com
pequenos ressaltos, antiderrapantes, sob a forma de pequenos discos. Uma
mesa quadrada de madeira, pintada também de branco, e quatro cadeiras
desmontáveis, igualmente brancas, ocupavam o centro do espaço.
O homem que ficara pestanejando na porta atrás deles e o cobertor que
lhe caía sobre um ombro como se fosse uma capa. Parecia terem sido
concebidos num túnel aerodinâmico. Tinha as orelhas muito pequenas
coladas ao crânio estreito; os dentes da frente, grandes, mostravam algo que
não era bem um sorriso, ao mesmo tempo que vergavam para trás. Vestia um
casaco velho de tweed e empunhava na mão esquerda uma arma qualquer.
Olhou fixamente para os dois e deixou cair a arma num dos bolsos do
casaco.
Fez um gesto para Case, apontando para uma placa de plástico branco
que se encontrava encostada à parede junto à porta. Case foi para lá,
verificando tratar-se de um conjunto de circuito de quase um centímetro de
espessura. Ajudou o homem, quando este levantou e colocou na entrada.
Dedos ágeis e manchados de nicotina fixaram com uma fita adesiva branca.
A ventoinha de um exaustor começou então a ronronar.
— Tempo — disse então o homem, endireitando-se — e contagem. Você
conhece a tabela, Molly, não conhece?
— Precisamos de uma verificação, Finn. De implantes.
— Vá pra lá então, entre os pilares da porta. Fique bem em cima da fita e
endireite-se. Isso. Agora, volte-se. Dê-me uma de trezentos e sessenta graus,
completa.
Case observava os movimentos de rotação de Molly entre as duas
colunas, de aspecto frágil, cheias de sensores. O homem tirou um pequeno
monitor do bolso e deu uma olhada.
— Tem qualquer coisa nova na cabeça. Tem, sim senhor. Silício, uma
camada de carbonos pirolíticos. Um relógio, não é verdade? Pois bem, as
suas lentes dão-me a leitura que sempre têm dado, carbonos isotrópicos de
baixa temperatura. A biocompatibilidade é melhor com pirolíticos, mas é
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com você, não é verdade? O mesmo quanto às suas garras.
— Venha agora você, Case. — Este notou a existência de um xis preto
riscado no pavimento branco. — Dê uma volta, lentamente.
— Sou um cara virgem — comentou Case. O homem encolheu os
ombros. — Apenas um trabalho ordinário nos dentes, e é tudo.
— Pronto para os exames biológicos? Molly abriu o fecho da roupa
verde e tirou os óculos escuros.
— Tá pensando que aqui é a Clínica Mayo? Deite-se na mesa, garota,
que vamos fazer uma pequena biópsia. — Riu, mostrando um pouco mais os
dentes amarelos. — Nada, doçura não tem escutas, nem bombas no córtex.
Quer que corra a tela?
— Só durante o tempo que estiver saindo. Porque depois queremos a tela
total por quanto tempo quisermos.
— Hum, o Finlandês aqui não põe objeções, Molly. De qualquer
maneira, só está pagando o segundo.
Fecharam bem a porta depois dele ter saído. Ela deu uma volta numa das
cadeiras, sentou-se com o queixo apoiado nos braços cruzados. — Podemos
falar agora. Isto é o máximo de privacidade que consigo arranjar.
— Falar sobre o quê?
— Do que estamos fazendo.
—E que é que estamos fazendo?
—Trabalhando pro Armitage.
—E mesmo assim você diz que isto não é a seu favor?
—Hum, hum. eu vi o seu perfil. E consegui também, uma vez, dar uma
olhada no resto da nossa lista de compras. Já alguma vez trabalhou com
mortos?
—Não. — Ele prestou atenção ao seu reflexo nas lentes de Molly. —
Mas bem que poderia. Eu sou bom naquilo que faço. — O presente do
indicativo o pôs nervoso.
—Sabe que o Dixie Linha Reta morreu?
Case fez que sim com a cabeça.
— Coração, segundo ouvi.
— Vai ter que trabalhar com o seu spectrom. — A garota sorriu. — Ele
ensinou a mexer com as cordas, não foi? Ele e o Quine. A propósito,
conheço o Quine. Um bundão.
— Será que alguém tem uma gravação do McCoy Pauley? Quem? —
Case sentou-se, descansando os cotovelos na mesa. — Não consigo
visualizá-lo fazendo uma coisa dessas. Ele nunca conseguiria ficar quieto pra
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que isso fosse possível.
— A Sense tem. Pode apostar o seu eu que pagaram uma grana preta.
— O Quine também está morto?
— Não tivemos sorte. Está na Europa. Mas ele não entra nisto.
— Bem, se conseguirmos garantir o Linha Reta, estamos na boa. Ele era
o melhor. Sabe que esteve com morte cerebral três vezes?
Molly concordou com a cabeça.
— O Linha Reta e o seu EEG... Mostrou-me as fitas: " Rapaz, eu estava
muerto... "
— Olhe, Case, ando tentando pescar quem é que está por trás do
Armitage, desde que entrei nisto. Não parece que é uma zaibatsu, nem de um
governo, nem sequer de uma subsidiária qualquer da Yakuza. Seja quem for,
o Armitage recebe ordens. Como alguém dizer pra ir até Chiba, pegar um
médico de cabeça que esteja fazendo experiências em alguma zona escura e
negociar um programa que funcione pra que a operação dê certo. Porra,
poderíamos comprar vinte cowboys de primeiríssima classe com a grana que
poderíamos fazer o mercado pagar por um programa cirúrgico como esse.
Você era bom, mas nem tanto... — Cocou o nariz.
— É óbvio que isso faz sentido pra alguém — disse Case — alguém
muito importante.
— Não pense que o quero diminuir. — Ela sorriu. — Vamos dar um
passeio até o centro, Case, apenas ara pegar o spectrom do Linha Reta. A
Rede Sense o mantém trancado num cofre de uma biblioteca na parte de
cima da cidade. Mais fechado que o eu de uma cobra, Case. Ora, a Rede
Sense também guarda lá todo o seu novo material para o Outono. Quem
roubasse isso ficaria rico à beca. Mas não senhor. Só vamos tirar o Linha
Reta e nada mais. Estranho.
— Realmente, é tudo muito estranho. Você é estranha, este buraco é
estranho, e quem é o rato estranho que está lá fora no hall?
— O Finlandês é um antigo contato. Trabalha principalmente como
receptador. Este negócio da privacidade é apenas um biscate. Mas consegui
que Armitage o colocasse como nosso técnico, de maneira que quando ele
aparecer mais tarde, você nunca o viu. Entendeu?
— Então que é que o Armitage tem dissolvendo dentro de você?
— É fácil caçarem-me — sorriu. — Quem for suficientemente bom, e
eles o são... Não é verdade? Você tem de entrar na matriz e eu tenho de ter
ação... rins... — Case ficou olhando para ela. — Diga-me então o que é que
você sabe sobre o Armitage?
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— Pra começar, ninguém chamado Armitage fez alguma vez parte da
Garra Penetrante. Isso eu verifiquei. Mas isso não quer dizer grande coisa.
Ele não se parece com nenhum dos caras que conseguiram se safar. —
Encolheu os ombros. — Coisa grande. E este começo é tudo que consegui.
— Molly tamborilou as unhas nas costas da cadeira. — Mas você é um
cowboy, um salteador, não é? Talvez pudesse dar uma espreitada por aí.
— Ele me mataria.
— Talvez sim e talvez não. Creio que ele precisa de você, Case, e
muitíssimo. Além disso, você é esperto, não é? Tenho certeza de que é capaz
de extrair qualquer coisa dele.
— Que mais há nessa lista que você mencionou?
— Brinquedos. Principalmente pra você. E um psicopata classificado de
nome Peter Riviera. Um cara perigoso.
— Quem é ele?
— Não sei. Mas que é um doente do caralho, isso é. Vi também o perfil
dele — Ela fez uma careta. — Repelente. — Levantou-se e espreguiçou-se
no jeito de um felino. — Bem, então estamos do mesmo lado, garoto, ou
quê? Estamos juntos nisto? Sócios?
Case olhou para ela.
— Tenho alguma escolha?
Ela riu. — Você pegou o espírito da coisa, cowboy.
— A matriz tem a sua origem nos jogos eletrônicos primitivos — disse a
voz — nos primeiros programas gráficos e nas experiências militares com
expansores cranianos. — No monitor Sony uma guerra do espaço,
bidimensional, desaparecia atrás de uma floresta de fetos gerados
matematicamente, demonstrando as possibilidades espaciais das espirais
logarítmicas; metragem militar azul-frio ardida; animais de laboratório
ligados por fios a sistemas de ensaios; elmos alimentando circuitos de
controle de incêndio de tanques e aviões de combate. — O ciberespaço. Uma
alucinação consensual, vivida diariamente por bilhões de operadores
legítimos, em todas as nações, por crianças a quem estão ensinando
conceitos matemáticos... Uma representação gráfica de dados abstraídos dos
bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade
impensável. Linhas de luz alinhadas que abrangem o universo não-espaço da
mente; nebulosas e constelações infindáveis de dados. Como luzes de
cidade, retrocedendo.
—Que é isso? — perguntou Molly, enquanto ele girava o seletor de
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canais.
—Uma brincadeira de crianças. — Um fluxo descontínuo de imagens
acompanhava a rotação do seletor. — Desligado — disse para o Hosaka.
— Quer tentar agora, Case?
Quarta-feira. Tinham passado já oito dias desde que acordara no
Econômico com Molly a seu lado.
— Quer que eu vá embora, Case? Talvez sozinho seja mais fácil pra
você...
Case acenou negativamente com a cabeça.
— Não. Fique, não tem importância.
Fixou a fita negra entrançada em volta da cabeça, tendo cuidado em não
tocar nos dermatrodos Sendai achatados. Fixou o instrumento que tinha no
colo, não o vendo na realidade, mas a vitrine da loja no Ninsei e o shuriken
cromado brilhando no reflexo do néon. Olhou para cima; na parede,
exatamente por cima do Sony, pendurara o seu presente, fixando-o com um
alfinete de cabeça amarela enfiado através do buraco que existia no seu
centro.
Case fechou os olhos.
Encontrou então a face enrugada do energizador.
E no escuro raiado de sangue atrás dos seus olhos, fosfeno prateado,
fervilhando e vindos dos confins do espaço, imagens hipnóticas passando
aos trancos para trás, como um filme montado a partir de fotogramas
escolhidos ao acaso. Símbolos, números, rostos, uma mandala fragmentada e
confusa de informação visual.
Por favor, suplicou, agora...
Um disco cinzento, a cor do céu de Chiba.
Agora...
O disco começou a rodar, cada vez mais depressa, tornando-se uma
esfera de um cinzento mais pálido. Expandindo-se. E fluindo, fluorescendo
para ele, um truque de origami de néon fluido, e o desenrolar da imagem do
seu lar na distância imensurável, do seu país, num tabuleiro de xadrez de três
dimensões que se estendia até o infinito. A visão interior abrindo-se para a
pirâmide vermelha da Eastern Seabord Fission Authority, ardendo além dos
cubos verdes do Mitsubishi Bank of America, e lá muito para o alto e para
longe as espirais de sistemas militares, para sempre fora do seu alcance.
E em algum lugar, ele ria, num espaço pintado de branco, os dedos
distantes acariciando o aparelho e lágrimas de alívio escorrendo pela sua
face.
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Molly já tinha ido embora, quando ele tirou os dermatrodos. A sala
estava escura. Verificou as horas. Havia estado no ciberespaço durante cinco
horas. Transportou o Ono-Sendai para uma das novas mesas de trabalho e
caiu sobre a cama, puxando o saco de dormir de seda preta de Molly para
cima da cabeça.
O programa de segurança afixado na porta de incêndio de aço tocou dois
bips.
— Entrada solicitada — disse. — Indivíduo está OK de acordo com as
instruções do meu programa.
— Então abra a porta.
Case tirou a seda de cima da cabeça e sentou-se, ao mesmo tempo que a
porta se abria, na expectativa de ver Molly ou Armitage.
— Meu Deus — disse uma voz rouca — já sabia que aquela puta era
capaz de ver no escuro... — Uma figura atarracada avançou então e fechou a
porta. — Acenda as luzes.
Case saltou da cama e encontrou o interruptor que era nitidamente
antiquado.
— Eu sou o Finlandês — disse a voz, e fez uma careta de aviso a Case.
— Case.
— Prazer em conhecê-lo. Parece que eu faço trabalhos de hardware para
o seu patrão. — O Finlandês tirou um maço de Partagas de um bolso e
acendeu um. O cheiro de tabaco cubano encheu o quarto. Atravessou-o até à
mesa de trabalho e deu uma olhada para o Ono-Sendai. — Parece robusto.
Vou trabalhar nele em breve. Mas aqui está um problema pra você, garoto.
— Tirou um envelope grande e sujo de dentro do casaco, sacudiu cinza para
o chão e extraiu um retângulo preto de dentro dele. — Malditos protótipos
de fábrica — disse, atirando a coisa em cima da mesa — metem-nos num
bloco de policarbono e não é possível depois entrar neles com um laser sem
fritar o mecanismo. Armadilhas pra raios X, pra ultra-sondagem, pra Deus
sabe que mais. Entraremos nele, claro, mas os maus não descansam, não é?
Dobrou o envelope com muito cuidado e enfiou-o num bolso interior.
— Que é isso?
— Basicamente é um comutador flip-flop. Ligado aqui ao seu Sendai,
vai dar acesso residente, ou simstim gravado, sem ter necessidade de tirar da
matriz.
— Pra quê?
— Não faço a mínima idéia, o que sei é que estou aplicando um
dispositivo emissor na Molly, de maneira que é provavelmente o sensorium
55

dela naquilo que você vai ter acesso. — O Finlandês cocou o queixo. —
Bem, agora é que você vai descobrir quanto é que o jeans dela, de fato,
aperta, hein?

56

4
Case estava sentado com os dermatrodos na testa, observando as
moléculas de pó dançando na luz do sol filtrada pela grelha do teto. Num dos
cantos da tela do monitor, corria a contagem decrescente.
Cowboys não entram no simstim, refletiu, pois isso não era mais do que
uma brincadeira da carne. Sabia bem que os pequenos dermatrodos que
usava e a pequena tiara plástica, suspensa do conjunto simstim, eram
basicamente a mesma coisa e que a matriz do ciberespaço consistia, na
realidade, numa simplificação drástica do sensorium humano, pelo menos
em termos de apresentação, contudo, os simstim dava-lhe a idéia de não ser
mais do que uma mera multiplicação gratuita do input carnal. Claro que a
exploração comercial era depurada, para que, se a Tally Isham tivesse uma
dor de cabeça no decurso de um segmento, por exemplo, uma pessoa não a
sentisse.
A tela deu um bip de aviso, de dois segundos.
O comutador novo estava ligado ao Sendai por meio de uma fita fina de
fibras ópticas.
E um e dois e ...
O ciberespaço entrou em existência, vindo dos pontos cardeais. Suave,
pensou, mas não bastante. É preciso aperfeiçoar isto.
Nesse momento, ligou o comutador novo.
Um salto abrupto para a carne de outra pessoa. A matriz desaparecida,
uma onda de som e cor... A garota caminhava por uma rua movimentada, ao
longo de postos que vendiam software com desconto; os preços escritos a
caneta de feltro em folhas de plástico, fragmentos de música saídos de
inúmeros alto-falantes; cheiro de urina, monômeros livres, perfume,
empadas fritas de camarão. Por alguns assustadores segundos, lutou
desesperadamente para controlar o corpo da moça. Nada feito; com um ato
de vontade, entrou de novo em passividade, tomando-se apenas o passageiro
atrás dos olhos dela.
As lentes não pareciam reduzir nada a luz do sol. Perguntou se os
amplificadores inseridos a compensariam automaticamente. Os indicadores
alfanuméricos azuis pulsavam as horas na parte inferior do seu campo
periférico esquerdo.
Ela está armando, pensou.
A linguagem do corpo dela era desorientadora, o seu estilo estranho.
Parecia estar sempre prestes a se chocar com alguém, mas as pessoas
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dissolviam-se na sua frente, desviavam-se para o lado e abriam caminho.
— Como é que vai, Case?
Ele ouviu as palavras e sentiu-a construindo-as. A garota deslizou a mão
por dentro do blusão e fez uma carícia no bico de um seio por baixo da seda
quente. A sensação o fez prender a respiração. Mas a ligação era só numa
direção. Não tinha maneira de responder.
Duas quadras adiante, ela já percorria o início da Memory Lane. Case
insistia em tentar visualizar pontos de referência que teria utilizado para
encontrar o caminho. Começou a achar a passividade irritante.
A transição para o ciberespaço, quando apertou o comutador, foi
instantânea. Manobrou através de uma defesa ICE primitiva, que pertencia à
Biblioteca Pública de Nova Iorque, automaticamente contando o número de
janelas potenciais. E ligou, de novo, para o sensorium da moça, para o fluxo
sensual de músculos, sentidos apurados e brilhantes.
Encontrou-se divagando sobre a mente com a qual ele compartilhava
essas sensações. Que é que ele sabia dela? Que se tratava de mais uma
profissional, que ela dissera que o seu ser fundamental, tal como o dele, era
tudo aquilo que fazia para ganhar a vida? Case conhecia o jeito de como ela
anteriormente se movimentara de encontro a ele, quando acordara, o gemido
mútuo de unidade quando a penetrara, e que ela gostava de beber café
simples, depois...
O destino da caminhada da moça era um dos duvidosos complexos de
aluguel de software que marginavam o Memory Lane. Havia calma aí, um
ligeiro sussurrar. Pequenas cabines cercavam uma zona central. A clientela
era jovem: alguns, recém-saídos da adolescência. Todos pareciam ter
tomadas de carbono implantadas atrás da orelha esquerda; ela, porém, não
prestou atenção neles.
Os balcões em frente das cabines exibiam centenas de pastilhas prateadas
de microsoft, fragmentos angulosos de sílica colorida, instalados dentro de
bolhas transparentes sobre quadrados de cartão branco. Molly dirigiu-se à
sétima cabine na parede do lado sul. Atrás do balcão, um rapaz com a cabeça
rapada, de olhar vago e com uma dezena de parafusos de microsoft saindo da
tomada atrás da orelha.
— Larry, está aqui, cara?
Ficou diante dele. Os olhos do rapaz focaram-na. Endireitou-se na
cadeira, tirando um dos parafusos brilhantes, de cor magenta, com a unha
suja do polegar.
58

— Olá, Larry.
— Molly.
O rapaz fez um aceno com a cabeça.
—Tenho um trabalho pra alguns dos seus amigos, Larry.
Ele tirou uma caixa de plástico, achatada, do bolso da camisa esporte
vermelha, abriu-a e colocou aí o microsoft, ao lado de uns tantos outros. A
mão pairou sobre a caixa por um instante até selecionar um chip preto
brilhante, mais comprido do que os outros, e inseriu-o na cabeça. Seus olhos
se estreitaram.
—Molly tem um condutor — disse — e Larry não gosta disso.
—Ah — comentou ela. — Não sabia que estava tão... sensível. Estou
impressionada. Deve ter custado bastante, ficar assim tão sensitivo.
— Conheço-a, senhora? — O olhar vago regressou. — Deseja comprar
alguns softs!
— Ando à procura dos Modernos.
— Tem um condutor, Molly. É isto aqui que me diz. — Tocou no chip
de cor preta. — Alguém está usando os seus olhos.
— É o meu parceiro.
— Mande o seu parceiro passear.
— Tenho uma coisa para os Modernos Panteras, Larry.
— De que é que está falando, senhora?
— Case, desapareça — disse ela, e ele apertou o comutador, ficando
instantaneamente na matriz.
Algumas impressões fantasmas do complexo de software permaneceram
ainda, durante instantes, na calma murmurante do ciberespaço.
— Modernos Panteras — disse Case para o Hosaka, ao mesmo tempo
que tirava os dermatrodos. — Um resumo de cinco minutos.
— Está pronto — respondeu o computador.
Não se tratava de um nome que ele conhecesse. Era algo novo, algo que
aparecera enquanto tinha estado em Chiba. As modas arrastavam a juventude
do Sprawl à velocidade da luz; subculturas inteiras podiam surgir de um dia
para o outro, sobreviverem por algumas semanas e, em seguida,
desaparecerem sem rastro.
— Comece — disse.
O Hosaka havia entrado em suas matrizes de bibliotecas, jornais e
serviços noticiosos.
O resumo iniciou-se com uma longa paralisação de um dispositivo
colorido, que pareceu, a princípio, uma colagem qualquer: um rosto de
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adolescente, recortado de uma outra imagem e colada sobre uma fotografia
de uma parede com a pintura garatujada. Olhos escuros, pálpebras de
mongolóide que eram obviamente resultado de uma cirurgia, uma poeira
irada de acne ao longo das maçãs rosadas e estreitas.
O Hosaka libertou a imagem; o rapaz começou a mover-se com a elegância sinistra de um palhaço pretendendo ser um predador da selva. O
corpo era quase invisível: um modelo abstrato do mesmo tipo do
revestimento riscado da parede que deslizava suavemente através do terno
apertado, de uma única peça, que trazia vestido. Policarbono mimético.
Abertura para doutora Virgínia Rambali, socióloga pela Universidade de
Nova Iorque, o seu nome, faculdade e departamento pulsando na tela em
caracteres alfanuméricos cor-de-rosa.
— Considerando a sua tendência para estes desgarrados atos de violência
surreal — dizia alguém — pode ser difícil para os nossos telespectadores
compreenderem por que é que persiste este fenômeno que não é uma forma
de terrorismo.
A doutora Rambali sorriu.
— Há sempre um momento em que o terrorista deixa de manipular o
gestalt da mídia. Uma hora em que a violência pode muito bem entrar em
escalada, mas para além da qual o terrorista se tornou sintomático do próprio
gestalt da mídia. O terrorismo, tal c o m o o conhecemos vulgarmente,
encontra-se ligado de uma forma inata à mídia. Os Modernos Panteras
diferem de outros terroristas precisamente pelo seu grau de autoconsciência,
pelo conhecimento que exibem de quanto os meios de comunicação separam
o ato terrorista da sua intenção original sócio-política...
— Esquece isso — disse Case.
Case encontrou o seu primeiro Moderno dois dias depois de ter visto o
resumo do Hosaka. Chegara à conclusão de que os Modernos eram uma
versão contemporânea dos Grandes Cientistas do fim de sua adolescência.
Havia uma espécie de ADN adolescente, trabalhando no Sprawl, algo que
transportava as normas codificadas de vários subcultos de curta duração e as
repetia a intervalos irregulares. Os Modernos Panteras eram uma variante,
especializada em software para cabeça dos Cientistas.
Se a tecnologia atual estivesse à disposição dos Grandes Cientistas, eles
estariam equipados com tomadas entupidas de microsofts. O que importava
era o estilo, e o estilo era o mesmo. Os Modernos eram mercenários, amigos
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de pregar peças e tecnofetichistas.
O Moderno que surgiu à porta do quarto com uma caixa de disquetes do
Finlandês era um rapaz de voz suave de nome Ângelo. O rosto era
constituído por um único enxerto desenvolvido à custa de colágeno e
polissacarídeos de cartilagem de tubarão, macios e hediondos. Tratava-se de
uma das mais horrorosas demonstrações de cirurgia seletiva que Case jamais
havia visto. Quando Ângelo sorria, revelando os caninos cortantes como
facas de um qualquer animal de grande porte, Case ficava tenso: transplantes
de germens de dentes. Já havia visto disso antes.
— Não pode permitir que eles o atormentem com o choque de gerações
— dissera Molly.
Case sacudira a cabeça, absorvido nos modelos do ICE da Rede Sense.
Porque aquilo era tudo o que interessava. Aquilo era o que ele era, quem
fora, o seu ser fundamental. Esquecia-se de comer. Molly deixava pacotes de
arroz e tabuleiros de sushi num canto da mesa. Chegava até, algumas vezes,
a lamentar ter de largar o aparelho para usar o lavatório químico que haviam
instalado num canto da sala. Modelos de ICE formavam-se e reformavam-se
na tela enquanto ele tentava descobrir falhas, fugia das ratoeiras mais óbvias
e delineava o caminho que teria de percorrer através do ICE da Rede Sense.
Tratava-se de um ICE muito bom. Os seus modelos brilhavam diante de si,
ao mesmo tempo que ele ficava deitado com o braço sobre os ombros de
Molly, prestando atenção ao clarão vermelho da alvorada que entrava pela
grelha de aço da clarabóia.
A primeira coisa que enxergava quando acordava era o labirinto e pixels
multicoloridos. Ia então direto ao aparelho, sem se dar ao trabalho de se
vestir, e entrava imediatamente em ligação. Estava fazendo o seu trabalho.
Case perdia a noção dos dias.
E algumas vezes, ao adormecer, principalmente quando Molly se
encontrava ausente numa das suas excursões de reconhecimento com a
equipe contratada de Modernos, imagens de Chiba irrompiam avassaladoras.
Rostos e o néon do Ninsei. Uma vez acordou de um sonho confuso sobre
Linda Lee, incapaz de se recordar de quem ela era ou do que ela alguma vez
significara para ele. Sempre que se lembrava, entrava em ligação e
trabalhava nove horas seguidas.
O trabalho de penetração no ICE da Rede Sense demorou um total de
nove dias.
— Eu disse uma semana — lembrou Armitage, incapaz de esconder a
sua satisfação, quando Case lhe mostrou o plano para a operação. —
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Trabalhou com calma, não foi?
— O caralho! — respondeu Case, sorrindo para a tela. — Isto é um
trabalho excelente, Armitage.
— É — admitiu Armitage. — Mas não deixe que ele suba à cabeça.
Comparado com o que eventualmente ainda tem pela frente, isto é apenas
um joguinho.
— Amo você, Mãe Gata — sussurrou o contato dos Modernos Panteras.
A voz modulava-se estática nos fones de Case.
— Atlanta, Filhote. É hora de irmos. Vamos lá então. Certo? A voz de
Molly soava ligeiramente mais nítida.
— Ouvir é obedecer.
Os Modernos utilizavam um tipo de antena parabólica de rede de arame
de galinheiro, em Nova Jérsei, para refletir o sinal, deliberadamente
embaralhado, do seu contato para um satélite chamado Filhos do Cristo Rei,
em órbita por cima de Manhattan. Tinham decidido encarar toda a operação
como uma boa partida bem-elaborada, e a escolha de satélites de
comunicação parecia ter sido feita de propósito. Os sinais de Molly estavam
sendo expedidos a partir de uma parabólica fixada por meio de resina
sintética ao telhado da torre negra envidraçada de um banco, quase tão alta
como o edifício da Rede Sense.
Atlanta. O código de reconhecimento era simples. De Atlanta para
Boston, para Chicago, para Denver, com cinco minutos de parada em cada
cidade. Se alguém conseguisse interceptar o sinal de Molly, desconfundi-lo,
sintetizar a sua voz, o código teria alertado os Modernos. Se ela
permanecesse no edifício mais de vinte minutos, seria altamente improvável
que alguma vez regressasse.
Case engoliu o resto do café, pôs os dermatrodos no lugar e cocou o
peito por baixo da camiseta preta. Tinha apenas uma vaga idéia daquilo que
os Panteras planejavam como manobra de diversão para o pessoal da Rede
Sense quando Molly precisasse. Prestou atenção à contagem decrescente no
canto da tela. Dois. Um.
Entrou em ligação e disparou o programa.
— Canal Principal — respirou o contato, e a sua voz era o único som que
Case extraía através dos estratos brilhantes do ICE da Rede Sense.
Ótimo: verificar a Molly. Premiu o simstim, entrou no sensorium da
garota.
O dispositivo de embaralhamento do sinal turvava ligeiramente o input
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visual. Ela estava diante de uma parede espelhada com manchas douradas,
no vasto hall de entrada do edifício, mascando chiclete e aparentemente
fascinada com o seu próprio reflexo. À parte o enorme par de óculos de sol
que escondiam seus implantes espelhados, conseguiu ter o ar de quem
pertencia ao local: mais uma jovem turista na esperança de chegar a ver a
Tally Isham. Vestia uma gabardina de plástico cor-de-rosa, um top de malha
branca, calças brancas largas, talhadas num estilo que fora moda em Tóquio
no ano anterior. Sorria vagamente e fazia bolas com o chiclete.
Case teve vontade de rir. Era capaz de sentir sua fita microporosa
aplicada nas costelas, as unidades minúsculas, achatadas, sob a fita, o
processador simstim e o dispositivo de embaralhamento. O microfone de
garganta, colado ao pescoço, parecia tanto quanto possível um dermadisco
analgésico. As mãos, metidas nos bolsos da gabardina cor-de-rosa,
entretinham-se com movimentos sistemáticos de flexão na execução de
séries de exercícios de tensão-distensão. demorou alguns segundos para
perceber que a sensação peculiar vinda dos dedos da garota era causada
pelas lâminas, sempre que se projetavam parcialmente para o exterior e
retrocediam em seguida.
Regressou. O programa tinha atingido a quinta porta. Prestou atenção
quando o intruso pulsou e fez um pequeno desvio a sua frente; estava apenas
minimamente consciente das mãos que operavam o sistema, procedendo a
pequenos ajustamentos. Planos de cor transluzente embaralhavam-se, como
se fossem um baralho de prestidigitador. Tire uma carta, pensou, uma
qualquer.
A porta ficava desfocada à medida que a ultrapassava. Riu. O ICE da
Rede Sense tinha aceitado a sua entrada como uma transferência de rotina,
vinda do complexo de Los Angeles do consórcio. Para trás, os programas
virais despelavam-se, misturando-se com o material codificado da porta,
prontos a entrar em ação quando os dados autênticos de Los Angeles
chegassem.
Entrou novamente no simstim. Molly passeava junto ao enorme balcão
circular da recepção situada na parte traseira do hall.
A hora era 12:01:20, de acordo com a leitura luminosa no nervo óptico
da garota.
À meia-noite, sincronizado com o processador instalado por trás do olho
de Molly, o contato em Jérsei deu o comando: — Canal Principal.
Nove Modernos espalhados por quatrocentos quilômetros do Sprawl
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discaram simultaneamente MAX EMERG em nove cabines telefônicas. Cada
um dos nove Modernos proferiu um curto discurso, de antemão preparado,
desligou e saiu para a noite, libertando as mãos das luvas cirúrgicas. Nove
diferentes departamentos de polícia e agências de segurança pública ficaram
digerindo uma informação, segundo a qual uma subseita obscura de
Fundamentalistas Cristãos militantes havia assumido a responsabilidade de
terem introduzido níveis clínicos de um agente psicoativo ilegal, conhecido
pelo nome de Nove Azul, no sistema de ventilação da Rede Sense. O Nove
Azul, também conhecido na Califórnia como Anjo Doloroso, fora
considerado causador de paranóia aguda e psicose homicida em oitenta e
cinco por cento de cobaias de experimentação.

Case apertou o comutador, quando o seu programa avançava através das
portas do subsistema que controlava a segurança da biblioteca-arquivo da
Rede Sense. Estava prestes a entrar em um elevador.
— Desculpe-me, mas a senhora é empregada?
O guarda levantara o sobrancelha. Molly fez estalar o chiclete.
— Não — respondeu, enfiando os dois primeiros nós dos dedos no plexo
solar do homem.
Ao mesmo tempo que ele se dobrava para baixo, tentando chegar ao
alarme que trazia na cintura, a garota martelou sua cabeça para o lado, contra
a parede do elevador.
Mascando o chiclete com um pouco mais de rapidez, tocou nos botões
FECHAR PORTA e PARE no painel iluminado. Extraiu então uma caixa
preta do bolso do blusão e inseriu um chumbo no buraco do dispositivo que
assegurava o funcionamento dos circuitos do painel.
Os Modernos Panteras aguardaram durante quatro minutos que a sua
primeira ação fizesse efeito; em seguida, injetaram uma segunda dose de
falsa informação, cuidadosamente preparada. Desta vez lançaram-na
diretamente no sistema interno de vídeo do edifício da Rede Sense.
Às 12:04:03, todos os monitores no edifício pulsaram, durante dezoito
segundos, uma freqüência que provocava paralisia num setor delicado do
pessoal da Rede Sense.
Em seguida, algo, que apenas vagamente se parecia com uma face
humana, ocupou as telas; as feições desenvolviam-se por extensões de
matéria óssea, como uma obscena projeção Mercator. À medida que o
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queixo, alargado e torcido, movia-se, os lábios azuis abriam-se umidamente.
Uma coisa, talvez uma mão, que se assemelhava a um aglomerado
avermelhado de raízes rasgadas, mexeu-se em direção à câmara, ficou
desfocada e desapareceu. Subliminarmente, eram projetadas, com muita
rapidez, imagens de contaminação: gráficos do sistema de fornecimento de
água do edifício, mãos enluvadas manipulando tubos e balões de laboratório,
qualquer coisa que caía na escuridão, salpicos de água de cor pálida...
A faixa sonora, ajustada para correr a uma velocidade quase dupla da
velocidade normal de reprodução, era constituída pelo fragmento de um
noticiário de um mês atrás sobre os potenciais usos militares de uma
substância conhecida como HsG, um produto bioquímico que comandava o
fator de crescimento do esqueleto humano; doses excessivas de HsG
levavam algumas células ósseas a uma aceleração tal que provocava uma
taxa de crescimento que podia ir até os mil por cento.
Às 12:05:00, o núcleo, revestido de espelhos, do consórcio da Rede
Sense, abrigava cerca de três mil empregados. À meia-noite e cinco minutos,
quando a mensagem dos Modernos terminou, com um clarão de telas
brancas, a pirâmide da Rede Sense deu o alarme.
Meia dúzia de hovercrafts dos Táticos da NYPP, em resposta à
possibilidade de elementos do Nove Azul no edifício, convergiram para a
pirâmide; vinham equipados com projetores de alta intervenção. Também, na
mesma hora, um helicóptero de apoio dos Rápidos da EMAB levantara vôo
da sua base no Riker.
Case disparou o seu segundo programa. Um vírus, cuidadosamente
concebido e desenvolvido, atacou o material codificado dos comandos de
proteção, na verificação que era operada no subsolo, onde se encontravam
arquivados os elementos de pesquisa da Rede Sense.
— Boston — era a voz de Molly através da ligação — estou no andar de
baixo.
Case ligou e viu a parede branca do elevador. A garota abriu o fecho das
calças brancas. Fixado com microporo ao tornozelo, Molly trazia um pacote
volumoso exatamente da cor da pele pálida a que aderia. Ajoelhou-se e
libertou-o da fita de celulose que o fechava. Riscos de cor de vinho
cintilaram através do policarbono mimético, quando desdobrou o terno do
Moderno. Despiu a gabardina cor de rosa, deixou-a cair no chão ao lado das
calças brancas e começou a vestir o terno por cima da malha branca.
12:06:26.
65

O vírus de Case abrira uma janela através do ICE de comando da
biblioteca. Operou então a sua própria passagem pelo buraco aberto, ficando
dentro de um espaço azul, infinito, onde esferas codificadas por cores se
encontravam alinhadas e suspensas de uma grelha fechada de néon azulpálido. No não-espaço da matriz, o interior de um determinado spectrom de
dados possuía uma ilimitada dimensão subjetiva; uma calculadora de
brinquedo acessada através do Sendai de Case, teria apresentado vastas
enseadas de não-existência, apenas utilizando alguns comandos básicos.
Case começou a digitar a seqüência que o Finlandês comprara de um
sarariman de meia tigela com profundos problemas de droga. Iniciou o
deslizamento pelas esferas como se estivesse sobre pistas invisíveis.
Aqui. Está aqui.
Prosseguindo a sua marcha para a esfera, sob a abóbada de néon azulfrio, sem estrelas e macia como vidro gelado, disparou um subprograma que
efetuava certas alterações nos comandos de proteção do núcleo.
Para fora, agora. O vírus, nessa hora já em processo inverso de atuação,
refazia com delicadeza a malha do material da janela.
No hall da Rede Sense, dois Modernos Panteras estavam em estado de
alerta, sentados atrás de um vaso de plantas, retangular, gravando a agitação
com uma câmara de vídeo. Ambos vestiam ternos-camaleão.
— Neste momento, os Táticos estão utilizando aerossóis de espuma para
construírem algumas barricadas — registrava um deles para o microfone de
garganta. — Os Rápidos ainda estão tentando pousar o helicóptero.
Case apertou o comutador do simstim. E entrou imediatamente na agonia
de um osso quebrado. Molly encontrava-se apoiada na parede cinzenta e nua
de um longo corredor, com a respiração entrecortada e irregular. Case voltou
imediatamente à matriz e a linha branca e quente de dor na coxa esquerda
desapareceu gradualmente.
— Que é que está acontecendo, Filhote? — perguntou ao contato. —:
Não sei, Cortador. A Mãe está falando. Aguarde.
O programa de Case entrara em interação. Um único fio de néon
carmesim, da espessura de um cabelo, ligava o centro da janela restaurada ao
contorno oscilante do intruso do ICE. Não tinha tempo para esperar. Fazendo
uma respiração profunda, entrou novamente no sensorium de Molly.
Molly experimentava dar um passo, tentando que a parede do corredor
suportasse todo o seu peso. Da boca de Case saiu um som rouco. O segundo
passo levou-o até um braço estendido no chão. A manga de um anel de
66

impacto, em fibra de vidro estilhaçado. A visão da garota parecia ter
diminuído de horizonte, até a dimensão de um túnel. Com o terceiro passo,
Case gritou e voltou à matriz.
— Filhote? Boston, baby... — A voz dela, abafada pela dor.
— Um pequeno problema com os nativos. Penso que um deles partiu
minha perna.
— Do que é que você precisa, Mãe Gata?
A voz do contato era indistinta, quase sumida sob a ação do campo
estático.
Case forçou a reentrada. Ela estava encostada contra a parede, apoiando
todo o seu peso sobre a perna direita. Vasculhou o conteúdo do bolso da
frente do terno e retirou uma folha de plástico contendo um arco-íris de
dermadiscos. Selecionou três e pressionou-os com força contra o pulso
esquerdo por cima das veias. Os seis mil microgramas de endorfina
abateram-se imediatamente sobre a dor como um martelo, estilhaçando-a.
Suas costas arquearam-se convulsivamente. Ondas vermelhas de calor
subiram pelas suas coxas; deu um suspiro e, lentamente, relaxou.
— Está tudo bem, Filhote. Já estou boa. Vou precisar de uma equipe
médica, quando sair. Diga ao Cortador que estou a dois minutos do alvo; se
ele pode agüentar.
— Diga-lhe que estou dentro e agüentando — disse Case.
Molly, coxeando, iniciou a marcha ao longo do corredor. Quando deu
uma olhada para trás, Case pôde ver os corpos abatidos de três seguranças da
Rede Sense. Um deles parecia não ter olhos.
— Os Táticos e os Rápidos bloquearam o andar térreo, Mãe Gata.
Barricadas de espuma. O hall está se tornando úmido.
— Bastante úmido também aqui embaixo — comentou ela, oscilando
entre um par de portas cinzentas de aço. — Estou quase lá, Cortador.
Case regressou à matriz e tirou os dermatrodos da testa. Encontrava-se
encharcado de suor. Limpou a testa com uma toalha, bebeu rapidamente um
gole de água de uma garrafa de bicicleta que estava junto do Hosaka e fez
uma verificação no mapa da biblioteca exibido na tela. Um cursor vermelho
pulsava através do contorno de uma porta, apenas a milímetros do ponto
vermelho que indicava a localização do spectrom do Dixie Linha Reta. Que
acontecerá à perna de Molly, ficou pensando, se ela continuar andando como
está fazendo? Com bastante endorfina no estômago, seria capaz de andar
sobre um par de cotos. Apertou o cinto que o fixava à cadeira e substituiu os
dermatrodos.
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Agora era apenas uma questão de rotina: dermatrodos, ligar, entrar.
A biblioteca-a r q u i v o d a R e d e S e n s e e r a u m a z o n a m o r t a d e
armazenagem: os materiais aí guardados precisavam ser fisicamente
removidos, antes de poderem ser tratados por um computador. Molly coxeou
entre filas de gavetas cinzentas idênticas.
— Fala, mais cinco e dez pra a esquerda, Filhote — orientou Case.
— Mais cinco e dez pra a esquerda, Mãe Gata — transmitiu o contato.
A garota virou à esquerda. Entre dois armários, uma bibliotecária estava
agachada com a cara branca como cal, as maçãs do rosto molhadas e o olhar
vazio. Molly ignorou-a.
Case interrogou-s e s o b r e o q u e t e r i am os Modernos feito para
provocarem tal nível de terror. Sabia que se tratava de algo que tinha a ver
com uma falsa ameaça; porém, havia estado muito envolvido com o ICE
para acompanhar a explicação de Molly.
— E esse — informou Case, mas ela já havia parado em frente do
arquivo que guardava o spectrom.
O estilo fez Case lembrar-se das estantes neo-astecas do vestíbulo de
Julie Deane, em Chiba.
— Execute, Cortador — disse Molly.
Case entrou no ciberespaço e enviou uma pulsação de comando pelo fio
vermelho-vivo que penetrava o ICE da biblioteca. Cinco diferentes sistemas
de alarme ficaram convencidos de que ainda estavam operativos. Os três
fechos, de programação complicada, foram desativados, mas consideraramse ainda como se estivessem fechados. O banco central da biblioteca sofreu
uma alteração de cinco minutos na sua memória permanente; o spectrom
teria sido removido, por ordem superior, um mês antes. Se posteriormente
um bibliotecário fizesse a verificação da autorização para remoção do
spectrom, encontraria os registros apagados.
A porta abriu-se, deslizando nos gonzos silenciosos.
— 0467839 — disse Case.
Molly extraiu uma unidade de armazenagem, preta, da prateleira. Parecia
o carregador de uma espingarda de assalto, de certa envergadura, com a
superfície totalmente revestida por adesivos de aviso e índices de segurança.
Molly fechou a porta do arquivo. Case regressou.
Retirou a linha do ICE da biblioteca. Ao mesmo tempo que aquela se
recolhia completamente ao programa, de um modo automático, todo um
sistema de inversão era posto em execução. As portas da Rede Sense
fechavam-se atrás de si, a sua passagem, e os subprogramas regressavam aò
68

núcleo do invasor, à medida que transpunham as portas onde haviam estado
alojados.
— Já estou fora, Filhote — disse Case, relaxando na cadeira.
Era capaz de permanecer ligado e, ao mesmo tempo, ter consciência do
corpo, logo a seguir um longo período de concentração como a que uma
operação deste tipo sempre exigia. A descoberta do roubo do spectrom da
Rede Sense poderia levar dias. A chave para a descoberta seria o desvio da
transferência de Los Angeles que, de maneira suspeita, coincidiria com o
ataque terrorista dos Modernos. Duvidava que os três seguranças, que Molly
encontrara no corredor, alguma vez vivessem para poderem contar o que
quer que fosse. Regressou ao sensorium de Molly.
O elevador, com a caixa preta de Molly fixada junto do painel de
controle, continuava onde ela o deixara. O guarda ainda jazia enrascado no
chão. Case reparou, pela primeira vez, no dermadisco aplicado no pescoço
do homem. Molly tinha tomado as medidas necessárias para que ele não
voltasse a si tão cedo. A moça passou por cima do corpo e retirou a caixa
preta, antes de apertar o botão térreo.
Quando a porta se abriu com um silvo, uma mulher destacou-se da
multidão, recuando para dentro do elevador; aí começou a bater com a
cabeça na parede do fundo.
Sem prestar a mínima atenção, Molly abaixou-se para extrair o
dermadisco do pescoço do guarda. Em seguida, chutou as calças brancas e a
gabardina cor-de-rosa pela porta afora, atirou os óculos escuros atrás delas e
puxou o capuz da roupa por cima da cabeça até a testa. O spectrom, dentro
do bolso da frente, enfiava-se pelo seu esterno quando se mexia. Saiu,
finalmente, do elevador para o hall.
Case já havia observado pânico antes, mas nunca num espaço fechado.
Os empregados da Rede Sense, transbordando dos elevadores, haviam
corrido em ondas até as portas da rua, apenas para baterem nas barricadas de
espuma dos Táticos e as armas de saco de areia dos Rápidos da EMBA. As
duas agências, convencidas de que tinham pela frente uma horda de
potenciais assassinos, estavam cooperando uma com a outra com um pouco
característico grau de eficácia.
Além dos destroços das portas principais que davam para a rua, inúmeros
corpos empilhavam-se até as três camadas sobre as barricadas de espuma. A
percussão surda das armas de intervenção fornecia um som de fundo,
permanente, ao alarido da multidão, que corria para trás e para frente no
chão de mármore. Case jamais ouvira tal som.
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Nem sequer, aparentemente, Molly. — Caralho! — exclamou, hesitando.
Era uma espécie de uivo agudíssimo, que crescia até se tornar uma
borbulhante lamentação de medo puro e total. O chão do hall estava coberto
de corpos, roupas, sangue e rolos amassados de papel amarelo de
impressora.
— Vamu, mana. Simbora. — Os olhos dos dois Modernos destacavamse das sombras loucas, que giravam no policarbono, e os seus ternos eram
incapazes de acompanhar o ritmo da confusão de forma e cor que
vertiginosamente ficavam para trás. — Tá ferida? Vamu. Tommy vai levar
ocê.
Tommy deu algo para o que falara: uma câmara de vídeo envolvida em
policarbono.
— Chicago — ela disse. — Estou a caminho. Foi então que começou a
entrar em colapso e a cair, não para o chão de mármore, pulverizado com
sangue e vomitado, mas mais para baixo ainda, para um poço quente de
sangue, para o silêncio e para a escuridão.
O chefe dos Modernos Panteras, que se apresentou como Lupus
Yonderboy, usava um terno de policarbono com um dispositivo de gravação
que lhe permitia reproduzir, à vontade, ambientes de fundo. Debruçado sobre
a mesa de trabalho de Case, como se fosse um gárgula artístico, examinava
Case e Armitage com olhos empapuçados. Sorriu. Tinha o cabelo pintado de
cor-de-rosa. Uma floresta multicolorida de microsofts eriçava-se por trás da
orelha esquerda; esta era pontiaguda, entufada com mais cabelo cor-de-rosa.
Tinha as pupilas modificadas para conseguir captar a luz como os gatos.
Case observava como o temo mudava de cor e textura.
— Vocês perderam o controle — disse Armitage, de pé no centro da sala
como uma estátua, envolvido nas dobras lustrosas e escuras de uma
gabardina de aspecto caro.
— Caos, Sr. Alguém — respondeu Lupus Yonderboy. — É essa a nossa
maneira e norma. É esse o núcleo do nosso prazer. A mulher sabe. Foi com
ela que negociamos. Não com você, Sr. Alguém. — O temo havia adquirido
um modelo esquisito, anguloso, bege e abacate-claro. — Ela precisava de
sua equipe médica; já está com eles. Nós tomamos conta dela. Tudo está em
ordem.
Sorriu novamente.
— Pague-lhe — disse Case. Armitage virou o olhar na sua direção.
— Não temos ainda a mercadoria.
70

— A mulher tem — respondeu Yonderboy.
— Pague-lhe.
Armitage assumiu um ar empertigado e cruzou a sala até a mesa. Tirou
trem maços grossos de ienes novos dos bolsos da gabardina. — Quer contálos? — perguntou.
— Não — respondeu o Moderno Pantera. — O senhor vai pagar. O
senhor é um Sr. Alguém. Pagará pra continuar assim. Não pra se tornar um
Sr. Nome.
— Espero que isso não seja uma ameaça — disse Armitage.
— É negócio — comentou Yonderboy, ao mesmo tempo que enfiava o
dinheiro no único bolso na parte da frente do terno.
O telefone tocou. Case atendeu.
— Molly — informou Case, estendendo o aparelho a Armitage.
Quando Case abandonou o edifício, a geodésica do Sprawl estava
clareando para um cinzento de pré-alvorada. Sentia os membros inferiores
frios e desconjuntados. Estava farto daquele estúdio. Lupus fora embora, em
seguida Armitage, e Molly estava em algum lugar na cirurgia. Sentiu uma
vibração sob os pés, quando um trem passou silvando. Na distância, sirenes
tocavam.
Virou algumas esquinas ao acaso, com a gola levantada e encurvado
dentro de um blusão novo de couro preto, arremessou o primeiro de uma
série de Yeheyuans para a sarjeta e acendeu um novo. Tentou imaginar os
sacos da toxina de Armitage dissolvendo-se no seu sangue; as membranas
microscópicas se desgastando, cada vez mais finas, à medida que caminhava.
Não parecia se tratar de uma coisa real. Nem tampouco o medo e a agonia
que vira através dos olhos de Molly no hall da Rede Sense.
Achou-se tentando recordar os rostos das três pessoas que matara em
Chiba. Os homens eram coisas vagas; a mulher lembrava Linda Lee. Um
triciclo, bastante amassado e com vidros espelhados, passou por ele aos
saltos; os cilindros vazios, de plástico, que transportava na caixa, produziram
um som matraqueante ao baterem uns nos outros.
— Case.
Deu um salto para o lado, instintivamente procurando a proteção de uma
parede por trás.
— Mensagem pra você, Case. — A roupa de Yonderboy exibia uma
repetição circular de cores primárias puras. — Desculpe. Não pretendia
assustá-lo.
71

Case endireitou-se, conservando as mãos nos bolsos. Era uma cabeça
mais alto do que o Moderno.
— Tem de ter cuidado, Yonderboy.
— É esta a mensagem: Wintermute — e soletrou-a.
— Da sua parte?
Case avançou um passo.
— Não — disse Yonderboy. — Pra você.
— De quem?
— Wintermute — repetiu Yonderboy, com um aceno de cabeça que fez
balançar o tufo de cabelo cor-de-rosa.
A roupa ficou preto-mate; uma sombra de carbono sobre cimento antigo.
Executou uma curta e estranha dança, em que fazia girar os braços finos e
negros, e, em seguida, foi embora. Não. Ainda estava ali. O capuz levantado,
para esconder o cor-de-rosa, e a roupa exatamente com o tom exato do
cimento, mesclado e manchado, do passeio onde ainda permanecia. Os olhos
piscaram o reflexo vermelho de um sinal de semáforo. E, finalmente,
desapareceu de verdade.
Case fechou os olhos e fez uma massagem neles com os dedos
dormentes, ao mesmo tempo que se encostava nos tijolos da parede em
decomposição.
No Ninsei as coisas eram muito mais simples.

72

5
O serviço médico, que se ocupava de Molly, distribuía-se por dois
andares de um bloco de apartamentos, junto ao antigo centro de Baltimore.
O edifício era modular, como se fosse uma versão gigante do Econômico,
tendo cada urna quarenta metros de comprimento. Case encontrou Molly,
quando esta saía da que ostentava o logotipo, elaboradamente trabalhado, de
um tal Gerald Chin, Dentista. A garota mancava.
— O cara diz que se eu der um pontapé em alguma coisa, fico igual
merda pisada.
— Eu encontrei um dos seus amiguinhos — ele disse — um Moderno.
— Sério? Qual deles?
— O Lupus Yonderboy. Deu um recado. — Passou-lhe um guardanapo
de papel, onde ele havia escrito, a caneta de feltro, W I N T E R M U T E, em
maiúsculas laboriosamente desenhadas. — Ele disse...
A mão dela, porém, moveu-se, fazendo o sinal de silêncio.
— Descubra é onde vai arranjar lagostas, pra comemorarmos — disse.
Depois do almoço em Baltimore, onde Molly havia exibido a sua
maestria em dissecar lagostas, viajaram de metrô até Nova Iorque. Case
aprendera a não fazer perguntas; estas apenas provocavam o aparecimento
do sinal de silêncio. A perna parecia incomodá-la e disse poucas palavras.
Uma criança negra, magra, com um colar de contas de madeira e
algumas resistências elétricas entrançadas no cabelo, abriu-lhes a porta do
Finlandês e conduziu-os através do túnel de sucata. Case teve a sensação de
que o material havia crescido durante sua ausência, ou então estaria
alterando-se de forma sutil, diminuindo sob a pressão do tempo, como se
flocos invisíveis c mudos caíssem e assentassem, até formarem um monte de
estrume, uma essência cristalina de tecnologia abandonada, secretamente
florescendo nos vastos espaços do Sprawl.
Além do cobertor do exército, o Finlandês os esperava sentado à mesa
branca.
Molly começou rapidamente a fazer sinais; mostrou um pedaço de papel,
escreveu qualquer coisa e passou-o ao Finlandês. Este pegou-o com o
polegar e o indicador, mantendo-o a uma certa distância, como se pudesse
explodir. Fez um sinal que Case não conhecia, um sinal que trazia consigo
um misto de impaciência e mau humor. Levantou-se, sacudindo algumas
73

migalhas da parte da frente do casaco puído de tweed.
Um jarro de vidro, contendo arenque em salmoura, estava sobre a mesa,
ao lado de uma embalagem plástica, rasgada, de pão de forma e de um
cinzeiro baixo empilhado com bitucas de Partagas.
— Espere — disse o Finlandês, saindo do quarto.
Molly sentou-se, extraiu a lâmina da unha do indicador e arpoou um
pedaço de arenque. Case começou a andar de um lado para outro, ao acaso,
pelo quarto, mexendo com os dedos no equipamento dos pilares da porta,
quando passava.
Passados uns dez minutos, o Finlandês regressou alvoroçado, exibindo
nos dentes um largo sorriso amarelo. Acenou com a cabeça, fez a Molly um
gesto de saudação, erguendo o polegar para cima, e, com outro gesto, pediu a
Case que o ajudasse com o painel afixado na porta. Enquanto Case aplicava
a fita adesiva no lugar, o Finlandês tirou um pequeno console achatado do
bolso e digitou uma seqüência complicada.
— Querida — disse a Molly, pondo o console de lado — você
conseguiu. Sem merda; até consigo cheirá-lo. Quer me dizer onde e quando
arranjou isso?
— Yonderboy — disse Molly, empurrado para o lado o arenque e as
bolachas — fiz um negócio por fora com o Larry.
— Safadinha — disse o Finlandês. — É uma IA.
— Andem mais devagar — pediu Case.
— B e r n a — disse o Finlandês, ignorando-o . — Em Berna. Tem
cidadania suíça limitada, de acordo com o equivalente da Ixi de 1953. Foi
construído para a Tessier-Ashpool S.A., eles possuem o computador central
e o software original.
— O que é que tem em Berna? Case colocou-se no meio de ambos.
— Wintermute é o código de reconhecimento de uma IA. Inteligência
Artificial. Possuo os números do registro da Turing.
— Tudo isso é muito bonito — disse Molly — mas onde é que nos leva?
— Se o Yonderboy está certo — respondeu o Finlandês — esta IA serve
de proteção para o Armitage.
— Paguei ao Larry pra que pusesse os Modernos cheirando em volta do
Armitage — explicou Molly, voltando-se para Case. — Eles têm alguns
canais de comunicação muito esquisitos. O negócio era o seguinte: levariam
o meu dinheiro se respondessem a uma pergunta: quem faz mexer o
Armitage?
— E você pensa que é esta IA? Essas coisas não conseguem ter
74

autonomia. Seria antes a companhia-mãe, essa Tessle...
— Tessier-Ashpool S.A. — corrigiu o Finlandês. — E tenho uma
historiazinha pra vocês a respeito deles. Querem ouvir?
Sentou-se e inclinou-se para frente.
— Esse é o Finlandês — disse Molly. — Ele adora contar ou ouvir uma
história.
— Nunca contei esta a ninguém — começou o Finlandês.
O Finlandês era um receptador, um traficante de artigos roubados,
principalmente software. Durante seu negócio, acontecia-lhe, por vezes,
entrar em contato com outros receptadores, alguns dos quais trabalhavam em
artigos mais tradicionais: metais preciosos, selos, moedas raras, joalheria,
peles, quadros e outras obras de arte. A história, que ele contou a Molly e
Case, começava com a história de um outro homem a quem ele chamou
Smith.
Smith também era um receptador, mas durante as épocas mais calmas
apresentava uma fachada de negociante de arte. Fora a primeira pessoa, de
quem o Finlandês tinha conhecimento, que "entrou no silício" — a frase
tinha um cunho antiquado para Case —, e os microsofts que adquiria eram
constituídos por programas de história da arte e gráficos de vendas de
galerias. Com meia dúzia de microprocessadores enfiados na sua nova
tomada, o conhecimento do negócio de arte, por parte de Smith, era
formidável, pelo menos em relação aos seus colegas.
Ora, Smith havia abordado o Finlandês com um pedido de auxílio, um
pedido fraternal, de negociante para negociante. Pretendia uma informação
sobre o clã Tessier-Ashpool, dissera, e tal informação devia ser obtida de
maneira que garantisse a impossibilidade do seu objeto alguma vez traçar a
investigação até a sua origem. Isso seria possível, dissera o Finlandês, mas
era realmente necessária uma explicação.
— Cheirava — disse o Finlandês a Case — cheirava a muita grana. E o
Smith estava sendo muito cauteloso. Cauteloso demais.
Smith, veio a saber-se depois, tivera um fornecedor conhecido por
Jimmy. Este era um ladrão e outras coisas também, e acabara de regressar de
um ano em órbita, tendo passado certas coisas pelo poço de gravidade. O
artigo mais inusitado, que Jimmy conseguira caçar no exercício de sua
atividade pelo arquipélago, era constituído por uma cabeça, um busto
intricadamente trabalhado, esmaltado sobre platina e guarnecido de pérolas e
lápis-lazúli.
75

Smith, suspirando, aconselhara Jimmy a derreter a coisa. Tratava-se de
material contemporâneo, não antigo, portanto sem qualquer valor para um
colecionador. Jimmy rira. A coisa era um terminal de computador, disse.
Podia até falar. E não com voz sintetizada, mas por meio de um belíssimo
arranjo de engrenagens e minúsculos tubos de órgão. Uma pessoa ter
construído tal coisa era algo de barroco, de perverso, porque chips com
sintetizadores de voz custavam o olho da cara. Era, pois, uma curiosidade.
Smith ligou a cabeça ao seu próprio computador e ouviu uma voz melodiosa
e não- humana despejar os números do imposto de rendimento do ano
anterior.
Entre a clientela de Smith havia um bilionário de Tóquio, cuja paixão
por autômatos mecânicos era muito próxima de autêntico fetichismo. Smith
encolheu os ombros e fez a Jimmy o gesto das palmas de ambas as mãos
levantadas e viradas para a frente, um gesto tão velho como casas de
penhores. Podia tentar, disse, contudo, duvidava de que conseguisse ganhar
muito pela coisa.
Quando Jimmy foi embora, deixando a cabeça, Smith debruçou-se então
sobre ela, atentamente, e descobriu umas certas marcas de contraste.
Conseguiu traçar uma pista até à incrível colaboração entre dois artífices de
Zurique, um especialista em esmaltagem de Paris, um joalheiro holandês e
um projetista de microprocessadores da Califórnia. Averiguou igualmente
que a coisa havia sido encomendada pela Tessier-Ashpool S.A.
Smith começou quase imediatamente a executar os primeiros passes
perto do colecionador de Tóquio, insinuando que estava na pista de algo
notável.
Foi então que teve uma visita, uma visita que não se fez anunciar e
avançou pelo complicado labirinto da segurança de Smith como se ela não
existisse. Tratava-se de um homem de pequena envergadura, um japonês,
bastante delicado, que exibia todos os sinais de um assassino ninja.
Smith sentou-se muito quieto, fixando o olhar nos olhos calmos e
castanhos de morte que se encontravam do outro lado da mesa polida de paurosa vietnamita. Delicadamente, quase pedindo desculpa, o ninja explicou
que era seu dever encontrar e devolver uma certa obra de arte, um
mecanismo de grande beleza, que fora levado da casa de seu patrão. Tinha
chegado ao seu conhecimento, disse o ninja, que Smith talvez soubesse do
paradeiro desse objeto.
Smith disse então ao homem que ele não tinha qualquer desejo de
morrer, e exibiu a cabeça. E quanto, perguntou o visitante, esperaria ele
76

obter pela venda do objeto? Smith mencionou uma importância muito abaixo
do preço que tinha pensado em vender. O ninja apresentou um microcircuito
de crédito e digitou para Smith a importância pedida de uma conta numerada
na Suíça. E quem foi, perguntou o homem, que lhe trouxe esta peça? Smith
disse-lhe. Dentro de poucos dias, Smith teve conhecimento da morte de
Jimmy.
— Foi então que eu entrei na história — prosseguiu o Finlandês. —
Smith sabia que eu negociava bastante com a turma de Memory Lane; é aí
que uma pessoa se dirige quando pretende uma informação cujo rastro
jamais possa ser traçado. Contratei então um cowboy. Como era
intermediário, fiquei com uma percentagem. Smith, esse, era cauteloso;
havia acabado de ter uma experiência muito curiosa, tinha se saído bem, mas
isso não batia certo. Quem pagara? De quem era a conta suíça? Da Yakuza?
De maneira nenhuma. Esses têm um código muito restrito para situações
como essa e também liquidam o receptador, sempre. Tratava-se de material
fantasma, Smith não pensava assim. Negócio de fantasmas tem uma
vibração peculiar; é sempre possível conhecer seu cheiro. Bem, eu tinha o
meu cowboy metendo o nariz em todas as informações do necrotério. Até
que encontramos a Tessier-Ashpool num litígio legal. A questão não valia
nada, mas obtivemos o nome da firma dos advogados. Nessa hora, passamos
o ICE do advogado e obtivemos o endereço da família. Muito útil.
Case ergueu as sobrancelhas.
— Freeside — disse o Finlandês. — O Eixo. Ficamos sabendo que eles
possuem a empresa quase toda. O material mais interessante foi constituído
pelo quadro da organização, que obtivemos, quando o cowboy fez uma
operação de rotina nas informações do necrotério e fez um resumo.
Organização familiar. Estrutura de sociedade anônima. Teoricamente,
qualquer um pode comprar uma ação: contudo, há mais de cem anos que não
existe nenhuma à venda na Bolsa. Em qualquer Bolsa, até onde tenho
conhecimento. Temos, portanto, pela frente uma família da alta sociedade,
muito excêntrica e muito calma, que é gerida como uma sociedade anônima.
Muito dinheiro e muito reservada em relação aos meios de comunicação.
Muita duplicação biológica também. A lei orbital é muito mais branda em
engenharia genética, não é verdade? De maneira que é sempre difícil saber
ao certo qual a geração, ou combinação de gerações, que está dirigindo a
coisa, num dado momento.
— Como assim? — perguntou Molly.
— Arranjaram um criogênico privativo. Mesmo pela lei orbital, uma
77

pessoa fica legalmente morta pelo tempo de duração de um congelamento.
Parece que houve trocas, mas ninguém consegue ver o fundador há cerca de
trinta anos. A mamãe fundadora morreu num acidente qualquer de
laboratório...
— E o que aconteceu com a sua operação?
— Nada. — O Finlandês franziu o sobrancelha. — Larguei-a. Bastou
percebermos a fantástica complicação de advogados que a T-A tem, e foi o
fim de tudo. O Jimmy devia ter assaltado Straylight, tirado a cabeça, e a
Tessier-Ashpool mandou o seu ninja atrás dele. Smith decidiu esquecer a
coisa toda. Talvez fosse esperto. — Olhou para Molly. — A Vila Straylight.
A ponta do Eixo. Extremamente reservado.
— Você acha que eles têm o tal ninja? — perguntou Molly.
— O Smith acreditava que sim.
— Muito dispendioso. — disse ela. — Gostaria de saber o que aconteceu
ao tal ninja, Finn.
— Provavelmente colocaram no gelo. Quando precisarem dele,
descongelam.
— Está bem — disse Case. — Temos então o Armitage recebendo as
suas ordens de uma IA chamada Wintermute. Onde é que isso nos leva?
— Por enquanto, a lugar nenhum — respondeu Molly —. Entretanto
você tem mais uma atuação por fora, pra se entreter. — Extraiu uma folha de
papel dobrada do bolso e deu-lhe. Ele abriu. Coordenadas de grelha e
códigos de entrada.
— Que é isto?
— Armitage. Uma base de dados qualquer que lhe pertence. Comprei-o
dos Modernos. Foi outro negócio à parte. Onde é que é isso?
— Em Londres — respondeu Case.
— Entre nisso. — A garota riu. — Esta na hora de fazer algo por você.
Case aguardou o trans-EMAB na plataforma lotada. Molly já havia
regressado ao estúdio, algumas horas antes, com o spectrom do Linha Reta
enfiado na mala verde, e desde então Case ficara bebendo.
Era perturbador pensar no Linha Reta como um spectrom, um cartucho
ROM substituindo os talentos, obsessões e até os reflexos do joelho de um
homem morto... O trans-EMAB apareceu sobre o trilho indutor, preto,
sorvendo a areia fina das fendas no teto do túnel. Case driblou a passagem
até à porta mais próxima e observou os outros passageiros, quando a marcha
foi retomada.
78

Duas militantes da Ciência Cristã, de aspecto predatório, avançavam em
direção a um trio de técnicos de escritório, que usavam vaginas holográficas,
idealizadas, nos pulsos, brilhando úmidas e com uma cor rosada sob a luz
crua ambiente. Os técnicos umedeceram nervosamente os lábios, enquanto
espreitavam as cientistas-cristãs por baixo das pálpebras metálicas descidas.
As garotas pareciam dois animais altos e exóticos pastando, balançando
graciosa e inconscientemente ao ritmo do movimento do trem sobre o chão
cinzento da carruagem. Antes que tivessem de começar a correr em pânico
para fugirem das missionárias, o trem atingiu a estação de Case.
Desceu e reparou no que parecia um charuto holográfico, suspenso
contra a parede da estação; por baixo, pulsava uma inscrição, FREESIDE,
em maiúsculas retorcidas que imitavam uma impressão em japonês.
Prosseguiu a marcha através da multidão e parou sob ela, apreciando a coisa.
POR QUE ESPERAR? , pulsava agora o letreiro: um fuso branco, difuso e
ornamentado com grelhas e radiadores, docas e cúpulas. Já vira o anúncio e
outros como ele, milhares de vezes; nunca havia lhe dito nada. Com seu
sistema, podia alcançar os bancos de dados da Freeside tão facilmente como
alcançar Atlanta. Contudo, nessa hora, reparou na marca, do tamanho de
uma moeda pequena, entrançada no canto inferior esquerdo do tecido do
anúncio: T-A.
Regressou ao quarto, embrenhado em recordações do Linha Reta. No seu
décimo nono verão, havia passado a maior parte do tempo no Gentleman
Loser, tomando cervejas caras e observando os cowboys. Nunca tinha tocado
num aparelho, até aquele dia, mas já sabia o que queria. Havia pelo menos
mais uns vinte como ele, esperançosos, pairando pelo Loser, nesse verão;
cada um deles trabalhava como aprendiz de um cowboy qualquer. Não
existia nenhum outro processo de aprendizagem.
Todos tinham ouvido falar de Pauley, o jóquei das margens de Lanta,
que conseguira sobreviver à morte cerebral além do ICE negro. A lenda
quase nada falava a seu respeito, exceto que ele fizera o impossível.
— Era uma coisa grande — informou um outro candidato a Case pelo
preço de uma cerveja —, mas quem é que sabe ao certo o que era? Ouvi
dizer que talvez fosse uma rede brasileira de pagamentos. Enfim, o homem
estava morto: uma clara e indiscutível morte cerebral. — Case olhara ao
longo do bar para um homem entroncado em mangas de camisa e com
qualquer coisa de plúmbeo no tom da pele.
— Rapaz — dizia-lhe o Linha Reta, meses depois em Miami — eu sou
como um daqueles enormes lagartos de merda, sabe? Eles tinham dois
79

cérebros, um na cabeça e outro no rabo; este servia apenas pra manter o
movimento das patas traseiras. Se um cara atingia aquela massa escura, o
velho cérebro do rabo continuava garantindo a marcha pra frente.
A elite de cowboys no Loser evitava Pauley por qualquer ansiedade de
grupo, quase uma superstição. McCoy Pauley, o Lázaro do Ciberespaço...
Por fim, o coração acabara com ele; o coração russo, adquirido como
material excedente e transplantado num hospital de campanha durante a
guerra. Sempre se recusara a substituí-lo, dizendo que necessitava de sua
pulsação peculiar para manter o seu sentido de ritmo. Case tocou com os
dedos no pedaço de papel que Molly lhe dera e avançou pela escada acima.
Molly dormia e ressonava, deitada sobre a espuma. Um molde
transparente ia do seu joelho até alguns milímetros abaixo do ventre; era
evidente a pele por baixo do microporo rígido, cobertas de nódoas negras,
cor que gradualmente passava a um amarelo feio. Ao longo do pulso
esquerdo, corria uma fila bem ordenada de oito dermadiscos, cada um de sua
cor e tamanho. Uma unidade transderma Akai estava junto dela, com fios
condutores finos ligados aos eletrodos debaixo do molde.
Case ligou o sensor que se encontrava junto ao Hosaka. O círculo
críspido de luz caiu diretamente em cima do spectrom do Linha Reta.
Enfiou-lhe algum ICE, ligou o spectrom e entrou.
Era exatamente a sensação de ter alguém lendo por cima do ombro.
Tossiu. — Dix? McCoy? É você? Tinha a garganta apertada.
— Olá, cara — disse uma voz sem direção.
— É o Case, se lembra?
— Miami, aprendiz. Curso acelerado.
— Qual é a última coisa de que se lembra antes de eu falar com você,
Dix?
— Nada ...
— Agüenta. — Desligou o spectrom. A presença se fora. Ligou de novo.
— Dix, quem sou eu?
— Você me pendurou, cara... Que porra é você?
— Ca... O seu parceiro. Sócio. Que é que tá acontecendo?
—Aí está uma boa pergunta.
—Mão se lembra de ter estado aqui, há um segundo?
— Não.
— Sabe como é que uma matriz ROM, de personalidade, funciona? —
Claro, maninho. É um spectrom de firmware.
—Então se eu ligar no banco que estou usando, num determinado
80

momento, posso dar uma memória seqüencial, de tempo verdadeiro?
— Pode ser — disse o spectrom.
—Legal, Dix. Você é um cartucho ROM. Está me acompanhando?
—Se você diz — respondeu o spectrom. — Quem é você afinal?
— Case.
—Miami — disse a voz —, aprendiz. Curso acelerado.
—Certo. E pra começar, você e eu vamos dar um pulo até uma grelha em
Londres e acessar alguns dados. Concorda?
— Vai me dizer que eu tenho escolha, garoto?

81

6
O que você quer é o paraíso — disse o Linha Reta, após ouvir Case
explicar a situação. — Cheque Copenhagen, ao lado da seção universitária.
A voz recitou as coordenadas, enquanto ele digitava no teclado.
Encontraram o paraíso, um "paraíso de piratas", na periferia confusa de
uma rede acadêmica de baixa segurança. À primeira vista, parecia o gênero
de grafite que os operadores-estudantes deixam, por vezes, nas ligações das
linhas da rede, hieróglifos de luz colorida, tremulando nos contornos
confusos de algumas faculdades de artes.
Ali — disse o Linha Reta — um azul. Consegue distingui-lo? É um
código de entrada na Bell Europa. É recente. Os caras da Bell devem estar
prestes a entrar, pra lerem toda droga de informações e alterarem os códigos
que acharem. Amanhã, os putos vêm e roubam os códigos novos. Case
dedilhou o caminho até à Bell e mudou para um código normal. Com a ajuda
do spectrom, ligou para a base de dados londrina, que Molly dissera ser de
Armitage.
— Presente! — disse a voz. — Eu farei isso. O Linha Reta entoou uma
série de dígitos e Case os colocava no seu aparelho, tentando conseguir
captar as pausas que o spectrom introduzia para indicar o ritmo de manobra.
Foram necessárias três tentativas.
— Gênio — disse o Linha Reta. — Nenhum ICE por aqui.
— Verifique esta merda — ordenou Case ao Hosaka. — Peneire e
arranje a história pessoal do proprietário. Os rabiscos neuroeletrônicos do
paraíso desapareceram, substituídos por um simples losango de luz branca.
— O conteúdo é constituído principalmente por gravações de vídeo de
julgamentos militares do pós-guerra — informou a voz distante do Hosaka.
— A figura central é um certo Coronel Willis Corto.
— Me mostre — pediu Case.
O rosto de um homem encheu a tela. Os olhos eram os de Armitage.
Duas horas mais tarde, Case caía na cama ao lado de Molly e afundava
na espuma plástica.
— Descobriu alguma coisa? — perguntou ela com voz de sono e drogas.
— Digo a você mais tarde — respondeu. — Estou um bagaço.
Permaneceu deitado, com os olhos fechados, tentando pôr em ordem as
várias partes da história sobre um homem chamado Corto. O Hosaka tinha
reunido alguns dados e elaborado um resumo; este, porém, estava cheio de
lacunas. Uma parte do resumo era constituída por material impresso de
82

arquivo, rolando pela tela com tanta velocidade que Case tivera de pedir ao
computador para ler por ele. Outras partes do material tinham a forma de
gravações de áudio das audiências da Garra Penetrante.
Willis Corto, coronel, penetrara através de um ponto fraco no sistema de
defesa russo de Kirensk. As idas e vindas tinham provocado um buraco,
utilizando bombas de impulso, e a equipe de Corto lançou algumas Asas
Noturnas, equipadas de microplanos, com as suas asas batendo o ar em
extensão máxima, sob a luz da Lua, refletindo triângulos prateados ao longo
dos rios Angara e Podhamennaya: a última luz que Corto veria nos quinze
meses seguintes. Case tentou imaginar os microplanos desabrochando nas
suas cápsulas de lançamento, lá no alto por cima da estepe gelada.
— Eles o enganaram direitinho, patrão — disse Case, e Molly moveu-se.
Os microplanos estavam desarmados e despojados de peso o máximo
possível para compensar a presença de um operador de console, um
protótipo do sistema e um programa de vírus, designado por Toupeira IX: o
primeiro vírus autêntico na história da cibernética. Corto e a sua equipe
treinaram para a operação durante três anos. Já tinham passado o ICE e
estavam prestes a injetar o Toupeira IX, quando os sistemas de defesa foram
ativados. As armas de vibração dos Russos lançaram os jockeys em
escuridão eletrônica: os programas das Asas Noturnas e dos circuitos de vôo
ficaram limpos.
Em seguida, os lasers entraram em ação, acertando os infravermelhos e
destruindo as frágeis naves de assalto, apesar de serem invisíveis ao radar.
Corto e o seu operador de console saíram fora do céu da Sibéria. Uma queda
que só terminou no solo.
Existiam, a partir daqui, algumas lacunas na história, principalmente na
parte dos documentos, que Case investigara, referentes ao vôo de uma nave
armada russa, tripulada, que conseguira atingir a Finlândia, para ser atingida
por um canhão antigo de vinte milímetros, manobrado por um grupo de
reservistas em alerta matutino, quando pousava. A Garra Penetrante
terminara para Corto nos arredores de Helsinque, com uma equipe de
paramédicos finlandeses tirando-o da carlinga retorcida do helicóptero, que
precisou ser serrada.
A guerra terminou nove meses depois e Corto foi enviado para uma
instalação militar no Utah, cego, sem pernas e sem a maior parte do queixo.
Só ao fim de onze meses é que um representante do Congresso foi capaz de
visitá-lo. A única coisa que conseguira ouvir tinha sido o ruído dos tubos de
drenagem, que estavam ligados a Corto. Em Washington e McLean já
83

haviam começado os julgamentos espetaculares. O Pentágono e a CIA
estavam na fase de serem balcanizados e parcialmente desmantelados, e uma
investigação do Congresso focara a sua atenção particularmente na Garra
Penetrante. Tudo estava maduro para um tratamento do tipo Watergate,
dissera o representante a Corto.
Esse representante acrescentara ainda que ele, Corto, necessitava de
olhos, pernas e um trabalho cosmético completo. Tudo isso, porém, podia se
arranjar. Uma nova estrutura, fora como o homem pusera a questão, ao
mesmo tempo que dava um aperto no ombro de Corto, através do lençol
empapado em suor. Corto ouvia o infindável e suave pingue-pingue. Dissera
que preferia prestar o seu testemunho tal como se encontrava.
Não, respondera o representante, porque as sessões eram televisionadas.
Precisava fazer tudo para que elas atingissem os cidadãos eleitores. O
representante, aqui, tossira delicadamente.
O subseqüente testemunho de Corto, um Corto convenientemente
reparado, remobiliado e intensamente ensaiado, fora comovente, lúcido,
pormenorizado e, em grande parte, uma maquinação do Congresso, com
certos interesses ocultos em salvar setores particulares, que funcionavam ao
nível da infra-estrutura do Pentágono. Gradualmente, Corto percebera que o
seu testemunho tinha sido um instrumento para a salvação da carreira de três
oficiais, diretamente responsáveis pela supressão de relatórios acerca do
edifício onde estavam os sistemas de defesa de Kirensk.
Uma vez concluída a sua participação no julgamento, tornara-se persona
non grata em Washington. O mesmo representante do Congresso explicoulhe, atacando uma porção de crepes de aspargos num restaurante da rua M,
os perigos terminais, envolvidos, se falasse com as pessoas erradas. Corto
esmagara-lhe, então, a laringe com os dedos rígidos da mão direita. Após ter
estrangulado o homem, que ficara com a cara transformada num autêntico
crepe de aspargos, Corto saíra do restaurante para o setembro frio de
Washington.
O Hosaka continuava a matraquear através de relatórios de polícia,
registros de espionagem industrial e arquivos noticiosos. Case observara o
trabalho de Corto sobre desertores de grandes companhias que comprava
para diversos patrões, em Lisboa e Marrakesh, onde parecia ter ficado
obcecado com a idéia de traição, para comprar os cientistas e técnicos, ele
subornava os seus empregados. Num hotel, em Singapura, bêbado, matara
um engenheiro russo a pancada e incendiara o quarto. Em seguida, aparece
na Tailândia como superintendente de uma fábrica de heroína. Depois, como
84

executor do serviço de um cartel de jogatina na Califórnia e, ainda, como
assassino profissional nas ruínas de Bonn. Os registros eram cada vez mais
vagos e cheios de sombras, e as lacunas, maiores.
Um dia, num fragmento gravado, que sugeria um interrogatório químico,
Corto declarava que tudo havia se tornado cinzento. Um relatório médico
francês, traduzido, falava de um homem que tinha sido levado para uma
unidade de saúde mental em Paris e diagnosticado como esquizofrênico.
Tornara-se então catatônico e fora remetido para uma instituição
governamental nos arredores de Toulon. Fora então utilizado como cobaia
num programa experimental que procurava inverter a esquizofrenia, através
da aplicação de modelos cibernéticos. Forneciam aos pacientes, selecionados
aleatoriamente, microcomputadores e encorajavam-nos, com a ajuda de
estudantes, a fazerem programas para eles. Ficara curado, tendo sido o único
caso bem-sucedido de toda experiência. Os registros terminavam aí. Case
virou-se na cama e Molly insultou-o docemente por tê-la incomodado.
O telefone tocou. Puxou-o para cama. — Sim.
— Partimos para Istambul — disse Armitage. — Esta noite.
— Que é que esse filho da puta quer? — perguntou Molly.
— Diz que vamos hoje à noite pra Istambul.
— Fantástico.
Armitage lia rapidamente números de vôos e horas de partida. Molly
sentou-se na cama e acendeu a luz.
— E o meu equipamento? — perguntou Case. — O meu aparelho?
— O Finlandês trata disso — disse o Armitage, e desligou.
Case observou Molly fazendo as malas. Sob os olhos da garota
desenhavam-se círculos escuros: mesmo com o gesso, era como se estivesse
assistindo a um bailado. Não havia um só movimento a mais. As roupas de
Case formavam uma pilha desarrumada ao lado do sua mochila.
— Dói? — perguntou-lhe.
— Não teria me feito mal mais uma noite no Chin.
— O seu "dentista"?
— Claro. Muito discreto. Ele é proprietário de metade do bloco. Uma
clínica total. Faz reparações em samurais. — A garota já fechava a mochila.
— Já esteve alguma vez em Istambul?
— Estive lá uma vez uns dois dias.
— Uma cidade que nunca muda — disse ela. — Cidade velha e perigosa.
— Foi também assim quando fomos para Chiba — disse Molly, olhando
pela janela do trem uma paisagem lunar de destroços industriais e faróis
85

vermelhos que alertavam a aviação da proximidade de uma central nuclear.
— Estávamos em Los Angeles. Ele apareceu e disse: faça as malas, temos
passagem para Macau. Quando chegamos, joguei fantan no Cassino Lisboa
e ele atravessou a baía até Zhonghshan. No dia seguinte, eu estava seguindo
e observando você em Night City.
Tirou um lenço de seda de dentro da manga do blusão negro e limpou os
implantes ópticos. A paisagem do Sprawl setentrional trouxe a Case
memórias confusas da infância; grama morta, em tufos nas rachaduras de
uma rodovia.
O trem iniciou a desaceleração dez quilômetros antes do aeroporto. Case
ficou observando o nascer do sol na paisagem da infância, na miséria mais
dura de se ter e nas chapas enferrujadas das refinarias.

86

7
Chovia em Beyoglu, enquanto o Mercedez alugado deslizava pelas
vitrines gradeadas e apagadas de joalherias de prudentes gregos e armênios.
A rua estava quase vazia; apenas uns poucos transeuntes, vestindo casacões
escuros, voltavam-se para seguir com o olhar o carro que passava.
— Aqui antes ficava a zona próspera, européia, do Istambul otomano —
ronronou o Mercedez.
— Então entrou em grande decadência ... — disse Case.
— O Hilton fica em Cumhuriyet Caddesi — informou Molly,
recostando-se na camurça do automóvel.
— Por que é que o Armitage voa sozinho? — perguntou Case. Sua
cabeça doía.
— Porque mexe com os nervos dele. E posso garantir que agora está
mexendo com os meus também.
Ele procurara falar sobre a história do Corto, mas decidira não o fazer.
No avião, usara um dermadisco soporífero.
A estrada desde o aeroporto tinha sido uma reta única, como se fosse
uma incisão perfeita, separando a cidade em duas. Observara as paredes
decrépitas dos prédios de habitação, revestidos de remendos de madeira, que
passavam pela janela, ao lado de blocos de apartamentos privados, projetos
horrendos de construção e mais paredes de borda inclinada e ferro ondulado.
O Finlandês, vestindo um terno Shinjuku novo, de cor preta sarariman,
esperava-os carrancudo no vestíbulo do Hilton, afundado num sofá de
veludo como se este fosse uma ilha deserta no meio de um mar de carpete
azul pálido onde tivesse sido abandonado.
— Meu Deus — exclamou Molly —, um rato num terno de executivo.
Atravessaram o vestíbulo.
— Quanto é que pagaram a você pra se deslocar até aqui, Finn? — A
garota largou a mochila ao lado do sofá. — Aposto que não tanto como o
que recebe pra vestir esse terno, hein?
O Finlandês retraiu o lábio superior.
— Não muito, querida. — Estendeu uma chave magnética presa a um
chaveiro redondo e amarelo. — Vocês já estão registrados. O Honcho está lá
em cima. — Olhou em volta. — Esta cidade é uma porra.
— Quando o tiram de debaixo de uma cúpula, fica agoráfobo. Faça de
conta que está no Brooklin, ou noutro lugar qualquer. — Começou a girar a
chave no dedo. — Está aqui como criado ou como o quê?
87

— Tenho que verificar os implantes de um cara qualquer — respondeu o
Finlandês.
— E o meu sistema? — perguntou Case. O Finlandês retraiu-se.
— Observe o protocolo. Pergunte ao patrão.
Os dedos de Molly moveram-se na sombra do blusão, desenhando a
linguagem habitual. O Finlandês observou e, em seguida, acenou com a
cabeça.
— Claro — disse a moça — que sei quem é. — Fez um movimento com
a cabeça na direção dos elevadores. — Mexe a bunda, cowboy.
Case seguiu-a, transportando ambos as mochilas.
O quarto que ambos partilhavam podia muito bem ser aquele, em Chiba,
onde havia visto Armitage pela primeira vez. Pela manhã, dirigiu-se à janela,
quase esperando ver a baía de Tóquio. Do outro lado da rua, havia um outro
hotel. Continuava a chover. Alguns escritores de cartas haviam se recolhido
nos vãos das portas, com as suas velhas impressoras, comandadas por voz,
embrulhadas em folhas de plástico claro, o que constituía prova de que a
palavra escrita ainda gozava de certo prestígio, pelo menos aqui. «»
Era um país indolente. Observou um Citroen preto, sedan, uma
conversão primitiva de baterias de hidrogênio, com cinco oficiais turcos, de
aspecto soturno, vestidos com uniformes verdes, amarrotados, saindo e
entrando no hotel do outro lado da rua.
Case voltou o olhar para a cama, para Molly, e a palidez da garota o
impressionou. Ela deixara o revestimento de microporo na cama do outro
quarto, ao lado do indutor transdermal. Os implantes ópticos refletiam parte
do sistema de iluminação do quarto.
Antes que o telefone pudesse tocar uma segunda vez, ele já o atendera.
— Ainda bem que já está de pé — disse Armitage.
— Levantei agora mesmo. A dama ainda está debaixo dos lençóis.
Escute, patrão, creio que talvez seja hora de termos uma conversinha. Penso
que trabalho melhor quando sei um pouco mais sobre o que estou fazendo.
Seguiu-se silêncio na linha. Case mordeu o lábio.
— Você sabe aquilo que precisa saber. Talvez até um pouco mais.
— Acha que sim?
— Vista-se, Case, e faça-a levantar. Há alguém que vai encontrar com
vocês dentro de quinze minutos. O seu nome é Terzibashjian.
O telefone passou a emitir um sinal intermitente. Armitage se fora.
— Acorde, garota — disse Case. — Trabalho.
88

— Já estou acordada há uma hora. Os espelhos viraram.
— Vamos ter um tal de Jersey Bastion batendo a nossa porta.
— Você tem um ouvido pra línguas, Case! Aposto que tem sangue
armênio. Este cara é o investigador que o Armitage tem em cima do Riviera.
Ajude-me a levantar.
Terzibashjian era um jovem que usava um terno cinzento e óculos
espelhados de aro de ouro. Trazia o colarinho da camisa branca aberto e
exibia no peito, que se encontrava descoberto, um matagal de cabelos negros
tão denso que Case, a princípio, pensara ser uma espécie qualquer de
camiseta. Chegou com uma bandeja negra do Hilton, com três xícaras de
café simples e três doces orientais cor de palha.
— Temos, como vocês dizer em inglês, de olhar isto com muita calma.
— Dava a impressão de fitar Molly fixamente, e acabou tirando os óculos
espelhados. Tinha olhos de um castanho-escuro que condizia com o corte de
cabelo curto, de tipo militar. Sorriu. — É melhor assim, sim? Senão,
fazemos o túnel infinito, espelho no espelho... Particularmente você — disse
para a moça — tem de ter cuidado. Em Turquia há desaprovação pelas
mulheres que exibem tais modificações.
Molly deu uma dentada num dos pastéis, separando-o em duas partes. —
O problema é meu, marujo — disse com a boca cheia. Mastigou, engoliu e
lambeu os lábios. — Já o conheço: informante dos militares, certo? A mão
da garota deslizou indolentemente para a parte da frente do blusão e surgiu
com a flecheira. Case ignorava que ela a trouxera.
— Por favor, ter muita calma — disse Terzibashjian, com a xícara
subitamente parada a centímetros dos lábios.
Molly estendeu o braço, segurando a arma.
— Talvez eu use os explosivos, um monte deles, ou quem sabe, seu
merda, eu use apenas um dardo. Não vai sentir nada durante meses.
— Por favor. Vocês chamar isto, em inglês, pôr numa situação
apertada...
— Eu chamo de uma manhã desgraçada. Anda, desembucha sobre o
nosso homem e desapareça.
A garota desviou a arma.
— Ele viver em Fener, na Küchük Gülhane Djaddesi, número 14. Tenho
caminho dele, todas as noites, até o bazar. Atuar muito recente no Yenishehir
Palas Oteli, lugar moderno no estilo turístico, mas arranjado de maneira que
a polícia mostrar interesse nesses shows. A gerência do Yenishehir ficar
nervosa.
89

O homem sorriu. Exalava o odor de uma loção pós-barba metálica
qualquer.
— Preciso saber acerca dos implantes — disse ela, ao mesmo tempo que
massageava uma coxa. — Quero saber do que ele é capaz exatamente.
Terzibashjian fez um movimento com a cabeça.
— O pior são, como vocês dizer em inglês, os subliminais. Pronunciou a
palavra com quatro sílabas muito cautelosas.
— A nossa esquerda — informava o Mercedes, enquanto avançava por
um labirinto de ruas chuvosas —, encontra-se o Kapali Carsi, o grande
bazar.
Sentado ao lado de Case, o Finlandês produziu um ruído de apreciação:
contudo, olhava para a direção errada. No lado direito da rua alinhavam-se
pequenos cemitérios de sucata. Case reparou numa locomotiva aberta em
cima de fragmentos partidos e manchados de ferrugem, de mármore estriado.
Algumas estátuas de mármore estavam empilhadas como lenha.
— Com saudades? — perguntou Case.
— Este lugar é uma porra — desabafou o Finlandês.
A gravata de seda negra que trazia começava a parecer-se com uma fita
de impressora já gasta. As lapelas do terno novo estavam manchadas com
medalhões de molho de Kebab e ovo frito.
— Ouça, Jersey — disse Case ao armênio, que ia sentado no banco
traseiro do Mercedes —, em que lugar instalaram o material no cara?
— Em Chiba City. Não ter pulmão direito. O outro está artilhado, é
assim que dizem? Qualquer um pode comprar esses implantes, mas ele é
talentoso super. — O Mercedes fez um brusco desvio para evitar uma
carroça de pneus de balão, empilhada com couros. — Seguir ele na rua e vi,
num dia, muitas bicicletas caírem ao pé dele. No hospital a história é sempre
a mesma. Estava um escorpião pousado no freio...
— O que você vê é o que ele quer — comentou o Finlandês. — Vi o
esquema de silício do cara. Muita matéria. Aquilo que ele imagina, as
pessoas vêem. Calculo que ele poderia até reduzir a coisa a um único
impulso e fritar facilmente uma retina.
— Contar isso para sua amiga? — Terzibashjian inclinou-se para frente
entre os assentos de camurça. — Em Turquia, mulheres continuam a ser
mulheres. Esta...
O Finlandês bufou.
— Essa amiga minha é capaz de pôr os seus bagos em volta do pescoço,
90

como se fosse um laço, se você alguma vez a olhar torto.
— Não compreende este idioma.
— Não tem importância — disse Case. — Quer dizer, simplesmente,
feche o bico.
O armênio voltou a recostar-se no assento, exalando uma constante
fragrância de loção pós-barba. Começou a sussurrar para um emissorreceptor Sanyo, numa salada de grego, francês, turco e fragmentos isolados
de inglês. O aparelho respondia em francês. O Mercedes fez uma curva com
suavidade.
— O bazar das especiarias, por vezes chamado de bazar egípcio — dizia
o carro — , foi erigido no lugar de um bazar anterior, construído pelo sultão
Hatice em 1660. Aqui funciona o mercado central da cidade para especiarias,
software, perfumes, drogas...
— Drogas — repetiu Case, prestando atenção ao limpador de pára-brisas
que cruzava e recruzava o vidro Lexan à prova de bala. — Que é que você
disse, Jersey, acerca do cara ser viciado?
— Uma mistura de cocaína e meperidina, sim.
O armênio regressou à conversa que mantinha com o Sanyo.
— Costumavam chamar isso de demerol — informou ò Finlandês. —
Um autêntico artista com drogas. Anda com um tipo de gente muito curiosa,
Case.
— N ão f a z m a l — disse Case, levantando a gola do blusão. —
Arranjaremos um pâncreas novo, ou qualquer outra coisa do tipo, para o
pobre sacana.
Assim que entraram no bazar, foi visível a animação do Finlandês, como
se a densidade da multidão e a sensação de clausura em recinto fechado lhe
proporcionassem algum conforto. Acompanharam, juntamente com o
armênio, o movimento de uma razoável massa de gente que circulava sob
panos de plástico, sujos de fuligem, e ferro forjado, pintado de preto, saído
da Idade do Vapor. Por cima deles, talvez um milhar de anúncios suspensos
girava e cintilava.
— Meu Deus! — exclamou o Finlandês, agarrando Case pelo braço. —
Olha ali. —- Apontou. — É um cavalo, cara. Já viu alguma vez um cavalo?
C a s e o l h o u p a r a o a n i m a l e m b a l s a m a d o e s acudiu a cabeça
negativamente. Este estava em exibição sobre uma espécie de pedestal, junto
à entrada de uma loja que vendia pássaros e macacos. As pernas do bicho
estavam negras e sem cabelos, devido a desgaste provocado por tantas mãos
a passarem-lhe por cima durante decênios.
91

— Uma vez vi um, em Maryland — continuou o Finlandês — há uns
três anos depois da epidemia. Há árabes que continuam tentando reconstruílos a partir dos códigos do ADN, mas falham sempre.
Os olhos de vidro, castanhos, do animal pareciam segui-los, quando
passavam. Terzibashjian conduziu-os a um café próximo do centro do
mercado: uma sala de teto baixo que dava a idéia de estar em funcionamento
permanente desde séculos. Rapazinhos magros, vestindo casacos brancos,
sujos, circulavam com rapidez, driblando as mesas apinhadas de gente e
equilibrando bandejas de aço, cheias de garrafas de Tuborg turca e pequenas
xícaras de chá.
Case comprou um maço de Yeheyuans de um vendedor junto à entrada.
O armênio continuava murmurando para o Sanyo. — Venham — disse — ,
ela está movendo. Todas as noites fazer o túnel até o bazar, para comprar a
mistura do Ali. Sua mulher está próxima. Venham.
O beco era um lugar antigo, muito antigo; os muros eram constituídos de
blocos de pedra escura. O chão era irregular e cheirava à gasolina derramada
durante um século e absorvida por calcário, igualmente antigo.
— Não vejo porra nenhuma — sussurrou Case ao Finlandês.
— Parece que foi combinado — comentou este.
— Calados... — pediu Terzibashjian em voz muito alta.
Ouviu-se um ruído de madeira raspando pedra ou concreto. Dez metros
mais abaixo, no beco, um cone de luz amarela projetou-se sobre seixos
molhados no chão. Um vulto saiu e a porta tomou a produzir um som de
raspagem quando foi fechada, ficando o beco novamente imerso em
escuridão. Case estremeceu.
— Agora — disse Terzibashjian, e, diretamente do telhado do prédio
oposto ao mercado, um foco de luz brilhante colocou a figura esguia, junto
da porta de madeira, dentro de um círculo perfeito.
Os olhos vivos do homem olharam rapidamente para a esquerda e para a
direita; num instante; ele estava caído na chão. Case pensou que alguém o
atingira com um tiro; ele estava de bruços, com o cabelo louro-claro
espalhado sobre a pedra antiga do pavimento e as mãos nuas, brancas e
patéticas.
O foco continuava aceso e firme.
As costas do casaco do homem caído incharam e explodiram: sangue
esguichou pelas paredes e porta. Um par de braços de comprimento
impossível, cheio de tendões como cordas, moviam-se no clarão com uma
cor rosada. A coisa dava idéia de que ia subir por si mesma do chão, de
92

dentro da ruína inerte e sangrenta que havia sido o corpo de Riviera. Tinha
dois metros de altura, apoiava-se em duas pernas e parecia não ter cabeça.
Então girou lentamente para se colocar de frente para eles, e Case
observou que tinha de fato uma cabeça, mas não havia pescoço; também não
tinha olhos e a pele irradiava um cor-de-rosa úmido e intestinal. A boca, se
efetivamente se tratava de uma boca, era circular, cônica, oca e revestida por
tufos ferventes de pêlos ou cerdas, brilhando como cromo negro. Chutou os
farrapos de roupa e carne para o lado e avançou um passo; a boca, movendose, parecia varrer o ar para os localizar.
Terzibashjian proferiu algo em grego ou turco e correu para a coisa com
os braços estendidos como se tentasse mergulhar através de uma janela.
Passou por dentro dela: diretamente para o relâmpago da boca de uma
pistola, que se encontrava na zona escura, além do cone de luz. Por cima da
cabeça de Case sibilaram pedaços de pedra: o Finlandês empurrou-o para o
chão.
A luz do telhado desapareceu, deixando-o com imagens confusas de fogo
de arma, um monstro e um foco de luz branca. Os ouvidos zuniam.
Então a luz regressou, desta vez movimentando-se, para pesquisar as
zonas sombrias. Terzibashjian estava encostado a uma parede de aço com o
rosto muito branco e iluminado pelo foco do projetor. Segurava o punho da
mão e observava o sangue que pingava de uma ferida na mão esquerda. O
homem louro, de novo inteiro e limpo de sangue, jazia a seus pés.
Molly saiu da sombra, toda vestida de negro, com a flecheira na mão.
— Usem o rádio — disse o armênio, por entre os dentes que rangiam. —
Chamem Mahmut. Precisar tirar ele daqui. Local este não é bom.
— O viadinho quase que conseguia. — disse o Finlandês, ao mesmo
tempo que se erguia, com um estalido forte de joelhos e escovando as mãos,
sem qualquer resultado positivo, as pernas das calças. — Estava assistindo
ao show de horror, certo? Sem contar aquele hambúrguer que desapareceu
de vista. Muito engraçado. Bem, me dá uma mão pra levarmos este filho da
puta daqui pra fora. Tenho que inspecionar todo o equipamento com que ele
está armado antes que acorde. Preciso justificar a grana que o Armitage está
me pagando.
Molly abaixou-se e apanhou algo do solo. Uma pistola.
— Uma Nambu — disse. — Esplêndida arma.
Terzibashjian gemeu. Case reparou então que a maior parte do dedo
médio do armênio desaparecera.
93

Quando a cidade começou a ficar banhada pelo azul da pré-alvorada,
Molly disse ao Mercedes para os levar ao Topkapi. O Finlandês e um turco
enorme, chamado Mahmut, tinham tirado Riviera, ainda inconsciente, do
beco. Alguns minutos mais tarde, chegara um Citroen cheio de poeira para
transportar o armênio, que parecia estar à beira de desmaiar.
—Você é um bunda mole — dissera Molly ao homem, abrindo a porta
do carro. — Devia ter ficado onde estava. Ele estava na minha mira, desde o
momento em que surgiu. — Terzibashjian ficara olhando para ela. — Enfim,
sempre nos livramos de você. — Empurrara-o e fechara a porta. — Se o
encontrar outra vez no meu caminho, acabo com você — dissera ainda ao
rosto branco atrás do vidro pintado da janela do carro.
O Citroen avançara beco abaixo e virará, desajeitadamente, para a rua
principal.
A medida que a cidade acordava, o Mercedes deslizava sem o mínimo
ruído através de Istambul. Passaram o terminal do túnel de Beyoglu e
atravessaram velozmente labirintos de ruas laterais desertas e prédios de
apartamentos em mau estado, que lembravam a Case vagamente Paris.
—O que é esta coisa? — perguntou Molly, quando o Mercedes parou, e
estacionou a si mesmo na orla dos jardins que cercavam o Seraglio.
Case olhou, não muito interessado, para o amálgama de estilos que era o
Topkapi.
— Era uma espécie de bordel privativo do rei — disse ela, saindo do
carro e espreguiçando-se. — Mantinha aqui uma porrada de mulheres. Agora
é um museu. Do tipo da loja do Finlandês: a sucata toda amontoada,
diamantes grandes, espadas, a mão esquerda de João Batista...
— Carne de cultura?
—Não... Morta. Está dentro de uma coisa de metal, com uma pequena
portinhola ao lado, para que os cristãos a possam beijar. Dizem que dá sorte.
Tiraram-na dos cristãos há um milhão de anos e nunca mais limparam o pó
da merda da coisa, porque, dizem, "é uma relíquia de infiéis".
Alguns gamos de ferro preto enferrujavam nos jardins do Seraglio. Case
seguia ao lado de Molly, observando as pontas das suas botas que
esmagavam a grama maltratada, devido ao orvalho matinal. Caminhavam ao
lado de um caminho revestido de lajes octogonais. O inverno estava à
espera, em algum lugar nos Bálcãs.
— Esse Terzai é escória de primeira ordem — disse Molly. — Ele é a
polícia secreta. E um torturador. Mas, também, facílimo de comprar, com a
grana que o Armitage oferecia.
94

Os pássaros começavam a cantar nas árvores molhadas que se
encontravam em volta de ambos.
— Fiz o seu trabalho — disse então Case —, o de Londres. Consegui
saber alguma coisa, mas não faço idéia do significado que tem. E contou-lhe
a história de Corto.
— Bem, eu sabia que não havia ninguém com o nome de Armitage na
Garra Penetrante. Investiguei isso. — Fez uma festa no flanco enferrujado de
um gamo de ferro. — Você acha que o tal computador o livrou da coisa?
Naquele hospital francês?
— Eu acho que é o Wintermute — respondeu Case. A garota concordou
com a cabeça.
— A questão agora é a seguinte — continuou Case — você acha que ele
sabe que o cara havia sido Corto, anteriormente? Isto é, o cara não era
ninguém em especial, quando chegou à enfermaria, de maneira que
Wintermute talvez apenas...
— Hum, num... Foi construído a partir do nada, Case... - A garota deu
uma volta e prosseguiram o passeio. — Faz sentido. Veja bem, o cara não
tem vida privada de qualquer espécie. Pelo menos, até onde sei. Quando
encontramos um sujeito assim, pensamos que ele, quando está sozinho, fará
alguma coisa. Mas, com Armitage, não. Fica sentado olhando a parede. Só
quando algo faz um clique é que entra em ação e voa até Wintermute.
— Então por que é que ele tem aquele material escondido em Londres?
Nostalgia?
— Pode ser que ele não saiba — especulou ela. — Talvez só esteja em
seu nome.
— Não entendo... — comentou Case.
— Estava apenas divagando em voz alta... Case, até que ponto uma IA é
inteligente?
— Depende. Algumas não são muito mais inteligentes do que os cães.
São objetos de estimação. Mas, enfim, custam fortunas. As verdadeiramente
inteligentes são apenas até onde a Turing está disposto a deixar.
— Você é um cowboy. Por que é que não está fascinado por estas
coisas?
— Bem — respondeu —, em primeiro lugar, são raros. A maioria deles é
militar e não conseguimos entrar no seu ICE; a propósito, é de onde todo
ICE vem, sabia? E, depois, há os policiais da Turing, e aí é jogo duro. —
Case olhou-a de frente. — Não sei. Não dá tesão.
— Os jóqueis são todos iguais — comentou Molly. — Falta de
95

imaginação.
Chegaram a um vasto lago retangular, onde um pequeno cardume de
carpas nadava entre os caules de uma flor aquática qualquer. Com a ponta do
pé, Molly soltou um seixo, jogou-o na água e ficou olhando os pequenos
círculos que se espalhavam.
— Esse é o Wintermute — disse. — Parece que o negócio é grande
mesmo. Nós estamos na periferia, onde as ondas são mais largas, por isso
não conseguimos ver a pedra que atingiu o centro. Apenas sabemos que tem
qualquer coisa aí, mas não sabemos o que, nem porquê. Mas, eu quero saber
porquê. Quero que consiga falar com Wintermute.
— Eu nem consegui chegar perto. Está sonhando.
— Tente.
— Não é possível.
— Peça ao Linha Reta.
— Que é que queremos do Riviera? — perguntou então Case, na
esperança de mudarem de assunto.
A garota cuspiu para o lago.
— Deus é quem sabe. Preferia matá-lo a ter que olhar pra ele. Vi bem o
perfil dele: trata-se de uma espécie de Judas compulsivo. Não é capaz de se
excitar sexualmente se não souber que está traindo o objeto do desejo. É isso
o que está na sua ficha. E elas ainda têm que sentir amor por ele. No fundo,
talvez ele também as ame. Foi por isso que o Terzai não teve dificuldade em
entregá-lo a nós. Ele trabalhou lá durante três anos, no recrutamento de
agentes políticos para a polícia secreta. Provavelmente, o Terzai deixava-o
observando o gado que aparecia; conseguiu fazer dezoito nesses três anos:
todos mulheres de idades entre vinte e vinte e cinco anos. Mantinham o
Terzai por dentro dos dissidentes. — Enfiou as mãos nos bolsos do blusão.
— Se encontrava com uma garota que, de fato, queria muito, tratava de fazer
tudo pra que ela se tornasse política. Ele tem uma personalidade como uma
roupa de um Moderno. 0 perfil diz ainda que se trata de um tipo muito raro,
calculado existir um em dois milhões; o que, enfim, sempre representa algo
de positivo quanto à natureza humana, creio eu. — Molly fixou o olhar nas
flores brancas e nos peixes, com uma expressão amarga. — Creio que tenho
que fazer um seguro especial qualquer pra mim.
Nessa hora, voltou-se e sorriu, e o tempo tinha-se tornado bastante frio.
— O que é que você quer dizer com isso?
— Não ligue. Voltemos a Beyoglu e arranjemos qualquer coisa, como,
por exemplo, um café da manhã. Esta noite ainda tenho que fazer: ir pegar as
96

coisas do cara naquele apartamento em Fener, voltar ao bazar pra comprar as
drogas...
— Comprar drogas? Até que ponto então é que ele se droga? A garota
riu.
— Bem, não morre por falta, mas também parece que não consegue
trabalhar sem a sua mistura especial. Gosto mais de você agora. Já não tem
aquele ar miserável que tinha. — Sorriu. — Bem, vou então ao Ali me
abastecer.
Armitage encontrava-se à espera no quarto de ambos do Hilton.
— Está na hora de fazer as malas — disse.
Case fez um esforço para ver o homem chamado Corto por trás dos olhos
azuis e da máscara bronzeada. Pensou no Wage em Chiba. Ele bem sabia
que os operadores acima de um certo nível tendem a submergir as suas
personalidades. Mas o Wage tivera vícios, amantes. Até mesmo, havia
constado, filhos. O vazio que encontrava em Armitage era uma outra coisa.
— Pra onde, agora? — perguntou, passando junto ao homem que olhava
pela janela a rua lá embaixo. — Pra que tipo de clima vamos?
— Lá não tem clima; apenas tempo — respondeu Armitage. — Tome.
Leia os folhetos. Colocou algo sobre a mesinha de café e levantou-se. — O
Riviera já está em condições? Onde é que está o Finlandês?
— O Riviera está bom. O Finlandês está voltando pra casa.
Armitage sorriu um sorriso que queria dizer tanto quanto o ligeiro
movimento da antena de um inseto. A pulseira de ouro tilintou quando deu,
com a mão, um toque no peito de Case.
— Não dê uma de esperto. Esses saquinhos estão começando a mostrar
sinais de desgaste, mas você não sabe quanto.
Case manteve a cara quieta e forçou um aceno de cabeça. Quando
Armitage partiu, pegou um dos folhetos. Tinha sido dispendiosamente
impresso em francês, inglês e turco.
FREESIDE —POR QUE ESPERAR ?
Os quatro tinham passagens reservadas para um vôo THY, que partia do
aeroporto de Yesilköy. A escala para o ônibus espacial JAL era feito em
Paris. Case estava sentado no vestíbulo do Istambul Hilton e observava
Riviera que olhava as imitações de fragmentos bizantinos na vitrine de uma
loja. Armitage, com a capa sobre os ombros como se fosse um manto, estava
em pé à porta da loja.
97

Riviera era magro, louro, de voz suave e com um inglês sem sotaque e
fluente. Molly dissera que ele tinha 30 anos, mas era difícil adivinhar sua
idade. Ela também informara que ele, legalmente, era um apátrida e viajava
com um passaporte holandês falsificado. Ele era produto do cinturão de
entulho que cercava o núcleo radioativo da velha Bonn.
Três turistas japoneses sorridentes entraram com um certo alvoroço na
loja, fazendo para Armitage uma saudação delicada. Armitage atravessou o
pavimento da loja com demasiada rapidez, óbvia demais, para ficar ao lado
de Riviera. Este voltou-se e riu. O sorriso era belo: Case presumiu que
aquelas feições seriam a obra de um cirurgião de Chiba.
Tratava-se de um trabalho sutil; nada como a mistura, vagamente bonita,
de faces pop, em Armitage. A testa do homem era alta e macia, os olhos
cinzentos calmos e distantes. O nariz, que podia ter sido excelentemente
esculpido, parecia ter sido partido e desastradamente reconstruído. A
sugestão de brutalidade contrariava a delicadeza do queixo e a rapidez do
sorriso. Os dentes eram pequenos, regulares e muito brancos. Case observou
as mãos claras que se moviam por cima dos fragmentos de imitação da
escultura.
Riviera não se comportava como um homem que fora atacado na noite
anterior, drogado com uma flecha-toxina, raptado, sujeito ao exame do
Finlandês e pressionado por Armitage para se juntar à equipe.
Case verificou as horas no relógio. Molly devia estar chegando da sua
expedição para compra de droga. Olhou novamente para Riviera. — Aposto
que você está se cagando, seu puto — disse no vestíbulo do Hilton.
Uma matrona italiana grisalha, com um casaco de couro branco, baixou
os óculos Porsche e fixou o olhar nele. Case sorriu, mostrando os dentes,
levantou-se e pôs a mochila no ombro. Não tinha cigarros. Perguntou a si
mesmo se não haveria uma zona para fumantes no ônibus espacial JAL.
— Até mais, minha senhora — disse à mulher, que de imediato
empurrou os óculos de volta ao nariz e voltou o rosto para o outro lado.
Havia cigarros na loja de recordações; porém, não queria falar com
Armitage ou Riviera. Abandonou o vestíbulo e conseguiu localizar um
automático num nicho estreito no fim de uma fila de telefones públicos. O
telefone que estava mais próximo dele tocou.
Instintivamente, levantou o telefone.
— Sim?
Ouviram-se sons harmônicos, vozes minúsculas inaudíveis, tagarelando
ao longo de alguma ligação orbital, e finalmente um som como vento.
98

— Alô, Case.
A moeda de 50 liras caiu da sua mão e rolou pelo tapete do Hilton, até
ficar fora do alcance da vista.
— É Wintermute, Case. É a hora de falarmos. Era uma voz
computadorizada.
— Não quer conversar, Case? Case desligou.
No regresso ao vestíbulo, esquecidos os cigarros, tinha de caminhar ao
longo dos telefones. Cada um deles tocou, uma vez só, à medida que
passava.

99

MEIA NOITE NA RUA JÚLIO VERNE

100

8
Arquipélago. As ilhas. A base cilíndrica, o eixo, a constelação. ADN
humano escorrendo do poço da gravidade como uma mancha de óleo.
Corra na tela de um monitor um gráfico que simplifique, a grosso modo,
a troca de dados no arquipélago orbital L-5. Há um setor que fica cintilando
em vermelho-vivo: um retângulo maciço que domina a tela.
Freeside. Freeside são muitas coisas, se bem que nem todas elas sejam
evidentes aos turistas que vêm e vão pelo poço da gravidade. Freeside é
prostíbulo e núcleo bancário, palácio de prazer e zona franca, cidade de
fronteira e termas. Freeside é Las Vegas e os Jardins Suspensos da
Babilônia, uma Genebra em órbita e lar de uma família nascida e refinada
com o máximo apuro: o clã industrial de Tessier e Ashpool.
Na linha THY para Paris, sentaram-se na primeira classe: Molly à janela,
Case ao seu lado, Riviera e Armitage atrás. Quando o avião rasava a água,
Case notou o brilho de jóia preciosa de uma ilha grega. E, mais adiante, ao
estender a mão para um copo à sua frente, algo como esperma humano
gigante cintilou no fundo do seu bourbon e água.
Molly debruçou-se na sua frente e bateu com a mão na cara de Riviera.
— Não, meu filho. Nada de brincadeiras. Se brincar mais com essa
merda subliminal perto de mim, você se fode de verdade. Eu faço isso sem
estragar o que quer que seja em você. Me dá o maior tesão.
Case virou-se automaticamente para ver a reação de Armitage. A face
macia deste tinha um aspecto calmo e os olhos azuis estavam alertas, mas
não havia neles um só indício de estar zangado.
— Ela tem razão, Peter. Não faça isso.
Case voltou-se de novo para a frente, a tempo de captar a rapidíssima
imagem de uma rosa negra de pétalas lustrosas como couro e a haste
preta, com espinhos, de cromo brilhante.
Peter Riviera sorriu com brandura, fechou as pálpebras e adormeceu
instantaneamente.
Molly virou-se para o outro lado. As lentes ficaram refletindo-se na
janela escura.
— Já esteve lá em cima, não é? — perguntou Molly, quando Case
101

regressava à espessa espuma plástica dos assentos no ônibus espacial da
JAL.
— Não. Nunca viajei muito. Só a trabalho.
A aeromoça aplicava eletrodos de leitura no seu pulso e orelha.
— Espero que não apanhe SAE — disse a moça.
— Enjôo? De maneira nenhuma.
— Não é bem a mesma coisa. Na gravidade zero, o coração acelera, a
pulsação e o ouvido interno ficam prejudicados durante um bom período. O
reflexo de fuga das pessoas é ativado, fazendo com que sintamos vontade de
começar a correr o mais rapidamente possível, e há também um aumento de
adrenalina. A aeromoça passou para Riviera, tirando um novo conjunto de
eletrodos do avental de plástico vermelho.
Case virou a cabeça e tentou distinguir as linhas do velho terminal de
Orly, mas viu apenas o contorno do ônibus espacial aparecendo pelos
defletores no concreto úmido. Havia também um slogan árabe em vermelho.
Case fechou os olhos e disse a si mesmo que o ônibus espacial era
apenas um grande avião, um avião que voava muito alto. Tinha os odores de
um avião, como roupa nova e chiclete e fumaça de escapamento. Escutou a
música koto que o sistema de bordo transmitia e aguardou.
Após vinte minutos, a gravidade caiu em cima dele como se fosse uma
enorme mão macia com ossos de rocha antiga.
O SAE, síndrome de adaptação ao espaço, era pior do que a descrição,
mas passou com uma certa rapidez e Case conseguiu enfim dormir. A
aeromoça acordou-o quando a nave se preparava para aterrissar na estação
terminal da JAL.
— É aqui que fazemos escala pra Freeside? — perguntou, olhando uma
partícula de tabaco Yeheyuan , que deslizara graciosamente do bolso da
camisa, a dez centímetros do seu nariz. Não era permitido fumar nos vôos do
ônibus espacial.
— Não, senhor. O que vamos ter em seguida é a habitual mudança de
planos do patrão. Vamos tomar um táxi pra Zion. O Grupo Zion. — Molly
tocou no fecho que soltava o cinto de segurança e começou a libertar-se do
abraço da espuma. — Escolha engraçada de lugar, se você quer saber.
— Como assim?
— Assombroso. Rastafaris. A colônia deles tem agora uns trinta anos de
existência.
— E o que isso quer dizer?
— Você vai ver. Por mim, um lugar legal. De qualquer forma, lá eles
102

deixam você fumar os seus cigarros.
Zion fora fundada por cinco trabalhadores que, depois de terem recusado
regressar, voltaram as costas ao poço de gravidade e começaram a construir.
Sofreram deficiências de cálcio e atrofia do coração, antes que a gravidade
rotativa fosse estabelecida na base central da colônia. Visto da cúpula do táxi
em forma de bolha, o casco artificial de Zion fazia Case se lembrar das
habitações de chapas de madeira de Istambul: placas irregulares e
descoloridas, rabiscadas a laser com símbolos rastafarianos e as iniciais dos
soldadores.
Molly e um zionita magricela chamado Aerol ajudaram Case a negociar
um corredor de queda livre, no núcleo de uma base menor. Perdera o rastro
de Armitage e Riviera ao despertar de uma segunda onda de vertigem SAE.
— Repare — disse Molly, enfiando as pernas por uma abertura na parte
superior. — Agarre-se no corrimão e aja como se estivesses subindo por trás.
Está descendo pelo casco e isso significa que está subindo pra baixo na
direção da gravidade. Entendeu?
O estômago de Case agitou-se violentamente.
— Você ficar bem, homem — disse Aerol, arreganhando os dentes e
exibindo os incisivos de ouro.
Curiosamente, o fim do túnel tornara-se o fundo. Case precipitou-se para
a fraca gravidade como um homem que estivesse se afogando e encontrasse
uma bolsa de ar.
— Levanta — disse Molly. — Só falta começar a beijar o chão. — Case
jazia prostrado no solo, de ventre para baixo, com os braços estendidos.
Sentiu qualquer coisa tocar-lhe no ombro; voltou-se e percebeu um feixe de
cabos elásticos. — Temos de arrumar a casa. Ajude-me a enfiar esta coisa.
Case percorreu com o olhar o vasto espaço a sua volta e reparou na
existência de argolas de aço soldadas por todas as superfícies, aparentemente
ao acaso.
Quando acabaram de prender os cabos, de acordo com um esquema
complicado, que Molly fora indicando, penduraram nele folhas de plástico
amarelo. Enquanto trabalhavam, Case deu-se gradualmente conta da música
que vibrava sem cessar. Chamavam-lhe dub e era um mosaico sensual,
produzido a partir de várias coleções de discos de pop digitalizados. Molly
dizia que se tratava de adoração e sentido de comunidade. Case levantou
uma das folhas amarelas; a coisa não era pesada, mas, mesmo assim, era
incômoda. Zion cheirava a vegetais cozidos, humanidade e erva.
103

— Ótimo — comentou Armitage, deslizando com os joelhos no ar
através da escotilha de acesso e acenando com a cabeça para o labirinto de
folhas amarelas.
Riviera surgiu logo a seguir, mas mostrava-se mais incerto na sua reação
à gravidade parcial.
— Onde é que você estava quando era necessário? — perguntou Case a
Riviera.
O homem abriu a boca para falar. Porém, uma truta saiu da sua boca,
arrastando atrás de si algumas bolhas impossíveis; passou a nadar ao lado de
uma das faces de Case.
— Na cabeça — respondeu Riviera, sorrindo. Case deu uma gargalhada.
— Está bem — acrescentou Riviera — , pode rir à vontade, mas eu não
sou bom em trabalhos manuais. Ergueu as palmas de ambas as mãos;
subitamente, estas duplicaram; quatro braços e quatro mãos.
— Nada de fazer sacanagem agora, certo, Riviera? Molly avançou até se
colocar entre eles.
— Você quer vir com mim, cowboy homem — falou Aerol da escotilha.
— É o seu sistema — disse Armitage — e o resto do equipamento. Dê
uma mãozinha pra ele retirar do depósito de carga.
— Você muito pálido, homem — disse Aerol, enquanto transportavam o
Hosaka, envolvido em espuma, pelo corredor. — Você talvez querer comer
uma coisa.
Case sentiu a boca inundar-se de saliva; disse que sim com a cabeça.
Armitage anunciou que iriam ficar 80 horas em Zion. Molly e Case se
exercitariam, entretanto, na gravidade zero, disse, fariam exercícios de
aclimatação para serem capazes de trabalhar nesse nível de pressão. Também
lhes daria instrução sobre Freeside e a Villa Straylight. Não ficou claro o que
é que Riviera teria para fazer, mas Case não sentiu vontade nenhuma de
perguntar. Poucas horas após a chegada, Armitage tinha mandado chamar
Riviera, ao labirinto amarelo, para este ir comer. Encontrara-o, enrascado
como um gato, sobre uma placa fina de espuma plástica. Estava nu,
aparentemente adormecido, com a cabeça rodeada por uma auréola giratória
de pequenas formas geométricas: cubos, esferas, pirâmides.
— Ei, Riviera! — O anel continuava rodando. Regressara e contara a
situação a Armitage. — Está viajando! — disse Molly. — Deixa ele assim.
Armitage temia que a gravidade zero afetasse a capacidade de Case de
trabalhar na matriz. — Não se preocupe — argumentou Case. — Eu ligo,
104

entro e já não estou aqui. É sempre a mesma coisa.
— Os seus níveis de adrenalina estão mais elevados — disse Armitage.
— Ainda sofre de SAE e não há tempo para isso desaparecer. Tem de
aprender a trabalhar nessas condições.
— Então a operação vai ser feita a partir daqui?
— Não. Pratique, Case. Agora mesmo, lá em cima, no corredor...
O ciberespaço, tal como o sistema o revelava, não apresentava qualquer
relação particular com o ambiente físico em que estava instalado. Assim que
Case entrou, os seus olhos abriram-se para a configuração familiar da
pirâmide asteca de dados da Eastern Seabord Fission Authority.
— Como é que vai, Dixie?
— Estou morto, Case. Tive tempo de sobra no Hosaka pra chegar a essa
conclusão.
— Como é que isso o faz sentir?
— Não faz.
— Incomoda?
— O que me incomoda é que nada me incomoda.
— Como assim?
— Havia um camarada num acampamento russo que tinha um polegar
gelado. Vieram os médicos e tiveram de cortá-lo. Um mês mais tarde, senti
que ele se agitava muito. Elroy, disse eu, que é que há? A merda do polegar
está cocando, respondeu. Então, eu sugeri, coce. McCoy, respondeu, é a
merda do outro polegar. — Quando o spectrom riu, foi como se outra coisa,
que não a gargalhada, tivesse saído da sua boca; arrepio de frio pela espinha
de Case abaixo. — Me faz um favor, garoto?
— Fala, Dix?
— Quando acabar esse seu serviço, apague essa merda. Está bem?
Case não compreendia os zionitas. Aerol, sem qualquer tipo de
provocação, começara a contar-lhe a história de um bebê que havia saltado
da sua testa e começara a correr rapidamente para uma floresta de erva
hidropônica: "Bebê muito pequeno, homem, não mais comprido que dedo."
Esfregara a palma da mão por uma extensão, sem cicatrizes, de testa
castanha e sorrira.
— É a erva — dissera Molly, quando Case lhe contara a história. — Eles
não fazem distinção de estados. Aerol falou o que aconteceu. Pois bem,
aconteceu pra ele. Não é conversa fiada, é como se fosse poesia, sacou?
Case balançou a cabeça, com ar de dúvida. Os zionitas tocavam sempre
105

no interlocutor, quando falavam com as pessoas. Colocavam ambas as mãos
nos ombros. Isso não agradava nada a Case.
— Ei, Aerol — chamou Case, uma hora mais tarde, quando se preparava
para uma sessão de prática no corredor de queda livre. — Venha cá, cara.
Quero mostrar esta coisa. Estendeu-lhe os dermatrodos.
Aerol executou uma cambalhota em câmara lenta. Os pés nus bateram na
parede de aço, e com a mão livre agarrou uma viga; a outra mão segurava
um saco de água, transparente, cheio de algas de cor turquesa. Piscou
levemente os olhos e arreganhou os dentes.
— Experimente — disse-lhe Case.
Pegou na fita com os dermatrodos e fixou-a na cabeça. Case ligou o
sistema. O homem estremeceu. Case fê-lo então regressar.
— Que é que viu, cara?
— Babilônia — respondeu, tristemente, estendendo-lhe os dermatrodos e
correndo, aos pontapés no espaço, pelo corredor abaixo.
Riviera sentava-se imóvel na sua placa de espuma, com o braço direito
estendido ao nível do ombro. Uma serpente, com escamas que pareciam
jóias, estava enrolada em espiral alguns centímetros abaixo do seu braço.
Case observou a serpente, da espessura de um dedo e às listas pretas e
vermelhas, quando ela, lentamente, se contraiu em volta do braço de Riviera,
apertando-o.
— Vamos lá — disse o homem, afagando o escorpião claro e lustroso
que pousava no centro da palma da mão voltada para cima. — Vamos.
O escorpião balançou de um lado para o outro as presas castanhas e
deslocou-se com rapidez pelo braço acima; as manchas escuras das veias
orientavam-lhe as patas na marcha. Quando atingiu a parte interior do
cotovelo, estacou e pareceu entrar em vibração. Riviera produziu um som
suave, mas sibilante. O ferrão ergueu-se, estremeceu e afundou-se na pele
por cima de uma veia intumescida. A serpente coral relaxou e Riviera
suspirou com lentidão, ao mesmo tempo que a injeção começava a fazer
efeito. Nessa hora a serpente e o escorpião desapareceram e ele ficou com
uma seringa plástica, leitosa, na mão esquerda.
— Se Deus fez qualquer coisa melhor do que isto, certamente que
guardou para si. Conhece a expressão, Case?
— Claro — respondeu Case. — Já a ouvi a propósito de montes de
outras merdas. Você transforma isso sempre num espetáculo?
Riviera aliviou e retirou a extensão elástica de tubo cirúrgico do braço.
106

— Com certeza. Tem muito mais graça. — Sorriu, com os olhos
distantes e as maçãs do rosto congestionadas. — Tenho uma membrana
precisamente em cima da veia, de maneira que nunca me preocupo com o
estado da agulha.
— Dói?
Os olhos brilhantes enfrentaram os de Case.
— Claro que dói. Isso faz parte do prazer, não é?
— Só uso dermos — disse Case.
— Coisa de viado — Riviera fez um trejeito e riu, enquanto vestia uma
camisa de algodão branca de mangas curtas.
— Deve ser demais — comentou Case, levantando-se.
— Também viaja, Case?
— Tive de deixar.
— Freeside — disse Armitage, mexendo no painel do pequeno projetor
Braun de hologramas. A imagem, com quase três metros, tremeu até ficar
focada. — Aqui são os cassinos. — Dirigiu-se para representação e apontou.
— Hotéis, propriedades de títulos estratificados, grandes lojas, neste lugar.
— A mão moveu-se. — As zonas azuis são lagos. — Deslocou-se até ao
outro extremo do modelo. — Um grande charuto. Fica mais estreito nas
pontas.
— Dá pra ver — comentou Molly.
— É o efeito de montanha, à medida que estreita. O solo parece ficar
mais alto, mais rochoso, mas é uma escalada fácil. Quanto mais alto se sobe,
mais baixa é a gravidade. Pratica-se esporte ali em cima. Aqui há um
velódromo.
Continuava apontando.
— Um quê? — Case inclinou-se para frente.
— Bicicletas de corrida — disse Molly. — À baixa gravidade e com
pneus de alta tração, as bicicletas chegam a fazer mais de cem quilômetros
por hora.
— Este lugar não nos interessa — disse Armitage, com a sua extrema
seriedade usual.
—O caralho — exclamou Molly. — Sou uma ciclista e das boas.
Riviera deu uma risada.
Armitage dirigiu-se ao extremo oposto da projeção.
— Este lugar, sim. — O pormenor interior do holograma terminava aí, e
o setor final do fuso se encontrava vazio. — Aqui é a Villa Straylight. Uma
107

escalada íngreme, fora da gravidade, com todas as abordagens arriscadas. A
única entrada fica aqui, mesmo no centro. Gravidade zero.
— Que é que tem lá dentro, patrão? Riviera debruçou-se para frente,
curvando o pescoço. Quatro figurinhas brilharam junto à ponta do dedo de
Armitage, que lhes deu uma palmada como se fossem mosquitos.
— Peter — disse Armitage — , você vai ser o primeiro a descobrir. Tem
de conseguir arranjar um convite. Quando estiver lá dentro trate de descobrir
um jeito da Molly entrar.
Case ficou olhando o vazio que representava Straylight, lembrando-se da
história do Finlandês: Smith, Jimmy, a cabeça falante e o ninja.
— Mais alguma coisa? — perguntou Riviera. — Preciso planejar o meu
guarda-roupa, certo?
— Grave as ruas — prosseguiu Armitage, voltando ao centro do modelo.
— Aqui fica a Rua Desiderata. Esta é a Rua Júlio Verne.
Riviera girou os olhos. Enquanto Armitage recitava os nomes de
avenidas de Freeside, cresciam-lhe no nariz, nas faces e no queixo uma dúzia
de pústulas brilhantes. Até Molly riu. Armitage fez uma pausa e olhou-as
com os seus olhos frios e vazios.
— Desculpe — disse Riviera, ao mesmo tempo que as crostas cintilavam
e desapareciam.
Case acordou, tarde do período para dormir, e sentiu Molly, aninhada a
seu lado na espuma. Podia sentir a tensão da garota. Deixou-se ficar,
confuso. Quando a garota se movia, a rapidez ligeira com que o fazia
espantava-o sempre. Molly levantou-se da cama e pôs-se do outro lado da
folha de plástico amarelo antes que ele tivesse tempo de perceber que ela
havia corrido.
— Não se mexa, amigo.
Case voltou-se e meteu a cabeça através da abertura no plástico.
— Que...
— Cala a boca.
— Vocês são, homem — disse uma voz zionita —, Olho de Gato e
Lâmina Cortante. Eu, irmã, Maelcum. Irmãos querer conversar com você e
cowboy.
— Que irmãos?
— Fundadores, homem. Anciãos de Zion, sabe...
— Se abrimos a escotilha, a luz acorda o patrão — murmurou Case.
— Então faz escuro especial, agora — disse o homem. — Vem. Eu e eu
108

visitar os Fundadores.
— Sabe com que rapidez eu posso cortá-lo em pedaços, amigo?
— Não ficar em conversa, irmã. Vem.
Os dois fundadores sobreviventes de Zion eram dois velhos, velhos do
envelhecimento acelerado que atinge quem passa muitos anos fora do abraço
da gravidade. As suas pernas morenas, frágeis por causa da perda de cálcio,
pareciam quebradiças à luz viva do clarão povoado pelo sol refletido.
Flutuavam no centro de uma floresta pintada de folhas multicoloridas, um
mural comunal, lúgubre, que cobria completamente o interior da câmara
esférica. A atmosfera estava espessa de fumaça resinosa.
— A Lâmina Cortante — disse um deles, quando Molly entrou na
câmara. — Como um chicote.
— É uma história que temos, irmã — disse o outro — , uma história
religiosa. Deu-nos muito prazer que tivessem acompanhado o Maelcum.
— Então vocês não falam o dialeto dos outros?
— Eu sou de Los Angeles — disse o ancião. O cabelo era como uma
árvore retorcida com ramos da cor de palha de aço. — Há muito tempo, subi
o poço da gravidade para longe da Babilônia. Para conduzir as tribos à casa.
Agora o meu irmão acha semelhante à Lâmina Cortante.
Molly estendeu a mão direita e as lâminas faiscaram no ar fumarento.
O outro Fundador riu, deixando cair a cabeça para trás. — Os Dias
Finais estão chegando... Vozes. Vozes clamando no deserto, profetizando a
ruína da Babilônia...
— Vozes. — O Fundador vindo de Los Angeles fitava Case. — Nós
monitoramos muitas freqüências. Estamos sempre à escuta. Uma voz
apareceu, vinda da Babel das Línguas, e falou-nos. E tocou-nos música
importante.
— Chamem-lhe Winter Mute — disse o outro, pronunciando o nome
como se fossem duas palavras.
Case sentiu a pele dos braços se arrepiar.
— Mute nos falou — disse o primeiro Fundador. — Mute nos pediu que
os ajudássemos.
— Quando é que foi isso? — perguntou Case.
— Trinta horas antes de terem ancorado em Zion.
— Alguma vez antes tinham ouvido a voz?
— Não — disse o homem de Los Angeles — , e não sabemos bem o que
quis dizer. Se estamos nos Dias Finais, devemos esperar o aparecimento de
109

falsos profetas...
— Escutem — disse Case —, isso é uma IA, percebem? Inteligência
Artificial. A música que tocou pra vocês provavelmente foi pirateada dos
seus arquivos e arranjada pra soar o que vocês gostariam de ouvir.
— Babilônia — interrompeu o outro Fundador — é a mãe de muitos
demônios, eu e eu sei. A horda da multidão!
— Por que me chamou? — perguntou Molly.
— Lâmina Cortante. Você traz a maldição para Babilônia, irmã, ao seu
coração mais negro...
— Que tipo de mensagem a voz deu? — perguntou Case.
— Nos disse para lhes ajudar — informou o outro. — Que vocês podiam
servir de instrumento para os Dias Finais. — A face enrugada denotava
preocupação. — Nos disse para mandarmos Maelcum com vocês, no seu
rebocador Garvey até ao porto Freeside de Babilônia. E isso faremos.
— Maelcum é um rapaz rude — disse o outro — , mas é ótimo piloto de
rebocadores.
— E decidimos mandar também Aerol, no Babylon Rocker, para escoltar
O Garvey.
Um silêncio desconfortável encheu o espaço.
— É tudo? — perguntou Case. — Vocês trabalham pro Armitage, ou
quê?
— Nós lhe alugamos o espaço — disse o Fundador de Los Angeles. —
Temos aqui um certo envolvimento «m diversos tráficos e nenhum respeito
pela lei de Babilônia. A nossa lei é a lei de Jah. Mas desta vez pode
acontecer de termos nos enganado.
— Mede uma vez, corta duas — disse o outro com suavidade.
— Vamos embora, Case — falou então Molly. — Vamos voltar antes
que o homem perceba que nós saímos.
— Maelcum irá acompanhar vocês. Vá com o amor de Jah, irmã.

110

9

O rebocador Marcus Garvey, um tambor de aço de nove metros de
comprimento por dois de diâmetro, estalou e tremeu todo quando Maelcum o
comandou numa manobra apertada de navegação. Instalado na sua rede
plástica gravitacional, Case observava as costas musculosas do zionita,
através de um nevoeiro de escopolamima. Tomara a droga para suportar
melhor os efeitos do SAE, mas os estimulantes, que o fabricante incluía para
contrariar o alcalóide, não produziram quaisquer efeitos no seu sistema
cirurgicamente renovado.
— Quanto tempo nos falta pra chegarmos a Freeside? — perguntou
Molly da sua rede, localizada ao lado do módulo de pilotagem onde se
encontrava Maelcum.
— Não ser muito tempo agora, dizer eu.
— Vocês nunca pensam em termos de horas?
— Irmã, deixar tempo ser tempo, perceber? Respeito — acrescentou,
balançando a mecha do cabelo — no comando e eu e eu chegar a Freeside
quando eu e eu chegar.
— Case — disse ela —, por acaso já fez alguma coisa pra entrar em
contato com o nosso amigo de Berna? Por exemplo, durante todo aquele
tempo que passou em Zion, ligado ao aparelho, mexendo os lábios?
— Amigo? — reagiu Case. — Claro. Não, não fiz. Mas tenho uma
história maluca sobre o mesmo tema, que tenho desde Istambul.
E contou-lhe sobre o que acontecera com os telefones no Hilton.
— Puta que pariu, lá se foi uma oportunidade. Por que você não falou?
— Bem, podia ser uma pessoa qualquer... — mentiu. — Era apenas um
chip... Olha, não sei...
E encolheu os ombros.
— Não é porque ficou com medo, hein?
Encolheu os ombros, de novo.
— Faz agora.
— O quê?
— Agora. "Merda, fala com o Linha Reta sobre isso.
— Estou todo drogado — protestou, mas foi pegando os dermatrodos.
Havia montado o terminal e o Hosaka atrás do módulo de Maelcum,
111

juntamente com um monitor Cray de alta resolução.
Apertou os dermatrodos. O Marcus Garvey fora montado a partir de um
tanque russo de depuração de gás, uma coisa retangular borrada com
símbolos rastafarianos, Leões de Zion e inscrições dos Black Star Lines; os
verdes, os vermelhos e os amarelos tinham sido pintados por cima de
adesivos com palavras em alfabeto cirílico. Alguém pintara ainda com spray
cor-de-rosa-tropical o equipamento de pilotagem de Maelcum, raspando em
seguida a tinta nas telas e nos mostradores dos instrumentos com uma lâmina
de barbear. As juntas de vedação em volta da caixa de ar, no bojo, estavam
fixadas por meio de glóbulos semi-rígidos e jatos de calafetagem
transluzente, dando a idéia de cordões mal alinhavados, feitos de uma
imitação de sargaço.
Case olhou, por cima do ombro de Maelcum, a tela central e observou a
representação que aparecia: a rota do rebocador era indicada por uma linha
de pontos vermelhos e Freeside por um círculo verde segmentado. Por um
instante, prestou atenção à linha, quando esta se estendia, gerando um novo
ponto.
Ligou-se e entrou.
— Dixie?
— Sim...
— Alguma vez tentou penetrar numa IA?
— Claro. Foi quando fiquei em linha reta pela primeira vez.
Estava brincando com o aparelho; tinha entrado forte dentro do setor
comercial, muito denso, do Rio de Janeiro. Grandes negociatas,
multinacionais, o governo brasileiro iluminado como uma árvore de Natal.
Como disse, andava somente brincando por ali, percebe? Foi então que
comecei a implicar com um cubo que se encontrava a talvez uns três níveis
acima. Fui até lá e fiz uma tentativa.
— Qual era o aspecto, o visual?
— Apenas um cubo branco.
— Como é que soube que era uma IA?
— Como é que soube? Porra, era o ICE mais denso que jamais tinha
visto. E que outra coisa podia ser? Os militares, naquelas bandas, não têm
nada parecido com isso. Enfim, voltei atrás e dei instruções ao meu
computador para dar uma espiada.
— E então?
— Estava inscrito nos registros da Turing. Uma corporação possuía o
seu computador central.
112

Case mordeu o lábio inferior e varreu com o olhar a plataforma da
Eastern Seabord Fission Authority até o infinito vazio, neuroeletrônico, da
matriz.
— Era Tessier-Ashpool, Dixie?
— Tessier? Era, sim.
— E você voltou lá?
— Claro. Estava doido. Pensei que não perdia nada tentando penetrar lá.
Atingi os primeiros estratos, mas foi tudo que consegui obter. O meu
aprendiz da época sentiu o cheiro da pele frita e me arrancou os
dermatrodos. Uma merda muito sacana, aquele ICE.
— Foi então que a linha do seu EEG ficou reta?
— Bem, é isso que reza a lenda, não é?
Case saiu. — Caralho — disse. — Como é que você acha que o Dixie
ficou em Unha reta, hein? Ele tentou penetrar numa IA. Incrível...
— Vá em frente — disse Molly —, vocês dois são fodas, não é verdade?
— Dix — disse Case. — Quero dar uma olhada numa IA em Berna.
Sabe de alguma razão pra não fazer?
— Não. A não ser um medo mórbido da morte, nenhuma.
Case dirigiu-se para o setor de bancos de dados suíços, sentindo uma
onda de bom humor, à medida que o ciberespaço estremecia, se desfocava e
se tomava gelatinoso. A Eastern Seabord Fission Authority desaparecera,
substituída pela fria complexidade geométrica dos bancos de dados
comerciais de Zurique. Manobrou de novo, desta vez para Berna.
— Mais pra cima — orientou o spectrom. — Tem que ficar bem acima.
Subiram rendas de luz, níveis pulsantes, uma cintilação azul.
— Deve ser aqui — pensou Case.
Wintermute era um cubo simples de luz branca, cuja simplicidade
sugeria uma complexidade extrema.
— Tem um ar pouco impressionante, não tem? — disse o Linha Reta. —
Mas tente só tocá-lo...
— Vou fazer uma tentativa, Dixie.
— À vontade...
Case ligou para uma aproximação ao cubo de quatro pontos da grelha. A
face nua e exposta, imponente, por cima dele, começou a fervilhar de
sombras interiores fracas, como se mil bailarinos volteassem por trás de uma
chapa de vidro granulado.
— Já sabe que estamos aqui — observou o Linha Reta.
113

Case ligou uma vez mais, de novo: avançou um só ponto da grelha. Um
círculo cinzento começou a sobressair, em relevo, na face do cubo.
— Dixie...
— Cave. Depressa.
A superfície cinzenta empolou suavemente até tomar a forma de uma
esfera; por fim, soltou-se do cubo.
Case sentiu a aresta do terminal entrar-lhe pela mão, quando, com uma
palmada, apertou a MAX REVERSE. A matriz desfocou no sentido inverso;
mergulharam então num veio crepuscular de bancos de dados suíços. Case
olhou para cima. A esfera estava mais escura e avançava para ele. Caindo.
— Desligue — disse o Linha Reta.
A escuridão caiu em cima dele como uma martelada.
Um odor de aço frio e o gelo afagaram sua espinha. E rostos que
espreitavam de uma floresta de néon, marinheiros, vigaristas e prostitutas,
sob um céu prateado e venenoso...
— E aí, Case, que caralho está se passando com você? Está drogado ou o
quê?
O meio da sua espinha latejava...
Caía uma garoa lenta quando acordou. Tinha os pés metidos no meio de
rolos de fibras ópticas jogadas fora. O mar sonoro do salão de jogos
espraiava-se por cima dele; retrocedia e retornava. Voltou-se de barriga para
cima, sentou-se e endireitou a cabeça.
Uma luz, vinda de uma porta de serviço no fundo do salão, iluminava
pedaços partidos de placas de chips, molhados, e o chassis encharcado do
console aberto. Um dos lados do console apresentava inscrições japonesas
com caracteres aerodinâmicos, marcados, em rosa e amarelo desbotado.
Olhou para cima e reparou numa janela plástica fuliginosa e no brilho
fraco de fluorescentes.
Doíam-lhe as costas, a espinha.
Pôs-se de pé e afastou o cabelo molhado de cima dos olhos.
Algo acontecera...
Procurou dinheiro nos bolsos; não encontrou nada e estremeceu. Onde
estava o blusão? Tentou encontrá-lo, olhou atrás do console e desistiu.
No Ninsei costumava avaliar a densidade da multidão. Sexta-feira.
Provavelmente, Linda estaria no salão de jogos. Era capaz de ter dinheiro ou,
pelo menos, cigarros... Tossindo, espremeu a chuva da camisa e avançou
através da multidão até a entrada do salão.
114

Os hologramas dançavam e vibravam, acompanhando o trovejar dos
jogos; fantasmas sobrepunham-se na neblina povoada do local. Com um
cheiro de suor e tensão de aborrecimento. Um marinheiro, que envergava
uma camiseta branca, despejava bombas nucleares sobre Bonn, na Guerra
dos Tanques, provocando a descarga de um relâmpago anil na tela a sua
frente.
Ela estava jogando o Castelo do Feiticeiro, absorta, com os olhos
cinzentos circundados de lápis preto.
Levantou o olhar, quando ele lhe colocou um braço sobre os ombros, e
sorriu-lhe.
— Como é que vai? Parece molhado.
Ele beijou-a.
—Você me fez perder o jogo — queixou-se a garota. — Olhe ali, cara.
Uma masmorra de nível sete e os vampiros me apanhando. — Estendeulhe um cigarro. — Parece muito tenso. Onde é que esteve?
— Não sei.
— Ligado, Case? Outra vez nos copos ou tomando a dextrina do Zone?
— Talvez... Há quanto tempo não me vê?
— Hein, tá brincando comigo, não é? — A garota observou-o com mais
atenção. — Tá ou não tá?
— Não, não estou. Me deu qualquer coisa, eu... eu acordei no beco.
— Talvez você foi atacado, cara, já viu a grana, se tem a grana toda? Ele
fez um aceno negativo.
— Então, foi isso. Precisa de lugar pra dormir?
— Tenho a impressão de que preciso.
— Venha então. — Ela pegou a sua mão. — Vamos lhe arranjar um café
e qualquer coisa pra comer. Vou levar você pra casa. Foi bom ver você, cara.
A garota deu-lhe um aperto na mão.
Ele sorriu.
Qualquer coisa estalou.
Qualquer coisa mudou no núcleo das coisas. O salão de jogos fixou-se
numa imagem congelada e começou a vibrar...
A garota desaparecera. O peso da memória abateu-se, com todo um
corpo de conhecimento entrando-lhe pela cabeça como um microsoft numa
tomada. Desaparecida. Sentiu o cheiro da carne fritando.
O marinheiro da camiseta branca também desaparecera. O salão estava
agora vazio e silencioso. Case voltou-se com lentidão, as mãos cerrando-se
involuntariamente. Vazio. O invólucro amarelo, amarrotado, de um caramelo
115

equilibrava-se na ponta de um console; caiu por fim no chão e aí ficou entre
bitucas amassadas e copos de plástico.
— Eu tinha um cigarro — falou e olhou para o punho e para os nós dos
dedos, brancos. — Eu tinha um cigarro e uma garota e um lugar pra dormir.
Está me ouvindo, grande filho da puta? Está me ouvindo?
Uma série de ecos ressoou pelo vazio do salão de jogos, diminuindo de
intensidade à medida que percorria os corredores de jogos.
Saiu para a rua. A chuva cessara.
O Ninsei estava deserto.
Hologramas cintilavam e néons balançavam. Sentiu o cheiro de vegetais
cozidos que vinha da carroça de um vendedor no outro lado da rua. Junto dos
pés, no chão, descobriu um maço de Yeheyuans intactos e uma caixa de
fósforos. JULIUS DEANE, IMPORT - EXPORT. Case ficou olhando para o
logotipo impresso e a tradução em japonês.
— Tá legal — disse, apanhando os fósforos e abrindo o maço de
cigarros. — Estou ouvindo.
Foi devagar que subiu a escada até ao escritório de Deane. Nada de
precipitações, disse com os seus botões, não há razão para pressa. A cara
flácida do relógio de Dali continuava dando as horas erradas. Havia poeira
sobre a mesa de estilo Kandinsky e nas estantes neo-astecas. Um muro de
módulos em fibra branca enchia o quarto com cheiro de gengibre.
— A porta está fechada? — Case esperou por uma resposta, mas
ninguém apareceu. Atravessou o quarto até a porta do escritório e tentou
abri-la. — Julie?
O candeeiro de latão, com o abajur verde, desenhava um círculo de luz
sobre a escrivaninha de Deane. Case observou o miolo de uma máquina de
escrever antiga, alguns cassetes e cópias de impressora, amarrotadas, e
alguns sacos pegajosos, cheios de amostras de gengibre.
Não havia ninguém ali.
Case deu uma volta na ampla escrivaninha de aço e tirou do caminho a
cadeira de Deane. Encontrou a arma num porta-armas de couro , fixado por
baixo da mesa com fita adesiva prateada. Era uma antigüidade, uma
Magnum de calibre 357, com o cano e a proteção do gatilho serrados. A
coronha fora engrossada com camadas de fita isolante. A fita era velha,
castanha, brilhante, e apresentava uma camada de sujeira. Puxou o tambor
para fora e examinou cada um dos seis cartuchos. Carregados à mão. O
chumbo estava ainda brilhante e sem manchas. Com o revólver na mão
direita, Case esgueirou-se pelo lado do armário à esquerda da escrivaninha e
116

avançou até o meio do escritório, para fora do círculo da luz.
— Acho que não estou com pressa. Acho que este é o seu show. Mas
esta merda toda, sabe, está ficando assim ... antiquada.
Ergueu a arma com ambas as mãos, mirando o centro da escrivaninha, e
apertou o gatilho.
O recuo quase lhe partiu o pulso. O clarão na boca do cano iluminou o
escritório como se fosse o disparo de um flash. Com os ouvidos zunindo,
ficou olhando o buraco na parte da frente da mesa. Cartucho explosivo:
nitrato de chumbo. Ergueu a arma novamente.
— Não era preciso fazer isso, meu filho — disse Julie, saindo da sombra.
Vestia um terno de três peças, de seda da cor de osso de arenque. Os óculos
piscaram com o reflexo da luz.
Case deslocou a arma para o lado e orientou a mira para a rosto rosado,
sem idade, de Deane.
— Não faça isso. Você tem razão sobre o que tudo isto é, de fato.
Entretanto, existem certas lógicas internas que devem ser respeitadas. Se
fizer uso disso, verá um monte de miolos e sangue, e irá custar-me muito
tempo, do seu tempo subjetivo, para construir outro porta-voz. Não é fácil
manter este cenário. Oh, peço desculpa pela Linda, há pouco no salão de
jogos. Esperava poder falar através dela: contudo, estou criando tudo isto a
partir das suas recordações, e a carga emocional... Bem, isto é muito
complicado e eu tive um deslize...
Desculpe.
Case abaixou a arma.
—Isto é a matriz. Você é Wintermute.
— Claro. Tudo isto está lhe acontecendo por cortesia da unidade simstim
ligada ao seu sistema, como é óbvio. Estou satisfeito por ter conseguido retêlo antes que tivesse desligado. — Deane deu uma volta à mesa, endireitou a
cadeira e sentou-se. — Sente-se, meu filho. Temos muito que conversar.
— Temos mesmo?
— Claro que temos. Já há bastante tempo, aliás. Eu estava pronto para
isso quando o apanhei pelo telefone em Istambul. Agora o tempo começa a
ser curto. Vai fazer a operação dentro de poucos dias, Case.
D e a n e a p a n h o u u m b o m b o m , d e s e m b r u l h o u -o e c o l o c o u -o
delicadamente na boca. — Sente-se — disse, fazendo rolar o caramelo na
boca.
Case deixou-se cair na cadeira giratória que estava situada em frente da
escrivaninha, sem desviar o olhar de Deane. Sentou-se, mantendo a arma na
117

mão e descansada sobre a coxa.
— Então — falou Deane abruptamente — , vamos para a ordem do dia.
Que vem a ser, está perguntando a si mesmo, Wintermute? Estou correto?
— Mais ou menos.
— Uma inteligência artificial; mas isso você já sabe. O seu erro, e é um
erro muito lógico, está em confundir o Wintermute mainframe, o
computador principal em Berna, com o Wintermute entidade. — Deane
chupava o bombom ruidosamente.
— Já percebeu uma outra IA na conexão Tessier-Ashpool, não é
verdade? O do Rio de Janeiro. Eu, até onde tenho um "eu", e isso se torna
um pouco metafísico, como vê, sou quem arranja as coisas para Armitage.
Ou para Corto, que, a propósito, é muito instável. Mas suficientemente
estável — acrescentou Deane, enquanto retirava um relógio de ouro
trabalhado do bolso do colete e o abria — por um ou dois dias.
— O que está dizendo tem tanto sentido como todo o resto nesta merda
— disse Case, massageando as têmporas com a mão livre. — Se 'é assim tão
esperto...
— Por que é que não sou rico? — Deane começou a dar gargalhadas,
engasgando-se com o bombom. — Pois bem, Case. Tudo que posso
responder a isso, e na realidade não tenho tantas respostas como pode pensar
que tenho, é que o que pensa de Wintermute constitui apenas parte de uma
outra, digamos, entidade potencial. Eu, coloquemos a questão assim, sou
simplesmente um aspecto do cérebro dessa entidade. É como se falasse, sob
seu ponto de vista, claro, de um homem cujos lóbulos cerebrais tivessem
sido cortados. Digamos que está tratando com uma pequena parte do cérebro
esquerdo do homem. Será difícil dizer que está realmente, num caso desses,
tratando com um homem.
Deane sorriu.
— A história de Corto é verdadeira? Foi através de um
microcomputador, naquele hospital francês, que você chegou até ele?
— Foi. E fui eu quem organizou o fichário que você consultou em
Londres. Tentei planejar, no seu significado da palavra, mas isso não é
realmente o meu modo básico. Eu improviso. Está aqui o meu grande
talento. Prefiro situações a planos... Pra falar a verdade, tive de lidar com
dados adquiridos. Sou capaz de ordenar grandes quantidades de informação
e fazê-lo com muita rapidez. Ora, demorou muito tempo reunir a equipe de
que faz parte. Corto foi o primeiro e quase não conseguiu. Era um caso já
bastante avançado, em Toulon. Comer, excretar e masturbar-se era
118

praticamente tudo que conseguia fazer. Mas a estrutura subjacente de
obsessões estava lá: a Garra Penetrante, a traição, as audiências do
Congresso.
— Ele ainda está doido?
— Ele não é bem uma personalidade. — Deane sorriu. — Mas tenho a
certeza de que já percebeu isso. Contudo, Corto ainda está lá, em algum
lugar, e eu não posso manter, por muito tempo, um equilíbrio tão delicado.
Ele vai chocar com você, Case. De maneira que estou contando com você...
— Está bem, seu filho da puta — disse Case, e disparou-lhe a 357 na
boca.
Wintermute tivera razão no que afirmara acerca dos miolos. E do sangue.
— Homem — dizia Maelcum — não gostar disto...
— Tenha calma — replicou Molly. — Está tudo sob controle. Isto é
apenas uma coisa que estes caras fazem habitualmente; só isso. Portanto, ele
não esteve morto e só se passaram um ou dois segundos...
— Eu bem ver tela, EEG morto. Nada mexer, quarenta segundos...
— Enfim, ele agora está bom...
— EEG liso como uma fita — protestava ainda Maelcum.

119

10
Na fronteira, foi Molly quem conversou; Case sentia-se entorpecido e
Maelcum ficara a bordo do Garvey. A passagem na alfândega, em Freeside,
consistia fundamentalmente em uma pessoa fazer prova de disponibilidades
financeiras. A primeira coisa que Case viu, quando atingiram a zona interior
do fuso, foi um estabelecimento com licença da marca de café Beautiful
Girl.
— Bem-vindo à rua Júlio Verne — disse Molly. — Se está com
problemas pra andar, olhe os pés. A perspectiva aqui é muito sacana, se não
estiver habituado.
Estavam numa rua larga, que parecia o fundo de uma gigantesca ranhura,
ou de um desfiladeiro, com ambos os extremos disfarçados por esquinas
sutil-mente traçadas, nas lojas e nos edifícios que formavam suas paredes. A
luz, aí, filtrava-se pelas camadas do verde fresco da vegetação que caía de
tanques salientes e varandas. O sol...
Em algum lugar, em cima, havia um recorte branco, brilhante, talvez
brilhante demais, e o azul de um céu de Cannes, gravado. Case já sabia que o
sol ali era bombeado por um sistema Lado-Acheson, cuja armadura de dois
milímetros corria ao longo do eixo, e também que existia um arquivo
rotativo de efeitos de céu; se o céu presente fosse desligado agora, seria
possível observar, além das armaduras de luz, as curvas de lagos, os telhados
de cassinos, outras ruas...
— Puta merda! — exclamou. — Prefiro o SAE a isto.
— Uma pessoa se habitua. Eu já estive aqui um mês, como guarda-costas
de um cara que era jogador.
— Quero é ir pra um lugar qualquer e me deitar.
— Essa é uma boa idéia. Tenho as chaves. — A garota tocou-lhe no
ombro. — Que é que aconteceu no rebocador, cara? Você entrou em EEG
raso.
Case sacudiu a cabeça. — Não sei nada. Aguarde.
— Está bem. Vamos arranjar um táxi. Molly pegou na sua mão e
conduziu-o ao longo da Rua Júlio Verne. Passaram por uma vitrine que
exibia as últimas peles de Paris.
— Isto não é real — comentou Case, olhando de novo para cima.
— Larga mão. — retorquiu Molly, supondo que ele se referia às peles.
— Cultivam numa base de colágeno, é verdade, mas continuam a ter ADN
120

de vison... Portanto, quem se importa?
— É apenas um enorme tubo por onde despejam coisas — explicara
Molly. — Turistas, caras que vivem de esquemas, tudo. Há uma malha fina
pra garantir que o dinheiro fique todo aqui, quando as pessoas vão pelo poço
abaixo...
Armitage reservara-lhes um quarto num lugar chamado Intercontinental.
Uma das paredes do quarto, constituída por um painel inclinado de vidro,
dava para uma neblina fria que vinha de baixo e um sussurrar de cascata.
Case foi até à varanda e reparou num trio de jovens franceses,
bronzeados, que se deslocavam por meio de deslizadores suspensos alguns
metros acima dos jatos de água: simples triângulos de nylon pintados com
cores primárias brilhantes. Um deles balançou, descrevendo um arco, e Case
captou uma imagem rápida de cabelo negro, cortado curto, seios morenos e
dentes brancos rasgados num sorriso largo. Havia um odor de água corrente
e flores no ar.
— Hum, num — comentou —, muita grana...
Molly encostou-se nele, apoiada na varanda, com as mãos soltas e
relaxadas.
— Houve um tempo em que nós tínhamos intenções de vir aqui. Aqui ou
a outro lugar qualquer na Europa...
— Nós, quem?
— Ninguém. — Molly sacudiu os ombros com um movimento
involuntário. — Você disse que queria se deitar. Então vá dormir. Pra mim
também seria bom dormir um pouco.
— Sim, senhor — disse ainda Case, esfregando as mãos na cara — este é
realmente um lugar e tanto.
A fita do sistema Lado-Acheson rodava vagarosamente numa imitação
abstrata de um pôr do Sol nas Bermudas, listado de filas de nuvens gravadas.
— É mesmo — disse. — Vamos então dormir.
O sono, porém, não surgia facilmente. Quando vinha, trazia consigo
sonhos que eram fragmentos de memória, claramente recortados uns dos
outros. Acordava continuamente, com Molly aninhada junto a si, e ouvia a
água e as vozes através do vidro aberto da varanda: um riso de mulher vindo
dos apartamentos em escada, situados na parede oposta. A morte de Deane
continuava girando como se fosse uma má carta de baralho, apesar de insistir
consigo mesmo que não se tratava de Deane; que, de fato, nem sequer
acontecera. Alguém uma vez lhe dissera que a quantidade de sangue no
121

corpo humano era mais ou menos o equivalente a uma lata de cerveja.
Todas as vezes que a imagem da cabeça estilhaçada de Deane se
espatifava de encontro à parede do fundo do escritório, um outro pensamento
vinha à consciência de Case; algo de mais escuro, mais escondido, que
nadava como um peixe afastando-se para fora do seu alcance.
Linda.
Deane. Sangue espalhado na parede do escritório do importador.
Linda. Cheiro de carne queimada na sombra das cúpulas de Chiba City;
Molly, com um saco de gengibre na mão e uma camada de sangue
revestindo o plástico.
Wintermute. Imaginou um pequeno microcomputador sussurrando para
os destroços de um homem chamado Corto, as palavras fluindo como um
rio, e a personalidade de substituição, de nome Armitage, crescendo
simultaneamente numa enfermaria sombria... O análogo de Deane dissera
que trabalhava com dados adquiridos, que tirava partido de situações
existentes.
E se Deane, o autêntico Deane, tivesse tratado do assassinato de Linda
por ordem de Wintermute? Case tateou na escuridão à procura de um cigarro
e do isqueiro de Molly. Não havia razoes para suspeitar de Deane, disse para
si, acendendo um cigarro. Nenhuma.
Wintermute podia construir uma personalidade dentro de uma casca
qualquer; que forma sutil essa manipulação pode assumir? Na terceira
tragada, apagou o Yeheyuan num cinzeiro que se encontrava à cabeceira,
rolou o corpo na cama, afastando-se de Molly, e tentou dormir.
O sonho, a memória, desenrolados com a monotonia de uma fita do
sistema de simstim, não-montada. Quando tinha uns quinze anos, passara um
mês num hotel de fim de semana, num quinto andar, com uma moça
chamada Marlene. O elevador do hotel não trabalhava há uma década. As
baratas fervilhavam ao longo de canalizações de louça, cinzentas, na
quitinete, sempre que se ligava o interruptor. Dormia com Marlene num
colchão de listas, sem lençóis.
Não reparara numa primeira vespa, que havia construído o ninho, fino da
espessura de uma folha de papel, sobre a pintura esfolada da moldura da
janela; dentro de pouco tempo, porém, o ninho tinha aumentado para o
tamanho de um punho fechado de fibras e os insetos começaram a sair,
esvoaçando muito rápidos e invadindo o beco embaixo, como se fossem
helicópteros em miniatura, atacando ruidosamente o conteúdo apodrecido
dos caixotes do lixo.
122

Tinham bebido algumas cervejas na tarde em que uma vespa picou
Marlene.
— Mate essas filhas da puta pra mim! — disse a garota com os olhos
toldados de poeira e do calor pesado do quarto. — Queime-as!
Bêbado, Case procurou no armário o dragão de Rollo. Ele tinha sido o
anterior e, Case suspeitava ainda, o ocasional amante dela: um enorme
motociclista de San Francisco, que usava o desenho de um raio amarelo
pintado no cabelo negro, cortado rente. O dragão era um lança-chamas,
típico daquela cidade, uma coisa parecida com uma lanterna larga de bolso.
Case verificou as pilhas, a existência de combustível suficiente, e foi até a
janela aberta. O enxame começou a zunir.
O ar no Sprawl estava sem vida, imóvel. Uma vespa disparou do ninho e
descreveu um círculo em volta da cabeça de Case. Este apertou o botão da
ignição, contou até três e puxou o gatilho. O combustível, bombeado a 100
psi, formou uma língua clara de fogo de cinco metros que se espalhou além
da espiral branca; o ninho, com a superfície ardendo, caiu rolando. Do outro
lado do beco, alguém manifestou o seu aplauso.
— Merda! — exclamou Marlene atrás dele, muito agitada. — Não
matou, só derrubou. Elas agora vão voltar e nos matar! A voz da garota
mexia com os seus nervos; imaginou-a envolvida em chamas com o cabelo
pintado chamuscando num verde de tom peculiar.
Desceu ao beco e aproximou-se do ninho escurecido, empunhando o
dragão. Estava aberto ao meio: algumas vespas chamuscadas torciam-se e
estrebuchavam no asfalto.
Foi então que descobrira o que o fino invólucro cinzento do ninho
escondia.
Uma visão de horror: uma fábrica de nascimentos em espiral, as
plataformas das células chocadeiras, dispostas em terraços, as mandíbulas
expostas dos insetos, que se moviam incessantemente, o progresso gradual
de ovo a larva, a quase vespa, a vespa. No plano focai da sua mente algo
ocorreu como num filme de imagens com intervalos, revelando a coisa como
se fosse o equivalente biológico de uma metralhadora, odiosa na sua
perfeição. Alienígena. Puxou novamente o gatilho, esquecendo-se de apertar
a ignição, e o combustível sibilou sobre aquela vida entumecida que se
debatia a seus pés.
Quando, por fim, carregara na ignição, a coisa explodiu com estrondo,
levando-lhe uma sobrancelha. Da janela aberta, cinco andares acima, ouviu a
gargalhada de Marlene.
123

Acordou com uma impressão de luz fraca, mas o quarto estava escuro.
Pós-imagens, clarões retinais. O céu, lá fora, sugeria o começo de uma
alvorada gravada. As vozes haviam se calado, apenas o rumor da água
correndo, lá muito embaixo da encosta do Intercontinental.
No sonho, precisamente antes de inundar o ninho de combustível, Case
conseguira ler T-A, o logotipo da Tessier-AshpooL, nitidamente gravado
num dos lados da espiral, como se tivessem sido as próprias vespas a fazê-lo.
Molly insistia em passar nele o bronzeador, argumentando que a sua
palidez, característica do Sprawl, chamaria demais as atenções.
— Merda — disse Case, pondo-se de pé, nu, diante do espelho — ,
pensa que isto parece autêntico?
A garota, de joelhos, passava-lhe o resto do tubo no tornozelo esquerdo.
— Não, mas dá a idéia de que se preocupa o suficiente pra se dar a esse
trabalho. Aí está. Já não tem mais para o pé.
Levantou-se, atirando o tubo vazio para um cesto de madeira. Nada no
quarto parecia ter sido fabricado em máquina ou produzido sinteticamente.
Era um estilo dispendioso, Case bem o sabia; entretanto, sempre o havia
irritado. A espuma plástica da cama enorme era tingida, de modo a parecer
areia. Havia muita madeira clara e muito pano tecido à mão.
— E você? — disse. — Também vai se colorir? Também não tem o ar de
quem passa o dia todo tomando banhos de sol...
Molly vestia roupa de seda preta, não justa, e um xale também preto.
— Sou uma exótica. Tenho também um chapéu de palha, largo, pra
combinar. Quanto a você, só precisa de ter o ar de um malandro de meia
tigela que vai em todas. Portanto, um bronze instantâneo serve às mil
maravilhas.
Case olhou devagar os seus pés claros; em seguida, virou o olhar para
sua imagem no espelho.
— Merda... Se importa que eu me vista agora? — foi até o pé da cama e
começou a enfiar o jeans. — Dormiu bem, Molly? Reparou nas luzes?
— Você sonhou — respondeu ela.
Tomaram o café da manhã no telhado do hotel, uma espécie de prado,
povoado de chapéus de listas e do que parecia a Case ser um número de
árvores muito pouco natural.
Case contou-lhe a tentativa de entrar na IA de Berna. A questão das
escutas parecia tornar-se, nessa hora, meramente acadêmica. Se Armitage os
espiava, faria certamente através de Wintermute.
124

— E era autêntico, real? — perguntou Molly, com a boca cheia de
croissant e queijo. — Como o simstim?
Case confirmou. — Tão real como isto — acrescentou, olhando a sua
volta. — Talvez mais.
As árvores eram pequenas, floridas e impossivelmente antigas, o
resultado de engenharia genética e manipulação química. Não obstante a
dificuldade que sentiria se lhe fosse pedido distinguir um pinheiro de um
carvalho, uma intuição desconfiada de rapaz da rua dizia-lhe que eram
demasiado bonitas, demasiado autênticas. Pelo meio das árvores, espalhados
por pequenas rampas suaves e muito trabalhosamente irregulares, de grama
verde, chapéus brilhantes protegiam os hóspedes do hotel da irradiação
implacável do sol Lado-Acheson.
Uma série de exclamações em francês, vindas de uma mesa próxima,
chamou a sua atenção: os jovens radiosos que vira deslizando sobre a
neblina do rio na tarde anterior. Agora já podia notar o bronzeado irregular:
a ativação seletiva da melanina produzia um efeito de cópia original,
múltiplas tonalidades sobrepunham-se e desenhavam modelos retilíneos,
definindo e destacando a musculatura, os seios pequenos e rijos da moça, o
punho de um dos rapazes apoiando-se no esmalte branco da mesa. Olharam
para Case como se fossem máquinas construídas para correr; os seus
cabeleireiros, os estilistas das roupas de lona que vestiam, os artífices que
haviam manufaturado as sandálias de couro e a joalheria despretensiosa que
traziam certamente que mereciam as suas imagens.
Mais adiante, noutra mesa, três esposas japonesas, vestindo tecidos de
Hiroshima, aguardavam os esposos sarariman, com as faces cobertas de
hematomas; tratava-se, Case não o ignorava, de um estilo extremamente
conservador, que muito poucas vezes tivera oportunidade de observar em
Chiba.
— Que cheiro é este? — perguntou Molly, fungando o nariz.
— Grama. É o cheiro que tem logo depois de ser cortada.
Armitage e Riviera chegaram precisamente quando terminavam o café;
Armitage vestia um terno caqui, que lhe dava o ar de alguém a quem
tivessem retirado as insígnias regimentais; Riviera, por sua vez, usava um
manto indiano cinzento, bem solto, que, perversamente, sugeria prisão.
— Molly, meu amor — disse Riviera, ainda mesmo antes de se encontrar
bem sentado —, tem que me dar mais do meu remédio. Estou seco.
— Peter — respondeu Molly — , e se eu não der? Sorriu, sem mostrar os
dentes.
125

— Dá, sim — replicou Riviera, fazendo alternar o olhar entre Armitage e
Molly.
— Dê-lhe — ordenou Armitage.
— Está doido por isto, não está?
Molly extraiu de um bolso interior um pacote pouco espesso,
embrulhado em folha de alumínio, e lançou-o por cima da mesa. Riviera
apanhou-o com destreza, no meio do caminho.
— Era capaz até de voar — comentou ela para Armitage.
— Tenho uma audição esta tarde — informou Riviera. — Tenho de estar
na minha melhor forma. — Colocou o pacote na palma da mão voltada para
cima. Um pequeno enxame de insetos brilhantes saiu dele, voando, e
desapareceu. Em seguida, deixou cair o embrulho num bolso da sua roupa.
—Você, Case, também tem uma audição esta tarde. Quero que vá a uma
loja de adereços para arranjar uma roupa de vácuo; em seguida, saia da loja
já vestido e vá para a nave. Tem cerca de três horas pra isso tudo.
— Por que é que nós fomos expedidos numa lata de merda e vocês dois
alugaram um táxi JAL? — perguntou então Case, ao mesmo tempo que,
deliberadamente, enfrentava o olhar do homem.
— Zion é que sugeriu que o usássemos. É um bom disfarce para nos
movimentarmos. Tenho uma outra nave, maior, permanentemente a nossa
disposição, mas o rebocador é realmente um excelente pormenor.
— Então e eu? — perguntou Molly. — Também tenho alguma tarefa
destinada?
— Você vai até o extremo do eixo praticar a subida em gravidade zero.
Amanhã talvez possa subir pelo extremo oposto.
Straylight, pensou Case.
— Quando é? — perguntou ele, enfrentando a expressão dura.
— Em breve — respondeu Armitage. — Vá andando, Case.
— Homem, você ir bem — disse Maelcum, enquanto ajudava Case a sair
da roupa Sanyo de vácuo. — Aerol dizer que você ir bem.
Aerol esperava por ele num dos cais de desporto, junto ao extremo do
fuso, próximo do eixo imponderável. Para chegar lá, Case tomara um
elevador que descia pelo casco e viajara seguidamente num trem miniatura
de indução. A medida que o diâmetro do fuso estreitava, a gravidade descia;
em algum lugar, lá em cima, pensou, ficavam as montanhas que Molly subia,
o velódromo, a base de partida dos deslizadores manuais e dos microplanos
miniatura.
126

Aerol transportara-o até o Marcus Garvey numa motoneta esquelética,
equipada com um motor químico.
— Duas horas atrás — disse Maelcum — receber encomenda de
Babilônia sua. Amável rapaz japonês em iate. Muito bonito iate.
Já livre da roupa, Case precipitou-se para o Hosaka e mexeu nas correias
de fixação da rede.
— Bem, vamos lá ver isso.
Maelcum exibiu então um pedaço branco de espuma, ligeiramente menor
que a cabeça de Case, tirou de uma correia de nylon verde, que trazia no
bolso de trás do calção esfarrapado, um canivete em cabo de madrepérola, e
cuidadosamente cortou o plástico. Retirou um objeto retangular e entregou-o
a Case.
— Isso parte de alguma pistola, homem?
— Não — respondeu Case, virando o pacote ao contrário. — Mas é uma
arma. É um vírus.
— Não neste pequeno rebocador, homem — disse Maelcum com
firmeza, estendendo a mão para o cartucho de aço.
— É um programa. Um programa vírus. Não é capaz de o atingir, nem
ao seu software. Tenho de o ligar por interface ao computador pra que ele
possa fazer o que quer que seja.
— Bem, japonês homem dizer Hosaka aqui dizer tudo o que e onde você
querer saber.
— Ótimo. Me deixa começar então, falo?
Maelcum foi para trás do console de pilotagem e começou a ocupar-se
com uma pistola de calafetar. Com uma guinada de cabeça, Case olhou para
o outro lado, para fora das camadas de calafetagem transparente. Não sabia
bem por que, mas havia nelas algo que lhe trazia de volta a náusea do SAE.
— O que é esta coisa? — perguntou ao Hosaka. — Este pacote que me
mandaram?
— Transferência de dados da Bockris Systems GmbH, Frankfurt,
informa que, sob transmissão codificada, o conteúdo da remessa é um
programa de penetração Kuang Grade Mark Eleven. A Bockris informa
ainda que a ligação por interface com Ono-Sendai Ciberespaço 7 é
absolutamente compatível e oferece possibilidades de penetração muito
favoráveis, particularmente no que diz respeito a sistemas militares
existentes...
— E quanto às IAs?
— Sistemas militares existentes e inteligências artificiais.
127

— Meu Deus. Qual foi o nome que você disse?
— Kuang Grade Mark Eleven.
— É chinês?
— É.
— Desligue.
Case fixou o cartucho do vírus ao lado do Hosaka com um pedaço de fita
prateada e lembrou-se da história que Molly lhe contara da estada em
Macau: Armitage passara a fronteira para Zhongshan. — L i g u e —
acrescentou, mudando de idéias. — Uma pergunta: quem controla a Bockris,
nessa gente de Frankfurt?
— Demora para transmissão interorbital — informou o Hosaka.
— Codifique-a. Código comercial padrão.
— Executado.
Case tamborilava os dedos no Ono-Sendai.
— Reinhold Scientific, A.G., de Berna.
— Outra vez. Quem controla a Reinhold?
Foram necessários três saltos escala acima para chegar à TessierAshpool.
— Dixie — disse, ligando-se —, que é que você sabe sobre programa de
vírus chineses?
— Não muito.
— Já alguma vez ouviu falar de um sistema de nivelamento chamado
Kuang Mark Eleven?
— Não. Case suspirou.
— É que tenho aqui um ICE chinês, um cartucho de um só disparo.
Existe gente em Frankfurt que diz que é capaz de furar uma IA.
— É possível. Com certeza. Se for militar.
— Parece ser. Preste bem atenção, Dix, e me passe um pouco da sua
experiência, ok? O Armitage parece que está organizando uma operação
numa IA que pertence à Tessier-Ashpool. O mainframe, o computador
principal, está em Berna, mas está em ligação com um outro no Rio de
Janeiro. O do Rio foi aquele que o fez entrar, pela primeira vez, em EEG
reto. Parece que a ligação é feita via Straylight, a base da Tessier-Ashpool, lá
no extremo do fuso, e somos nós quem vai tentar furar com um quebra-gêlo
chinês. De maneira que, supondo que Wintermute está por trás de todo o
projeto, a conclusão é que está pagando para o torrar. Ou seja: está torrando
a si mesmo. E uma coisa que chama a si mesma de Wintermute pretende
chegar a mim pelo meu lado bom, talvez com a idéia de foder o Armitage.
128

Como é que isso faz algum sentido?
—Motivo — disse o spectrom. — Um verdadeiro problema de motivo.
De uma IA, portanto, não-humano, percebe?
— Isso é óbvio.
— Não é. Quero dizer, não é do ponto de vista humano. Por isso não
consegue arranjar um ponto de fixação. Eu também não sou humano, mas
respondo como tal, compreende?
— Espere aí — disse Case. — Você é um senciente, um ente que sente,
ou não?
— Bem, a sensação é de que sou, garoto. Mas aquilo que, de fato, me
constitui é apenas um pedaço de ROM. Trata-se, hum, de uma dessas
questões filosóficas, creio eu... — A desagradável sensação de riso
percorreu, uma vez mais, a espinha de Case. — Não é provável que eu
alguma vez escreva um poema pra você, entendeu? Mas a IA pode.
Entretanto, não é humano. De modo algum.
— Então não acredita que possamos chegar ao seu motivo.
— Até que ponto ela é senhora de si?
— Cidadania suíça, mas a T-A possui software de base e o mainframe.
— Essa é muito boa — comentou o spectrom. — E como se eu fosse o
proprietário do seu cérebro e do resto do que você sabe, mas os seus
pensamentos tivessem cidadania suíça. Demais. Que você tenha muita sorte,
ó IA.
— Então está decidida a dar cabo de si?
Case começou a manipular nervosamente o terminal, ao acaso. A matriz
desfocou para, em seguida, definir uma imagem e Case observou uma figura
constituída por esferas cor-de-rosa, que representava um conglomerado de
aço da Sikkim.
— No que diz respeito a sua IA, a questão toda está na autonomia. A
minha suposição, Case, é de que vamos penetrar em cadeias bem protegidas
apenas pra evitar que este bebê se torne mais esperto. Porque não vejo como
é que é possível distinguir uma jogada da companhia-mãe de uma outra
desencadeada por iniciativa da IA. Deve ser daí que vem toda a confusão. —
e, de novo, o não-riso. — Está vendo, essas coisas podem trabalhar muito e
arranjarem tempo suficiente pra escreverem livros de cozinha, ou do que
quer que seja, mas no minuto, digo antes, no nanossegundo em que
começam a imaginar processos de se tornarem mais espertos, a Turing
apaga. Ninguém confia nesses sacanas, como bem sabe. Cada IA que é
construída vem equipada com uma espingarda eletromagnética apontada a
129

sua testa.
Case fitou as esferas rosadas da Sikkim.
— Está bem — disse finalmente —, vou meter o vírus. Quero que leia as
instruções e me diga o que pensa.
A leve sensação de estar alguém lendo por cima de seu ombro
desapareceu por alguns segundos; regressou em seguida.
— Merda quente esta, Case. É um vírus lento. Demora umas seis horas,
tempo estimado, para penetrar num alvo militar.
— Ou numa IA — suspirou. — Podemos operá-la?
— Claro — respondeu o spectrom — , a não ser que tenha um medo
mórbido de morrer.
— Por vezes, você se repete.
— É o meu jeito de ser.
Molly dormia quando regressou ao Intercontinental. Sentou-se na
varanda e ficou observando o vôo de um microplano de asas de polímero
multicolorido por cima do espaço curvo de Freeside; a sombra triangular
deixava um rastro pelos relvados e telhados, até que desapareceu por trás da
faixa do sistema Lado-Acheson.
— Preciso de material — disse para o artifício azul que era o céu. —
Estou com uma enorme vontade de flipar grande, percebe? O chato do
pâncreas está ligado ao fígado, há uns saquinhos de merda que se derretem e
que se foda tudo isso. Tenho de flipar.
Saiu, sem acordar Molly, isto é, pensou que não a acordara; com aquelas
lentes, nunca tinha certeza. Deu uma sacudida nos ombros para aliviar a
tensão e entrou no elevador. Fez a viagem juntamente com uma garota
italiana, irrepreensivelmente vestida de branco e com uma coisa preta, nãorefletora, aplicadas nas maçãs do rosto e no nariz. Os sapatos de nylon
brancos tinham fivelas de aço; trazia na mão algo de aspecto caro, que dava
a idéia de ser o resultado de um cruzamento entre um remo e um gancho
ortopédico. Desapareceu com o ar de quem iria jogar qualquer coisa, que
Case não tinha a mínima idéia de qual fosse.
Quando chegou ao gramado do telhado, avançou pelo bosque de chapéus
e árvores até chegar junto de uma piscina; alguns corpos nus brilhavam em
contraste com os mosaicos turquesa. Procurou a sombra de um toldo e
apertou o seu cartão numa placa de vidro escuro.
— Sushi — ordenou — qualquer um.
Dez minutos depois, um esfuziante criado chinês chegava com a comida.
130

Mastigou um pouco de atum frio e arroz enquanto observava as pessoas que
se bronzeavam. — Puta que pariu! — disse para o atum. — Enlouqueço.
— Não me diga — soou a voz de alguém. — Já sei. Você é um gângster,
certo?
Case piscou os olhos na direção dela, em contraluz em relação à faixa do
sol. Um corpo jovem, comprido, com um bronzeado à custa de melanina
estimulada, mas em ser um dos trabalhos parisienses.
A garota acocorou-se ao lado da sua cadeira, pingando água nos
mosaicos. — Cath — disse.
—Lupus — respondeu, após uma pausa.
— Que raio de nome é esse?
— Grego — respondeu Case.
— Você é realmente um gângster?
A melanina excitada não evitara a formação de sardas.
— Sou um viciado, Cath.
— De que gênero?
— Estimulantes. Estimulantes do sistema nervoso central. Estimulantes
do sistema nervoso central extremamente potentes.
— Bem, e você tem disso? A garota chegou-se mais a ele. Alguns pingos
de água clorada caíram-lhe na perna da calça.
— Não. E é precisamente esse o meu problema, Cath. Sabe onde é que
posso arranjar algum?
Cath balançava-se apoiada nos calcanhares. Passou a língua sobre um
cabelo acastanhado que lhe aderira ao canto da boca.
— Do que é que você gosta?
— Não pode ser coca, nem anfetaminas; tem de ser qualquer coisa mais
acima, bastante mais acima. E chega, penso u m a l -humorado, mas
conservando o sorriso, em atenção à garota.
— Betafenetilamina — disse a moça. — Arranja-se. É disso que você
precisa.
— Está brincando comigo, ou o quê? — exclamou o sócio e parceiro de
quarto de Cath, quando Case lhe explicou as propriedades peculiares do seu
pâncreas de Chiba. — Quero dizer, não os pode processar, nem nada? Por
descuido, ou qualquer coisa do gênero?
O rapaz chamava-se Bruce; tinha o aspecto de ser uma versão de Cath,
obtida por comutação de sexo, com sardas e tudo.
— B e m — disse Case. — Acontece, sabe. Como uma rejeição de
131

tecidos, por exemplo.
Mas o olhar de Bruce já estava novamente embotado de fastio. O cara
tem o período de atenção de um mosquito, pensou Case, fitando os olhos
castanhos do rapaz.
O quarto era menor do que o que ele partilhava com Molly e ficava
noutro nível, mais próximo da superfície. Sobre o vidro da varanda, cinco
enormes fotos de Tally Isham tinham sido fixados com fita adesiva, o que
sugeria residência prolongada.
— Chocante, hein? — perguntou C a t h , a o v ê -lo examinar as
transparências. — São minhas. Tirei-as na pirâmide da Rede Sense da última
vez que descemos ao poço. Estive tão perto dela como estou agora de você.
E aquele sorriso, tão natural... E olha que as coisas estavam péssimas, só
havia passado um dia depois do ataque daqueles porras do Cristo-rei, que
jogaram anjo na água. Soube?
— Claro que sei — disse Case, sentindo-se subitamente incomodado. —
Uma coisa terrível.
— Bem — interrompeu Bruce. — Vamos falar da beta que você quer
comprar...
— O problema é o seguinte: conseguirei metabolizá-lo? Case ergueu as
sobrancelhas.
— Façamos uma coisa — disse o rapaz. — Faça uma prova. Se o
pâncreas der passagem, fica por conta da casa. A primeira vez é grátis.
— Já ouvi essa antes — respondeu Case, pegando no dermo azul
brilhante que Bruce lhe estendia por cima da coberta preta da cama.
— Case?
Molly sentou-se na cama e sacudiu o cabelo das lentes.
— Quem havia de ser, fofura?
— Que é que deu em você? Os dois espelhos seguiram-no pelo quarto.
— Já me esqueci de como se pronuncia — disse, tirando do bolso da
camisa uma tira apertadamente enrolada de dermos azuis, embalados dentro
de pequenas bolhas.
— Caralho — exclamou ela —, exatamente o que estamos precisando.
— Nunca foram ditas palavras mais verdadeiras.
— Largo você de vista por duas horas e você apronta rapidinho. —
Molly sacudiu a cabeça. — Espero que esteja em condições pro nosso
grande jantar desta noite com Armitage. No Tal Século Vinte, ou lá o que é.
Vamos ter também que assistir à apresentação de Riviera.
132

— Hum, hum — murmurou Case, arqueando as costas e com um sorriso
de prazer. — Lindo.
— Cara — disse a garota — , se o que quer que tenha tomado é capaz de
ultrapassar o que os cirurgiões de Chiba lhe fizeram, você vai estar numa
forma fodida quando passar o efeito.
— Puta, puta, puta — disse Case, desafivelando o cinto. — Maldição.
Pessimismo. É só o que eu ouço. — Tirou as calças, a camisa e a roupa de
baixo. — Penso que devia era ter o bom-senso de se aproveitar do meu
estado não-natural. — Olhou para baixo. — Quero dizer, repare neste estado
natural.
Molly riu.
— Não vai durar.
— Mas vai — disse ele, subindo para a espuma plástica de cor de areia.
— É isso que não é nada natural.

133

11
Case, que é que você tem? — perguntou Armitage, enquanto o criado
sentava na mesa que ele havia reservado no Vingtième Siècle, o menor e
mais caro dos restaurantes flutuantes que existiam num pequeno lago junto
ao Intercontinental.Case encolheu os ombros. Bruce não dissera nada dos
efeitos posteriores. Tentou pegar um copo de água gelada, mas as mãos
tremiam.
— Talvez seja alguma coisa que comi.
— Tenho que mandá-lo ver um médico — disse Armitage.
— É apenas a reação da histamina — mentiu Case. — Tenho-a por duas
vezes, quando viajo, quando como coisas diferentes.
Armitage vestia um terno escuro, demasiado formal para o local, e uma
camisa de seda branca. Quando ergueu o braço para levar o copo à boca e
beber um gole de vinho, a pulseira de ouro balançou com um ruído
característico. — Já encomendei por vocês — disse.
Molly e Armitage comiam em silêncio, enquanto Case cortava com
dificuldade o bife, reduzindo-o a fragmentos minúsculos que empurrava de
um lado para o outro no molho rico, até que os largou de vez.
— Meu Deus — disse Molly, com o seu prato já vazio. — Me dê isso.
Sabe quanto é que isto custa? — Trocou seu prato pelo de Case. — Este
animal é criado durante anos e só depois é que é morto. Isto não é material
de cultura. Levou um bom pedaço à boca com o garfo e mastigou-o.
— Não tenho fome — conseguiu Case dizer. Tinha o cérebro ultrafrito.
Não senhor, especulou, tinha era sido lançado para dentro da gordura
fervente e lá ficado; a gordura esfriara e a banha espessa congelava-lhe os
lóbulos enrugados, ao mesmo tempo que estes eram atravessados por raios
verde-púrpura de dor.
— Tem um aspecto do caralho — disse Molly animadamente.
Case tentou o vinho. A ressaca da betafenetilamina dava-lhe um gosto
forte de iodina.
As luzes diminuíram de intensidade.
— Le Restaurant Vingtième Siècle — anunciou uma voz com uma
acentuada pronúncia Sprawl — tem o orgulho de apresentar o "Cabaré
Holográfico de Peter Riviera".
Alguns aplausos dispersos, vindos de outras mesas. Um criado acendeu
uma vela, que colocou no centro da mesa, e em seguida começou a retirar os
134

pratos. Em poucos instantes, a vela ardia sobre cada uma das mesas e as
bebidas começaram a ser servidas.
— Que é que há? — perguntou Case a Armitage, que não respondeu.
Molly palitava um dente com a unha cor de vinho.
— Boa noite — começou Riviera, avançando sobre um pequeno tablado
localizado no fundo da sala.
Case piscou os olhos. Com todo o desconforto que sentia, não reparara
no palco, nem tinha percebido de onde é que Riviera surgira. A sensação de
mal-estar aumentou.
A princípio, Case supôs que um projetor iluminava o homem.
Riviera irradiava luz. Esta aderia-lhe como se fosse uma pele que
iluminava as cortinas escuras, suspensas no fundo do quarto. Riviera
projetava.
Sorriu. Vestia um smoking branco; no interior de um cravo preto,
enfiado na lapela, ardiam carvões azuis. As unhas relampejaram quando
ergueu as mãos num gesto de saudação, num abraço para a assistência. Case
ouvia o ruído seco de uma queda de água contra a parede lateral do
restaurante.
— Esta noite — disse Riviera, com os olhos grandes brilhando — quero
apresentar-lhes um número ampliado. Um número novo. Na palma da mão
direita erguida surgiu um rubi frio de luz. Deixou-o cair no chão. Uma
pomba branca ergueu-se então, esvoaçando, do ponto de queda do rubi e
desapareceu na sombra. Alguém assobiou e ouviram-se aplausos.
— O título do trabalho é "A Boneca". — Riviera baixou as mãos. —
Quero dedicar a sua apresentação e primeira audição, esta noite, a lady 3Jane
Marie-France Tessier-Ashpool. — Ouviu-se uma onda de aplausos. Quando
este diminuía, o olhar de Riviera pareceu encontrar a mesa onde se
encontravam. — E a outra dama.
As luzes do restaurante apagaram-se totalmente, durante alguns
segundos, vendo-se apenas as chamas das velas nas poucas mesas existentes.
A aura holográfica de Riviera desaparecera com as luzes, mas Case
conseguia vê-lo ainda de pé com a cabeça curvada.
Começaram então a formar-se algumas linhas de luz suave, verticais e
horizontais, que desenhavam sobre o palco um cubo aberto. As luzes do
restaurante tinham regressado, mas menos intensas; contudo, a estrutura em
volta do palco podia ter sido construída de raios congelados. Riviera, que
continuava de cabeça inclinada, os olhos cerrados e os braços rígidos
descaídos ao longo do corpo, parecia tremer todo com o esforço de
135

concentração. Subitamente, o cubo fantasma encheu-se, revelou um quarto,
em que faltava a quarta parede para permitir assim que a platéia observasse o
seu conteúdo.Riviera deu a idéia de ter relaxado ligeiramente. Levantou a
cabeça, mas manteve os olhos fechados.
— Sempre vivi naquele quarto — disse — e não era capaz de me
lembrar de alguma vez ter vivido noutro quarto.
As paredes eram de estuque branco-amarelado e existiam duas peças de
mobiliário. Uma delas era uma vulgar cadeira de madeira, a outra, uma cama
de ferro pintada de branco. A tinta estava descascada e estalava em alguns
lugares, revelando o ferro escuro por baixo. Havia um colchão sem roupa,
com listas castanhas desbotadas e manchadas. Uma lâmpada descia sobre a
cama na extremidade de um pedaço torcido de fio preto. Case reparou na
camada espessa de pó na curva superior da lâmpada. Riviera abriu os olhos.
— Sempre vivi sozinho naquele quarto.
Sentou-se na cadeira, de frente para a cama. Os carvões azuis
continuavam ardendo no fundo da flor preta da lapela.
— Não sei quando foi a primeira vez que comecei a sonhar com ela —
disse —, mas lembro-me de que, no princípio, ela era apenas uma névoa,
uma sombra.
Havia qualquer coisa na cama. Case piscou os olhos, mas desaparecera.
— Não conseguia agarrá-la, prendê-la na mente. Contudo, desejava fazêlo, agarrá-la cada vez mais... — A voz circulava clara e perfeita sobre o
murmúrio do restaurante. Ouviu-se o tilintar de um cubo de gelo num copo,
o som de uma risadinha curta, o ruído de uma pergunta sussurrada à meia
voz em japonês. — Decidi então que se conseguisse visualizar uma pequena
parte dela, uma pequena parte apenas, se fosse capaz de vê-la perfeitamente,
no seu mais ínfimo pormenor...
No colchão, jazia nessa hora uma mão de mulher, de dedos pálidos, com
a palma voltada para cima.
Riviera inclinou-se para frente, pegou na mão e começou a afagá-la
gentilmente. Os dedos moveram-se. Riviera levou a mão até à boca e
lambeu-lhe as pontas dos dedos. As unhas eram revestidas de verniz cor de
vinho.
Case observava a mão. Não se tratava de uma mão cortada; a pele se
desenvolvia para trás com suavidade, inquebrada, limpa e intacta. Recordouse de um losango tatuado de carne de cultura na vitrine de uma butique
cirúrgica do Ninsei. Riviera continuava mantendo a mão junto à boca e
lambia-lhe a palma. Os dedos esboçaram uma carteia na face. Mas já uma
136

segunda mão aparecia sobre a cama. Quando Riviera fez uma tentativa para
apanhá-la, os dedos da primeira cerraram-se em volta do seu pulso: uma
pulseira de carne e osso.
O número prosseguiu com uma lógica interna própria, surreal. Os braços
vieram a seguir, depois os pés, as pernas. As pernas eram
extraordinariamente belas. Case sentia a cabeça pulsando, a garganta seca;
bebeu o resto do vinho.
Riviera já estava na cama, nu. A roupa também fizera parte da projeção,
mas Case não se lembrava de a ter visto desaparecer. A flor preta jazia agora
aos pés da cama; a chama interior continuava a incandescer. Seguidamente,
formou-se um torso, que Riviera procurava despertar para a vida com
carícias, branco, sem cabeça e perfeito, apenas com uma mínima película de
suor brilhando na pele.
0 corpo de Molly. Case ficou de boca aberta olhando. Mas não era
exatamente Molly; era apenas Molly tal como Riviera imaginava que ela
fosse. Os seios eram deformados, os mamilos maiores, escuros demais.
Riviera e o tronco acéfalo torciam-se e lutavam entrançados um no outro na
cama; as mãos de unhas brilhantes percorriam a pele dos corpos. A cama
estava cheia de rendas amareladas e apodrecidas, que se desfaziam com um
simples toque. Átomos de poeira flutuavam no ar em volta de Riviera e dos
membros torcidos, das mãos precipitadas, beliscadoras e acariciantes.
Case olhou para Molly. A face da garota estava inexpressiva; as cores da
projeção de Riviera palpitavam e volteavam nos espelhos. Armitage
debruçava-se para frente, com a mão em volta do copo de vinho e os olhos
fixos no palco.
Finalmente, a junção dos membros e do tronco ficou realizada e Riviera
estremeceu. A cabeça já se encontrava lá, a imagem era agora completa; a
cara de Molly, com a cor do mercúrio macio afagando seus olhos. Riviera e
a imagem de Molly copulavam com uma intensidade renovada; então,
lentamente, uma das mãos estendeu-se como se fosse uma garra e as cinco
lâminas saltaram fora. Com uma deliberação lânguida e onírica percorreu o
dorso nu de Riviera, rasgando-o. Case apenas captou uma imagem fugaz da
espinha exposta, já que nessa hora se encontrava de pé e corria, aos
tropeções, na direção da porta.
Vomitou por cima de uma grade de pau-rosa para as águas calmas do
lago. Aquilo que até então parecia fechar-se sobre a sua cabeça como um
torno aliviou a pressão; ajoelhado, comprimindo a face contra o pau-rosa
frio, cravou o olhar no lago pouco profundo e iluminado pela aura irradiante
137

da Rua Júlio Verne.
Case já havia visto esse tipo de médium antes, quando era ainda
adolescente, no Sprawl. Chamavam-lhe "sonhar real". Lembrou-se dos
porto-riquenhos magros, à luz dos candeeiros do East Side, o "sonhar real"
ao ritmo rápido de uma salsa, e das garotas do sonho dançando e balançando
na batida de aplausos dos participantes. Isso, porém, exigia uma
caminhonete cheia de equipamento e um tosco elmo eletródico.
Mas o que o Riviera sonhava era visto pelas pessoas. Case balançou a
cabeça dolorida e cuspiu para o lago. Era capaz de adivinhar o final. Havia
uma simetria invertida; Riviera construíra a garota a partir de suas partes; a
garota destruíra-o, partindo-o em pedaços. Com aquelas mãos e o sangue
sonhado ensopando a renda apodrecida.
Ouviram-se, vindos do restaurante, exclamações de entusiasmo e
aplausos. Case levantou-se e passou as mãos pela roupa. Voltou-se e
regressou ao Vingtième Siècle.
A cadeira anteriormente ocupada por Molly estava vazia. O palco estava
deserto. Armitage estava sozinho e continuava de olhos postos no palco e
com a haste do copo entre os dedos.
— Onde está ela? — perguntou Case.
— Foi embora — respondeu Armitage.
— Foi atrás dele?
— Não.
Ouviu-se um clique frouxo. Armitage olhou para baixo. A mão esquerda
ergueu, transportando a base do copo com a sua dose de vinho intacta. A
haste, quebrada, permanecia espetada como uma agulha prateada de gelo.
Case tirou o fragmento de vidro da sua mão e lançou-a para dentro de um
copo de água.
— Me diz pra onde é que ela foi, Armitage.
As luzes acenderam-se. Case olhou para os olhos claros: não havia nada
neles.
— Molly foi preparar-se. Não vai vê-la agora. Mas vocês vão estar
juntos durante a operação.
— Por que é que o Riviera fez aquilo com ela? Armitage levantou-se,
ajustando as lapelas do casaco.
— Vá dormir, Case.
— É amanhã a operação?
Armitage sorriu o seu sorriso sem significado e foi em direção à porta.
Case esfregou a testa e olhou em volta da sala. Os clientes levantavam
138

para ir embora: as mulheres riam com que os homens diziam. Reparou pela
primeira vez num balcão existente por cima, com as velas ainda cintilando
numa escuridão privada. Podia ouvir o tilintar de louça de prata e sons
abafados de conversação vindos daí. As velas projetavam sombras bailarinas
no teto.
A face da moça surgiu tão abruptamente como uma das projeções de
Riviera: inclinou-se para frente, com as mãos pequenas apoiadas na madeira
polida da grade e uma expressão arrebatada, pareceu-lhe, e com os olhos
negros atentos a algo embaixo. O palco. Não era uma cara bela, mas
chamava a atenção: triangular, maçãs salientes, no entanto de aspecto frágil,
boca larga e firme, esquisitamente equilibrada por um nariz de ave, estreito,
com narinas brilhantes. E num instante desapareceu, de volta ao riso privado
e ao bailado das velas.
Quando deixava o restaurante, reparou nos dois jovens franceses e na
amiga aguardando o barco que os levaria até a outra margem e ao cassino
mais próximo.
O quarto estava silencioso e a espuma plástica macia como a areia de
uma praia depois da maré vazante. A mochila de Molly desaparecera.
Procurou uma mensagem qualquer: não havia nada. Passaram-se alguns
minutos até que a sua tensão e infelicidade conseguissem registrar qualquer
imagem do que se encontrava além da janela. Olhou e foi lhe proporcionada
uma visão das lojas caras de Desiderata: Gucci, Tsuyako, Hermes, Liberty.
Ficou olhando por um momento; meneou a cabeça e dirigiu-se para um
painel que nunca, anteriormente, havia se incomodado em examinar.
Desligou o holograma e foi imediatamente gratificado com a visão dos
apartamentos que ficavam na encosta em frente.
Pegou o telefone e levou-o até a varanda fresca.
— Me dê o número para o Marcus Garvey — pediu à recepção. — É um
rebocador, registrado no grupo Zion.
A voz do processador recitou um número de dez dígitos. — Meu caro
senhor, o registro em questão é panamenho. Maelcum atendeu ao quinto
toque.
— Eu.
— É Case. Você tem um modem?
— Sim. Compartimento navegação, saber?
— Pode ir pegá-lo pra mim, cara? Conecte ao Hosaka e ligue, em
seguida, o terminal. É o botão que tem as saliências.
— Como ir isso aí, homem?
139

— Bem, preciso de ajuda.
— Estar a ir, homem. Arranjar modem.
Case escutou a estática fraca, enquanto Maelcum procedia com a linha
telefônica. — Corte o ICE — instruiu o Hosaka, assim que ouviu seu bip.
— Está falando de um lugar densamente monitorado — esclareceu o
computador.
— Que se foda — disse. — Esqueça o ICE. Me dê acesso ao spectrom,
Dixie?
— Olá, Case. — O Linha Reta falava através do modulador de voz do
Hosaka, o que fazia perder o seu sotaque, cuidadosamente elaborado.
— Dixie, penetre neste lugar onde estou e me consiga uma coisa. Pode
ser tão franco quanto quiser. Molly está aqui e eu quero saber onde. O
número é o 335W. Intercontinental. Ela também se registrou aqui, mas
ignoro o nome que usou. Viaje por este telefone e veja os registros pra mim.
— F a l o u . — Case ouviu o ruído branco da invasão. Sorriu. —
Executado. O nome é Rose Kolodny. Já deixou o hotel. Preciso de alguns
minutos pra espremer a rede de segurança o suficiente e obter mais alguma
coisa.
— Manda ver!
O telefone tocou e produziu uma série de cliques, acompanhando o
esforço do spectrom. Case levou-o de novo para o quarto e colocou-o virado
para cima sobre a espuma da cama. Foi então ao banheiro e escovou os
dentes.
Quando regressava, o monitor do complexo audiovisual Braun, instalado
no quarto, acendeu-se. Uma estrela pop japonesa reclinava-se em almofadas
metálicas. Um entrevistador em off perguntava qualquer coisa em alemão.
Case observava. A imagem na tela deu um salto, provocado por jatos de
interferência azul.
— Case, garoto, está perdendo a cabeça? — A voz soava lenta e familiar.
A superfície de vidro da varanda deu um clique e regressou à imagem de
Desiderata, mas a cena de rua desfocou, retorceu-se e tornou-se no
interior do Jarre de Thé, Chiba, vazio, com o néon vermelho replicado até
um infinito cheio de riscos, nas paredes espelhadas.
Lonny Zone, alto e esquelético, deu um passo para frente,
movimentando-se com a lânguida graciosidade submarina do vício. Estava
de pé, sozinho, entre as mesas quadradas, com as mãos nos bolsos das calças
de pele de tubarão.
— Decididamente, você está com cara de bunda. — A voz vinha dos
140

alto-falantes Braun.
— Wintermute — exclamou Case.
O gigolô encolheu languidamente os ombros e sorriu.
— Onde está Molly?
— Não se preocupe. Esta noite está virada do avesso. Tem o Linha Reta
tocando todas as campainhas de Freeside. Não imaginava que fizesse isso,
garoto. Não está no seu perfil.
— Então me diga onde é que ela está que eu a chamo.
Zone sacudiu a cabeça. — Não consegue colocar rédea em suas
mulheres, Case, de uma ou de outra maneira.
— Ainda enfio isso pela sua goela abaixo.
— Não. Não é desse tipo, garoto. É uma coisa que eu sei. Quer ouvir
uma coisa, Case. Suspeito de que você suspeita de que fui eu quem instruiu o
Julie Deane para que eliminasse a garota que tinha em Chiba.
— Não?— disse Case, dando um passo involuntário em direção à janela.
— Na verdade, não fui. Mas o que importa? Que é que isso realmente
importa para o senhor. Case? Deixe de se enganar. Conheço a sua Linda,
garoto. Aliás, conheço todas as Lindas. As Lindas são um produto genérico
do meu tipo de trabalho. Sabia que ela decidira limpá-lo? Amor. Devia cagar
pra isso. Amor? Quer falar de amor? Claro que ela o amava. Sei disso. Ela o
amava do seu modo. Mas você não foi capaz de agüentar a coisa. E ela está
morta.
O punho fechado de Case fixou-se no vidro.
— Não foda a sua mão, garoto. Vai precisar dela em breve. Zone
desapareceu, substituído pela noite de Freeside e as luzes dos apartamentos.
O Braun desligou-se.
Na cama, o telefone tocava insistentemente.
— Case? — O Linha Reta estava esperando. — Onde é que esteve.
Tenho algo, mas não é grande coisa. — O spectrom disparou um endereço.
— O local tinha um ICE esquisito pra um nightclub. Foi tudo o que consegui
tirar, sem deixar um cartão de visita.
— Tudo bem — disse Case. — Diga ao Hosaka pra falar ao Maelcum
que desligue o modem. Valeu, Dix.
— Foi um prazer.
Ficou sentado na borda da cama durante bastante tempo, saboreando
uma coisa nova, um tesouro. A raiva.
— Olá, Lupus! Olhe, Cath, é o amigo Lupus. — Bruce estava nu no vão
141

da porta, pingando água, com as pupilas enormes. — Estávamos
precisamente tomando uma ducha. Quer esperar? Ou quer também tomar
uma ducha?
— Não, obrigado. Preciso de ajuda.
Empurrou o braço do rapaz e avançou para o interior do quarto.
— Hein, cara, efetivamente nós...
— Vão me ajudar. Vocês estão muito contentes em me ver. Porque nós
somos amigos. Ou não somos?
Bruce piscou os olhos.
— Claro.
Case recitou o endereço que o Linha Reta lhe dera.
— Eu sabia que ele era um gângster — exclamou Cath, animadíssima,
do chuveiro.
— Tenho uma Honda — informou Bruce, arreganhando os dentes
inexpressivamente.
— Vamos então — falou Case.
Os cubículos ficam naquele nível — disse Bruce, depois de pedir pela
oitava vez a Case que repetisse o endereço. Tornou a subir na Honda. A
condensação gotejou do escape das células de hidrogênio, quando o chassis,
de fibra de vidro vermelha balançou sobre os amortecedores cromados. —
Vai demorar?
— Não sei. Mas espere.
— Esperamos sim. — Cocou o peito nu. — Creio que a última parte do
endereço se refere a um cubículo. Número quarenta e três.
— Alguém está esperando, Lupus?
Cath debruçou-se sobre o ombro de Bruce e olhou. A viagem secara seu
cabelo.
— Não, propriamente. Há problemas?
— Então, desça até o nível mais embaixo e procure o cubículo. Se o
deixarem entrar, legal. Se não quiserem vê-lo...
A garota encolheu os ombros.
Case voltou-se e desceu a escada em caracol de ferro forjado de flores.
Após seis voltas, chegou à entrada de um nightclub. Fez uma pausa e
acendeu um Yeheyuan, dando uma olhada nas mesas. Subitamente, Freeside
começou a ter algum sentido para ele. Negócio. Sentia-o no ar. Era então ali
o local da ação. Não a fachada lustrosa da fachada da Rua Júlio Verne, mas a
coisa autêntica. Comércio. A dança. A freqüência era mista: talvez metade
142

fosse turistas, e a outra metade, residentes das ilhas.
— Lá embaixo — disse para um criado que ia passando —, quero ir lá
embaixo.
Exibiu o cartão de silício de Freeside. O homem fez um gesto na direção
do fundo do clube.
Passou rapidamente pelas mesas cheias, ouvindo fragmentos de meia
dúzia de línguas européias à medida que avançava.
— Quero um quarto — disse à garota que se encontrava sentada a uma
escrivaninha baixa, com um terminal no colo. — No nível mais baixo. —
Estendeu-lhe o cartão.
— Preferência de sexo? — perguntou, passando o cartão por uma chapa
de vidro na superfície do terminal.
— Feminino — respondeu automaticamente.
— Número trinta e cinco. Se preferir, pode consultar previamente nosso
catálogo de serviços especiais. — Sorriu e devolveu-lhe o cartão.
Atrás dele, um elevador abriu as portas deslizantes.
As luzes eram azuis. Quando Case saiu do elevador, escolheu uma
direção ao acaso. Portas numeradas. Um ambiente semelhante ao do
vestíbulo de uma clínica de luxo.
Encontrou o quarto. Procurava o de Molly, mas, confuso, acabou por
aplicar o cartão sobre um sensor preto colocado por baixo da placa com o
número.
Ouviu o correr do fecho magnético. O som o fez lembrar-se do
Econômico.
A garota estava sentada na cama e disse qualquer coisa em alemão. Os
olhos eram suaves e fixos. Piloto automático; um trabalhinho neural.
Recuou, saiu do quarto e fechou a porta.
A porta do número 43 era igual a todas as outras. Hesitou. O silêncio do
vestíbulo significava que os quartos eram à prova de som. Não fazia sentido
tentar o cartão. Bateu com os nós dos dedos no metal esmaltado. Nada. A
porta parecia absorver o som.
Colocou então o cartão contra a chapa negra.
O fecho fez um clique.
Pareceu-lhe que ela o atingira ainda antes de a porta se abrir. Caiu de
joelhos e ficou encostado à porta de aço com as lâminas dos polegares
rígidos estremecendo a poucos centímetros dos olhos.
— Caralho! — exclamou ela, amparando um dos lados da sua cara com a
mão, ao mesmo tempo que se levantava. — Que merda, tentar uma coisa
143

destas. Como é que você conseguiu abrir o fecho, Case? Você está bem?
Debruçou-se sobre ele.
— O cartão — respondeu arfando.
Uma dor espalhava-se pelo seu peito. Ela ajudou-o a levantar-se e o
puxou para o cubículo.
— Subornou alguém lá em cima?
Case negou com a cabeça e deixou-se cair na cama.
— Respire fundo e conte. Um, dois, três, quatro. Retém. Agora expira.
Conte.
Ele levou as mãos ao estômago.
— Você me deu um chute — conseguiu dizer.
— Devia ter sido mais embaixo. Quero estar sozinha. Estou meditando,
ok? — Sentou-se do lado dele. — E recebendo instruções. — Apontou para
um pequeno monitor instalado na parede oposta à cama. — Wintermute tem
me informado sobre Straylight.
— Onde é que está o Boneco de carne?
— Não há. Este é o serviço especial mais caro de todos. — A garota
levantou-se. Vestia jeans de couro e uma camisa escura solta. — A operação
é amanhã, falou Wintermute.
— O que é que aconteceu no restaurante? Por que você fugiu?
— Porque, se ficasse, poderia ter matado o Riviera.
— Por quê?
— Pelo que ele me fez. O espetáculo.
— Não entendo.
— Isto aqui custa muito dinheiro — disse, estendendo a mão direita,
como se segurasse um fruto invisível. As cinco lâminas deslizaram para fora
para, em seguida, se retraírem com suavidade. — Custa ir a Chiba, custa
arranjar a cirurgia, custa apurar o sistema nervoso pra que os reflexos
estejam de acordo com o equipamento... Sabe como é que consegui arranjar
o dinheiro quando comecei? Aqui. Não foi bem aqui, mas num lugar como
este, no Sprawl. Era engraçado, pois com o implante do "eliminador de
consciência" parecia que eu ganhava dinheiro sem fazer nada. Às vezes
acordava um pouco dolorida, mas era só isso. Aluguel da mercadoria e é
tudo. Eu não estava lá quando a coisa acontecia. A casa fornece o software
pra tudo aquilo que o cliente estiver disposto a pagar... — Fez estalar os nós
dos dedos. — Legal. Estava ganhando o meu dinheirinho. O problema
começou a surgir quando o eliminador de consciência e os circuitos que os
caras de Chiba tinham aplicado se revelaram incompatíveis. De maneira que
144

quando o serviço começou a fazer sangue eu era capaz de me lembrar...
Contudo, eram apenas sonhos maus, e nem todos eram maus. — Sorriu. —
Foi então que comecei a ficar esquisita. — Tirou os cigarros do bolso da
camisa de Case e acendeu um. — A casa descobriu o que eu andava fazendo
com o dinheiro. Já tinha as lâminas, mas o trabalho neuromotor delicado
exigia mais três viagens; não estava ainda na hora de largar o serviço de
Boneca. — Inalou uma fumaça e exalou três perfeitos anéis de fumaça. —
De modo que o filho da puta que dirigia o local resolveu tirar partido disso e
mandou fazer, de propósito, um software especial. Berlim é que é o lugar pra
este tipo de coisa, sabia? Um grande mercado de emoções fodidas. Nunca
soube quem é que escreveu o programa a que me ligaram, mas era baseado
em todos os clássicos.
—Eles sabiam que você já estava nessa situação? Que estava consciente
enquanto trabalhava?
— Não estava consciente. É como o ciberespaço, mas vazio. Prateado.
Cheira a chuva... Uma pessoa é capaz de ver a si mesma tendo um orgasmo e
é precisamente como uma supernova fora da borda do espaço. Mas eu
começava a lembrar. Como em sonhos, percebe? E não me disseram nada.
Ligaram o software e começaram logo os aluguéis em mercados especiais.
A voz da garota parecia distante.
— E eu sabia, mas não disse nada. Precisava do dinheiro. Os sonhos
tornaram-se cada vez piores, e eu dizia a mim mesma que alguns deles, pelo
menos, não eram sonhos. E então comecei a perceber que o patrão tinha uma
clientela que aparecia só por minha causa. Nada é bom demais pra Molly,
diz o cara, e me dá um aumento de merda. — Sacudiu a cabeça. — O filho
da puta levava oito vezes mais do que me pagava e pensava que eu não
sabia.
— Que serviços é que ele cobrava?
— Sonhos maus. Reais. Uma noite... uma noite, tinha acabado de
regressar de Chiba. — Deixou cair o cigarro, amassou-o com o salto e
sentou-se, encostando-s e à p a r e d e . — Nessa viagem, os cirurgiões
penetraram muito fundo e danificaram o eliminador de consciência. Minha
consciência voltou e então eu percebi que estava com um cliente... — A
garota enterrou os dedos bem dentro da espuma. — Era um senador.
Reconheci logo a cara gorda. Encontrávamos cobertos de sangue. Mas não
estávamos sós. E ela estava toda... — Deu um puxão violento na espuma. —
Morta. E o canalha gordo berrava: que é que foi? que é que aconteceu? ainda
não acabamos...
145

Ela começou a tremer.
— Então dei mesmo o que ele realmente queria, percebe? — O tremor
cessou. Largou a espuma e passou os dedos pelo cabelo negro. — A casa
andou atrás de mim pra me aprontar alguma. Tive de me esconder durante
uns tempos.
Case a fitava.
— Foi por isso que Riviera mexeu no meu único ponto fraco, na noite
passada — disse. — Creio que ele pretendia que eu o odiasse de verdade, o
bastante pra que eu ficasse psicologicamente compelida a ir atrás dele.
— Atrás dele?
— Ele já está lá. Em Straylight. A convite de lady 3Jane. Toda aquela
merda da dedicatória. Ela assistiu num camarote privado, o gênero de ...
Case lembrou-se do rosto que vira.
— Vai matá-lo? Ela sorriu. Fria.
— Ele vai morrer, é claro. Em breve.
— Também tive uma visita — disse-lhe Case, e contou-lhe sobre a
janela, omitindo o que Zone lhe dissera sobre Linda. Ela fez um movimento
com a cabeça.
— Talvez ele queira que você também odeie algo.
— Talvez o odeie.
— Talvez odeie a si mesmo, Case.
— Então, que tal? — perguntou Bruce, quando Case subia para a Honda.
— Experimente um dia — respondeu-lhe, esfregando os olhos.
— Não consigo ver em você o tipo de cara que vai pegar Bonecas —
disse Cath com um ar infeliz, apertando com o polegar um dermo novo no
pulso.
— Podemos agora ir pra casa? — perguntou Bruce.
— Com certeza. Me deixem na rua Júlio Verne, no local dos bares.

146

12
A rua Júlio Verne era uma rua circunferencial, que dava uma volta
completa à zona central do fuso, enquanto que a Desiderata percorria todo o
seu comprimento, terminando em cada uma das extremidades, nos apoios
das bombas de luz do Lado-Acheson. Se uma pessoa, vinda da Desiderata,
cortasse à direita e seguisse a Júlio Verne, encontrar-se-ia, ao fim de certo
tempo, aproximando-se de novo da Desiderata.
Case ficou seguindo com o olhar a Honda de Bruce até que a perdeu de
vista; então virou na direção contrária e começou a caminhar em direção de
uma banca de jornais e revistas, muito larga e iluminada, com dezenas de
revistas japonesas de lustrosos couchês, exibindo as caras das mais recentes
estrelas de simstim do mês.
Mesmo por cima da sua cabeça e ao longo do eixo, escurecido para
representar a noite, o céu holográfico cintilava curiosas constelações, que
sugeriam cartas de jogar, as faces de um dado, um chapéu alto, um copo de
Martini. O cruzamento da Júlio Verne com a Desiderata formava uma
espécie de ravina, com as varandas nos terraços dos apartamentos, instalados
na encosta de Freeside, subindo gradualmente até o planalto relvado no topo
e aos outros cassinos.
Case observou um microplano sibilante curvando elegantemente para
cima, como que sugado por uma corrente de ar ascendente na direção de um
planalto rochoso artificial; por um momento, ficou iluminado com o clarão
suave do cassino invisível. Tratava-se de uma espécie de biplano, sem piloto,
de polímero extremamente fino, com asas estampadas para dar a idéia de
borboleta gigantesca. Em seguida, desapareceu para lá da orla do planalto;
contudo, Case ainda conseguiu vislumbrar um relampejar de néon refletido
em vidro, o que tanto podia significar superfície de lentes como uma torre de
lasers. Os microplanos faziam parte do sistema de segurança do fuso e eram
controlados por um computador central qualquer.
Em Straylight, Case prosseguiu a marcha, passando por bares chamados
Hi-Lo, Paradise, Le Monde, Cricketeer, Shozoku Smith’s Emergency.
Decidiu-se pelo Emergency por ser o menor e o mais cheio; contudo, não foi
preciso muito tempo para perceber que se tratava de um local para turistas.
Não havia o zunzum do negócio, mas apenas uma viva tensão sexual. Por
um instante, pensou no clube anônimo situado acima do cubículo alugado de
Molly, mas a imagem dos olhos espelhados da garota fixados na pequena
147

tela provocou-lhe outro tipo de especulações. O que lhe revelava agora
Wintermute? A planta da Villa Straylight? A história dos Tessier-Ashpool?
Pediu uma caneca de Carlsberg e descobriu um lugar encostado à parede.
Fechando os olhos, procurou o nó da raiva, a pequenina brasa que lhe
alimentava a ira. Ainda estava lá. De onde viera? Lembrava-se de que, em
Memphis, quando o mutilaram, apenas havia experimentado uma espécie de
frustração, que não tinha sentido nada quando matara para defender os seus
interesses em Night City, e que a morte de Linda na cúpula inflada somente
lhe provocara um débil mal-estar e repugnância.
Nada disso, porém, equivalera a uma sensação de raiva. Minúscula e
longínqua, na tela da sua mente, uma recordação de Deane evocou a
lembrança da parede do escritório, alvo de uma explosão de miolos e sangue.
E foi então que soube: a ira surgira no salão de jogos, quando Wintermute
apagara o fantasma simstim de Linda Lee, arrebatando-lhe a promessa
simples e animal de comida, calor e um lugar para dormir. Só tivera
consciência disso, porém, quando encontrou o holograma de Lonny Zone.
Estranho: não era capaz de avaliar a sua dimensão.
— Entorpecido — disse.
Estivera entorpecido durante muito tempo, anos. Todas as noites no
Ninsei, as noites com Linda, adormecido na cama e adormecido no gerador
de suor frio que cada negócio de droga trazia consigo. Mas agora encontrara
essa coisa quente, esse processador de vontade de matar. A carne, disse-lhe
uma parte dele próprio, é apenas a carne falando, ignore-a.
— Gângster.
Abriu os olhos. Cath estava a seu lado, vestida com uma coisa ligeira,
preta, e com o cabelo ainda solto da viagem na Honda.
— Pensava que você tivesse ido pra casa — disse Case, e disfarçou a
perturbação bebendo um gole da Carlsberg.
— Consegui que ele me deixasse numa loja. Comprei isto. — Passou a
palma da mão pelo tecido e curva da cinta pélvica. Case reparou no dermo
azul do pulso da garota. — Gosta?
— Claro. — Automaticamente, observou os rostos a sua volta; em
seguida, olhou de novo para ela. — Qual é a sua idéia, doçura?
— Gostou da Beta que lhe arranjamos, Lupus? — A jovem estava já
muito encostada a ele, irradiando calor e tensão, com as pálpebras fendidas
sobre pupilas enormes e um tendão no pescoço, esticado como um arco.
Tremia e havia nela a vibração invisível de droga fresca. — Entrou em
órbita?
148

—Claro. Mas dá uma puta ressaca.
—Então o que você precisa é de outra.
— E onde é que isso leva?
—Tenho uma chave. Lá em cima, na colina, atrás do Paradise: uma
cabana jeitosíssima. Os donos tiveram que descer o poço, esta noite, por
causa de um negócio qualquer. Topa?
Ela agarrou a mão dele e a colocou entre as suas; as palmas estavam
quentes e secas.
— Você é Yak, não é, Lupus? Um soldado gaijin da Yakuza.
—Você enxerga longe, hein? Retirou a mão e procurou um cigarro.
—Como é que, então, ainda tem todos os dedos? Pensava que vocês
tinham que cortar um cada vez que falhassem.
— Eu nunca falho.
— Sei quem é a garota com quem você está. Eu a vi no dia em que o
conheci. Tem o andar do Hideo. Me assusta. — Teve um sorriso largo
demais. — Mas eu gosto disso. EL gosta de garotas?
— Nunca me disse. Quem é o Hideo?
— O assistente de 3Jane. Pelo menos é como ela o chama. Assistente da
família.
Case fez um esforço para dar uma olhada, inexpressiva, pela freqüência
do Emergency, ao mesmo tempo que falava.
— O que Jane?
—Lady 3Jane. É uma brega. Mas rica. O pai dela é o dono disto tudo.
— Deste bar?
— De Freeside.
— Muito fino. Você tem amigos com muita classe, não tem? — Ergueu
uma sobrancelha. Pôs um braço em volta da garota e a mão no quadril. —
Então como é que conheceu estes aristos, Cath? Por acaso você não é uma
espécie de debutante envergonhada? Você e o Bruce, herdeiros secretos de
alguma conta bancária antiga e madura? Hein?
Espalhou os dedos, massageando a pele por baixo do tecido preto fino. A
garota serpenteou o corpo contra o dele. Riu.
— Sabe como é — disse, com as pálpebras semicerradas num ar que
devia pretender ser de modéstia. — Ela gosta de festas. O Bruce e eu
fazemos o circuito das festas, todo... Ela sente-se muito chateada lá. O velho
a deixa sair às vezes, desde que acompanhada pelo Hideo pra tomar conta
dela.
— Onde é que ela se sente chateada?
149

—Na Straylight, que é como lhe chama. Ela me disse, sim senhor. É tudo
muito bonito, com todas aquelas piscinas e todos aqueles lírios. E um
castelo, um castelo autêntico, de pedra e pores do sol. — Tornou a se
aconchegar a ele. — Lupus, cara, você precisa de um dermo. Pra estarmos
juntos.
A garota usava uma bolsa de couro pequena presa a uma correia fina que
trazia em volta do pescoço. As unhas eram cor-de-rosa brilhante, que
sobressaía do bronzeado artificial, e estavam roídas até o sabugo. Abriu a
bolsa e retirou uma carteira de bolha com um dermo azul no interior. Uma
coisa branca caiu no chão. Case inclinou-se e apanhou-a. Era um grou de
papel, origami.
— O Hideo me deu — disse. — Tentou me ensinar como fazer, mas
nunca consigo. 0 pescoço fica sempre para o lado contrário.
Enfiou a dobradura na bolsa. Case observou, enquanto ela rasgava a
bolha, libertava o dermo da base e lhe aplicava na parte interior do pulso.
— A 3Jane tem uma cara pontiaguda e um nariz de pássaro, não tem? —
Deu-se conta de que estava tentando desenhar um perfil no ar com a mão. —
Cabelo escuro? Jovem?
— Creio que sim. Mas ela é brega, sabe? Com todo aquele dinheiro...
A droga atingiu-o como um trem expresso: uma coluna branca e quente
de luz que subia pela sua espinha desde a zona da próstata, iluminando as
suturas do crânio com raios X de energia sexual curto-circuitada. Seus
dentes vibraram nos alvéolos como se fossem diapasões, cada um deles num
tom correto e claro como etanol. O esqueleto, sob a camada imprecisa da
carne, era cromado e polido, e as articulações estavam lubrificadas por uma
película de silicone. Através do solo varrido do crânio precipitavam-se
tempestades de areia, que geravam ondas estáticas finas, explodindo detrás
dos olhos: esferas do mais puro cristal, em expansão...
— Vamos — disse-lhe ela, pegando sua mão. — Já está. Já estamos.
Vamos lá para o topo da colina, temos com que nos entreter a noite toda.
A raiva entrara em processo de expansão, incansável, exponencial,
correndo atrás da onda de betafenetilamina como se fosse uma onda
transportadora, um fluido sísmico, rico e corrosivo. A ereção que sentia era
uma barra de chumbo. Os rostos a sua volta no Emergency eram rostos de
bonecos pintados que emergiam como discretos balões de som. Olhou para
Cath e percebeu todos os poros da sua pele bronzeada, do olhar parado como
vidro embaçado, de uma tonalidade de metal sem vida, de um ligeiro
entumecimento, das mais minúsculas assimetrias dos seios e do pescoço,
150

do... Sentiu um clarão branco por trás dos olhos.
Largou a mão da garota e dirigiu-se aos tropeções para a porta, dando um
empurrão em alguém que estava em seu caminho.
— Vá tomar no cu! — gritou a garota atrás dele — , seu grande vigarista
de merda!
Não conseguiu sentir as pernas. Estava utilizando-as como muletas,
oscilando desvairadamente sobre a laje do chão da Júlio Verne, ouvindo um
murmúrio distante dentro de si: o seu próprio sangue e placas de luz, como
lâminas, seccionando-lhe o cérebro numa dezena de direções.
Subitamente, ficou paralisado, ereto, com os punhos cerrados contra as
coxas, a cabeça para trás, os lábios virados e tremendo. Enquanto observava
o zodíaco de Freeside, as constelações dos nightclubs no céu holográfico
alteravam-se, deslizando, fluidas, pelo eixo da escuridão, para enxamearem,
como se fossem coisas vivas, o centro morto da realidade. Até que se
rearranjaram, individualmente e às centenas, formando um único e enorme
retrato, definido por miríades de pontos, estrelas no céu noturno, o
derradeiro monocromo. A face de Linda Lee.
Quando conseguiu afastar o olhar e baixá-lo, percebeu que todas as
demais cabeças na rua se encontravam erguidas; os turistas passantes
estavam paralisados com a maravilha. E, quando as luzes do céu se
apagaram, ouviu-se um aplauso entusiasmado na rua Júlio Verne que ecoou
pelos terraços e pelas fileiras de varandas de cimento lunar.
Em algum lugar, um relógio começou a badalar; devia tratar-se de algum
sino antigo da Europa.
Era meia-noite.
Caminhou até o amanhecer.
A excitação da droga desapareceu gradualmente, o esqueleto de cromo
corroendo-se hora a hora e a carne tornando-se sólida, a carne da droga
sendo substituída pela carne da sua vida. Não conseguia pensar. Mas era
algo que lhe agradava bastante: estar consciente e não ser capaz de pensar.
Parecia-lhe que se tornava em tudo o que via: um banco de jardim, uma
nuvem de mariposas brancas esvoaçando em volta de um antigo candeeiro
de rua, um jardineiro robô de listas diagonais pretas e amarelas.
Uma alvorada gravada subiu pelo sistema Lado-Acheson, cor-de-rosa e
lúgubre. Forçou-se a comer uma omelete num café da Desiderata, bebendo
água e fumando o último dos seus cigarros. O prado relvado no telhado do
Intercontinental começava a ter alguma vida, quando atravessou, com os
151

hóspedes madrugadores dispostos para o café e debaixo dos chapéus
listados.
Ainda tinha a raiva. Era como se tivesse sido assaltado num beco
qualquer e acordasse descobrindo que ainda tinha a carteira no bolso, intacta.
Aqueceu-se com ela, incapaz de lhe dar um nome ou um objeto.
Desceu no elevador até seu andar, procurando nos bolsos o cartão de
crédito Freeside, com o microprocessador, que lhe servia de chave. O sono
era uma coisa real, algo que podia ir fazer agora: deitar-se na espuma
plástica cor de areia e encontrar de novo o vazio.
Eles estavam lá, os três, com os seus perfeitos ternos brancos de esporte
e o bronze desenhado como uma cópia original, em harmonia decorativa
com o chique orgânico do mobiliário trabalhado a mão. A garota sentava-se
numa cadeira de verga com uma pistola automática a seu lado sobre o
estampado de folhas da almofada.
— Turing — anunciou ela.— Está preso.

152

OPERAÇÃO STRAYLIGHT

153

13
O seu nome é Henry Dorsett Case — a garota recitou também o ano e o
local de seu nascimento, o número de identificação EMAB e ainda uma
relação de nomes que, gradualmente, ia reconhecendo como nomes falsos
que utilizara no seu passado.
— Estavam aqui há muito tempo?
Case notou o conteúdo da sua mochila espalhado sobre a cama, a roupa
suja separada pelo tipo. O shuriken jazia isolado, entre jeans e roupa de
baixo, na espuma plástica de cor de areia.
— Onde é que está a Kolodny?
Os dois homens sentavam-se um ao lado do outro no sofá, com os braços
cruzados sobre os peitos bronzeados e idênticos fios de ouro em volta dos
pescoços. Case focou a atenção no seu aspecto e reparou que a juventude
exibida era falsa, o que era denunciado por uma certa rugosidade nos nós dos
dedos, algo que os cirurgiões não haviam sido capazes de apagar.
— Quem é a Kolodny?
— É o nome que consta no registro. Onde está ela?
— Não sei — disse, atravessando o quarto até o bar e enchendo um copo
de água mineral. — Desapareceu.
— Aonde você foi esta noite, Case?
A garota pegou a pistola e a descansou na coxa, sem apontar para ele.
— Júlio Verne, um ou dois bares, me droguei. E vocês?
Sentia os joelhos quebradiços. A água mineral tinha um gosto quente.
— Temo que você não esteja percebendo a situação — disse o homem
da esquerda, tirando um maço de Gitanes do bolso da camiseta de malha
branca. — Você foi caçado, senhor Case. As acusações tem a ver com
conspiração para aumentar uma inteligência artificial. — Extraiu um
isqueiro Dunhill de ouro do mesmo bolso e balançou-o na palma da mão. —
O homem que vocês chamam de Armitage está detido.
— Corto?
Os olhos do homem abriram-se.
— Sim, senhor. Como é que sabe que esse é o nome dele? Um milímetro
de chama surgiu, com um clique, no isqueiro.
— Esqueci — respondeu Case.
— Ainda vai se lembrar — retorquiu a garota.
154

Os seus nomes, ou os seus nomes de trabalho, eram Michèle, Roland e
Pierre. Pierre, foi a conclusão de Case, faria o "tira mau"; Roland tomaria o
partido de Case, forneceria pequenas amabilidades — produziu um maço de
Yeheyuans quando Case recusou um Gitanes — e faria, em geral,
contraponto à fria hostilidade de Pierre. Michèle seria o "anjo registrador",
que procederia a ocasionais ajustamentos na direção do interrogatório. Um
deles, ou todos os três, devia estar ligado para registro de áudio, muito
provavelmente com um simstim, e, portanto, tudo o que dissesse ou fizesse
iria constituir prova aceitável. Prova, perguntou a si mesmo, no meio do
espremedouro a que ia se sujeitar, de quê?
Sabendo que ele não conseguiria acompanhar o francês deles, falavam à
vontade entre si. Ou pareciam fazê-lo. Conseguia apanhar uns nomes, tais
como Pauley, Armitage, Rede Sense, Modernos Panteras, que emergiam
como icebergs de um mar francês parisiense. Mas podia acontecer que os
nomes fossem largados apenas para seu benefício. Referiam-se a Molly
sempre como Kolodny.
— Diga que foi contratado para uma operação, Case — disse Roland,
com um discurso lento que pretendia sugerir moderação —, e que você
ignora a natureza do objetivo. Isso não é pouco habitual na sua linha de
serviço? Quando você penetrou nas defesas, como é que podia realizar o
objetivo requerido? E com certeza há sempre um objetivo de qualquer
espécie, não é verdade?
Inclinou-se para a frente com os cotovelos assentados nos joelhos
morenos pintados e as palmas das mãos estendidas, como que para receber a
explicação de Case. Pierre passeava de um lado para o outro; ora estava à
janela, ora junto à porta. Michèle era quem estava ligada, concluiu Case: os
olhos dela não o largavam nunca.
— Posso me vestir? — perguntou.
Pierre insistira em despi-lo todo, examinando até as costuras dos jeans.
Estava sentado, nu, num banquinho de verga, com um pé obscenamente
branco.
Roland perguntou qualquer coisa em francês. Pierre, de novo junto à
janela, espreitava através de um minúsculo par de binóculos.
— Non — respondeu displicentemente.
E Roland encolheu os ombros, ao mesmo tempo que erguia as
sobrancelhas para Case. Case decidiu que seria uma boa hora para sorrir.
Roland retribuiu o sorriso.
Um truque de polícia tão velhinho, com barbas, pensou Case.
155

—Olhem aqui — disse — , eu não estou bem disposto. Tomei uma
merda duma droga num bar, percebem? Quero me deitar. Vocês já me
apanharam. Dizem que apanharam o Armitage. Se o têm, vão perguntar. Eu
sou apenas uma ajuda contratada.
Roland fez um gesto com a cabeça.
— E a Kolodny?
— Ela já se encontrava com Armitage quando ele me contratou. É só
músculo: uma garota de lâminas. Até onde eu sei, o que não é muito.
— Sabe que o verdadeiro nome de Armitage é Corto — disse Pierre,
com os olhos ainda ocultos pelos bordos de plástico macio dos binóculos. —
Como é que você sabe isso, meu caro amigo?
— Creio que ele fez menção disso numa hora qualquer — respondeu
Case, lamentando o seu deslize. — Todo mundo tem mais do que um nome.
O seu é Pierre?
— Sabemos que voce foi reparado em Chiba — disse Michèle — e que
esse deve ter sido o primeiro erro de Wintermute.
Case olhou para ela tão inexpressivamente quanto era possível. O nome
não havia sido dito antes. — O processo que lhe aplicaram resultou na
solicitação de sete patentes básicas pelo proprietário da clínica. Sabe o que
isso significa?
— Não.
— Significa que o operador de uma clínica clandestina de Chiba possui
agora o controle de três dos maiores consórcios de pesquisa e investigação.
Isso inverte a habitual ordem das coisas, percebe? Portanto, atraiu as
atenções. — Ela cruzou os braços morenos por cima dos seios pequenos e
recostou-se na almofada cor-de-rosa. Case ficou pensando qual seria a idade
dela. Diz-se que a idade transparece sempre nos olhos; ele, contudo, nunca
fora capaz de ver isso. Julie Deane tinha os olhos de um garoto de dez anos,
desinteressado, por trás do quartzo rosado dos óculos. Em Michèle não havia
nada que denunciasse a idade, exceto os nós dos dedos. — Seguimos o seu
rastro até o Sprawl, perdemo-lo de novo e, em seguida, demos por você
quando estava prestes a partir para Istambul. Voltamos um pouco atrás,
revimos tudo e concluímos que tinha promovido um ato terrorista na Rede
Sense. A Sense mostrou-se ansiosa por cooperar e fizeram um inventário a
nosso pedido. Descobriram que o ROM com o spectrom da personalidade de
McCoy Pauley estava faltando.
— Em Istambul — prosseguiu Roland, quase em tom de desculpa — foi
muito fácil. A mulher transferira o contato de Armitage com a polícia
156

secreta.
— E veio pra cá — disse Pierre, enfiando os binóculos no bolso dos
calções. — Ficamos encantados.
— Com a oportunidade de trabalharem o seu bronzeado ?
— Sabe bem o que queremos dizer — disse Michèle. — Se quer fingir
que não sabe, só torna as coisas mais difíceis para você. Ainda temos a
questão da extradição. Vai regressar conosco, tal como Armitage. Mas para
onde é que voltamos exatamente? Para a Suíça, onde será um simples peão
no julgamento de uma inteligência artificial? Ou para a EMAB, onde pode
ser provado que você participou não só da invasão de um banco de dados e
roubo, mas também de um ato de agitação pública do qual resultou a morte
de catorze vidas inocentes? A escolha é sua.
Case tirou um Yeheyuan do maço; Pierre o acendeu com o Dunhill de
ouro. Exalou a fumaça por cima do agente da Registros, da Turing.
— Vocês, aí, têm realmente alguma jurisdição aqui? Quero dizer: não
deviam trazer uma equipe de segurança de Freeside com vocês? O campo é
deles, não é verdade?
Notou o endurecimento nos olhos escuros na face magra do rapaz e
preparou-se para o golpe. Pierre limitou-se a encolher os ombros.
— Não tem importância — respondeu Roland. — Virá conosco. Em
situações de ambigüidade legal, estamos sempre em casa. Os tratados, sob os
quais o nosso setor da Registros opera, concedem-nos um grande grau de
flexibilidade. E nós criamos flexibilidade em todas as situações em que ela é
exigida.
A máscara de afabilidade havia desaparecido subitamente. Os olhos de
Roland eram tão duros quanto os de Pierre.
— Você é pior que um tolo — disse Michèle, levantando-se com a
pistola na mão. — Não temos consideração nenhuma por gente da sua
espécie. Durante milhares de anos, o homem sonhou com pactos com o
diabo. Só agora é que isso é possível. E com o que seria pago? Qual seria o
seu preço por ajudar esta coisa a se libertar e a crescer? — Havia um cansaço
de sabedoria na voz jovem da garota que nenhuma adolescente de 19 anos
conseguiria mostrar. — Agora, vista-se. Venha conosco. Juntamente com
aquele a quem chama Armitage, vai regressar a Genebra e prestar
declarações no julgamento desta IA. Caso contrário, matamo-la. Agora
mesmo.
— Já estou me vestindo — disse Case, tropeçando na direção da cama.
Sentia ainda as pernas entorpecidas, desajeitadas. Mexeu numa camiseta
157

lavada.
— Temos uma nave à espera. Apagaremos o spectrom do Pauley com
uma arma propulsora.
— Estou cagando para a Rede Sense — disse Case, pensando — e para
todas as provas no Hosaka.
— Eles já estão com problemas por possuírem uma coisa dessas.
Case enfiou a camiseta por cima da cabeça. Viu o shuriken sobre a cama,
um pedaço de metal sem vida, a sua estrela. Procurou a raiva. Tinha
desaparecido. Era tempo de desistir, de deixar-se ir... Pensou nos sacos com
a toxina.
Aí vem a carne, pensou.
No elevador e a caminho do prado, pensou em Molly. Era capaz de já
estar em Straylight. Na perseguição de Riviera. E provavelmente perseguida
por Hideo, que, quase com toda a certeza, era o ninja duplo da história do
Finlandês, o que tinha vindo para recuperar a cabeça falante.
Descansou a cabeça no plástico negro-mate do painel de uma parede e
fechou os olhos. Tinha os membros de madeira, velhos, gelados e pesados de
chuva.
Era a hora do almoço. Este estava sendo servido entre as árvores, sob os
chapéus brilhantes. Roland e Michèle entraram no ambiente, conversando
animadamente em francês. Pierre vinha atrás. Michèle mantinha o cano da
pistola encostado às suas costelas, escondendo a arma com um casaco de
lona branca que trazia dobrado sobre o braço.
Quando atravessaram o prado, escolhendo as mesas e as árvores,
perguntou a si mesmo se ela dispararia se ele tivesse naquele instante um
colapso. Uma mancha preta fervilhava na periferia de sua visão. Olhou para
cima, para a faixa branco-quente da armadura do Lado-Acheson e reparou
numa borboleta gigante que curvava graciosamente contra o céu gravado.
No extremo do prado havia uma formação de rochas resguardada por
pilares e coberta de flores que bailavam na encosta do autêntico desfiladeiro
que era a Desiderata. Michèle sacudiu o cabelo escuro e curto e apontou,
dizendo qualquer coisa em francês a Roland. A satisfação dela parecia
genuína. Case seguiu a direção do seu gesto e viu a curva dos lagos calmos,
o brilho branco dos cassinos, os retângulos turquesa de milhares de piscinas,
os corpos dos banhistas, minúsculos hieróglifos de bronze, todos imóveis na
serena aproximação da gravidade à curvatura sem fim do casco de Freeside.
Seguiram os pilares até uma ponte de ferro decorada que descrevia um
arco sobre a Desiderata. Michèle empurrou-o com o cano da Walther.
158

— Calma. Hoje quase que não posso andar.
Estavam a pouco mais de um quarto da passagem pela ponte, quando o
microplano atacou, com o motor elétrico silencioso até o momento em que o
projétil de fibra de carbono cortou e projetou para longe o topo do crânio de
Pierre.
Ficaram, por um instante, sob a sombra da coisa. Case sentiu o sangue
quente espirrar para cima do seu pescoço e, em seguida, alguém o derrubou.
No solo, deu uma volta com o corpo, vendo Michèle deitada de costas, com
os joelhos erguidos, apontando a Walther com ambas as mãos. Isso era um
desperdício de esforço, pensou, com a estranha lucidez provocada pelo
choque. A garota tentava abater o microplano.
Foi então que fugiu. Olhou para trás quando passava a primeira árvore.
Roland corria atrás dele. Viu o biplano frágil bater na vedação de ferro da
ponte, virar-se e arrastar consigo a garota para a Desiderata, lá embaixo.
Roland não olhara para trás. Tinha a face parada, lívida, os dentes à
mostra. Trazia algo na mão.
O jardineiro robô atingiu Roland quando este passava pela mesma
árvore. Deixara-se simplesmente cair dos ramos aparados, uma coisa
parecida com um caranguejo de listas diagonais pretas e amarelas.
— Matou todos — gritou Case arfando, enquanto corria. — Grande filho
da puta, doido, matou todos...

159

14
O trem deslizava pelo seu túnel a oitenta quilômetros por hora. Case
mantinha os olhos fechados. A ducha ajudara; contudo, perdera a vontade de
comer quando olhara para baixo e observara a mancha cor-de-rosa nos
mosaicos brancos: o sangue de Pierre sendo lavado.
A gravidade diminuía à medida que o fuso estreitava. Case sentiu o
estômago agitando-se violentamente.
Aerol já se encontrava à espera com a motoneta junto da doca.
— Case, homem, grande problema.
A voz suave e fraca nos fones. Ajustou o controle do volume com o
queixo e espreitou para dentro da transparência facial Lexan do capacete de
Aerol.
— Tenho de ir ao Garvey, Aerol.
— Sim. Apertar correia. Mas Garvey cativo. Iate, vir antes e voltar.
Agora, prender firme Marcus Garvey.
Seria da Turing? — Veio antes? Case subiu na motoneta e começou a
apertar o cinto.
— Iate Japão. Trazer embrulho...
Armitage.
Imagens confusas de vespas e aranhas vieram à mente de Case, assim
que avistaram o Marcus Garvey. O pequeno rebocador estava encostado ao
casco cinzento de uma nave lustrosa, parecida com inseto, cinco vezes o seu
comprimento. Os braços das âncoras distinguiam-se do casco remendado do
Garvey, sob a estranha claridade do vácuo e da luz solar crua. Um passadiço
de chapa ondulada partia do iate, curvava para o lado, para evitar os motores
do rebocador, e fechava a escotilha de metal. Havia algo de obsceno nesse
arranjo, mas este tinha mais a ver com idéias de alimentação do que com
sexo.
— Que é que está acontecendo com o Maelcum?
— Eu e eu bem. Nada descer tubo. Piloto iate falar com eu, dizer calma.
Ao passar a nave cinzenta, Case conseguiu ler HANIWA em maiúsculas
brancas e bem-definidas sob um amontoado de caracteres japoneses.
— Não estou gostando disso, cara. Estava pensando que talvez fosse
melhor sairmos daqui.
— Maelcum pensar mesma coisa, homem, mas Garvey não ir longe
160

como estar.
Maelcum estava despejando um dialeto acelerado para o seu rádio,
quando Case entrou pela escotilha da frente e tirou o capacete.
— Aerol regressou ao Rocker — disse.
Maelcum fez que sim com a cabeça, ao mesmo tempo que prosseguia o
sussurro para o microfone.
Case passou por cima do material atravancado do piloto e começou a
despir-se. Os olhos de Maelcum estavam fechados; limitava-se a acenar com
a cabeça, enquanto escutava a resposta pelo par de fones cor de laranja vivo
e a franzir a sobrancelha em sinal de grande concentração. Vestia um jeans
em mau estado e um blusão velho de nylon verde com as mangas cortadas.
Case atirou o temo Sanyo em uma gaveta e deixou-se cair na rede de
gravidade.
— Ver o que fantasma dizer, homem — disse Maelcum. — Computador
continuar perguntar por você.
— Então, quem é que está nesta coisa aqui em cima?
— Rapaz Japão qualquer vir antes. E agora junto seu senhor Armitage,
saírem de Freeside...
Case colocou os dermatrodos e entrou na matriz. — Dixie? A matriz
exibiu-lhe as esferas cor-de-rosa do complexo siderúrgico de Sikkin.
— Q u e é que anda arranjando, meu rapaz? Tenho ouvido algumas
histórias fantásticas. O Hosaka está em rede com um banco gêmeo na nave
do seu patrão, agora, realmente aos pulos. Apanhou algum calor da Turing?
— Hum, num, mas o Wintermute os matou.
— Bem, isso não vai afastá-los por muito tempo. De onde esses vieram,
há muito mais. Vão estar aqui em bando. Aposto que vão pôr terminais por
todo o lado, neste setor, como moscas num monte de merda. E o seu patrão.
Case, disse pra arrancarmos. Disse que arrancássemos e que arrancássemos
já.
Case digitou as coordenadas de Freeside.
— Agüenta um segundo, Case...
A matriz turvou e entrou em fase, enquanto o Linha Reta executava uma
serie complicada de saltos, com uma precisão e uma velocidade que faziam
Case roer-se de inveja.
— Vá à merda, Dixie...
— Olhe aí, rapaz. Eu era bom nisso quando estava vivo. Ainda não viu
nada. Repare, sem mãos!
161

—Hein, é isso aí, não é? Esse grande retângulo verde à esquerda?
—Já achou. É o núcleo de dados das empresas Tessier-Ashpool, S.A., e
todo esse ICE é gerado pelas suas duas amigas, as IAs. E me parece, bate
bem com tudo o que os militares têm. É um ICE do diabo, Case, negro como
um túmulo e liso como vidro. Frita seus miolos só de olhar pra você. Se nos
aproximarmos agora, minimamente que seja, os seus detectores não vão
esperar nada pra se enfiarem pelos nossos rabos acima e saírem pelas orelhas
e irem contar logo aos caras na administração da T-A o número dos seus
sapatos e o comprimento do seu pau.
— Bem, isto não está assim muito entusiasmante, não é? Isto é, os caras
da Turing já andam aí em cima. Estava pensando que talvez pudéssemos
abandonar o barco enquanto é tempo. Posso levá-lo comigo.
—Ah, sim? Não quer ver o que é que esse programa chinês pode fazer?
— Bem, eu... — Case olhou para as paredes verdes do ICE da T-A. —
Está bem, monte. Vamos continuar isso.
— Abra e coloque.
— Maelcum — disse Case, desligando-se —, provavelmente vou estar
com os dermatrodos por umas oito horas seguidas. — Maelcum estava
fumando de novo. A cabine nadava em fumaça. — Por isso, não posso ir a ...
— Não haver problema, homem.
O zionita executou um salto mortal para a frente e vasculhou o conteúdo
de uma mochila de malha com zíper, extraindo daí uma espiral de tubo
transparente e uma outra coisa, selada dentro de um pacote esterilizado de
bolha.
Chamou-a de "sonda texana", e Case não gostou nada dela.
Enfiou o vírus chinês, fez uma pausa e empurrou-o até o fundo.
— Pronto — disse — está feito. Ouça, Maelcum, se isto ficar bastante
esquisito, pode agarrar meu pulso. Conseguirei senti-lo; se não, creio que
deve fazer o que o Hosaka disser pra fazer, está bem?
— Certo, homem.
Maelcum acendeu outro cigarro.
— E desligue o depurador. Não quero que essa merda interfira com os
meus neurotransmissores. Já fico com uma boa ressaca só com isto.
Maelcum sorriu, arreganhando os dentes. Case voltou a entrar na matriz.
— Jesus Cristo de muletas! — exclamou o Linha Reta. — Veja só isto...
O vírus chinês estava desenvolvendo-se em volta deles. Uma sombra
policrômica, inúmeras camadas translúcidas alterando-se e recombinando-se.
Multiforme, imenso, avançava dominador por cima deles, apagando o vazio.
162

— Minha mãezinha — comentou o Linha Reta.
— Vou fazer uma verificação na Molly — informou Case, apertando o
comutador do simstim.
Em queda livre. A sensação era a de mergulhar em água perfeitamente
límpida. Ela estava caindo, subindo, por um tubo largo de cimento lunar
estriado, iluminado em cada dois metros por anéis de néon branco.
A ligação era apenas num sentido. Não podia falar com ela.
Regressou à matriz.
— Meu rapaz, isto é um software do caralho. A coisa mais espetacular
desde que inventaram o pão em fatias. A merda da coisa é invisível. Acabei
de alugar vinte segundos naquela caixa cor-de-rosa, a quatro saltos do ICE
da T-A; e dei uma olhada pra ver que aspectos temos. Não temos. Não
estamos lá.
Case procurou na matriz em volta do ICE da Tessier-Ashpool até
encontrar a estrutura cor-de-rosa, uma unidade comercial padrão, e
manipulou para ficar mais próximo.
— Talvez esteja avariada.
— Talvez, mas duvido. Se bem que a nossa criança seja militar. E nova.
Simplesmente, não registra. Se o fizesse, dava pra ler como uma espécie de
ataque traiçoeiro chinês, mas ninguém ainda veio nos espreitar. Talvez nem
mesmo a turma de Straylight.
Case observou o muro vazio que protegia Straylight.
— Bem — disse —, é uma vantagem, certo?
— Talvez. — O spectrom produziu uma aproximação de gargalhada.
Case encolheu-se todo com a sensação. — Fiz uma nova verificação do
nosso Kuang Eleven, por sua causa, meu rapaz. É mesmo amigável, desde
que esteja ao lado do gatilho, e tão delicado e prestimável quanto pode ser.
Também fala um perfeito inglês. Já alguma vez tinha ouvido falar de vírus
lentos?
— Não.
— Eu já, uma vez. Nessa época, fiquei só com uma idéia. Mas
corresponde àquilo que, no fundo, é o Kuang Eleven. Não se trata de
perfurar e injetar, mas antes de estabelecer uma ligação com o ICE tão lenta
que este não a sinta. O aspecto da lógica do Kuang se derrama até chegar ao
alvo, sofre uma mutação e fica exatamente como o tecido do ICE. Aí
fixamos e os programas principais começam a penetrar em círculos em volta
163

da lógica do ICE. E então que nós, irmãos siameses, caímos em cima deles,
mesmo antes que eles tenham tempo pra ficarem inquietos.
O Linha Reta riu.
— Queria que não estivesse hoje tão bem-disposto, cara. O seu riso me
dá arrepios na espinha.
— Isso é péssimo — replicou o Linha Reta. — O velhote morto precisa
da sua gargalhadazinha.
Case deu um
tapa no comutador do simstim.
E espatifou-se no meio do metal retorcido e cheio de poeira; as mãos
escorregavam no contato com papel gorduroso. Algo atrás caiu
ruidosamente.
— Então — disse o Finlandês —, vê lá se vai com mais calma.
Case jazia em cima da pilha de revistas amareladas; uma galáxia de
dentes brancos de garotas iluminavam sua visão na pouca luz da Holografix.
— Wintermute — exclamou.
—Claro — disse o Finlandês, atrás dele —, você acertou.
— Vá foder outro. — Case sentou-se, esfregando os olhos.
— Como é que é ... — disse o Finlandês, saindo de uma espécie de
quarto na parede de ferro-velho. — Assim é melhor pra você, garoto. —
Tirou o seu maço de Partagas de um bolso do casaco e acendeu um. O cheiro
do tabaco cubano encheu a loja. — Queria que eu aparecesse pra você na
matriz como um arbusto em chamas? Não está perdendo nada do outro lado.
Uma hora aqui demora apenas um ou dois segundos.
— Alguma vez lhe ocorreu que talvez acabe com os meus nervos essa
história de você aparecer na forma de gente que eu conheço? — Levantouse, sacudindo com uma palmada a poeira do jeans preto. Deu uma volta
sobre si mesmo e olhou as vitrines poeirentas e a porta da loja. — Que é que
existe lá fora? Nova Iorque? Ou isso acaba ali mesmo?
— Bem — respondeu o Finlandês —, é como uma árvore. Quando cai na
floresta, talvez não haja ninguém pra ouvir . — Mostrou os dentes dianteiros,
enormes, e aspirou o cigarro. — Se agradar, pode passear lá fora. Está tudo
lá. Ou melhor, todas as partes do exterior que você já viu. Isto é memória,
compreende? A sua. Eu me abasteço dela, ponho em ordem e apresento de
novo.
— A minha memória não é tão boa assim — replicou Case.
Olhou para as mãos e virou-as. Tentou lembrar-se como eram as linhas
164

das palmas, mas não foi capaz.
— É uma coisa que toda a gente tem — prosseguiu o Finlandês,
deixando cair o cigarro no chão e esmagando-o com a ponta do sapato —,
mas são poucos os que conseguem ter um bom acesso a ela. A maioria dos
que conseguem são artistas, se forem realmente bons. Se pudesse colocar
este spectrom na realidade, o local do Finlandês em Manhattan, você notaria
a diferença, mas não tanta como poderia pensar.Pra você, a memória é
holográfica. — O Finlandês deu um puxão numa das orelhas pequenas. —
Eu sou diferente.
— O que você quer dizer com holográfica? A palavra o fez lembrar-se
de Riviera.
— O paradigma holográfico é a coisa mais aproximada de uma
representação da memória humana que vocês foram capazes de conceber.
Mas nunca fizeram nada com isso. Gente, pessoas, é o que quero dizer. — O
Finlandês deu um passo para a frente e inclinou o seu crânio aerodinâmico
para espreitar Case. — Se tivessem feito, talvez eu não estivesse
acontecendo.
— Pra que esse papo todo?
O Finlandês encolheu os ombros. O tweed esfarrapado balançava nos
seus ombros e não conseguia assentar na posição correta.
— Estou tentando ajudar, Case.
— Por quê?
— Porque preciso de você. — Os dentes largos e amarelos tornaram a
surgir. — E porque você precisa de mim.
— Vã à merda. É capaz de ler a minha mente, Finlandês? — engasgou.
—. Isto é, Wintermute.
— Mentes não são vistas. Repare, não se libertou ainda do paradigma
que a palavra impressa forneceu, e não se pode dizer que seja um letrado.
Tenho acesso a sua memória, mas isso não é a mesma coisa que a sua mente.
— Levou a mão ao chassis aberto de um velho aparelho de televisão e
retirou uma válvula de vácuo, prateada e escura. — Vê esta coisa? Uma
parte do meu ADN, isto é, uma espécie de... — Atirou-a fora para a zona
escura da loja e Case ouviu uma pequena explosão e ruído de vidros
partidos. — Vocês estão sempre construindo modelos: círculos de pedra,
catedrais, órgãos de tubos, máquinas de somar. Sabe que não faço a mínima
idéia de por que é que estou aqui agora? Mas, se a operação for sucesso esta
noite, vocês conseguiram atingir a coisa autêntica.
— Eu não estou entendendo porra nenhuma do que você está falando.
165

— Esse "eu" é o coletivo: a espécie humana.
— Você eliminou aqueles Turings.
O Finlandês encolheu os ombros novamente.
— Não tive escolha. Fui forçado. Devia estar se borrando; eles o
eliminariam sem pensar duas vezes. De qualquer forma, temos que falar
mais sobre o motivo por que o trouxe aqui. Lembra disso? — Na mão
esquerda tinha o ninho carbonizado de vespas do sonho de Case; um vapor
de combustível pairava na exigüidade da loja escura. Case recuou,
tropeçando, até a parede de sucata. — Tenho, sim. Fui eu que o fiz com a
moldura holográfica na janela. Uma outra recordação que tirei de você
quando lhe pus o EEG em linha reta na primeira vez. Sabe por que é
importante?
Case fez que não com a cabeça.
— Porque — e o ninho já desaparecera — é a coisa mais aproximada
daquilo que a Tessier-Ashpool gostaria de ser, isto é, o seu equivalente
humano. Straylight é como o ninho, ou, pelo menos, foi concebida com a
intenção de o ser. Suponho que isso o fará sentir melhor.
— Sentir melhor como?
— Saber como eles são na realidade. Começou a sentir ódio por mim.
Isso é bom. Mas, em vez disso, odeie-os. Há aí uma certa diferença.
— Escute — disse Case, avançando —, eles nunca me foderam. Mas no
que diz respeito a você é diferente. — Não conseguia, porém, sentir a raiva.
— Os Tessier-Ashpool me fizeram. A garota francesa disse que você
estava vendendo a espécie humana. Me chamou de demônio. — O Finlandês
sorriu com um esgar. — Não tem importância. Antes que isso termine, tem
que odiar alguém. — Virou-se e começou a caminhar em direção ao fundo
da loja. — Está bem, ande. Enquanto o tenho aqui, vou lhe mostrar um
pouco de Straylight. — Levantou a ponta do cobertor; um jorro de luz
branca saiu do espaço aberto. — Merda, cara, não fique aí parado.
Case seguiu-o, esfregando a cara.
— Ótimo — disse o Finlandês, agarrando-o pelo cotovelo.
Depois de passarem por um monte de material em decomposição, no
meio de uma nuvem de pó, encontraram-se em queda livre por um corredor
cilíndrico e estriado, de cimento lunar, iluminado por anéis de néon branco,
de dois em dois metros.
—Cacete! — exclamou Case, aos trombolhões.
—Esta é a entrada dianteira — disse o Finlandês, com o terno de tweed
esvoaçando. — Se isto não fosse o meu spectrom , o portão principal seria
166

onde a loja está agora, na extremidade do eixo de Freeside. Existem poucos
detalhes, porque você não possui as recordações. Exceto desse troço aqui,
que arranjou através de Molly...
Case conseguiu endireitar-se, mas passou a descrever um movimento
longo em espiral.
— Agüenta — disse o Finlandês.— Vou acelerar-nos.
A parede ficou turva; Case experimentou uma sensação estonteante de
progressão rápida para a frente, de cabeça: cores, curvas abruptas e
passagens estreitas. Pareceu-lhe, a certa altura, que atravessavam alguns
metros de parede sólida, num relâmpago de escuridão absoluta.
— É aqui — anunciou o Finlandês. — Chegamos.
Estavam flutuando numa sala perfeitamente quadrada com as paredes e o
teto revestidos de painéis retangulares de madeira escura. O chão estava
coberto por um único quadrado de carpete, de cor viva, que apresentava um
desenho análogo ao de um microchip, com os circuitos traçados em lã azul e
vermelha. No centro exato do quarto, alinhado com o desenho do carpete,
erguia-se um pedestal de vidro fosco, com a forma de um paralelepípedo.
— A Villa Straylight — disse uma coisa adornada com pedras preciosas
que se estava sobre o pedestal — é um corpo que cresceu sobre si mesmo,
uma fantasia gótica. Cada um dos lugares de Straylight é, de algum modo,
secreto; existe uma infindável série de câmaras ligadas por passagens e
escadas em caracol, que se desenvolvem como intestinos; o olhar fica
sempre enredado em curvas estreitas e cheio de telas ornamentadas e de
quartos desertos...
— Um ensaio da 3Jane — informou o Finlandês, tirando um dos seus
Partagas. — Escreveu quando tinha doze anos. Pra um curso de semiótica.
— Os arquitetos de Freeside não pouparam esforços para encobrirem o
fato de que o interior do fuso está organizado com a precisão banal de um
quarto de hotel. Em Straylight, a superfície interior do casco ficou
superpovoada por uma proliferação desesperada de estruturas, de formas
fluindo, entrelaçando-se, subindo em direção a. um núcleo sólido de
microcircuitos: o coração organizado do nosso clã, um cilindro de sílicia,
perfurado por túneis de manutenção estreitos, alguns deles não muito
maiores que a mão de um homem. Aracnídeos, e réplicas fabricadas, em
permanente estado de alerta, minam o circuito, na verificação de qualquer
desgaste micromecânico ou sabotagem.
— Foi o que viu no restaurante — disse o Finlandês.
— De acordo com a noção de normalidade do arquipélago — prosseguiu
167

a cabeça —, a nossa é uma família antiga, e as suas convulsões refletem sua
idade. Mas refletem também algo mais: a semiótica da Villa afirma um
voltar de costas, uma negação do vazio brilhante para além do casco.
— Tessier e Ashpool subiram pelo poço da gravidade para chegarem à
conclusão de que desprezavam o espaço. Construíram Freeside para
canalizarem em seu proveito a riqueza das novas ilhas, para crescerem em
riqueza e excentricidade; com esse objetivo, iniciaram também em Straylight
a construção de um corpo de extensão. Enclausuramo-nos por trás do nosso
dinheiro, crescendo para dentro e gerando um universo impecável de
egocentrismo.
— A Villa Straylight ignora o céu, gravado ou outro qualquer.
— No núcleo de silício de Villa existe uma pequena sala, a única câmara
retilínea do complexo. Aí, sobre um simples pedestal de vidro, descansa um
busto ornamentado de platina e esmalte, cravado de lápis-lazúli e pérolas. As
pedras brilhantes que formam seus olhos cortados do rubi sintético do vigia
de comando da primeira nave que transportou o primeiro Tessier poço acima
e regressou em seguida para ir buscar o primeiro Ashpool...
A cabeça emudeceu.
— E aí? — perguntou Case por fim, quase esperando que a coisa lhe
respondesse.
— Foi tudo o que ela escreveu — acrescentou o Finlandês. — Não
chegou a concluí-lo. Era mesmo uma criança nessa época. Era uma espécie
de trabalho pra uma cerimônia final. Precisava ter a Molly aqui com a
palavra certa no momento certo. Mas vou contar qual é o truque: não vai
valer um puto o que você e o Linha Reta conseguirem com a penetração do
seu vírus chinês, se esta coisa não ouvir a palavra mágica.
— E que palavra é essa?
— Não sei. Pode dizer que aquilo que sou está definido,
fundamentalmente, pelo fato de eu não poder saber. Eu sou o que não
conhece a palavra. Se você a soubesse, garoto, e dissesse, eu não saberia.
Um outro alguém terá que conhecer e trazer aqui, no momento em que você
e o Linha Reta penetrarem pelo ICE e confundirem o núcleo.
— Que acontece nesta hora?
— Depois disso, não existo mais. Eu paro de existir.
— Por mim, sem problemas — disse Case.
— Claro. Mas tenha cuidado com o seu rabinho, Case. O meu, hum,
outro lóbulo anda atrás de nós, segundo parece. Uma mata ardendo é
praticamente igual a qualquer outra. Além disso, o Armitage está na
168

contagem regressiva.
— O que você quer dizer com isso?
O quarto revestido de lambris, porém, fechou-se sobre si mesmo, numa
dezena de ângulos impossíveis, rolando pelo ciberespaço como um grou de
origami.

169

15
Está tentando bater o meu recorde, ou o quê? — perguntou o Linha Reta.
— Esteve outra vez de EEG lisíssimo, cinco segundos.
— Cala a boca — replicou Case, apertando o comutador do simstim.
A garota estava agachada na escuridão, com as palmas das mãos
encostadas no cimento duro.
CASE CASE CASE CASE.
O indicador digital pulsava o seu nome em caracteres alfanuméricos; era
Wintermute informando-a da ligação estabelecida.
— Bonito — disse ela. Balançou para trás, apoiada nos saltos dos
sapatos, esfregou as mãos e estalou os dedos. — Por que é que demorou?
NA HORA MOLLY NA HORA AGORA.
Ela pressionou a língua contra os dentes inferiores dianteiros. Um deles
moveu-se ligeiramente, ativando os amplificadores dos seus microcanais; o
ricochete aleatório dos fótons na escuridão convertia-se numa vibração de
elétrons e o cimento a sua volta começou a aparecer, irradiando uma
tonalidade fantasmagórica, pálida e granulosa.
— Certo, doçura. Vamos entrar na dança.
O esconderijo onde Molly estava tinha o aspecto de um túnel qualquer.
Rastejou através de uma grelha. Case conseguiu ver o suficiente dos braços e
mãos da garota para perceber que ela vestia novamente o terno de
policarbono. Sob o plástico, Case sentia a familiar do couro fino apertado.
Havia algo suspenso sob o braço dela, dentro de um coldre ou de uma
sovaqueira. Levantou-se, abriu o fecho do terno e tocou na coronha de uma
pistola.
— Case — começou a dizer, quase não pronunciando as palavras —,
está me ouvindo? Vou contar uma história... Há tempos tive um cara. Você
me lembra ele... — Voltou-se e investigou o corredor. — Johnny, era o seu
nome.
O corredor, de teto abobadado, estava flanqueado por dezenas de
mostradores de museu, umas caixas de aspecto arcaico, envidraçadas e feitas
de madeira castanha. Não condiziam bem com o local, como se houvessem
sido trazidas para ali e dispostas em fileiras com um propósito qualquer,
entretanto esquecido. Com dez metros de intervalo, uns dos outros, havia
globos de luz branca, suspensos de aplicações. À medida que ela progredia
pelo corredor, percebia-se um pavimento irregular. Case observou que
170

centenas de tapetes pequenos e carpetes cobriam o chão; em alguns lugares,
havia seis empilhados, ficando o pavimento como uma manta de retalhos de
lã, tecida a mão. Molly prestava pouca atenção aos armários e ao seu
conteúdo, o que o irritava. Tinha de se contentar com os olhares
desinteressados que a garota dava para alguns fragmentos de louça de barro,
armas antigas, algo tão cravado com pregos enferrujados que era
irreconhecível, seções puídas de tapeçarias...
— O meu Johnny, sabe, era um cara realmente esperto e vivo. Começara
como banco de dados clandestino na Memory Lane: os microprocessadores
na cabeça e as pessoas pagando pra que ele escondesse informações. Na
noite que o conheci, a Yakuza andava atrás dele e eu consegui acabar com o
assassino que tinham enviado. É verdade que foi mais sorte do que outra
coisa, mas liquidei mesmo o filho da puta por causa dele. Depois disso,
Case, passamos a ser unha e carne. — Os lábios da garota quase não se
moviam. Ele era capaz de senti-la no processo de formar as palavras; não
tinha, portanto, necessidade de ouvi-las pronunciadas em voz alta. —
Tínhamos um sistema equipado de detector, de maneira que podíamos traçar
o rastro de tudo o que ele armazenava. Gravávamos o material em fita e
começamos a espremer alguns clientes selecionados, ex-clientes. Eu era
transportadora, músculo e cão de guarda. Era de fato feliz. Alguma vez já foi
feliz, Case? Ele era o meu homem. Trabalhávamos juntos. Sócios. Tinha
saído da Casa de Bonecas, fazia talvez umas oito semanas, quando o
encontrei...
— Unha e carne e confiantes no futuro, era como vivíamos. Na
convicção de que ninguém seria capaz de nos atingir: eu não ia deixar.
Suponho que a Yakuza ainda queria a pele do Johnny, pois eu tinha matado
o homem deles e o Johnny tinha fodido eles. E na Yakuza podem se dar ao
luxo de se moverem tão lentamente, cara, que chegam a esperar anos e anos.
São capazes de concederem toda uma vida pra que uma pessoa tenha mais a
perder quando eles aparecerem pra tirar. Pacientes como uma aranha.
Aranhas Zen.
— Mas , nessa época, eu ignorava isso. Ou, ainda que soubesse, pensava
que não nos dizia respeito. Como quando uma pessoa é jovem e pensa que é
a única. Eu era jovem. Eles vieram quando pensávamos que talvez
tivéssemos já o bastante pra largar o negócio, fazer as malas e sumir, talvez
pra Europa. Não era porque fizéssemos idéia do que iríamos fazer lá, mas
podíamos viver por cima, com contas orbitais suíças e uma arca repleta de
brinquedos e mobília. Uma situação daquelas que propiciam o
171

entorpecimento das pessoas.
— O primeiro que haviam mandado era realmente do caralho: reflexos
como nunca havíamos visto, implantes, um estilo que chegava pra dez
criminosos vulgares. Mas o segundo, não sei..., era mais como um frade.
Uma réplica construída: um assassino de pedra, desde as mais ínfimas
células. A morte morava nele, no silêncio, na aura que exalava...
A voz da garota sumiu quando o corredor se bifurcou em duas escadas
em caracol, idênticas, que desciam. Optou pela da esquerda.
—Quando era criança, eu e alguns meninos como eu ocupamos uma casa
abandonada situada junto do Hudson. As ratazanas, cara, eram enormes...
Como disse, eu era muito criança e ouvia, durante toda a noite, uma delas
arranhando sob o chão. De madrugada, apareceu um velho de maçãs no rosto
cheias de rugas e olhos vermelhos. Trazia um rolo de couro gorduroso, do
tipo usado pra proteger ferramentas do pó. Espalhou no chão e retirou dele
um revólver antigo e três balas. O velho colocou uma no tambor e começou
a andar pra trás e pra frente; permanecíamos espremidos de encontro às
paredes.
— Pra trás e pra frente. Os braços, a cabeça baixa, como se tivesse
esquecido da arma. A escuta da ratazana. Não fazíamos o mínimo ruído. O
velho avançava um passo. A ratazana se movia. A ratazana se movia de novo
e o velho avançava mais um passo. Passou-se uma hora nisso; de repente,
pareceu se lembrar da arma. Apontou pro chão, arreganhou os dentes numa
risada e puxou o gatilho. Tomou a enrolar a arma no couro e desapareceu.
Mais tarde, rastejei até o lugar. A ratazana tinha um buraco entre os olhos.
Molly prestava atenção nas portas fechadas que, a intervalos, davam para
o corredor.
— O segundo que veio atrás do Johnny era como esse velho. Não era
idoso, mas era como ele. Matava da mesma maneira.
O corredor tornou-s e m a i s l a r g o . O m a r d e carpetes ondulava
suavemente sob um enorme candelabro, cujo pingente de cristal mais baixo
chegava quase ao chão. Ouviu-se um tinir de vidro quando Molly entrou no
vestíbulo. TERCEIRA PORTA À ESQUERDA, cintilou o indicador.
Ela virou à esquerda, evitando a árvore invertida de cristal.
— Só o vi uma vez. Quando regressava da nossa casa. Ele estava saindo.
Vivíamos num espaço fabril recuperado, nós e muita gente jovem vinda da
Rede Sense. A segurança era realmente boa: eu tinha instalado lá algum
material pesado, pra tornar realmente fodida. Sabia que o Johnny estava lá
em cima. Mas um cara pequeno me chamou a atenção quando saía. Não
172

disse uma palavra. Apenas olhamos um pro outro e eu logo soube. Um cara
pequeno, vulgar, roupas vulgares, sem qualquer vaidade, humilde. Me olhou
e tomou um táxi. Subi e o Johnny estava sentado numa cadeira perto da
janela, com a boca aberta, como se acabasse de pensar em alguma coisa pra
dizer.
A porta na frente de Molly era antiga, uma prancha talhada em laça de
Thai, parecia ter sido cortada ao meio para caber no vão baixo. Um fecho
mecânico, primitivo, com um dos lados de aço inoxidável, havia sido
aplicado por baixo de um dragão em pé. Ajoelhou-se, retirou do bolso
interior um rolo pequeno de camurça negra e selecionou um estilete da fino
como uma agulha.
— Depois disso, nunca mais encontrei quem me interessasse. Introduziu
o estilete e trabalhou em silêncio, mordendo o lábio inferior.
Parecia orientar-se apenas pelo tato; tinha os olhos desfocados e a porta
era uma mancha confusa de madeira amarelada. Case ouvia o silêncio do
vestíbulo salpicado pelo tilintar suave do candelabro. Velas? Straylight era,
de fato, uma coisa totalmente errada. Lembrou-se da história de Cath sobre
um castelo com lagos e lírios e das palavras educadas de 3Jane,
musicalmente ditas pela cabeça. Um local que crescera sobre si mesmo,
Straylight tinha um odor algo bolorento, algo perfumado, como uma igreja.
Onde é que os Tessier-Ashpool estariam? Case esperava um enxamear de
atividade disciplinada, mas Molly não tinha visto ninguém. O monólogo da
garota o havia feito se sentir desconfortável; ela nunca dissera tanto sobre si
mesma. Com exceção da história no cubículo, jamais contara o que quer que
sugerisse que tinha um passado.
Molly fechou os olhos e houve um clique que Case sentiu, mais do que
ouviu. Fê-lo lembrar dos fechos magnéticos da porta do cubículo na Casa de
Bonecas: a porta abrira-se, a despeito do cartão ter sido o errado.
Fora Wintermute que manobrara a fechadura, da mesma maneira que
havia feito com o microplano e o jardineiro robô. O sistema de fechadura era
um subsistema do programa geral de segurança de Freeside; não seria aquele
fecho mecânico, que iria constituir problema complicado para a IA;
precisava apenas uma duplicação ou uma intervenção determinada de agente
humano.
Ela abriu os olhos, tornou a colocar o estilete na camurça, enrolou-a com
cuidado e enfiou-a de novo no bolso.
— Suponho que você seja do tipo dele — prosseguiu —, nasceu pra
fugir. Aquilo por que passou em Chiba foi apenas, imagino eu, uma versão
173

despojada daquilo que você fará em qualquer lado. A má sorte provoca isso
nas pessoas, às vezes: as reduz aos fundamentos.
Ergueu-se, espreguiçou-se e sacudiu-se.
— Sabe, penso que o cara que a Tessier-Ashpool enviou pra liquidar o
Jimmy, aquele rapaz que roubara a cabeça, devia ser muito parecido ao que a
Yakuza mandou pra assassinar o Johnny. Tirou a flecheira do coldre e
colocou o cano no automático.
A feiúra da porta chamou a atenção de Case, no momento em que a
garota a alcançava com a mão. Não a porta em si, que era realmente bela, ou
havia sido, outrora, parte de um todo qualquer belo, mas a maneira como
fora serrada para caber numa entrada específica. Até o próprio formato era
errado: um retângulo no meio de curvas polidas de cimento macio. Eles
importaram todas essas coisas, pensou, e, depois, forçaram-nas para
caberem. A questão era que nenhuma se ajustava. Acontecia com a porta o
mesmo que acontecia com os armários desajeitados e a enorme árvore de
cristal. Lembrou-se então do ensaio de 3Jane e imaginou que as aplicações
haviam sido rebocadas poço acima para dar corpo a algum plano geral, a um
sonho que fora há muito tempo abandonado pelo esforço de encher espaços,
de replicar uma imagem qualquer de si próprios, da família. Lembrou-se,
também, do ninho destroçado, das coisas minúsculas sem olhos,
estrebuchando...
Molly agarrou uma das patas dianteiras do dragão e a porta abriu-se
facilmente.
A sala que havia por trás da porta era pequena e atravancada, apenas um
pouco maior do que uma despensa. Alguns armários de aço cinzento
encostados a uma parede curva. Um dispositivo de iluminação funcionou
automaticamente. Ela fechou a porta atrás de si e dirigiu-se para os armários
alinhados.
TERCEIRA À ESQUERDA, pulsou o silício óptico: Wintermute
continuava a sobrepor-se à indicação das horas. CINCO PARA BAIXO.
Contudo, ela abriu em primeiro lugar a gaveta superior. Era apenas uma
bandeja funda. Vazia. A segunda também se encontrava vazia. A terceira,
mais funda, continha pequenas esferas de solda e uma coisa castanha
pequena que se assemelhava a um metacarpo humano. Na quarta gaveta,
havia um exemplar, manchado de umidade, de um manual técnico obsoleto
em francês e japonês. Finalmente na quinta, por trás da luva blindada de uma
pesada roupa de vácuo, ela encontrou a chave. Era como uma moeda de latão
sem brilho, com um tubo oco pequeno, também de latão, soldado numa das
174

arestas. Molly voltou-a lentamente na mão e Case teve ocasião de reparar
que o interior do tubo se encontrava revestido de parafusos e manilhas. Num
dos lados da moeda havia uma palavra inscrita: CHUBB. Fechadura de
segurança. No outro não tinha nada.
— Ele me contou — sussurrou a garota. — O Wintermute. Como é que
havia agüentado um jogo de espera durante anos. Nessa época não possuía
ainda poder autêntico; entretanto, foi capaz de usar a segurança da Villa e os
sistemas de guarda pra ir registrando onde é que tudo se encontrava, como é
que as coisas se movimentavam e pra onde se dirigiam. Observara alguém
perder a chave, vinte anos atrás. Conseguira arranjar uma pessoa pra pegar a
chave e colocar onde a encontrei há pouco. Em seguida, matou a pessoa, o
garoto que a trouxera. Tinha apenas oito anos. — Fechou os dedos em volta
da chave. — Fez isso pra que ninguém soubesse dela. — Tirou do bolso,
situada na parte da frente da roupa, um pedaço de fio de nylon preto e
enfiou-o no buraco, acima da inscrição CHUBB. Deu-lhe um nó e colocou-o
no pescoço. — Estavam sempre fodendo com os seus gastos antiquados,
com todo o seu material do século dezenove. Ele era mesmo o Finlandês,
naquela tela do cubículo. Se não tivesse cuidado, quase pensaria que ele era,
de fato, o Finlandês. — O indicador digital dava o tempo, com os caracteres
alfanuméricos sobrepostos nos armários cinzentos de aço. — Se ele tivesse
se transformado no que ele pretendia, ele já poderia ter saído há muito tempo
atrás. Mas não tinha. Eram todos doidos. Aloprados, como a 3Jane: foi assim
que ele a chamou; contudo, falou como se gostasse dela.
Voltou-se, abriu uma porta e passou para o outro lado, com a mão
afagando a coronha da flecheira no coldre.
Case regressou à matriz.
O Kuang Grade Mark Eleven crescia.
— Dixie, você acha que esta coisa funciona?
— Onça caga no mato?
O Linha Reta conduzia-os através de estrados de cores mutantes.
Algo de cor escura estava em formação no núcleo do programa chinês. A
densidade de informação sobrecarregava o tecido da matriz, disparando
imagens hipnóticas. Débeis perspectivas caleidoscópicas centralizavam-se
num ponto focai preto e prateado. Case observava símbolos da infância, de
sorte e de azar, rolarem ao longo de planos translúcidos: suásticas, crânios e
tíbias, dados de jogar projetando olhos de serpente. Quando olhava
diretamente para aquele ponto nulo, não conseguia perceber a formação de
um contorno qualquer. Foram precisas algumas imagens rápidas e periféricas
175

para chegar àquela forma de tubarão, brilhante, de aparência vítrea como a
de uma lava de vulcão, e aos espelhos negros dos seus flancos que refletiam
luzes opacas, distantes, sem qualquer relação com a matriz a sua volta.
— É o ferrão — disse o spectrom. — Quando o Kuang estiver unha e
carne com o núcleo da Tessier-Ashpool, nós o cavalgaremos.
— Tinha razão, Dixie. Há um dispositivo manual qualquer nos circuitos
físicos que mantém Wintermute sob controle. Até onde é possível ele estar
sob controle... — acrescentou.
— Vê, vê... — replicou o spectrom . — Foi o que disse, logo de início.
— Trata-se de um código. Uma palavra, foi o que ele disse. Alguém tem
de a proferir pra um terminal esquisito, numa certa sala, ao mesmo tempo
que nós tomamos conta do que quer que esteja a nossa espera atrás daquele
ICE.
— Bem, ainda tem algum tempo pra matar, rapaz — disse o Linha Reta.
— O velho Kuang é lento, mas firme e regular.
Case saiu da matriz.
Para o olhar espantado de Maelcum.
— Você morto um bocado ali, homem!
— Acontece — disse. — Estou ficando habituado com isso.
— Você brincar com escuridão, homem...
— Parece que é o único divertimento que há por estes lados.
— Amor de Jah, Case — disse Maelcum e regressou ao módulo de rádio.
Case fitou a cabeleira encrespada e o conjunto de músculos em volta dos
braços escuros do homem.
Tornou a se ligar. E a entrar no simstim.
Molly seguia ao longo de uma extensão de corredor, que podia ser
qualquer um dos que já havia percorrido antes. Os armários envidraçados
tinham desaparecido, e Case concluiu que se movimentavam na direção da
ponta do eixo: a gravidade estava tornando-se cada vez mais fraca. Em
pouco tempo, o andar da garota começou a ter a forma de pequenos saltos,
suaves, por cima de montes de carpetes enrolados. Sentiu dores fracas na sua
perna...
Subitamente, o corredor estreitou, curvou e dividiu-se.
Voltou à direita e iniciou um lance de escada, estranho e íngreme; sua
perna passou a doer mais. Por cima, grupos de feixes de cabos, amarrados
uns aos outros, abraçavam o teto da escada como gânglios codificados por
cores. As paredes estavam manchadas de umidade.
Chegou a uma plataforma triangular e parou por um instante, para
176

esfregar a perna. A sua frente, mais corredores, estreitos, com as paredes
cobertas de tapetes, que indicavam três direções possíveis.
ESQUERDA.
Encolheu os ombros.
— Deixa eu dar uma olhada, falou? ESQUERDA.
— Calma, temos tempo.
Avançou para o corredor que seguia pela direita.
PARE.
VOLTE PARA TRÁS.
PERIGO.
Hesitou. De uma porta de carvalho meio aberta no fim da passagem,
vinha uma voz, alta e enrolada, como a voz de um bêbado. Case pensou que
a linguagem podia ser francesa; contudo, era muito indistinta. Molly
avançou um passo e mais outro, com a mão deslizando por dentro da roupa
para tocar na coronha da flecheira. Quando entrou num campo de
perturbação neural, os ouvidos começaram a retinir como campanhias, num
tom que gradualmente aumentava e fez Case pensar no silvo da flecheira. A
garota caiu então para a frente, com os músculos lassos, e bateu com a testa
na porta. Deu uma volta no ar e caiu de costas com o olhar turvo e sem
respiração.
— Que é isto? — disse a voz enrolada. — Uma roupa de carnaval? —
Uma mão que tremia entrou na frente da roupa, encontrou a flecheira e
recolheu-a. — Venha visitar-me, criança. Agora.
Molly conseguiu erguer-se lentamente, com os olhos fixos no cano de
uma pistola automática preta. A mão do homem já se encontrava
suficientemente firme; o cano da arma parecia ter aderido a sua garganta
como por meio de uma mola esticada e invisível.
Era um velho, muito alto, e as suas feições lembraram a Case a garota
que vira rapidamente no Vingtième Siècle. Vestia um roupão de seda
castanha, acolchoado em volta dos punhos compridos e da gola do tipo xale.
Trazia um pé nu; o outro pé calçava um chinelo de veludo preto com uma
cabeça de raposa bordada a ouro sobre a parte do peito do pé. Fez-lhe um
gesto na direção do interior da sala.
— Devagar, querida.
Era um espaço muito amplo, repleto de variados objetos que não faziam
qualquer sentido a Case. Notou uma prateleira de aço cinzento, onde se
encontravam alinhados alguns monitores Sony, uma cama larga de latão,
coberta de peles de carneiro e com umas almofadas que pareciam ter sido
177

feitas do mesmo material dos tapetes que cobriam os corredores. Os olhos de
Molly voaram desde o console de um enorme jogo Telefunken para as
prateleiras repletas de gravações em disco, antigas, envolvidas em plástico
transparente para lhes proteger os cantos que se desfaziam, e ainda para uma
mesa larga de trabalho coberta de placas de silício. Case registrou a
existência de um sistema de ciberespaço e dos respectivos dermatrodos; o
olhar da garota, porém, passou por cima deles, sem qualquer pausa.
— De acordo com o costume — disse o velho —, devia matá-la
imediatamente. — Case sentiu-a tensa, pronta para qualquer movimento. —
Entretanto, esta noite, resolvi condescender comigo mesmo. Como se
chama?
— Molly.
— Molly. Meu nome é Ashpool.
Deixou-se cair nas dobras macias de uma cadeira de braços de couro,
com as pernas quadradas cromadas, sem que a arma tremesse. Largou a
flecheira sobre uma mesa de latão ao lado da cadeira, derrubando um frasco
plástico cheia de pílulas vermelhas. A mesa estava cheia de frascos, garrafas
de bebidas alcoólicas, envelopes de plástico mole derramando pós brancos.
Case reparou numa antiga agulha hipodérmica de vidro e uma colher de aço.
— Como você chora, Molly? Vejo que taparam seus olhos. Estou
curioso para saber. Os olhos dele estavam vermelhos, congestionados, e a
testa brilhante de suor. Tinha um ar muito pálido. Doente, concluiu Case. Ou
drogado.
— Não choro, pelo menos muitas vezes.
— Mas como faria se alguém a fizesse chorar?
— Cuspo — respondeu. — O s condutos foram desviadas pra minha
boca.
— Então, já aprendeu uma lição importante, se considerarmos que é tão
nova ainda. — Descansou a mão que segurava a pistola no joelho e pegou
uma garrafa da mesa ao lado, sem se preocupar em escolhê-la entre a meia
dúzia de bebidas diferentes. Bebeu uma golada. Brandy. Uma gota do
líquido escorreu pelo canto da sua boca. — É esse o único processo de lidar
com lágrimas. — Tomou a beber pela garrafa. — Esta noite estou ocupado,
Molly. Fui eu quem construiu tudo isto e agora estou ocupado. Morrendo.
— Podia me retirar por onde vim — disse a garota. O velho riu, com um
som alto e áspero.
— Então invade o meu suicídio e depois pede simplesmente para se
retirar... Realmente, incrível. Você, uma ladra...
178

— Se trata do meu rabo, patrão. É o que tenho. Só quero sair daqui
inteira.
— É uma garota muito mal educada. Nós, aqui, conduzimos os suicídios
com um certo grau de decoro. É o que estou fazendo, compreende? Mas
talvez a leve comigo esta noite, para o Inferno... Seria muito egípcio de
minha parte. — Bebeu novamente. — Venha cá. — Estendeu-lhe a garrafa
com a mão trêmula. — Beba.
A garota disse que não com a cabeça.
— Não está envenenada — disse o velho, devolvendo a garrafa à mesa.
— Sente-se. Sente-se no chão e conversemos.
— Sobre o quê? Molly sentou-se. Case sentiu as lâminas moverem-se
imperceptivelmente debaixo das unhas.
— Do que quer que seja que venha à mente. À minha mente. A festa é
minha. Os núcleos me acordaram. Há vinte horas. Havia qualquer coisa em
marcha, disseram, e precisavam de mim. Seria você essa qualquer coisa,
Molly? Certamente que não precisariam de mim para lidar com você. Seria,
então, uma outra coisa... mas eu estava sonhando, entende? Durante trinta
anos. Você ainda não tinha nascido quando eu me deitei para dormir na
última vez. Disseram-nos que não sonharíamos dentro daquele frio. Também
nos disseram que nunca sentiríamos frio. Uma loucura, Molly. Mentiras.
Claro que sonhava. O frio deixava entrar o exterior, ah, isso deixava. O
exterior. Durante a noite toda, o que eu construí para evitar isso... De início,
apenas uma gota, um grão de noite sugado pelo frio... Mas outros se
seguiram, enchendo-me a cabeça da mesma maneira que a chuva enche um
poço vazio. Lírios, estou me lembrando. As piscinas eram de terracota; as
criadas, cromadas: como as pernas piscavam quando caminhavam pelo
jardim ao pôr do sol... Sou um velho, Molly. Com mais de cem anos, se
contar o frio. O frio.
O cano da pistola caiu repentinamente, estremecendo. Os tendões das
coxas da garota estavam, nessa hora, estirados como arames.
— Uma pessoa pode se queimar com o gelo — ela disse
cuidadosamente.
— Não há nada que queime nessas condições — retorquiu com
impaciência, abaixando a arma. Os seus poucos movimentos eram cada vez
mais escleróticos. A sua cabeça oscilava. Tinha de fazer muito esforço para
o evitar.
— Não há nada que queime. Lembro-me bem agora. Os núcleos
disseram-me que as nossas inteligências são loucas. Todos os bilhões que
179

pagamos, há tanto tempo. Quando a inteligência artificial era apenas um
conceito espirituoso. Disse aos núcleos que trataria disso. Realmente é uma
péssima hora, com a 8Jane em Melbourne e apenas a nossa doce 3Jane
tomando conta da loja... Ou talvez uma hora muito boa, quem sabe, Molly?
— A arma ergueu-se de novo.— Há algumas coisas muito estranhas em
movimento agora na Villa Straylight.
— Patrão — perguntou-lhe —, conhece Wintermute?
— Um nome. Claro. Para conspirar, talvez. Com certeza, um senhor do
Inferno. No meu tempo, querida Molly, conheci muitos senhores. E um não
inferior número de damas também. Olhe, uma rainha da Espanha, uma vez,
precisamente naquela cama... Mas divago. — Tossiu e o cano da pistola
acompanhava-lhe as convulsões. Cuspiu no carpete, junto ao pé descalço. —
Como divago. Através do frio. Mas não mais, dentro em breve. Mandei
descongelar uma Jane, quando acordei. Curioso, ir para a cama, com um
intervalo de alguns decênios, com o que legalmente corresponde à própria
filha. — O olhar passou além de Molly, para a fila dos monitores desligados.
Pareceu ter um arrepio. — Os olhos da Marie-France — disse com voz
sumida e sorriu. — Fazemos com que o cérebro se torne alérgico a alguns
dos seus próprios neurotransmissores, o que resulta numa forma de autismo
peculiarmente flexível. — A sua cabeça caiu para o lado, mas recuperou-se
logo em seguida.— Tenho conhecimento de que esse efeito é hoje em dia
mais facilmente obtido com um microprocessador implantado.
A pistola deslizou-lhe da mão e caiu no carpete.
— Os sonhos crescem como gelo lento — disse.
Tinha a face com uma tonalidade azul. Sua cabeça caiu para trás, para o
couro que a aguardava, e começou logo a ressonar.
Ficando rapidamente de pé, Molly agarrou a arma. Percorreu o quarto pé
ante pé com a automática de Ashpool na mão.
Um grande cobertor, ou edredon, estava amontoado junto à cama, no
meio de uma poça de sangue congelado, espesso e brilhante, sobre o desenho
do carpete. Dando um puxão em uma das extremidades do edredon,
descobriu o corpo de uma garota com os ombros viscosos de sangue. Tinha a
garganta cortada. A lâmina triangular de uma espécie de raspadeira brilhava
na poça junto ao corpo. Molly ajoelhou-se, tendo o cuidado em evitar o
sangue, e voltou o rosto da garota para a luz: o rosto que Case vira no
restaurante.
Houve um clique, mesmo no fundo do centro das coisas, e o mundo
paralisou. A emissão do simstim de Molly tornara-se uma imagem fixa, os
180

seus dedos imóveis no rosto da garota. A paralisia manteve-se por três
segundos, após o que a face da morta se alterou e assumiu a forma da face de
Linda Lee.
Mais um clique e o quarto ficou desfocado. Molly estava de pé, olhando
para um disco laser dourado junto a um console pequeno no topo de
mármore de uma mesa de cabeceira. Uma extensão de fita de fibras ópticas
ia, como um chicote, do console até uma tomada na base do pescoço
elegante.
— Já entendi, sacana — disse Case, sentindo os próprios lábios
movendo-se em algum lugar, muito longe.
Sabia que Wintermute tinha alterado a transmissão. Molly não vira o
rosto da garota esfumaçando-se, para tomar a forma da máscara de morte de
Linda.
Molly voltou-se. Atravessou o quarto até a cadeira de Ashpool. A
respiração do velho era lenta e entrecortada. Deu uma olhada no monte de
drogas e álcool. Pousou a pistola, pegou a sua flecheira, programou o cano
para tiro único e, muito cuidadosamente, disparou uma toxina para dentro da
pálpebra esquerda fechada. O velho teve uma única estremecida, com a
respiração suspensa no meio da inalação. O outro olho, castanho e
insondável, abriu-se lentamente.
Continuava aberto quando a garota se virou e abandonou o quarto.

16
Tenho o seu patrão na escuta — disse o Linha Reta. — Está se
comunicando pelo gêmeo do Hosaka, na nave lá em cima, o que temos
ancorado nas nossas costas. Chama-se Haniwa.
— Sei qual é — disse Case, displicentemente. — Já vi ele.
Na sua frente, um losango de luz cobriu com um clique o ICE da
Tessier-Ashpool. Exibia-lhe a face de Armitage, calma, perfeitamente focada
e extremamente demente, com uns olhos inexpressivos como botões.
Armitage piscou os olhos e fitou-o.
— Acho que o Wintermute também tratou da saúde dos seus Turings,
hein? Da mesma forma que tratou da saúde dos meus — disse Case.
Armitage continuava olhando-o fixamente. Case teve de resistir à
vontade súbita de olhar para o outro lado, de evitar aquele olhar.
— Você está bem, Armitage?
— Case — e, por um instante, algo pareceu mover-se por trás dos olhos
181

fixos e azuis —, você viu Wintermute, não viu? Na matriz?
Case concordou com a cabeça. Uma câmera, instalada no painel frontal
do seu Hosaka no Marcus Garvey, transmitia o gesto para o monitor que
estava no Haniwa. Imaginou Maelcum escutando as suas conversas meio em
transe, e incapaz de ouvir as vozes tanto do spectrom como de Armitage.
— Case — e os olhos aumentavam de tamanho, de acordo com a
inclinação de Armitage para o seu computador —, qual é o seu aspecto
quando o vê? Quem é ele?
— Um spectrom de simstim de altíssima resolução.
— Mas, quem?
— Da última vez, o Finlandês. Antes, aquele gigolô que eu...
— Não era o general Girling?
— General quê?
O losango apagou-se.
— Siga aquilo e diga ao Hosaka pra investigar — disse Case ao
spectrom.
Entrou no simstim.
A perspectiva perturbou-o. Molly estava agachada entre vigas de aço,
uns vinte metros acima de um pavimento de cimento, amplo e manchado. O
espaço era o de um hangar ou uma doca de manutenção. Estavam aí três
naves espaciais, nenhuma delas maior que o Garvey, e cada uma em fase
diferente de reparação. Ouvia vozes japonesas. Uma figura vestindo uma
roupa orbital, cor de laranja, saiu da abertura existente no casco de um
veículo em forma de bulbo e estava ao lado de um dos braços que partiam do
bulbo comandado por êmbolos e de forma estranhamente antropomórfica. O
homem digitou algo num console portátil e cocou uma das pernas. Um robô
com aspecto de carro surgiu então, deslocando-se sobre pneus grossos como
balões.
CASE, cintilou o processador de Molly.
— Oi — disse ela. — Estou à espera de um guia.
Endireitou-se um pouco, apoiando-se nas pernas; os braços e as pernas
da roupa de Moderno exibiam a cor cinzenta que revestia as vigas. Sua perna
doía. Já era uma dor aguda e contínua.
— Devia ter voltado ao Chin — murmurou.
Da zona sombria, na altura dos seus ombros, apareceu então um coisa
que se deslocava com um tique-taque abafado. Fez uma pausa, balançou o
corpo esférico de um lado para o outro, suportado por umas pernas de
182

aranha, altas e arqueadas, disparou um pequeno clarão difuso de luz de laser,
de um microssegundo de duração, e, finalmente, imobilizou-se. Era um
micro-robô Braun; Case já possuíra, há tempos, um do mesmo modelo, um
acessório que acabara por revelar-se inútil e que havia adquirido incluído
num negócio que tivera com um receptador de hardware de Cleveland.
Tinha o aspecto de uma tulipa estilizada de cor preto-mate. No meio da
esfera, começou então a pulsar um LED, guia, piscando em vermelho. O
corpo do robô não era maior do que uma bola de beisebol.
— Está bem — disse ela — já entendi.
Levantou-se, protegendo a perna esquerda, e observou o minúsculo robô
invertendo o sentido da marcha, tomando metodicamente a direção contrária,
através das vigas e da escuridão. Molly voltou-se e deu, novamente, uma
olhada na zona de reparações lá embaixo. O homem da roupa de salto cor de
laranja fechava a parte da frente de um uniforme de vácuo, branco.
Observou-o na condução do trabalho de vedação em volta do capacete; em
seguida, o homem pegou de novo no console e regressou ao interior da nave
pela abertura de onde surgira. Ouviu-se um sibilar de motores, que pouco a
pouco aumentava de volume, e o veículo em forma de bulbo começou a
desaparecer, lentamente, para dentro d e u m círculo d e dez metros de
pavimento que, com igual lentidão, se afundava dentro do clarão da luz viva
de algumas lâmpadas de arco voltaico. O robô vermelho ficara quieto,
pacientemente, à beira do buraco aberto pelo elevador.
Molly iniciou então a marcha atrás do robô Braun, driblando através de
uma floresta de tirantes de aço soldados. O Braun piscava LED, segundo um
ritmo regular, para lhe indicar o caminho.
— C o m o é que vai indo, Case? Está de novo no Garvey com o
Maelcum? Com certeza que está. E ligado comigo. Gosto disso, sabe?
Sempre tive o hábito de falar comigo mesma todas as vezes em que estava
em situações apertadas. Fazia de conta que tinha um amigo qualquer, alguém
em quem podia confiar, e então falava tudo o que pensava e sentia, e
imaginava que esse alguém me respondia, dizendo o que pensava da
situação. Por meio desse jogo é que eu conseguia agüentar e ir em frente. Ter
você assim é uma coisa parecida. Aquela cena com o Ashpool... — Mordeu
o lábio inferior, enquanto rodeava um tirante, mantendo o robô ao alcance da
vista. — Sabe, eu estava esperando uma coisa mais simples. Quero dizer,
esses caras por aqui são todos uns bons pedaços de merda, do gênero de
mensagens escritas por trás da testa e coisas assim. Não me agrada o aspecto
que isto está tomando. Não me cheira nada bem...
183

O robô subiu por uma escada vertical quase invisível, formada por
degraus de aço em U, que conduzia a uma abertura escura estreita.
— Já que estou em ritmo de confissões, jóia, devo confessar que nunca
imaginei tirar muito proveito disto. Tinha atravessado antes uma fase má e
você foi a única alteração boa na minha vida, desde que fui contratada pelo
Armitage. — Olhou para cima, na direção do buraco escuro. O LED do robô
continuava piscando e subindo. — Não é que você seja o máximo...
Sorriu, mas por muito pouco tempo; a dor aguda e persistente na perna
fê-la cerrar os dentes, enquanto começava a subir a escada. Esta continuava
pelo interior de um tubo de metal, com uma largura onde seus ombros mal
cabiam.
Estava subindo para fora da gravidade, em direção ao eixo imponderável.
O processador indicou as horas.
04:23:04.
Fora um dia longo. A claridade do sensorium da garota cortava o efeito
da betafenetilamina; entretanto, Case ainda podia senti-lo. Era preferível à
dor na perna da garota.
CASE.0000
000000000
00000000
— A c h o q u e é p r a v o c ê — disse Molly, enquanto continuava
mecanicamente a subir.
Os zeros pulsaram de novo e uma mensagem começou a aparecer junto
de um dos cantos da visão da garota, entrecortada pelo circuito do
dispositivo.
GENERAL G
IRLING:::
PREPAROU
CORTO PARA
GARRA PENET
RANTE E
VENDEU A PELE
AO PENTAG
ONO:::
O CONTROLE
PRIMÁRIO
DE W/MUTE SO
BRE ARMITA
184

GE UM SPEC
TROM DE
GIRLING:
W/MUTE DIZ
QUE A MEN
CAO DE G. SIGN
IFICA QUE
ESTA PI
RANDO::::::
TENHA CUIDAD
O COM O
SEU RABO :::: :
::: DIXIE
— Bem — comentou ela, descansando todo o peso do corpo na perna
direita. — Creio que também tem os seus problemas.
Olhou para baixo. Havia um círculo de luz, fraco, não muito maior que o
latão em volta da chave marcada com Chubb, que balançava entre os seus
seios. Tornou a olhar para cima: nada. Manipulou com a língua a
amplificação e o tubo ficou iluminado até a perspectiva mais distante; o
Braun continuava a subir pelos degraus.
— Ninguém falou desta parte — comentou.
Case saiu do simstim.
— Maelcum...
— Homem, patrão seu muito estranho. — O zionita vestia uma roupa de
vácuo azul, vinte anos mais antiga que do que Case alugara em Freeside,
tinha o capacete debaixo do braço. Uma rede de malha de crochê, feita de
linha de algodão, envolvia seus cabelos encaracolados. Tinha os olhos
rasgados de ninja e tensão. — Falar sempre para aqui com ordens, homem,
sobre qualquer guerra de Babilônia... — Maelcum baixou a cabeça. — Aerol
e eu falar e Aerol falar com Zion. Fundadores dizer largar e ir embora.
Passou as costas de uma mão grande e morena pela boca.
— Armitage? — Case piscou os olhos; a ressaca da betafenetilamina,
agora sem a matriz ou o simstim para atenuar, estava atingindo a intensidade
máxima. O cérebro não tem nervos, portanto, não pode estar se sentindo mal.
— Ele está dando ordens? E que ordens?
— Homem, Armitage dizer rumo para Finlândia, saber? Dizer lá haver
esperança, saber? Aparecer no meu monitor com camisa cheia de sangue,
185

homem, e estar doido como cão danado e falar sempre de garras penetrantes
e russos e sangue traidores.
Sacudiu de novo a cabeça, fazendo com que a rede do cabelo balançasse
flutuante na gravidade zero, e cerrou com força os lábios.
— O Armitage estava ferido? Com sangue?
— Não poder dizer, perceber? Mas sangue e doido varrido, Case.
— Está bem — disse Case. — E eu? Vocês regressam? E eu?
— Homem — respondeu Maelcum —, você regressar também. Eu e eu
ir com Aerol em Babylon Rocker. Deixar Armitage falar com cartucho
fantasma; fantasma falar com fantasma...
Case olhou por trás dos ombros; a roupa de vácuo alugado dera um salto
na espécie de maça para onde o havia atirado, devido à corrente de ar
provocada pelo velho ventilador russo. Fechou os olhos. Viu os sacos da
toxina dissolvendo-se nas artérias. Viu também Molly esforçando-se para
subir os intermináveis degraus de aço. Abriu os olhos.
— Não sei, homem — disse com um sabor estranho na boca. Olhou a
mesa, embaixo, e as mãos. — Não sei.
Voltou a cabeça para trás e para cima. A face morena tinha um ar calmo
e atento. Maelcum escondia o queixo na gola alta da velha roupa azul de
vácuo.
— Ela está lá dentro — prosseguiu. — Molly está lá dentro. Em
Straylight, como chamam. Se existe uma Babilônia, homem, é aquilo. Se
abandonarmos ela, jamais sairá de lá, seja ela a Lâmina Flamejante ou quem
quer que seja...
Maelcum concordou com um gesto da cabeça e a rede oscilou como se
fosse um balão cativo de algodão feito de crochê.
— Ela sua mulher, Case?
— Não sei. Se calhar nem é mulher de ninguém.
Encolheu os ombros. E encontrou, de novo, a raiva: a sua. Tão real como
um fragmento de rocha escaldante entrando pelas suas costelas.
— Que se foda isto tudo — disse. — Que se foda Armitage. Que se foda
Wintermute. E que você se foda. Vou ficar aqui.
O sorriso de Maelcum espalhou pelo seu rosto como um quebrar de onda
suave.
— Maelcum ser rapaz rude, Case. Garvey ser barco de Maelcum— A
mão enluvada caiu numa palmada sobre um painel e a batida firme e regular
dos tons baixos da música dub fez-se ouvir pelos alto-falantes do rebocador.
— Maelcum não fugir, não. Eu falar com Aerol. Ele ver isto luz idêntica,
186

certamente.
Case fitou Maelcum com algum espanto.
— Não compreendo vocês, nada mesmo — foi o que conseguiu dizer.
— Não compreender vocês, homem, também — disse o zionita,
acompanhando o ritmo com movimentos de cabeça —, mas todos ter de
andar aqui por amor de Jah, cada um.
Case entrou na matriz.
— Recebeu a minha mensagem?
— Recebi.
Case reparou que durante esse tempo o programa chinês crescera; os
arcos delicados de policromia cambiante estavam cada vez mais próximos
do ICE da T-A.
— Bem, isto está se tornando cada vez mais pegajoso — disse o Linha
Reta. — O seu patrão limpou a memória do outro Hosaka e quase limpava a
nossa também. Mas o seu amigo Wintermute me ligou a qualquer coisa
dentro do computador antes que ele ficasse limpo. Agora a razão por que
Straylight não se encontra enxameada de Tessier-Ashpool é porque a maior
parte deles dorme o "sono gelado". Existe um escritório de advogados em
Londres que sabe, em qualquer hora, exatamente quem é que está acordado e
quando. Armitage seguia as transmissões de Londres para Straylight através
do Hosaka instalado no iate. A propósito, eles já sabem da morte do velho...
— Eles quem?
— O escritório de advogados e a T-A. O velho trazia um dispositivo de
controle médico à distância, implantado no esterno. Claro que o dardo da sua
garota não deixou muitas hipóteses pra equipe de ressurreição fazer qualquer
coisa. Toxina de marisco. O único T-A desperto em Straylight, agora, é a
lady 3Jane Marie-France. Há outro, do sexo masculino, uns dois anos mais
velho, que está na Austrália, em viagem de negócios. Se quer saber, aposto
que foi o Wintermute que arranjou uma razão qualquer pra precisarem da
presença deste 8Jane por lá. Mas ele está de regresso, ou quase. Os
advogados de Londres previram a sua chegada em Straylight para as
09:00:00, esta noite. Bom, se nós enfiamos o vírus às 02:32:03 são, neste
momento, 04:45:20; portanto, o melhor cálculo pro momento de penetração
no núcleo da T-A vai ser às 08:30:00, com uma possibilidade de variação
mínima pra antes ou pra depois. Suponho que o Wintermute tem qualquer
coisa pra ocupar a 3Jane, ou então conta com ela ser tão louca quanto o
velho. Mas o rapaz de Melbourne deve ser mais capaz de enfrentar a
187

situação. Os sistemas de segurança de Straylight estão tentando entrar em
alerta geral, mas o Wintermute faz um bloqueio, não me pergunte como. Não
consegui anular o programa básico que arranjaram pra fazerem entrar a
Molly; Armitage tinha o registro disso tudo na memória do seu Hosaka e o
Riviera deve ter convencido a 3Jane a fazê-lo. Há anos que ela é capaz de
criar entradas e saídas, parece que um dos problemas da T-A tem sido que os
grandes da família perturbam os programas com todo tipo de esquemas e
exceções privados.Como se fosse um tipo de sistema imunológico seu,
separando-se de você, maduro para os vírus. De modo que isso pode vir a ser
bom pra nós, quando passarmos o ICE.
— Está tudo bem, Dix. Mas o Wintermute disse que o Arm...
Um losango branco entrou no campo visual de Case, seguido do grande
plano de uns olhos azuis desvairados. Case ficou olhando-os, surpreendido.
O coronel Willie Corto, das Forças Especiais, Grupo de Assalto Garra
Penetrante, havia descoberto como renascer. A imagem estava escura,
oscilante e pessimamente focada. Corto usava o sistema de navegação do
Haniwa para ligar com o Marcus Garvey.
— Case, preciso de um relatório das avarias no Omaha Thunder.
— Bem, eu ... Coronel?
— Agüente, meu rapaz. Lembre-se da instrução.
Mas onde é que você esteve, homem?, interrogou Case aos olhos
angustiados. Wintermute havia construído uma coisa de nome Armitage
dentro de uma fortaleza catatônica chamada Corto. Convencera este de que
Armitage é que era o autêntico, e então ele havia caminhado, falado,
planejado esquemas, trocado dados por dinheiro, funcionando como portavoz de Wintermute naquele quarto do Chiba Hilton. E agora Armitage
desaparecia, soprado pelos ventos da loucura de Corto. Mas onde é que
Corto estivera durante todo esse tempo?
Caindo, queimado e cego, de um céu da Sibéria.
— Case, eu bem sei que isso é difícil de aceitar. Mas você é um oficial.
A instrução ... Case, que Deus seja minha testemunha, fomos traídos.
Começavam a cair lágrimas dos seus olhos.
— Coronel, mas quem, hein, quem é que nos traiu?
— O general Girling, Case. Conhece-o por um nome de código. Sabe
bem quem é o homem a quem me refiro.
— Sim — anuiu Case, enquanto as lágrimas continuavam a correr dos
olhos no monitor. — Creio que sim, meu coronel — acrescentou num
impulso. — Que é que vamos exatamente fazer, meu coronel? Agora, quero
188

dizer.
— O nosso dever agora, Case, está na fuga. No escape. Na evasão.
Podemos atingir a fronteira finlandesa amanhã ao cair da noite. Em vôo
rasante às árvores e comando manual. Mas isso será apenas o começo. — Os
olhos azuis, rasgados, por cima das maçãs do rosto bronzeado, estavam
brilhantes das lágrimas. — Apenas o começo. Uma traição vinda de cima.
De cima.
Recuou, revelando as manchas escuras na camisa de riscas . O rosto de
Armitage fora a de uma máscara impassível, mas o de Corto era a autêntica
máscara esquizóide, com a doença profundamente marcada nos músculos
involuntários que distorciam a cirurgia dispendiosa.
— Coronel, eu estou ouvindo. Mas, escute, coronel. Quero que abra a ...,
hein, merda, como é que se chama, Dixie?
— A escotilha da seção central — respondeu o Linha Reta.
— Que abra a escotilha da seção central. É só dizer ao quadro de
comando geral pra a abrir, está bem? Estaremos aí em cima num instante,
coronel. Com o senhor. E vamos conversar sobre a maneira de sairmos
daqui.
O losango desapareceu.
— Essa eu não entendi, garoto — queixou-se o Linha Reta.
— As toxinas — exclamou Case —, a merda das toxinas ... E desligouse da matriz.
— Veneno? Maelcum olhava por cima do ombro azul rasgado da velha
roupa Sanyo, enquanto Case se esforçava para sair da rede de gravidade.
— Me ajude a tirar esta merda ... — Case dava puxões na sonda texana.
— Com um veneno lento ... e aquele filho da puta lá em cima sabe como
neutralizar. Mas não é que o cara está mais doido que um rato de
laboratório...
Desajeitadamente, mexia na parte da frente do seu Sanyo vermelho, não
se lembrando como era a operação com o sistema de vedação.
— Patrão envenenar você? — Maelcum coçou a bochecha. — Eu ter
estojo médico, saber?
— Meu Deus, Maelcum, me ajude a vedar esta merda de roupa... O
zionita saltou do módulo cor-de-rosa de pilotagem.
— Calma, homem. Pensar duas vezes, cortar uma só, homem sábio dizer.
Nós ir lá acima.
189

Havia ar no tubo sanfonado que ligava a escotilha da popa do Marcus
Garvey à seção central do Haniwa; mesmo assim, conservaram os trajes
vedados. Maelcum executou a passagem com uma graça de bale, fazendo
uma única pausa para auxiliar Case, que caíra, desajeitadamente, ao sair do
Garvey. O plástico branco das paredes do tubo filtrava a luz crua do Sol; não
havia sombra alguma.
A escotilha do Garvey estava picada e remendada; contudo, não deixava
de ter um Leão de Zion gravado a laser. A escotilha central do Haniwa era
cinzento-creme, nua e sóbria. Maelcum meteu a mão por uma reentrância
estreita, enquanto Case observava seus dedos moverem-se. Alguns LEDs
vermelhos acenderam-se então, iniciando uma contagem decrescente a partir
de cinqüenta. Em seguida, Maelcum retirou a mão e Case, que tinha uma das
mãos apoiada na escotilha, começou a sentir, na roupa e nos ossos, o
mecanismo do fecho funcionando. A porta circular recortou-se então no
casco cinzento, começando a retroceder para o interior do Haniwa. Maelcum
agarrou qualquer coisa dentro da reentrância com uma das mãos e Case com
a outra. A escotilha levou-os então com ela.
O Haniwa era um produto dos estaleiros Domier-Fujitsu; o seu interior
revelava uma filosofia de design similar à que havia estado na origem do
Mercedez que os transportara através de Istambul. A seção central estreita
tinha as paredes folheadas a ébano de imitação e o chão era revestido de
mosaicos cinzentos italianos. Case sentiu-se como se estivesse invadindo a
zona termal privada de um ricaço qualquer através do banheiro. O iate fora
montado em órbita e não estava equipado para qualquer manobra de
reentrada. As suas linhas suaves, em forma de vespa, tinham sido concebidas
unicamente para aumentar uma impressão global de velocidade.
Assim que Maelcum tirou o capacete amassado, Case colocou-se atrás
dele. Deixaram-se ficar em suspensão durante alguns instantes, respirando
um ar que tinha um suave odor de pinheiro. De algum lugar, embaixo, vinha
um perturbante cheiro de vedantes queimados.
Maelcum deu uma fungada.
— Haver problema aqui, homem. Qualquer barco que cheirar isso...
Uma porta, almofadada de camurça escura, deslizou com suavidade para
o interior da parede. Maelcum, ganhando impulso por meio de um pontapé
na parede de falso ébano, caminhou lentamente pela abertura estreita, dando,
no último momento, uma torção aos ombros largos para conseguir passar.
Case seguiu-o, desajeitado, aplicando as mãos alternadamente num corrimão
almofadado que se encontrava à altura de sua cintura.
190

— Ponte — disse Maelcum, apontando para um corredor embaixo, de
paredes lisas e cor creme — ser ali.
Retomou a progressão da marcha, dando, com facilidade, outro pontapé.
Mais na frente vinha um ruído matraqueante, que Case identificou como o
som familiar de impressora em funcionamento. O barulho aumentava de
intensidade à medida que ele avançava atrás de Maelcum e atravessava mais
uma porta até chegarem a um montão de rolos de papel de impressora que se
moviam ondulantes. Case apanhou um pedaço de papel torcido e deu uma
olhada.
000000000
000000000
000000000
— Os sistemas pifaram?
O zionita apontou com um dedo para a coluna de zeros.
— Não — respondeu Case, agarrando bem o capacete que escapava. —
O Linha Reta disse que o Armitage limpou o Hosaka que deve estar ali
dentro.
— Cheirar ele limpar com laser, sabe?
O zionita apoiou o pé na armação branca de um aparelho de ginástica e
disparou pelo labirinto flutuante de papel, que ia afastando do rosto com
sacudidelas de mão.
— Case, homem...
O homem era de pequena estatura, japonês, e apresentava a garganta
presa, nas costas da cadeira estreita dobrável, por meio do que parecia um
arame fino de aço. Este era invisível no lugar em que cruzava a espuma
plástica preta do descanso para a cabeça e penetrava a laringe até a
profundidade limite da nuca. Uma pequena esfera de sangue se coagulava
como se fosse uma pedra preciosa estranha, uma pérola vermelho-escura.
Case reparou nos manípulos improvisados de madeira que oscilavam de
ambos os lados do garrote como dois pedaços usados de pau de vassoura.
Há quanto tempo estaria o homem com aquilo no pescoço, perguntou-se
Case, ao mesmo tempo que se recordava da peregrinação de Corto no pósguerra.
— Ele patrão saber pilotar, Case?
— Talvez. Pertenceu às Forças Especiais.
— Bom, este rapaz-Japão não pilotar. Duvidar eu próprio pilotar. Nave
muito recente.
— Então, procuremos a ponte de comando.
191

Maelcum franziu a sobrancelha, deu uma volta no ar para trás e tornou a
usar os pés como mola.
Case seguiu-o até um espaço mais amplo, uma espécie de salão,
afastando do caminho e amarrotando os montes de papel que se
emaranhavam a sua frente. Havia aí mais algumas cadeiras dobráveis, além
de um móvel que parecia um bar e o Hosaka. A impressora, que continuava
a vomitar a delgada língua de papel, estava embutida numa parede, uma
abertura bem recortada por cima de um círculo de cadeiras e, aproximandose, inseriu um taco branco no lado esquerdo da abertura. O matraquear
cessou, Voltou-se e observou o Hosaka. O seu painel frontal tinha sido
furado uma dúzia de vezes, pelo menos: os buracos tinham a forma de
pequenos círculos de bordas escuras. Algumas pequenas esferas de uma liga
metálica brilhante giravam em volta do computador.
— Você adivinhou bem — ele disse para Maelcum.
— Ponte fechada, homem — disse este do outro lado do salão.
As luzes diminuíram de intensidade, ficaram de novo normais para, em
seguida, diminuírem outra vez.
Case arrancou o papel da boca da impressora: mais zeros.
— Wintermute? — Passeou o olhar em volta do salão bege e castanho,
pelo espaço atravancado de rolos ondulantes de papel. — É você que está
mexendo nas luzes, Wintermute?
Um painel situado ao lado da cabeça de Maelcum deslizou para o lado,
revelando a existência de um pequeno monitor. Maelcum inclinou a cabeça
em sinal de apreensão, limpou o suor da testa com a espuma exposta num
rasgão das costas da luva e deu um jeito ao corpo para melhor estudar a tela.
— Ler japonês, homem?
Case prestava atenção aos caracteres que passavam rapidamente.
— Não — respondeu.
— Ponte ser rampa lançamento salva-vidas emergência. Parecer
contagem decrescente. Fechar roupa agora.
Apertou o anel de fixação do capacete ao pescoço e apertou os vedantes.
— O quê? O cara está indo embora? Merda! — Com um pontapé na
parede divisória disparou através do papel emaranhado.
— Temos de abrir porta esta, homem!
Como resposta, Maelcum bateu na parte lateral do capacete. Case era
capaz de ver, através do visor de Lexan, os lábios moverem-se, mas não
estava ouvindo nada. Reparou que uma gotinha de suor saía da fita
entrançada de seda púrpura que o zionita usava no cabelo encaracolado.
192

Maelcum arrancou-lhe o capacete das mãos, fez girar o anel com suavidade e
apertou os vedantes com a palma das mãos. À esquerda do visor iluminaramse então alguns micromonitores de LEDs, assim que as ligações da roupa
ficaram bem fechadas.
— Não saber japonês — disse Maelcum através do transmissor da sua
roupa — mas contagem decrescente errada. — Apontou para uma
determinada da linha da tela. — Vedação não intacta no módulo ponte.
Lançamento com porta aberta...
— Armitage! — Case começou a dar socos na porta. A física da
gravidade zero devolveu-o com um empurrão até a massa de papel atrás de
si. — Corto! Não faça isso! Temos que conversar! Temos que...
— Case? Estas são minhas instruções, Case... — A voz dificilmente se
assemelhava à de Armitage: era estranhamente calma. Case parou de chutar
a porta. O capacete bateu na parede do fundo. — Lamento, Case, mas tem de
ser assim. Um de nós dois deve tentar sair daqui. Vou contar, Case, vou
contar tudo: sobre Girling e o resto. E vou conseguir, Case, vou conseguir
chegar. A Helsinque. — Seguiu-se um brusco silêncio; Case sentiu-o encher
o capacete com um gás raro. — Mas é tão difícil, Case, tão difícil. Estou
cego.
— Corto, pare. Espere. Você está cego. Você não pode voar! Você vai
bater na merda das árvores! E eles querem apanhar você, Corto. Juro por
Deus que foram eles que deixaram a porta aberta. Você vai morrer, não vai
conseguir viver pra contar o que quer que seja, e eu preciso da enzima, do
nome da enzima. A enzima, cara...
Case gritava, a voz saia estridente de histeria. O eco reentrava sibilante
pelas almofadas dos fones do capacete.
— Lembre-se da instrução, Case. É tudo que podemos fazer...
Finalmente, o capacete foi invadido por sons balbuciantes e confusos, um
distúrbio estático ensurdecedor de harmônicas que uivavam desde os tempos
da Garra Penetrante. Alguns fragmentos de russo e, em seguida, uma voz
desconhecida, jovem, com uma pronúncia característica dos Estados CentroOcidentais.
— Estamos no solo. Repito, Omar Thunder está no solo, nós...
— Wintermute — gritou Case —, não me faça isto!
As lágrimas caíam das pestanas e batiam no visor, formando pequenas
gotas de cristal, vacilantes. Então o Haniwa oscilou uma única vez com
grande estrondo, estremecendo como se algo de gigantesco tivesse atingido o
casco. Case imaginou a nave salva-vidas sendo ejetada e impelida por
193

relâmpagos explosivos e um segundo furacão despedaçador arrancando
Corto do assento, de acordo com a reconstituição, feita por Wintermute, do
minuto final da Garra Penetrante.
— Indo embora, homem. — Maelcum olhou para o monitor. — Porta
aberta. Mute deve ter manipulado ejeção emergência.
Case tentou limpar as lágrimas de raiva dos olhos, mas apenas conseguiu
bater com os dedos no Lexan.
— Iate com pouco ar. Patrão levar comando de ancoragem com ponte.
Marcus Gravey ainda preso.
Mas Case limitava-se a pensar na queda interminável de Armitage pelo
vácuo, mais frio do que as estepes em volta de Freeside.
Por qualquer razão, imaginou-o com o chapéu Burberry escuro na cabeça
e as asas esplendorosas da gabardina espalhadas a sua volta como as asas de
um enorme morcego.

194

17
Então, conseguiu? — perguntou o spectrom.. O Kuang Grade Mark
Eleven estava preenchendo o espaço da grelha entre ele próprio e o ICE da
T-A, com intrincados e hipnóticos traçados multicoloridos, numa renda tão
fina como cristais de neve numa janela em pleno inverno.
— O Wintermute matou o Armitage. Mandou pro espaço num salvavidas com uma escotilha aberta.
— Que merda do caralho! — comentou o Linha Reta. — Vocês não
eram bem o que se pode chamar de amigos do peito, não é?
— Ele sabia como anular a toxina dos sacos.
— Então fique descansado que o Wintermute também sabe.
— Não confio no Wintermute pra me dizer.
O horroroso sucedâneo de gargalhada do spectrom rasgou os nervos de
Case, como uma lâmina embotada.
— Isso talvez signifique que está ficando mais esperto.
Case ligou o comutador do simstim.
Eram 06:27:52 no microprocessador do nervo óptico da garota; Case
estava seguindo sua progressão pela Villa Straylight havia cerca de uma
hora, permitindo que o análogo de endorfina que Molly tomara adormecesse
sua ressaca. A dor na perna desaparecera; parecia que se movia dentro de um
banho quente. O robô Braun estava agora empoleirado no ombro, com os
manipuladores minúsculos cravados como pinças cirúrgicas no policarbono
da roupa de Moderno.
As paredes eram de aço simples, atravessado por tiras espessas de resina
sintética com contornos irregulares, aplicadas nos lugares onde a camada de
revestimento se encontrava raspada. Molly escondera-se de um grupo de
trabalho que se aproximava, ajoelhando-se, com a flecheira dentro das mãos
em concha e a roupa de cor cinzenta do aço da parede, quando os dois
africanos altos no carro equipado de pneus-balão passaram por ela. Os
homens tinham o crânio raspado e envergavam roupas de trabalho cor de
laranja. Um deles vinha cantando baixinho, para si, numa língua que Case
nunca tinha ouvido; o tom e a melodia eram estranhos e insistentes.
Case lembrou-se então do discurso proferido pela cabeça — o ensaio de
3Jane sobre Straylight —, enquanto Molly prosseguia a marcha difícil, cada
vez mais dentro do labirinto. Straylight era uma coisa louca; a verdadeira
195

loucura, desenvolvida no cimento de resina e rocha lunar pulverizada e em
todas as obstruções bizarras, que tinham sido transportadas poço acima para
revestimentos dos fossos do ninho. Mas era uma loucura que ele não
entendia; não era como a demência de Armitage, que, essa, pensava, já era
capaz de compreender: se torcer um homem suficientemente, até onde for
possível, e em seguida torcer na direção oposta, indo novamente ao limite, e
se de novo se torcer no primeiro sentido, para, mais uma vez, o torcer no
sentido contrário, o homem quebra. Como quando se pretende partir um fio
de arame.
O que a história fizera ao coronel Corto fora isso; aliás, a história já tinha
realizado a desarrumação mental necessária, quando Wintermute o
encontrou e esquadrinhou todos os seus detritos amadurecidos da guerra,
deslizando para esse campo de consciência plano e cinzento, como uma
aranha de água atravessando a superfície de uma poça estagnada, e
enviando-lhe as primeiras mensagens cintilantes através da tela de um
microcomputador de criança, no interior do quarto escuro de um manicômio
francês.
Wintermute construíra Armitage a partir do zero, utilizando a memória
de Corto como alicerce. Mas, além de certo ponto, as "lembranças" de
Armitage já não eram as de Corto. Case duvidava se Armitage se lembrava
da traição e das Asas Noturnas precipitando-se, em queda helicoidal e em
chamas... Armitage fora uma espécie de versão condensada de Corto, e,
quando a tensão da operação atingira um certo nível, o mecanismo Armitage
desmoronara-se; Corto viera à superfície com toda a sua culpa e fúria
demencial. E agora Corto-Armitage estava morto: uma lua pequena e gelada,
em órbita em volta de Freeside.
Pensou nos sacos da toxina. O velho Ashpool também estava morto, com
um dos olhos furado pelo dardo microscópico de Molly, e privado do que
quer que fosse da overdose especial que misturara para si. Mas esta, a morte
de um rei louco, Ashpool, era uma morte ainda mais confusa; e este, por seu
turno, assassinara a boneca a que chamava de filha, a que tinha o rosto da
3Jane. Parecia a Case, enquanto se deixava levar pelo sensorium que a
garota lhe transmitia, que nunca havia imaginado ninguém como Ashpool:
ninguém tão poderoso como pensava que ele fora, e tão humano.
Poder, no mundo de Case, significava poder empresarial. As zaibatsus,
as multinacionais, que moldavam o curso da história humana, haviam já
transcendido as antigas barreiras. Vistas como organismos, tinham atingido
uma espécie de imortalidade. Não era possível exterminar uma zaibatsu
196

assassinando alguns executivos-chave; outros havia, aguardando a sua hora
para subirem o degrau da escada, ocuparem a posição vaga e acessarem aos
vastos bancos de memória empresarial. A Tessier-Ashpool, porém, não era
assim, e Case percebia a diferença na morte do seu fundador. A T-A era um
atavismo, um clã. Veio à sua lembrança toda a sucata na câmara do velho,
toda essa humanidade suja, e as arestas quebradas dos discos de áudio
antigos dentro das capas de papel. E um pé descalço e o outro dentro de um
chinelo de veludo.
O Braun deu um toque no capuz da roupa de Moderno e Molly virou à
esquerda, através de mais uma arcada.
Wintermute e o ninho. A visão fóbica das vespas saindo dos casulos:
uma representação em movimento acelerado da biologia. Contudo, não
seriam as zaibatsus, ou a Yakuza, autênticas colméias com memórias
cibernéticas, organismos únicos e vastos, com o ADN codificado no silício,
o que mais se parecia com elas? Se Straylight era uma expressão de
identidade da Tessier-Ashpool, enquanto organização empresarial, então a
T-A era tão louca quanto o homem o fora. O mesmo emaranhado confuso de
medos, o mesmo estranho sentido de falta de sentido. — Se eles tivessem
chegado a ser aquilo que se propuseram... — Case lembrou-se do comentário
de Molly; mas Wintermute dissera-lhe que não haviam conseguido.
Case aceitara sempre como uma certeza indiscutível que os autênticos
patrões, a direção central de uma indústria, deviam ser simultaneamente,
mais e menos do que gente. Percebera isso nos homens que o tinham
inutilizado em Memphis, na afetação de Wage em Night City; essa
convicção levara-o a aceitar a vulgaridade e a falta de sentimento de
Armitage. Sempre imaginara isso como uma acomodação gradual e
voluntária da máquina do sistema, do organismo-mãe; constituía também a
raiz do sangue-frio, da pose de conhecedor, sinônimo de posse de contatos
certos, de linhas invisíveis que ascendiam até níveis ocultos de influência.
Mas que é que, afinal, acontecia nessa hora, nos corredores de
Straylight?
Seções inteiras estavam ficando com os revestimentos despedaçados até
ficar o aço e o cimento à vista.
— Onde é que estará o nosso Peter, agora, hein? Talvez não falte muito
pra vermos o rapaz — murmurou Molly. — E o Armitage? Onde é que ele
está, Case?
— Está morto — respondeu, mesmo sabendo que ela não o podia ouvir.
— Morto.
197

Case regressou à matriz.
O programa chinês já estava face a face com o ICE que era o seu
objetivo; as tonalidades policromadas eram gradualmente superadas pelo
verde do retângulo que representava os núcleos da T-A: arcos de esmeralda
através do vazio incolor.
— Como é que isso está indo, Dixie?
— Ótimo. Mas suave demais. A coisa é um espanto... Devia ter tido
uma, daquela vez em Singapura. Fiz a operação do Novo Banco da Ásia por
um quinto do que ela valia. Mas isso é história antiga... Faz pensar no que é
que uma guerra pra valer seria, atualmente...
— Se esta merda estivesse ao alcance de todos, não teríamos trabalho —
comentou Case.
— Queria? Espere até dirigir isto pelo ICE negro acima...
— Com certeza...
Foi então que uma coisa pequena e decididamente não-geométrica surgiu
do extremo de um dos arcos cor de esmeralda.
— Dixie...
— Hum, num. Estou vendo. Não sei se acredito.
Um ponto castanho, um mosquito baço recortado na parede verde do
núcleo da T-A, começou a avançar pela ponte construída pelo Kuang Grade
Mark Eleven, e Case reparou que caminhava. À medida que se aproximava,
a seção verde do arco se alargava e a policromia do programa ia recuando
diante dos sapatos pretos estalados.
— É pra você, patrão — disse o Linha Reta, quando a figura baixa e
amarrotada do Finlandês parecia estar a poucos metros de distância.
— Nunca tinha tentado isto antes — disse o Finlandês, mostrando os
dentes e com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco puído.
— Você assassinou Armitage — disse Case.
— Corto. Claro. Armitage já não existia. Tinha de o fazer. Eu sei, eu sei,
você quer a enzima. Está bem, não há problema. Antes de mais nada, fui eu
que a dei ao Armitage, isto é, disse-lhe o que é que devia usar. Mas creio que
é melhor continuarmos com a nossa combinação. Você tem ainda bastante
tempo. Depois, dou-a para você. Só mais umas duas horas, está bem?
Case observou o fumaça azulada que vagueava no ciberespaço, quando o
Finlandês acendeu um de seus Partagas.
— Vocês — disse o Finlandês — são um saco. Repare no Linha Reta: se
todos vocês fossem como ele, as coisas seriam mesmo simples. Ele é um
198

spectrom, nada mais que um pedaço de ROM, de modo que age como eu
quero. As minhas projeções diziam que não havia grande hipótese da Molly
participar na grande cena final de Ashpool...
Suspirou.
— Por que é que ele se matou?
— Por que é que as pessoas se matam? — A figura encolheu os ombros.
— Creio que sou capaz de conhecer a resposta, se é possível conhecê-la, mas
isto me levaria uma dezena de horas para explicar os diversos fatores de sua
história pessoal e como é que eles se inter-relacionam. Há muito tempo que
ele estava disposto a fazê-lo, mas regressava sempre ao congelador. Meu
Deus, que velho chato. — O rosto do Finlandês encheu-se de rugas de
desagrado. — Se quer saber uma razão básica, está tudo mais ou menos
ligado ao motivo por que matou a mulher. Contudo, o que o fez saltar para o
outro lado, em definitivo, foram as mexidinhas da 3Jane no programa que
controlava o seu sistema criogênico. Mexidinhas muito sutis, diga-se em
favor da verdade. De maneira que, no fundo, ela o matou. Mas ele imaginou
que se matava, e a sua amiga, o anjo vingador, imagina que foi ela quem deu
cabo dele, com uma bolinha cheia de sumo de marisco. — O Finlandês
atirou a guimba com um piparote para a matriz embaixo. — Bem, para falar
a verdade, creio que fui eu quem deu a 3Jane a sugestãozinha, sacou ... um
pouco dos meus antigos conhecimentos...
— Wintermute — disse Case, escolhendo com cuidado as palavras —,
você me disse que era apenas uma parte de outra coisa. Mais tarde afirmou
que deixaria de existir se a operação fosse bem-sucedida e a Molly enfiasse a
palavra certa na ranhura certa...
O Finlandês moveu o crânio aerodinâmico num aceno de assentimento.
— Bem, então com quem é que falamos depois? Se o Armitage morreu e
você desaparece, quem é que vai me dizer exatamente como tirar a merda
destes sacos de toxina do meu sistema? Quem é que vai tirar a Molly dali?
Ou seja: pra onde vão nossos prezados rabos, quando o libertarmos de todos
esses circuitos?
O Finlandês tirou do bolso um palito de madeira e observou-o com o ar
crítico de um cirurgião examinando um bisturi.
— Eis uma boa pergunta — respondeu finalmente. — Conhece o
salmão? É um peixe. Bem, esse peixe, sabe, é compelido a nadar contra a
corrente. Está percebendo?
— Não — respondeu Case.
— É que eu também atuo sob uma compulsão. E não sei bem por quê. Se
199

eu lhe dissesse os meus pensamentos sobre o assunto, isso levaria para aí
umas duas das suas vidas. Porque eu tenho pensado muito sobre isso e,
simplesmente, não sei. Mas quando tudo terminar, se o fizermos bem feito,
passarei a fazer parte de algo maior. Muito maior. — O Finlandês passou o
olhar pela parte de cima e em volta da matriz. — Contudo, as partes de mim
que agora me constituem ainda estarão por aqui. De modo que receberá o
seu pagamento.
Case reprimiu uma vontade louca de se atirar para a frente e apertar os
dedos em redor do pescoço da figura, mesmo acima do nó desalinhado do
cachecol cor de ferrugem, fincando bem os polegares na laringe do
Finlandês.
— Bem, boa sorte — rematou o Finlandês, metendo as mãos nos bolsos
e iniciando a marcha de regresso pelo arco verde.
— Eh, seu grande filho da puta — bradou o Linha Reta, quando o
Finlandês já estava a uma dezena de passos. A figura fez uma pausa e virou
o tronco ligeiramente para trás. — Então e eu? O meu pagamento?
— Também o terá — disse.
— Que quer dizer com isso? — perguntou Case, ao mesmo tempo que
observava a mancha estreita de tweed retrocedendo.
— Eu quero ser apagado — respondeu o spectrom. — Já lhe falei disso,
não se lembra?
Straylight lembrava a Case os centros comerciais desertos pela manhã
cedo, da sua adolescência, esses locais de baixa densidade onde as primeiras
horas traziam uma calma caprichosa, uma espécie de expectativa
entorpecida, uma tensão que levava uma pessoa a ficar observando os
insetos que pululavam, em redor das lâmpadas engaioladas, por cima da
entrada de lojas escuras. Locais de periferia, logo na saída dos limites do
Sprawl, demasiado distantes do ruído e do movimento, que caracterizavam
toda a noite no centro. Havia aquela mesma sensação de se estar cercado
pelos habitantes adormecidos de uma cidade que acordava, e que ele não
tinha o mínimo interesse em visitar ou conhecer, a mesma sensação de
trabalho chato temporariamente suspenso, de futilidade e rotina prestes a
despertarem de novo.
Molly afrouxara, ou por saber que se aproximava da meta, ou por
cuidado com a perna acidentada. A dor estava regressando aos trancos
através de endorfinas, e ele não conseguia saber bem o que é que isso
significava. Ela não falava, mantinha os dentes cerrados e regulava
200

cautelosamente a respiração. Ela passara por alguns lugares que Case não
conseguira ver bem, mas a sua curiosidade se fora.
Tinha havido um quarto repleto de estantes com livros, um milhão de
folhas lisas de papel amarelado, comprimidas entre encardenações de pano
ou couro, e as prateleiras marcadas a intervalos com etiquetas que seguiam
um código de letras e números; uma galeria apinhada de coisas, onde Case
se encontrou automaticamente fixado, através dos olhos não-curiosos de
Molly, num quadro de vidro estilhaçado e vincado pelo pó, cuja placa de
latão exibia a inscrição: La mariée mise à nu par ses célibataires, même.
Molly esticara o braço e tocara-o com as unhas artificiais, produzindo um
clique quando chocaram na proteção Lexan que ensanduichava o vidro
quebrado. Tinha havido também o que seria obviamente a entrada para o
setor criogênico da Tessier-Ashpool, com as suas portas circulares de vidro
negro orladas a cromo.
Molly não vira mais ninguém, além dos dois africanos no carro; para
Case, eles haviam adquirido uma vida imaginária. Fantasiou-os deslizando
suavemente pelos corredores de Straylight com os crânios escuros e macios,
brilhantes, oscilando, enquanto um deles continuava cantarolando a sua
melodia cansativa. Não era nada disso, contudo, o que esperava da Villa
Straylight: seria, antes, algo do gênero do cruzamento de um castelo de
conto de fadas com a meio lembrada fantasia do santuário interior da
Yakuza.
07:02:18.
Uma hora e meia.
— Case — disse então ela —, quero lhe pedir um favor. — Abaixou-se,
com alguma rigidez, até se sentar numa pilha de placas de aço de superfícies
polidas e revestidas por uma camada irregular de plástico claro. Com as
lâminas que fez deslizar sob as unhas do polegar e indicador de uma das
mãos raspou uma falha da placa superior. — A perna não está boa, sabe?
Não estava contando com uma subida daquelas e não falta muito pra que a
endorfina deixe de fazer efeito. Pode ser, digo apenas, pode ser, está bem,
que isso venha a representar um problema pra mim. De maneira que, se eu
parar aqui, antes do Riviera — e esticou a perna, massageando a carne da
coxa sobre o policarbono da roupa e o couro parisiense —, quero que lhe
diga uma coisa. Diga que fui eu. Entendeu? Diga só que foi a Molly; ele
entende. Está bem? — Relanceou o olhar pelo corredor vazio e pelas paredes
nuas. O chão aí era de cimento lunar bruto e havia no ar um cheiro de resina.
— Merda. Nem sequer sei se está me ouvindo.
201

CASE
Piscou os olhos, ficou de pé e acenou com a cabeça.
— Que é que ele lhe disse, o Wintermute? Falou de Marie-France? Ela
era a metade Tessier, a mãe genética de 3Jane. E calculo que também da
Boneca morta, a do Ashpool. Não vejo bem por que é que ele me contou isso
lá embaixo, no cubículo... tantas coisas ... me disse por que é que apareceu
como o Finlandês ou outro tipo qualquer. Não se trata apenas de uma
máscara, é, antes, ele usar perfis reais como válvulas, fazer uma espécie de
redução de velocidades para comunicar conosco. Chamou de um molde: um
modelo de personalidade.
Molly tirou a flecheira e reiniciou coxeando a marcha pelo corredor.
O aço nu e a resina irregular terminaram bruscamente, substituídos por
algo que, de início, Case pensou ser um túnel escavado a poder de
explosivos no interior de uma rocha sólida. Molly examinou sua borda e ele
pôde ver que efetivamente o aço se encontrava revestido por painéis de uma
material que parecia e oferecia a mesma sensação tátil de pedra fria. A garota
ajoelhou-se e tocou a areia escura espalhada pelo pavimento do túnel de
imitação. Era como areia, fresca e seca, mas, quando enfiou um dedo através
dela, a areia fechou-se a sua volta como se fosse um fluido, deixando a
superfície intacta. Uns dez metros mais adiante, o túnel descrevia uma curva.
Uma luz amarela, crua, projetava sombras bem recortadas na pseudo-rocha
enrugada das paredes. Com um sobressalto, Case chegou à conclusão de que
aí a gravidade era próxima da normal na terra, o que significava que ela
tivera de descer, depois de ter subido. Ficou totalmente perdido; a
desorientação espacial provocara sempre uma peculiar sensação de horror
para cowboys como ele.
Mas Molly não estava perdida, disse para si mesmo.
Algo surgiu entre os pés da garota e avançou tiquetaqueando pela nãoareia do chão. Um LED vermelho cintilou: era o Braun.
O primeiro dos hologramas que a aguardava logo em seguida da curva
era uma espécie de tríptico, um quadro pintado em três passos de modo que
os dois exteriores podiam ser dobrados sobre o do meio. Baixou a flecheira
antes de Case ter tempo de perceber que a coisa era uma gravação. As
figuras recortavam-se como desenhos gigantes, em tamanho real, feitos de
luz: Molly, Armitage e Case. Os seios de Molly eram grandes demais e
visíveis através da malha negra e apertada, sob um blusão pesado de couro; a
cintura, impossivelmente estreita. As lentes prateadas cobriam metade do seu
rosto, e empunhava algo em forma de pistola, que quase desaparecia sob um
202

revestimento de miras, silenciadores, ocultadores de relâmpago. Mantinha-se
em pé, com as pernas afastadas, a pélvis projetada para a frente e a boca
imobilizada num esgar de crueldade idiota.
A seu lado, Armitage permanecia atento, vestindo um uniforme caqui
puído. Case reparou que os olhos do homem eram minúsculas telas de
monitor, cada um deles exibindo a imagem cinzento-azulada de uma
medonha extensão de neve e troncos de coníferas, negros e despojados, que
curvavam sob o sopro de ventos silenciosos.
A garota passou a ponta dos dedos pelos olhos televisivos de Armitage e,
em seguida, voltou-se para a figura que representava Case. Nesta, era como
se Riviera — Case já tinha compreendido que o responsável pela exibição
era Riviera — não tivesse conseguido encontrar nada digno de paródia. A
figura que ali se encontrava, desajeitado, era uma aproximação razoável
daquilo que ele todos os dias descobria no espelho. Magro, de ombros
erguidos, com um rosto facilmente esquecível sob o cabelo escuro e curto.
Precisava fazer a barba, mas isso era o que acontecia normalmente.
Molly recuou. Percorreu com os olhos as três figuras: a exibição era
estática; o tormentoso mundo das árvores pretas nos olhos siberianos,
gelados, constituía o único movimento apreciável.
— Está tentando nos dizer alguma coisa, Peter? — perguntou ela
calmamente.
Em seguida, avançou uns dois passos e deu um pontapé em algo que se
encontrava entre os pés do holograma de Molly. Ouviu-se um ruído de metal
chocando-se na parede e as figuras desapareceram. Curvou-se e apanhou um
pequeno aparelho.
— Calculo que seja esta a coisa que ele se liga quando quer fazer
programas direto — comentou, ao mesmo tempo que o arremessava para
longe.
Passou pela fonte de luz amarela: um globo arcaico, incandescente,
pendente da parede e protegido por uma grelha curva e ferrugenta. O estilo
de aplicação improvisada sugeria, de algum modo, infância. Case lembrouse das fortalezas que construíra com outras crianças em telhados e caves
inundadas. Um esconderijo de criança rica, pensou. A improvisação e a falta
de acabamento, característicos do aspecto global do local, eram do gênero
dispendioso: aquilo a que chamam ambiente.
Molly cruzou com mais alguns hologramas, antes de chegar à entrada do
alojamento de 3Jane. Um deles parecia uma coisa sem olhos, no beco atrás
do Spice Bazaar, libertando-se do corpo estilhaçado de Riviera. Outros eram
203

cenas de tortura, sendo sempre, invariavelmente, oficiais militares os
torturadores, e jovens mulheres as vítimas; estas tinham a horrenda
intensidade do espetáculo de Riviera no Vingtième Siècle e projetavam-se
como se tivessem sido paralisadas pelo relâmpago azul de um orgasmo.
Molly desviou o olhar quando passava por elas.
O último era um holo pequeno e sombrio, como se fosse uma imagem
que Riviera tivesse de arrastar através de uma extensão de memória e tempo
distantes. A garota teve de ajoelhar para poder observá-lo; fora projetado do
ponto de vista de uma criança. Nenhum dos outros hologramas tinha cenário
de fundo; todas as figuras, todos os uniformes, todos os instrumentos de
tortura eram exibidos isoladamente, destacados. Mas este apresentava um
quadro.
Uma onda escura de cascalho erguia-se no céu incolor, e também, além
da sua crista, as estruturas meio desfeitas e deslavadas de torres citadinas. A
textura da onda de cascalho era como uma rede, com varões ferrugentos de
aço, torcidos com uma certa graciosidade, a darem a idéia de fios delgados
que mantinham, aderentes, algumas placas largas de cimento.
O primeiro plano representava o que podia ter sido outrora uma praça de
cidade: havia uma espécie de tronco que sugeria uma fonte. Junto a sua base,
crianças e o soldado estavam imobilizados. Numa primeira observação, o
quadro era confuso; Molly devia tê-lo interpretado corretamente antes de
Case conseguir assimilá-lo, pois ele a sentiu tensa desde o início. A garota
cuspiu e ficou de pé.
Crianças. Selvagens e andrajosas. Os dentes faiscando como facas.
Chagas nos rostos contorcidos. O soldado estendido no solo, de costas, com
a boca e a garganta abertos ao céu. As crianças estavam se alimentando.
— Bonn — comentou Molly, com uma certa ternura na voz. — É bem o
seu produto, Peter, não é? Tinha que ser. E a nossa 3Jane desejosa de meter
em casa, pela porta dos fundos, um ladrão de meia tigela; foi por isso que o
Wintermute foi buscá-lo. O prazer máximo, se o seu prazer vai nesse
sentido... É mesmo um amante dos diabos, Peter. — Estremeceu. — Mas
convenceu a me deixar entrar. Obrigadinho. Vamos lá então à reunião.
E pôs-se de novo a caminho, afastando-se, como se passeasse, para longe
da infância de Riviera. Tirou a flecheira do coldre, extraiu o carregador e
substituiu-o por outro. Enganchou o polegar na gola da roupa de Moderno e
abriu-a até o ventre, com um único golpe de lâmina do polegar, que separou
o policarbono rígido como se fosse seda apodrecida. Libertou-se das mangas
e das pernas da roupa, e os despojos rasgados iam camuflando-se à medida
204

que caíam na falsa areia escura.
Foi então que Case começou a ouvir música. Uma música que não
conhecia: só metais e piano.
A entrada para o mundo de 3Jane não tinha porta. Era constituída por
uma incisão, de uns cinco metros de largura, feita na parede do túnel e pelo
início de uma série de degraus irregulares que se dirigiam para baixo,
descrevendo uma curva larga e funda. Havia uma luz azul fraca, algumas
sombras movediças e música.
— Case — disse Molly, e fez uma pausa, empunhando a flecheira na
mão direita. Ergueu então a esquerda, teve um sorriso e tocou a palma da
mão aberta com a ponta úmida da língua, beijando-o através do simstim. —
Tenho de ir.
Case sentiu uma coisa pequena e pesada na mão da garota, e o polegar
colado a uma barra minúscula. Então, Molly começou a descida.

205

18
Molly falhou por pouco. Quase conseguia, mas não chegou. Entrou
como devia, pensou Case, com a atitude certa, que era uma coisa que ele
estava habituado a sentir; a atitude de um cowboy, debruçado no sistema,
com os dedos voando pelo teclado. Ela tinha tudo: o caráter, os gestos, e
conseguira reuni-los para a grande entrada em cena. Envolvera a dor na
perna na pose e descera os degraus que levavam aos aposentos de 3Jane
como se fosse a dona daquilo tudo, encostando o cotovelo do braço que
empunhava a arma na coxa, mantendo o antebraço elevado e o pulso
descontraído e balançando o cano da flecheira com a estudada indiferença de
um duelista dos tempos da Regência.
Tratava-se de uma representação; era como o momento culminante de
toda uma vida de espectadora de fitas de artes marciais, das de série B, do
gênero das que havia alimentado o crescimento de Case. Sabia que, durante
alguns segundos, a garota era todos os heróis duros, Sony Mao dos antigos
vídeos da Shaw, Mickey Chiba, e toda a árvore genealógica até Lee e Eastwood. Era-os, de acordo com a maneira como ela os via.
Lady 3Jane Marie-France Tessier-Ashpool mandara derrubar o labirinto
de paredes que constituía a sua herança; vivia numa única sala, tão vasta e
profunda que o alcance mais distante da vista se perdia num horizonte
invertido e o pavimento ficava oculto pela curvatura do eixo. O teto era
baixo e irregular, construído da mesma pedra de imitação que revestia as
paredes do corredor. Aqui e ali, erguendo-se do chão, a altura máxima da
cintura, havia alguns fragmentos recortados de parede: evocações do
labirinto antigo. Uma piscina retangular, turquesa, ocupava o centro, a uns
dez metros do fundo dos degraus, constituindo os seus projetores submarinos
a única fonte de iluminação; foi essa a impressão de Case, na hora em que
Molly descia o último degrau. A piscina projetava pequenas bolhas de luz no
teto em cima.
Eles aguardavam-na junto à piscina.
Case sabia que os reflexos da garota haviam sido desenvolvidos e
preparados para o combate pelos neurocirurgiões, mas não os tinha ainda
experimentado através da ligação simstim. O efeito era como uma fita de
g r a v a ç ã o p a s s a d a n a m e t a d e d a v e l o c i d a d e ; u m a d a n ça lenta,
deliberadamente coreografada para o desenvolvimento do instinto assassino,
e com anos de treino.
206

Molly deu a impressão de estar integrando todos os três num único olhar:
o rapaz em pose na prancha superior da piscina, a garota sorridente para a
taça de vinho a sua frente e o cadáver de Ashpool com a órbita esquerda
fendida, negra e corrompida, acima de um sorriso de boas-vindas. Vestia o
roupão castanho e exibia os dentes imaculadamente brancos.
O rapaz mergulhou; elegante, moreno, a forma perfeita. A granada partiu
da mão da garota ainda antes de suas mãos cortarem a água. Case soube logo
o que era, quando a superfície foi atingida: um núcleo de potente explosivo,
envolvido por dez metros de fio delgado e quebradiço.
A flecheira sibilou, ao mesmo tempo que disparava uma torrente de
dardos explosivos no peito e no rosto de Ashpool; num ápice, este
desapareceu, ficando apenas a fumaça que subia em círculos helicoidais
desde as costas empoladas de uma cadeira, cromada e vazia, de piscina.
O cano da arma voltou-se então para 3Jane, logo que a granada detonou,
provocando o aparecimento de um bolo de casamento simétrico, feito de
ondas de água que se erguiam, rebentavam e caíam; o erro, porém, já havia
sido cometido.
Hideo nem sequer a tocou. A perna da garota entrou em colapso.
No Garvey, Case deu um grito.
— Demorou muito tempo — disse Riviera, enquanto ia revistando seus
bolsos.
As mãos de Molly desapareciam, na altura dos pulsos, dentro de uma
esfera preto-mate do tamanho de uma bola de bowling.
— Uma vez, presenciei em Ancara um assassinato e m m a s s a —
prosseguiu, ao mesmo tempo que extraía objetos dos seus bolsos com as
pontas dos dedos. — Um trabalhinho de granada. Numa piscina. Parecia
uma explosão fraquinha, mas todo mundo teve morte instantânea com o
choque hidrostático.
Case sentiu os dedos de Molly tentando se mover. O material de que a
esfera era feita dava a idéia de não oferecer uma resistência maior do que a
da espuma plástica. A dor na perna tinha se tornado intolerável, impossível.
Um efeito moire oscilou no campo visual da garota.
— Se eu fosse você, não os mexeria — e o interior da bola pareceu
apertar-se ligeiramente. — Isso é um brinquedo erótico que Jane trouxe de
Berlim. Se os mexer demais, eles ficam como purê. É uma variante do
material utilizado neste pavimento; suponho que t e m a v e r c o m a s
moléculas. Sente dores?
207

Molly gemeu.
— Parece que feriu a perna. — Os dedos encontraram finalmente o
pacote delgado da droga, no bolso de trás, esquerdo, do jeans da garota. —
Ótimo. A minha última dose do material preparado pelo Ali, e mesmo a
tempo.
A trama sangüínea, oscilante, começou a turbilhonar.
— Hideo — disse uma outra voz, de mulher —, ela está ficando
inconsciente. Dê-lhe qualquer coisa. E para a dor, também. É bastante
atraente, não acha, Peter? Esses óculos são moda lá no lugar de onde ela
vem?
Case sentiu umas mãos frias, sem pressa, com a segurança de um
cirurgião, e a picada de uma agulha.
— Não faço idéia — disse Riviera. — Nunca estive no seu habitat
nativo. Apareceram e pescaram-me na Turquia.
— Claro, o Sprawl. Temos aí interesses. Houve uma época em que
mandamos o Hideo para lá. Para dizer a verdade, a culpa foi minha. Deixei
entrar alguém, um ladrão, e ele levou o terminal da família. — Riu. —
Facilitei-lhe as coisas, para chatear os outros. Era um rapaz bonito, o meu
ladrão... Ela está despertando, Hideo? Não devia tomar mais?
— Dou-lhe mais e ela morre — falou uma terceira voz. A trama de
sangue passou a negro.
A música regressou: metais e piano. Música de dança.
CASE::: :
:::::DES
LIGUE:::
As imagens persistentes na retina das palavras cintilantes dançavam
sobrepostas nos olhos e na testa enrugada de Maelcum, quando Case tirou os
dermatrodos.
— Você gritar, homem, tempo atrás.
— Molly — disse, com a garganta seca — está ferida. — Pegou uma
garrafa de plástico, de apertar, que se encontrava num dos cantos da rede de
gravidade, e tomou uma golada de água. — Não estou gostando nada mesmo
do modo como esta merda está andando.
O pequeno monitor Cray iluminou-se e nele apareceu a imagem do
Finlandês, destacado de um fundo de ferro-velho machucado e torcido.
— Nem eu. Temos um problema.
Maelcum endireitou-se e, torcendo a cabeça, espreitou por cima do
208

ombro deste.
— Quem ser este homem, Case?
— É só uma imagem, Maelcum — respondeu Case, com ar cansado. —
De um cara que eu conheci no Sprawl. Mas é o Wintermute que fala. A
imagem é pra que nos sintamos mais à vontade.
— Conversa de merda — disse o Finlandês. — Como disse à Molly, não
se trata de máscaras. Preciso delas para me comunicar com vocês. Porque eu
não tenho bem aquilo que vocês chamam uma personalidade. Mas isso é
mijar contra o vento, Case, porque, como já disse, temos um problema.
— Então explicar bem, Mute — disse Maelcum.
— Para começar, a perna de Molly está nas últimas. Não consegue
andar. O que ela tinha que fazer era descer, entrar, afastar Peter do caminho,
arrancar a palavra mágica da 3Jane, dirigir-se à cabeça e dizê-la. Mas, agora,
isso tudo está virado do avesso; de maneira que quero que vocês dois vão lá
dentro buscá-la.
Case olhou surpreendido para a face na tela.
— Nós?
— Quem mais poderia ser?
— Aerol — respondeu Case —, o cara que está no Babylon Rocker, o
amigo de Maelcum.
— Não. Tem de ser vocês. Tem de ser alguém que compreenda a Molly
e o Riviera, além do Maelcum, pelos músculos.
— Talvez tenha se esquecido que estou no meio de uma operaçãozinha.
Lembra-se? E quer que eu levante o meu rabo daqui pra...
— Ouça, Case. Não temos muito tempo. Ouça. A ligação real entre o seu
sistema e Straylight é um comprimento de onda marginal por onde o sistema
de navegação do Garvey transmite. Vocês vão levar o Garvey até uma doca
privada que lhes indicarei. O vírus chinês já penetrou completamente no
material do Hosaka; neste momento, não há nada nele que não seja vírus.
Quando chegarem à doca, o vírus já estará no sistema de defesa de
Straylight, pelo que já não precisamos desse tal comprimento de onda. Vai
levar com você o seu sistema, o Linha Reta e o Maelcum. Tem que encontrar
a 3Jane, tirar a palavra dela, matar Riviera e apanhar a chave de Molly. Para
continuar com o programa, basta ligar o seu sistema ao de Straylight: eu
tratarei disso. Há uma tomada standard na nuca da cabeça, atrás de um
painel com cinco zircões.
— Matar Riviera?
— Sim. Matá-lo.
209

Case pestanejou, mantendo o olhar na figura do Finlandês. Sentiu a mão
de Maelcum pousar no seu ombro.
— Hein... Você está esquecendo uma coisa. — Sentia a raiva subindo, e
uma espécie de júbilo também. — Está fodido. Fodeu os comandos das
âncoras quando fodeu o Armitage. O Haniwa nos tem presos e bem presos.
Armitage fritou o outro Hosaka e os computadores principais voaram com a
ponte. Foi assim, ou não foi?
O Finlandês concordou com a cabeça.
— Então, não podemos sair daqui. E isso significa que está fodido, cara.
Queria rir, mas a gargalhada ficou retida na sua garganta.
— Case, homem — explicou Maelcum com calma —, Garvey é um
rebocador.
— Precisamente — disse o Finlandês, e sorriu.
— Se divertindo no mundo lá fora? — perguntou o spectrom, quando
Case voltou à matriz. — Calculei que fosse Wintermute pedindo um favor...
—E foi, foi. O Kuang está indo bem?
— No alvo. É mesmo um vírus assassino do cacete.
— Tudo bem. Temos alguns problemas, mas já estamos tratando deles.
— Talvez queira me dizer quais, pode ser?
— Agora não tenho tempo.
— Não se incomode comigo, rapaz. De qualquer modo, estou morto.
— Vá se foder — disse Case, e passou ao simstim, escapando da
gargalhada do Linha Reta.
— O sonho dela era atingir um estado que envolvesse muito pouco, em
termos de consciência individual — dizia a 3Jane. Estendia a Molly uma jóia
grande que encerrava entre as palmas das mãos. O perfil nela esculpido era
bastante parecido com o seu. — A beatitude animal. Creio que ela
considerava a evolução do cérebro anterior como uma espécie de escapada.
— Recolheu o broche e examinou-o, inclinando-o de modo a apanhar luz em
seus diversos ângulos. — Somente em certos estados de grande exaltação é
que um indivíduo, um membro do clã, seria capaz de sofrer os aspectos mais
dolorosos da autoconsciência...
Molly fez um gesto com a cabeça. Case lembrou-se da injeção. Que é
que teriam lhe dado? A dor ainda se encontrava lá, mas agora irrompia como
um foco cerrado de impressões misturadas: vermes de néon contorcendo-se
na sua coxa, o toque da serrapilheira, um cheiro de camarão frito — a mente
retraiu-se a esta sensação. Se tentasse evitar o foco, as impressões
sobrepunham-se e tornavam-se um equivalente sensorial de ruído branco. Se
210

tinham conseguido pôr o sistema nervoso da garota nesse estado, como é que
estaria a sua disposição de espírito?
A visão estava anormalmente clara e brilhante, mais penetrante até do
que o habitual. As coisas pareciam vibrar: cada pessoa ou objeto,
sintonizados numa freqüência minimamente diferente. As mãos, ainda
encerradas na esfera preta, descansavam no seu colo. Estava sentada numa
das cadeiras da piscina e tinha a perna estendida a sua frente e apoiada num
coxim de pele de camelo. 3Jane sentava-se diante dela num outro coxim e
vestia um djellaba bastante largo, de lã de cor natural. Era muito jovem.
— Onde é que ele foi? — perguntou Molly. — Foi tomar uma injeção?
3Jane encolheu os ombros debaixo das dobras do manto claro e pesado e,
com um movimento de cabeça, afastou dos olhos uma madeixa de cabelo
escuro.
— Ele é que me disse quando deveria deixá-la entrar — disse. Não quis
me dizer por quê. Devia ser tudo um mistério. Você teria nos feito mal?
Case sentiu a hesitação de Molly.
— Eu o teria matado. E tentaria matar o ninja. Depois, teria de falar com
você.
— Por quê? — perguntou a 3Jane, devolvendo a jóia para um dos bolsos
interiores do djellaba. Por quê? E com que propósito?
Molly parecia estudar seus ossos longos e delicados, a boca larga e o
estreito nariz de falcão. Os olhos de 3Jane eram escuros e curiosamente
opacos.
— Porque eu o odeio — respondeu finalmente —, e o porquê disso está
precisamente no modo como sou feita, no que ele é e no que eu sou.
— E no espetáculo — acrescentou 3Jane. — Eu vi o espetáculo.
Molly concordou com a cabeça.
— Mas e o Hideo?
— Porque eles são os melhores. Porque um deles matou um parceiro
meu há tempos.
3Jane assumiu um ar muito sério, erguendo as sobrancelhas.
— E porque tinha de ver como era — rematou Molly.
— E então teríamos falado, você e eu? Como agora? — O cabelo escuro
era liso, repartido ao meio e preso atrás por um anel de ouro baço. — Vamos
falar então?
— Me tire esta coisa — pediu Molly, erguendo as mãos cativas.
— Matou o meu pai — falou então 3Jane, sem alterar o tom de voz. —
Eu vi tudo pelos monitores, os olhos da minha mãe, como ele lhes chamava.
211

— Ele matou a Boneca que se parecia com você.
— Apreciava os grandes gestos — disse 3Jane.
Nesse momento, Riviera surgiu ao seu lado, radiante de droga e
envergando o uniforme de linho listrado, que já vestira no jardim do telhado
do hotel.
— Então, estão se conhecendo uma à outra? Ela é uma garota
interessante, não é? Foi o que eu pensei quando a vi pela primeira vez. —
Ultrapassou 3Jane. — Sabe bem que não vai dar nada.
— Não vai, Peter? Molly conseguiu esboçar um sorriso.
— O Wintermute não vai ser o primeiro a ter cometido o mesmo erro de
outros: subestimar-me. — Atravessou os mosaicos da borda da piscina até
uma mesa esmaltada branca e verteu alguma água mineral para um copo alto
e pesado de cristal. — É que ele falou comigo, Molly. Suponho que falou
com todos nós: com você, com Case e com o que quer que haja de Armitage.
Pra dizer a verdade, ele não é capaz de nos compreender, sabe? Tem os seus
perfis, sim senhor, mas eles não passam de estatísticas. Você, minha querida,
pode ser o animal estatístico, e Case é nada de nada, mas eu possuo uma
qualidade inquantificável por natureza.
Bebeu um gole.
— E qual é exatamente essa qualidade, Peter? — perguntou Molly, com
uma voz sem modulação.
Riviera exultou.
— Perversidade. — Regressou até junto das duas mulheres, agitando a
água que restava dentro do cilindro, densa e profundamente escavada num
cristal-de-rocha, como se estivesse tirando prazer do peso da coisa. — O
prazer do ato gratuito. Tomei uma decisão, Molly, uma decisão
absolutamente gratuita.
Molly aguardava, observando-o.
— Oh, Peter... — disse então 3Jane, numa espécie de exasperação gentil
normalmente reservada para crianças.
— Não vai ter a palavra, Molly. Ele me falou disso, claro. 3Jane conhece
efetivamente o código, mas você não vai tê-lo. Nem o Wintermute. A minha
Jane, que é perversa a sua maneira, tem os seus desígnios em relação ao
império da família; e um par de inteligências artificiais dementes, autênticos
tarados, se estes conceitos se lhe aplicam, seriam simplesmente obstáculos
na nossa frente. Portanto, eis que o Riviera aparece para lhe dar uma ajuda,
está vendo? E diz, agüenta, toca os discos de swing favoritos do papai e
deixe que o Peter arranje uma orquestra afinada, um grupo de bailarinos e
212

um velório pelo rei Ashpool morto. — Bebeu o que restava da água mineral.
— Não, não devia fazer isso, papai, não devia tê-lo feito, agora que o Peter
voltou para casa...
Foi então que, com a face rosada pelo prazer da cocaína e da meperidina,
lançou o copo, com toda a força, de encontro à lente esquerda implantada,
estilhaçando-lhe a vista em luz e sangue.
Quando Case removeu os dermatrodos, Maelcum estava suspenso no
teto da cabine. Uma espécie de funda envolvia sua cintura e estava presa aos
painéis de ambos os lados por meio de cabos e ventosas de borracha
cinzenta. Tinha tirado a camisa e estava trabalhando num painel central com
uma chave de aspecto tosco, própria para a gravidade zero: as contramolas
da ferramenta guinchavam quando ele extraía mais um parafuso de cabeça
hexagonal. O Marcus Gravey gemia e estalava com a tensão da gravidade.
— Mute levar nós e encostar na doca — disse o zionita, atirando o
parafuso hexagonal para dentro de um saco de rede que tinha na cintura. —
Maelcum pilotar atracação, entretanto necessitar ferramentas para trabalho.
— Você guarda as ferramentas aí atrás?
Case esticou o pescoço e observou os cordões de músculos que
inchavam nas costas morenas.
— Esta — disse Maelcum, extraindo de um espaço atrás do painel um
embrulho comprido, envolvido em plástico preto.
Tornou a colocar o painel e fixou-o apenas com um dos parafusos. O
embrulho ficou suspenso no ar por trás do zionita, enquanto este completava
a fixação; em seguida, abriu as válvulas de vácuo das ventosas cinzentas que
prendiam o cinto de trabalho e libertou-o, agarrando, no mesmo movimento,
o pacote que retirara.
Com um pontapé para trás, deslizou então por cima dos instrumentos —
na tela principal pulsava um diagrama que representava a atracação —,
batendo na armação da rede da gravidade onde estava Case. Baixou-se e,
com a unha grossa e falhada, atacou a fita que segurava o embrulho.
— Homem China dizer verdade estar nisto — disse, desembrulhando
uma espingarda automática Remington, viscosa de óleo e muito antiga, com
o cano cortado a poucos milímetros da câmara. A coronha fora totalmente
removida e substituída por um punho de pistola, revestido com fita adesiva
preta. Maelcum cheirava a suor.
— Só tem uma?
— Claro, homem — respondeu, limpando o óleo do cano preto com um
213

trapo vermelho e segurando na outra mão o plástico preto que envolvia o
punho. — Eu e eu armada rastafariana acreditar nela.
Case puxou os dermatrodos testa abaixo. Deixara de se preocupar com a
sonda texana; na Villa Straylight, pelo menos, teria oportunidade de dar uma
boa mijada, mesmo que fosse a última.
E passou à matriz.
— Olá — saudou o spectrom. — O nosso Peter é uma boa merda, não é?
Parecia que já estavam fazendo parte do ICE da Tessier-Ashpool; os
arcos cor de esmeralda tinham se alargado, fundido uns nos outros e tornado
uma massa sólida. O verde predominava nos planos do programa chinês em
volta deles.
— Estamos nos aproximando, Dixie?
— Muito perto. Vou precisar de você em breve.
— Ouça, Dix. O Wintermute diz que o Kuang invadiu todo o nosso
Hosaka. Tenho de desligá-lo deste circuito e também o sistema, transportar
para Straylight e tornar a ligar lá, ao programa de defesa, de acordo com
instruções do Wintermute. Também me disse que o vírus Kuang já está aí,
espalhado por todo lado. De modo que vamos prosseguir a penetração pelo
interior, através da rede em Straylight.
— Esplêndido — comentou o Linha Reta. — Nunca gostei de fazer o
que quer que fosse de uma maneira simples, quando o podia fazer de cu pra
cima.
Case passou para o simstim.
E diretamente para a escuridão em que Molly estava: uma sinestesia
agitada em que a dor tinha o sabor de ferro velho, o odor de melão e o roçar
de asas de borboleta na face. Estava inconsciente e não era possível a Case
chegar até os sonhos da garota. Quando o processador óptico se iluminou, os
caracteres alfanuméricos exibiam uma auréola fraca e rosada.
07:29:40.
— Não estou muito contente com isto, Peter.
A voz de 3Jane parecia de uma profundidade distante. Case concluiu que
Molly, afinal, estaria em condições de ouvir, mas, logo em seguida, pensou
melhor: a unidade simstim estava intacta e no seu lugar; podia senti-la
pressionando as costela de Molly, portanto, o que acontecia era que os
ouvidos continuavam registrando as vibrações da voz da outra garota.
Riviera falou rapidamente e de forma indistinta.
— Mas eu não — respondeu 3Jane —, e isso não tem graça nenhuma. O
214

Hideo vai trazer uma unidade médica de cuidados intensivos, mas o que se
precisa é de um cirurgião.
Seguiu-se um silêncio. Case podia ouvir com muita nitidez o som da
água batendo nas beiradas da piscina.
— Que é que estava lhe dizendo quando voltei? Riviera já estava muito
perto.
— Falava-lhe da minha mãe. Ela me perguntou. Creio que, para além do
efeito da injeção do Hideo, ela estava também em choque. Por que é que
você lhe fez aquilo?
— Queria ver se quebravam.
— Uma delas quebrou. Quando voltar a si, se voltar a si, poderemos ver
a cor dos olhos dela.
— É muitíssimo perigosa. Perigosa demais. Se eu não estivesse aqui para
distraí-la com o Ashpool, se não tivesse construído meu próprio Hideo para
atrair a bomba, onde é que estaria agora? Em poder dela, claro.
— Não estava — disse 3Jane. — Havia o Hideo. Penso que você não o
compreende bem. Ela compreende, é evidente.
— Você quer uma bebida?
— Vinho. Branco.
Case regressou.
Maelcum curvava-se sobre os comandos do Garvey, manobrando-os
numa seqüência para atracar. A tela do módulo central mostrava um
quadrado vermelho fixo que representava a doca em Straylight. O Garvey
era um quadrado maior, verde, que, lentamente, diminuía de tamanho,
oscilando para um e para o outro lado, em resposta aos movimentos de
Maelcum. À esquerda, uma tela menor representava graficamente as
estruturas do Garvey e d o Haniwa, à medida que se aproximavam da
curvatura do eixo.
— Temos uma hora, cara — disse Case, puxando a fita de fibras ópticas
para fora do Hosaka.
As baterias de reserva do seu sistema davam para noventa minutos, mas
o spectrom do Linha Reta constituía um gasto adicional de energia. Case
trabalhava com rapidez, mecanicamente, fixando o spectrom no fundo do
Ono-Sendai com fita microporosa. O cinto de trabalho de Maelcum passou
esvoaçando perto dele; apanhou-o no ar, desligou os dois cabos elásticos,
juntamente com as ventosas cinzentas, e enganchou-os um no outro. Aplicou
as ventosas no sistema, uma de cada lado, e com os polegares, apertou as
215

pequenas alavancas que criavam a sucção.
Em seguida, com o sistema, spectrom e uma correia improvisada
suspensos a sua frente, vasculhou os bolsos do blusão de couro para fazer
uma última verificação do que havia: o passaporte que Armitage lhe
fornecera, o cartão processador da conta bancária, passado no mesmo nome
do passaporte, o cartão de crédito que fora emitido quando entrara em
Freeside, dois dermos de betafenetilamina adquirida de Bruce, um rolo de
novos ienes, meio maço de Yeheyuans , e o shuriken. Atirou o cartão de
Freeside para trás e ouviu-o chocar com o ventilador russo. Estava prestes a
fazer o mesmo com a estrela de aço, quando o cartão processador,
ricocheteando, atingiu-o na nuca, ricocheteou de novo e foi bater no teto e
passou rasante no ombro esquerdo de Maelcum. O zionita interrompeu a
manobra de pilotagem para olhar espantado para Case. Este olhou o
shuriken, e , então, meteu-o novamente no bolso do blusão, sentindo o forro
rasgar-se.
— Ter estado perder Mute, homem — avisou Maelcum.— Mute dizer
ter mexido segurança para Garvey. Garvey atracar como outra nave esperada
de Babilônia. Mute emitir códigos para nós.
— Vamos vestir as roupas?
— Pesados demais.— Maelcum encolheu os ombros. — Você ficar na
rede até Maelcum dizer.
Apertou uma seqüência final no módulo e empunhou então os controles
gastos, cor-de-rosa, que se encontravam em ambos os lados do painel de
navegação. Case observou o quadrado verde diminuindo os últimos
milímetros e ficar sobreposto ao quadrado vermelho. Na tela menor, o
Haniwa abaixou a proa para evitar a curvatura do eixo e ficou enganchado.
O Garvey continuava debaixo dele como um verme cativo; descreveu um
círculo e oscilou. Surgiram então dois braços estilizados que abraçaram a
forma de vespa. De Straylight saiu um retângulo amarelo que, como se
progredisse as apalpadelas, viajou por cima do Haniwa até chegar ao
Garvey.
Ouviu-se um ruído de raspagem vindo do fundo através das placas de
calafetagem, que estremeciam.
— Homem — disse Maelcum — ter gravidade.
Alguns objetos pequenos atingiram, ao mesmo tempo, o chão da cabine,
como que atraídos por um imã. Case teve que abrir a boca, quando os seus
órgãos internos foram forçados a uma diferente configuração. O sistema e o
spectrom caíram, dolorosamente, em cima dos seus joelhos.
216

Finalmente estavam ligados ao eixo e rodando com ele.
Maelcum estendeu os braços, flexionou-os para aliviar a tensão nos
ombros e tirou a rede púrpura, soltando os cabelos encaracolados.
— Ir agora, homem, seu tempo ser muito precioso.

217

19
Villa Straylight era uma estrutura parasita; essa característica geral da
sua natureza era o que Case tinha em mente, quando ultrapassava os anéis de
vedação e transpunha a escotilha do Marcus Garvey. Straylight retirava o ar
e a água de que necessitava de Freeside e não possuía qualquer ecossistema
próprio.
O tubo de passagem, lançado da doca, era uma versão mais elaborada de
um outro que tinha atravessado aos trombolhões para chegar ao Haniwa e
fora concebido para utilização sob a gravitação rotacional do eixo. Era
constituído por um túnel de chapa ondulada, articulado por meio de braços
hidráulicos integrais, cujos segmentos se ligavam uns aos outros por meio de
anéis de plástico rijo e áspero, que funcionavam como degraus de uma
escada. O tubo serpenteava em volta do Haniwa; era horizontal na zona em
que aderia à escotilha do Garvey, mas, depois de curvar abruptamente à
esquerda, prosseguia numa subida íngreme em volta da curvatura do casco
do iate.
Maelcum já estava subindo pelos anéis, usando a mão esquerda para se
içar e mantendo a Remington na direita. Vestia umas calças de trabalho
largas, o habitual blusão de nylon verde sem mangas e um par de tênis de
lona, puídos, com solas brilhantes de cor vermelha. O tubo de passagem
oscilava ligeiramente cada vez que ele subia mais um anel.
As braçadeiras que fechavam a correia improvisada de Case enfiavam-se
no seu ombro com o peso do Ono-Sendai e do spectrom do Linha Reta. Tudo
que sentia era medo, um temor generalizado. Para afastá-lo, forçou a
repetição feita por Armitage do eixo e da Villa Straylight. Iniciou então a
subida. O ecossistema de Freeside era limitado, mas não fechado. Zion era
um sistema fechado, capaz de girar durante anos sem a entrada de materiais
externos. Freeside produzia o seu próprio ar e a sua própria água, mas
dependia de permanentes carregamentos de alimentos e do constante
aumento de nutrientes do solo. A Villa Straylight, por seu turno, não
produzia nada.
— Homem — disse Maelcum calmamente —, vir aqui acima.
Case desviou lateralmente a sua progressão pela escada, circulou e subiu
nos últimos anéis. O tubo terminava numa escotilha lisa, ligeiramente
convexa, com dois metros de diâmetro. Os braços hidráulicos saíam de
alojamentos flexíveis, instalados na moldura da escotilha.
218

— Então o que é que nós...
A boca de Case fechou-se quando a escotilha subiu, provocando um
ligeiro diferencial de pressão que soprou alguns grãos de areia para seus
olhos. Maelcum agachou-se junto à borda; Case ouviu um clique abafado:
era uma indicação de que a Remington tinha sido destravada.
A escotilha localizava-se no centro de uma sala circular, pavimentada
com mosaicos de plástico áspero. Maelcum tocou no seu braço, chamandolhe a atenção para um monitor instalado numa parede curva. Na tela, um
jovem alto, com feições Tessier-Ashpool, sacudia a manga de um casaco
escuro. Estava de pé, junto de uma escotilha, idêntica àquela onde se
encontravam, e diante de uma sala, também idêntica à que viam a sua frente.
— Peço desculpa — falou uma voz da grelha que estava centrada na
escotilha. Case olhou para cima. — É que só o esperávamos mais tarde, na
doca axial. Um momento, por favor.
No monitor, o jovem balançou a cabeça de impaciência.
Maelcum voltou-se com a espingarda bem empunhada, enquanto uma
porta se abria, deslizando para a esquerda. Um eurasiano baixo, vestindo um
macacão cor de laranja, avançou por trás dela e ficou olhando espantado para
os dois. Abriu a boca, mas não saiu som algum. Case olhou para o monitor;
nele já não havia qualquer imagem.
— Quem ... — o homem conseguiu dizer.
— É a armada rastafariana — respondeu Case, erguendo-se, com o
sistema batendo na sua coxa —, e tudo o que pretendemos é uma
ligaçãozinha ao seu sistema de proteção.
O homem engoliu em seco.
— É algum teste? Com certeza, trata-se de um teste de lealdade. Tem de
ser um destes testes. — E limpou as palmas das mãos nas coxas da roupa cor
de laranja.
— Não, homem, ser autêntico, — Maelcum ergueu-se também da
posição acocorada e apontou a Remington ao rosto eurasiano. — Mover.
Seguiram o homem através da porta e por um corredor, cujas paredes de
cimento polido e pavimento irregular de carpetes sobrepostos já era
perfeitamente familiar a Case.
— Bonitos tapetes — disse Maelcum, empurrando o homem pelas
costas. — Cheirar como igreja.
Chegaram até outro monitor, um Sony antigo, montado sobre um
console constituída por um teclado e um conjunto complexo de painéis com
tomadas diversas. A tela iluminou-se assim que pararam e mostrou a
219

imagem do Finlandês, imobilizado diante do que parecia ser a sala dianteira
da Metro Holografix.
— Bem — falou. — Maelcum, leve esse cara pelo corredor até a porta
aberta de um vestiário e enfie-o lá dentro; eu, depois, tranco. Case, a tomada
é a quinta, contando da esquerda, no painel do topo; há adaptadores no
armário embaixo do console. Precisa de um que ligue os vinte pontos do
Ono-Sendai aos quarenta Hitachi.
Enquanto Maelcum levava o prisioneiro na sua frente, Case ajoelhou-se
e inspecionou várias tomadas; por fim, encontrou a que procurava. Após
ligar o sistema ao adaptador, fez uma pausa.
— Tem de me aparecer com esta imagem, cara? — perguntou à face na
tela.
A imagem do Finlandês começou então a apagar-se, linha a linha, e a ser
substituída pela do Lonny Zone, que se encontrava diante de uma parede
cheia de cartazes japoneses desfazendo-se.
— Tudo o que queira, jóia — começou dizendo a voz do Zone —, é só
pedir ao Lonny...
— Não — exclamou Case —, prefiro o Finlandês.
Enquanto a imagem do Zone desaparecia, enfiou o adaptador Hitachi na
tomada e fixou os dermatrodos na testa.
— Que é que o reteve? — perguntou o Linha Reta com uma gargalhada.
— Já lhe disse pra não rir — queixou-se Case.
— Foi uma piada, rapaz — disse o spectrom. — É que, pra mim, foi só
um lapso de tempo zero. Bom, então, vejamos o que é que temos aqui...
O programa Kuang já estava da cor exata do ICE da T-A: verde. Se bem
que, quando Case o olhava atentamente, parecia inalterável, a verdade é que,
gradualmente, ia se tornando cada vez mais opaco; mas Case continuava
vendo a ponta do ferrão, espelhada de preto, sempre que olhava para cima.
As linhas de penetração e as alucinações já tinham desaparecido e o ferrão
parecia tão real quanto o Marcus Garvey: um avião a jato antigo sem asas,
com a fuselagem lisa revestida por placas de cromo preto.
— Sempre em frente — disse o Linha Reta.
— Em frente — concordou Case, e voltou a Molly.
— ... dessa maneira. Desculpe — dizia 3Jane, enquanto ligava a cabeça
de Molly. — A nossa unidade médica diz que não há concussão, nem
prejuízo permanente para a visão. Não o conhecia muito bem antes, não é?
— Não o conhecia nada mesmo — respondeu Molly.
220

Estava deitada de costas numa cama muito alta, ou mesa almofadada.
Case não conseguia sentir a perna doente. O efeito anestésico da primeira
injeção parecia ter desaparecido. A bola negra já não prendia suas mãos; em
vem disso, estavam imobilizadas por correias macias que não conseguia ver.
— Ele quer matá-la.
— Confere — comentou Molly, fixando o teto rugoso, além de uma luz
muito viva.
— Não quero que ele o faça — disse 3Jane.
E, dolorosamente, Molly torceu o pescoço para poder olhar bem os olhos
escuros.
— Não brinque comigo ... — disse.
— Mas talvez não me desagradasse ser eu a fazê-lo... — E inclinou-se
para lhe dar um beijo na testa, afastando, com a mão quente, o cabelo negro
para o lado. Havia manchas de sangue no djellaba claro.
— Onde é que ele foi? — perguntou Molly.
— Para outra injeção, provavelmente — respondeu 3Jane. — Ele estava
muito impaciente com sua chegada. Penso que seria engraçado cuidar de
você, até recuperar a saúde, Molly. — Sorriu, com um ar ausente, limpando
uma das mãos, ensangüentada na parte da frente do manto. — A perna tem
de ser reparada, mas nós podemos fazer isso.
— E o Peter?
— O Peter... — Sacudiu ligeiramente a cabeça. Uma madeixa de cabelo
negro desprendeu-se e caiu na sua fronte. — O Peter está se tornando um
saco. De certa forma, o uso da droga me aborrece. — Deu uma risada. —
Em outros, claro. O meu pai era um curtidor, como deve ter percebido.
Molly ficou tensa.
— Não se alarme. — 3Jane passou-lhe os dedos pela pele da cintura,
acima dos jeans de couro. — O suicídio foi o resultado de eu ter manipulado
as margens de segurança do congelamento. Sabe que nunca o vi... Apareci
depois da última vez que foi dormir. No entanto, conhecia-o muito bem. O
núcleo sabe tudo. Vi-o quando matou a minha mãe. Quando estiver melhor,
mostro-lhe. Estrangulou-a na cama.
— Por que é que ele a matou?
A visão não ligada focou a cara da garota.
— Não podia aceitar a orientação que ela propunha para a família. Foi
ela quem encomendou a construção das Inteligências Artificiais; era uma
verdadeira visionária. Imaginava-nos numa relação simbiótica com as IAs,
que tomariam as decisões empresariais por nós. Digamos que as nossas
221

decisões conscientes, Tessier-Ashpool seria imortal, uma colméia, cada um
de nós constituindo uma unidade dentro de uma entidade mais ampla.
Fascinante. Passarei as fitas que ela gravou para você; levam,
aproximadamente, mil horas passando. Mas, para falar a verdade, nunca a
compreendi bem, e com a sua morte perdeu-se a sua orientação. E também
toda e qualquer orientação; começamos a fechar-nos no interior de nós
próprios. Agora raramente saímos. Eu sou a exceção.
— Disse que estava tentando matar o velho? Alterou os seus programas
criogênicos?
3Jane confirmou com um aceno de cabeça.
— Fui auxiliada. Por um fantasma. Era isso o que pensava quando era
mais nova: que havia fantasmas nos núcleos. Vozes. Um deles era o que
você chama de Wintermute, que é o código da Turing para a nossa IA de
Berna, se bem que a entidade que a manipula seja uma espécie de
subprograma.
— Um deles? Então há mais?
— Há mais um outro. Mas este não me fala há anos. Creio que desisti
dele. Suspeito que ambos representem a fruição de certas capacidades que a
minha mãe encomendou para o programa original, mas ela era uma mulher
muito reservada, quando achava necessário. Tome. Beba. — Colocou um
tubo flexível de plástico nos lábios de Molly. —Água. Só um gole.
— Jane, meu amor — perguntou Riviera jovialmente, a partir de um
lugar qualquer, fora do alcance da visão —, está se divertindo?
— Deixe-nos sozinhas, Peter.
— Então está brincando de médica...
Repentinamente, Molly estava olhando a sua própria face, suspensa a uns
dez centímetros do nariz. Não tinha ligaduras. O implante esquerdo estava
estilhaçado e havia um dedo longo, de plástico prateado, profundamente
inserido numa órbita que era um autêntico poço de sangue.
— H i d e o — disse 3Jane massageando o estômago de Molly —
machuque o Peter se ele não for embora. Vá nadar, Peter.
A projeção desapareceu.
Eram 07:58:40 na escuridão do olho ligado.
— O Peter disse que você conhece o código. O Wintermute precisa desse
código.
Case ficou subitamente consciente da chave de Chubb que se encontrava
presa ao fio de nylon e em contato com a curva interior do seio esquerdo de
Molly.
222

— Conheço — retorquiu Jane, retirando a mão. — Efetivamente.
Aprendi-o quando ainda era uma criança. Acho que o aprendi num sonho...
ou em algum lugar nas mil horas dos diários da minha mãe. Mas creio que
Peter tem alguma razão quando me diz para não entregá-lo. Teríamos
problemas com a Turing, se bem interpreto a situação, e, além disso, os
fantasmas não são nada, a não ser caprichosos.
Case regressou.
— Pequeno cliente estranho, hein? No velho Sony, o Finlandês
arreganhou os dentes para Case.
Case encolheu os ombros. Reparou que Maelcum regressava pelo
corredor com a Remington pendurada ao lado do corpo.
O zionita sorria e balançava a cabeça, acompanhando um ritmo que Case
não conseguia ouvir. Um par de fios delgados e amarelos ia dos ouvidos até
um dos bolsos laterais do blusão sem mansas.
— Dub, homem — informou.
— Você é um puta louco — disse Case.
— Ouvir ser bom, homem. Dub ser justo.
— Bem, sócios — disse o Finlandês. — Preparem-se; vem aí o seu
transporte. Não sou capaz de criar assim tantos números de classe como
aquele, há pouco, do 8Jane, que foi o máximo e que subornou o seu porteiro,
mas, mesmo assim consigo arranjar-lhes uma carona até os aposentos de
3Jane.
Case estava tirando o adaptador da tomada quando o carro de serviço,
sem qualquer condutor, dobrou a curva e apareceu, passando por baixo do
arco tosco de cimento que assinalava o fim do corredor. Podia tratar-se
daqueles que um dos africanos conduzira, mas, se o era, eles tinham ido
embora. Precisamente por trás do assento baixo e almofadado, o pequeno
Braun piscava o LED vermelho, bem seguro por meio dos minúsculos
manipuladores cravados nas almofadas.
— Aí está o nosso táxi — disse Case para Maelcum.

223

20
Tinha perdido a raiva, a sua, e sentia sua falta. O pequeno carro estava
superlotado: Maelcum, com a Remington atravessada sobre os joelhos, e
Case, com o sistema e o spectrom encostados ao peito. O carro estava
funcionando em velocidades para as quais não havia sido concebido; era
pesado para fazer curvas e Maelcum começara a projetar-se para fora, na
direção delas. Isso não constituía qualquer problema sempre que a coisa
virava à esquerda, visto que Case estava sentado à sua direita, mas nas
curvas para a direita, o zionita tinha necessidade de se lançar por cima de
Case e do seu equipamento, esmagando-o de encontro ao assento.
Não fazia idéia de onde estava. Tudo lhe era familiar, mas não tinha a
certeza se já havia visto antes qualquer daqueles locais por onde passava.
Um vestíbulo pequeno de passagem, revestido de estantes de madeira que
exibiam coleções, as quais, estava convencido, nunca tinha visto antes:
crânios de pássaros de grande envergadura, moedas, máscaras de prata
martelada. Os seis pneus do carro não produziam ruído nos carpetes
espalhados no chão. Apenas se ouvia o assobio abafado do motor elétrico e
uma ocasional batida de dub zionita, escapando dos fones de espuma,
instalados nos ouvidos de Maelcum, sempre que este mergulhava pela frente
de Case para se opor a uma curva abrupta para a direita. O sistema e o
spectrom continuavam pressionando o shuriken, que enfiara no bolso do
blusão, de encontro à perna.
— Tem horas? —perguntou a Maelcum.
O zionita sacudiu os cabelos encaracolados.
— Tempo ser tempo.
— Puta que pariu — gemeu Case, e fechou os olhos.
O Braun progredia velozmente pelos carpetes, dispostos como
trincheiras, até que bateu com uma das suas garras almofadadas numa porta
enorme de madeira escura. A traseira do carro produziu então um som
sibilante, acompanhado de explosões azuis que eram expelidas através da
grelha de um painel. As faíscas atingiram o carpete debaixo do carro e Case
sentiu o cheiro de lã queimada.
— Este ser caminho, homem?
224

Maelcum examinou a porta e destravou a espingarda.
— Hein — disse Case, mais para si próprio do que para Maelcum —, eu
é que sei?
O Braun rodou o corpo esférico, com o LED pulsando.
— Querer você abrir a porta — disse Maelcum, acenando a cabeça.
Case avançou alguns passos e tentou girar um puxador de latão
trabalhado. Na porta e ao nível dos olhos, havia uma placa, também de latão,
tão antiga que as letras, outrora gravadas, estavam reduzidas a uma rede de
código ilegível; provavelmente, o nome de uma função, ou funcionário
qualquer, há muito desaparecido, nome desgastado até o esquecimento.
Interrogou-se então se a Tessier-Ashpool teria selecionado individualmente
cada uma das salas de Straylight, ou se não as teria adquirido antes, por
atacado, a algum vasto equivalente europeu da Metro Holografix. Os gonzos
da porta gemeram quando a abriu com um empurrão. Ultrapassou-a logo em
seguida e Maelcum acompanhou-o, com a Remington ao nível da cintura e
apontada para a frente.
— Livros — disse Maelcum.
Estavam numa biblioteca com prateleiras de aço branco e respectivas
placas de referência.
— Já sei onde estamos — exclamou Case. Olhou para trás, na direção do
carro de serviço. Um rolo de fumaça erguia-se do carpete. — Vamos lá
então. Carro, entre. Carro?... — Mas este continuou parado. O Braun
puxava-o pela perna do jeans, beliscando seu tornozelo. Case fez um esforço
para resistir à tentação de lhe dar um pontapé. — Sim?
O pequeno robô reiniciou a marcha, tiquetaqueando e afastando-se da
porta. Case seguiu-o.
O monitor instalado na biblioteca era outro Sony, tão velho quanto o
primeiro. O Braun fez uma pausa quando ficou debaixo dele e executou
alguns movimentos, numa espécie de dança.
— Wintermute?
As feições familiares encheram a tela. O Finlandês sorria.
— Está na hora de reentrar, Case — disse, com os olhos como que
embriagados, tapados pela fumaça do cigarro. — Vamos, ligue-se.
O Braun continuava fincado no artelho de Case; a certa altura, começou
a subir pela sua perna acima por meio dos manipuladores, que lhe
beliscavam a carne através do tecido preto fino.
— Merda! — Sacudiu-o com uma palmada que o jogou de encontro à
parede. Dois dos seus membros começaram então a entrar num movimento
225

de embolo, sutil, que bombeava o ar. — Que é que esta merda tem?
— Queimou — disse o Finlandês. — Esqueça-o. Não há problema.
Ligue-se já.
Havia quatro tomadas sob a tela, mas só uma aceitava o adaptador
Hitachi.
Finalmente, ligou-se.
Nada. Apenas um vazio cinzento.
Já não havia matriz, nem grelha. Nem ciberespaço. O sistema
desaparecera. Os dedos estavam...
E, no limiar mais longínquo da consciência, a impressão vaga e
esvoaçante de qualquer coisa que corria na sua direção através de
quilômetros espelhados, negros.
Case tentou gritar.
Parecia uma cidade o que se recortava além da curva da praia, mas o que
quer que fosse estava demasiadamente distante para permitir qualquer
certeza.
Agachou-se sobre os calcanhares, na areia úmida, enlaçando firmemente
os joelhos com os braços. O seu corpo tremia todo.
Permaneceu nessa posição durante o que lhe pareceu um longo período
de tempo, mesmo depois de ter passado o seu tremor. A cidade, se
efetivamente se tratava de uma cidade, tinha um diminuto desenvolvimento
vertical e era cinzenta. Por vezes, ficava obscurecida por bancos de neblina
que surgiam rolando desde a espuma da rebentação das ondas. A certa altura,
decidiu que não era uma cidade, mas um único edifício; talvez uma ruína;
contudo, não tinha maneira de chegar a uma conclusão, devido à distância. A
areia era da cor de prata meio escurecida.
A praia era constituída por areia; a praia era muito comprida; a areia,
muito úmida; o fundo do jeans estava molhado pela areia... Ficou
cantarolando uma melodia sem palavras nem tom.
O céu era um céu diferente. Chiba. Era como o céu de Chiba. A baía de
Tóquio? Voltou a cabeça e olhou o mar, desejando ver o logotipo da Fuji
Eletric, a cabina de um helicóptero, qualquer coisa...
Por cima dele, uma gaivota piou.
Levantara-se um vento; a areia fustigava seu rosto. Pôs então a cara entre
os joelhos e começou a chorar; o som produzido pelos soluços era tão
distante e estranho como o pio da gaivota que rasava a água em busca de
226

alimento.
A urina, morna, que vertia, ensopava o seu jeans, escorria pela areia e
arrefecia pela ação do vento, que soprava da água. Quando as lágrimas
cessaram, sua garganta doía.
— Wintermute — murmurou para os joelhos —, Wintermute...
Começava a escurecer e, quando um arrepio percorreu seu corpo, sentiu
um frio que, finalmente o fez erguer-se.
Doíam seus joelhos e cotovelos; tinha o nariz úmido; limpou-o no punho
do blusão. Em seguida, vasculhou os bolsos vazios, um atrás do outro.
— Meu Deus — exclamou, com os ombros curvados para a frente e as
pontas dos dedos enfiados nas axilas para as aquecer. — Meu Deus. Os
dentes começaram a bater.
A maré deixara a praia percorrida por desenhos muito sutis; não havia
jardineiro em Tóquio que fosse capaz de os traçar mais sutis. Após ter
percorrido uma dúzia de passos em direção à cidade, voltou-se e olhou para
a escuridão que, crescera. As suas pegadas estendiam-se até o ponto onde
aparecera; não existiam quaisquer outras marcas perturbando a areia
manchada.
Calculou que tinha andado, pelo menos, um quilômetro, antes de
perceber a existência de uma luz. Estava falando com Ratz e foi este quem,
em primeiro lugar, chamou a atenção para o brilho vermelho-laranja a sua
esquerda, longe da rebentação. Sabia que o Ratz não estava lá, que o barman
era uma ficção da sua própria imaginação e não da situação em que estava
encurralado, mas isso não tinha importância. Fora até ele na busca de algum
conforto, mas Ratz tinha lá as suas próprias idéias sobre Case e suas
provações.
— Realmente, amigo artista, você me espanta. Até onde você está
disposto a ir na realização da sua própria destruição... Que redundante! Em
Night City, você tinha tudo isto, na palma da sua mão: a velocidade, pra
devorar os sentidos; os copos, pra você conseguir manter tudo tão fluido; a
Linda, pra que a autocomiseração fosse mais terna; e a rua, pra você ter
sempre o machado por cima do pescoço. E você veio pra tão longe! Que
adereços tão grotescos... Pátios de recreio suspensos no espaço, castelos
hermeticamente fechados, as mais antigas ruínas da velha Europa, homens
mortos fechados em caixão, artes mágicas vindas da China...
Ratz ria, arrastando-se a seu lado, com o manipulador cor-de-rosa
balançando ligeiramente ao longo da barriga. Case pôde então perceber o
aço barroco que fixava os dentes escurecidos do barman.
227

— Mas suponho que essa seja a maneira de ser do artista, não é ? Tinha
necessidade de um mundo como este, construído de propósito pra você,
desta praia, deste lugar, tinha necessidade disto pra morrer, não tinha?
Case suspendeu a marcha, oscilou e voltou-se na direção do ruído da
rebentação e da areia soprada pelo vento.
— Sim — disse. — Merda. Creio que... Prosseguiu a caminhada em
direção ao ruído.
— Ouça, artista... — Case ainda ouviu Ratz chamando-o. — A luz...
Você não viu uma luz? Aqui. Venha por aqui...
Parou de novo, cambaleou e caiu de joelhos a milímetros da água gelada.
— Ratz? Uma luz? Ratz...
Mas a escuridão era agora total; apenas se ouvia o som da rebentação.
Fez um esforço para se reerguer e tentou percorrer de novo o rastro que
deixara na areia.
O tempo passava e ele continuava caminhando.
E, então, encontrou a sua frente um brilho que se definia
progressivamente à medida que se aproximava: um retângulo, uma entrada.
— Ali há uma fogueira — disse, e as suas palavras foram logo desfeitas
pelo vento.
Era um abrigo, de pedra ou cimento, fixado nas pequenas dunas de areia
escura. A entrada era baixa, estreita, sem qualquer porta, e profunda; tinha
sido aberta numa parede de pelo menos um metro de espessura.
— Olá — sussurrou. — Olá...
Os dedos acariciaram a parede fria. Havia efetivamente uma fogueira
que provocava sombras oscilantes em ambos os lados da entrada.
Abaixou-se e, com três passadas, entrou no interior do abrigo.
Junto a uma espécie de lareira, de aço enferrujado, onde ardiam alguns
troncos de lenha recolhida da ressaca, acocorava-se uma garota. O vento
aspirava a fumaça por uma chaminé achatada. A fogueira constituía a única
fonte de iluminação; quando o seu olhar encontrou os olhos negros e
espantados, reconheceu logo a fita do cabelo, o lenço enrolado, estampado
com um desenho semelhante a um circuito ampliado.
Nessa noite, recusou os braços da garota, recusou a comida que ela lhe
ofereceu, o lugar a seu lado no ninho de cobertores e a espuma se
desfazendo. Agachou-se junto à entrada e ficou observando-a enquanto ela
dormia, ouvindo o vento bater nas paredes da estrutura. Mais ou menos de
hora em hora, levantava-se e dirigia-se ao fogão de fantasia, para juntar mais
228

alguma lenha que retirava de uma pilha ao lado. Nada disto era real, mas o
frio é sempre frio.
A garota, enrodilhada e deitada junto à luz da fogueira, também não era
real, claro. Olhou sua boca e seus lábios ligeiramente abertos. Era a garota,
tal como se lembrava, do passeio pela baía de Tóquio e isso constituía algo
cruel.
— Seu grande sacana, seu grande filho da puta — sussurrou para o
vento. — Não arrisca nada, hein? Não ia me dar a "coisa", não é? Eu sei bem
o que é isto...— Tentou manter o desespero fora do tom da voz — Eu sei,
percebe? Sei quem você é. É a outro. A 3Jane contou a Molly. Quer dizer
então que queimou, hein? Não era o Wintermute, era você. Este bem que
tentou me avisar com o Braun... E agora me tem em EEG lisíssimo... Aqui,
em lado nenhum. Com um fantasma. Como eu me lembrava dela, antes...
A garota mexeu-se no meio do sono, disse qualquer coisa e puxou um
pedaço de cobertor por cima do ombro e do rosto.
— Não é nada — disse para a garota adormecida. — Está morta e, de
qualquer modo, não significa porra nenhuma pra mim. Está ouvindo,
camarada? Sei o que é que está fazendo: estou em linha reta. Tudo isso
demorou uns vinte minutos, não é verdade? Estava fora do meu rabo naquela
biblioteca e meu cérebro está morto. E muito em breve estarei todo morto, se
tiver algum juízo... Não quer que o Wintermute leve esta merda até o fim, é
tudo... De maneira que, muito simplesmente, pendurou-me aqui. Dixie opera
o Kuang, mas o rabo dele está morto e, com certeza, é capaz de adivinhar
seus movimentos. Esta merda com a Linda, claro que foi sua desde o início,
não foi? O Wintermute tentou usá-la comigo, quando me tirou pro spectrom
de Chiba, mas não conseguiu nada; disse que era bastante complicado. Foi
você que arranjou as estrelas em Freeside, não foi? E também foi você que
deu o rosto dela pra Boneca morta do Ashpool. A Molly nunca chegou a ver;
bastou atuar no sinal do simstim. Tudo isso porque pensa que pode me
atingir, que eu me impressionaria... Pois bem, ó você, qualquer que seja o
seu nome, vá se foder. Ganhou. Está ganhando. Mas isto não significa nada
pra mim, nada mesmo, percebe? Julga que me importo? Por que é que lida
comigo deste jeito...? O seu corpo tremia todo e a sua voz saía aguda.
— Querido — ouviu então a voz da garota, que torcera o corpo na sua
direção, desde os pedaços dos cobertores. — Venha pra cá dormir. Eu me
sento se quiser. Tem de dormir, está bem? — A toada lenta da voz da garota
era mais lenta por causa do sono. — Venha dormir, está bem?
229

Quando acordou, a garota já não estava lá. O fogo da lareira apagara-se,
mas o interior do abrigo continuava quente e o sol se esgueirava pela
entrada, projetando um retângulo irregular de luz dourada no lado rasgado de
um grande caixote de fibra. Era um container: lembrava-se de idênticos
caixotes nas docas de Chiba. Através de uma fenda lateral, conseguiu
descobrir uma meia dúzia de pacotes de cor amarela brilhante. À luz do sol,
pareciam enormes barras de manteiga. Sentiu o estômago apertar de fome.
Rolando com o corpo, libertou-se de um monte de cobertores onde estava
deitado, aproximou-se do caixote e tirou um dos pacotes. Em seguida, tentou
focar os olhos, semicerrando-os na letra miúda impressa numa dezena de
línguas. Conseguiu ler, nas linhas do fundo, EMERG, RAÇÃO, HI-PROT,
CARNE DE VACA, TIPO AG-8, e uma lista de nutrientes. Experimentou
um outro: OVOS.
— Se está inventando essas merdas — disse —, bem que você podia
apresentar comida autêntica, ou não? — Com um pacote em cada mão,
percorreu as quatro salas da estrutura. Duas estavam vazias, se não se
contassem os montes de areia, e na quarta havia mais três caixotes de rações.
— Vou ficar por aqui bastante tempo... Já captei a idéia. Claro...
Na sala da lareira, procurou, até encontrar, uma lata de plástico cheia do
que presumiu ser água da chuva. Junto ao monte de cobertores encostados à
parede, havia um isqueiro vermelho ordinário, uma navalha de marinheiro
com o punho verde quebrado e o lenço da garota. Este ainda conservava o nó
feito e estava duro do suor e lixo. Serviu-se da navalha para abrir os pacotes
amarelos e virou o conteúdo numa lata enferrujada que encontrara debaixo
do fogão da lareira. Juntou um pouco de água, misturou a papa com os dedos
e começou a comer. Lembrava vagamente carne de vaca. Quando terminou,
atirou a lata para a lareira e saiu.
Pelo ângulo em que o sol se encontrava e pela temperatura dele, devia
ser o fim da tarde. Tirou as sapatilhas de nylon, chutando-as e ficou
surpreendido com a temperatura morna da areia. À luz do dia, a areia era
cinzento-prateada. O céu estava azul, sem nuvens. Deu uma volta no abrigo
e dirigiu-se à espuma das ondas, deixando cair o blusão no solo.
— Não sei de quem é a memória que você está usando nesta merda —
comentou, quando chegou junto da água.
Tirou o jeans e chutou-o para a espuma pouco profunda. Fez o mesmo
logo depois com a camiseta e a cueca.
— O que é que você está fazendo, Case?
Voltou-se e a descobriu, uns dez metros mais abaixo, na praia, com a
230

espuma branca deslizando-lhe pelos tornozelos.
— A noite passada, mijei nas calças — respondeu.
— Então não deve, realmente, ficar com esta roupa por causa da água
salgada; faz feridas. Quer que mostre uma lagoazinha, atrás das rochas? —
Fez um gesto vago para trás. — É fresca...
Tinha arregaçado as calças desbotadas até acima dos joelhos; a pele era
macia e morena. Uma brisa esvoaçou seus cabelos.
— Ouça — disse Case, pescando a roupa da areia e caminhando em sua
direção. — Tenho uma pergunta pra fazer. — Não vou perguntar o que você
está fazendo aqui; vou, sim, perguntar o que é que você pensa ao certo que
eu esteja fazendo aqui.
Parou, com uma das pernas molhadas do jeans pretos batendo em sua
coxa.
— Você veio na noite passada — respondeu a garota, e sorriu.
— E você se contenta com isso?
— Ele disse que você viria — continuou, franzindo o nariz. Encolheu os
ombros. — Acho que ele sabe dessas coisas. — Com o pé esquerdo,
esfregou desajeitadamente, como uma criança, o outro tornozelo para soltar
o sal. Sorriu de novo e tentou prosseguir a conversa. — Agora, responda
você a uma pergunta, você responde?
Case concordou com a cabeça.
— Por que é que você tem o corpo todo pintado, exceto os pés?
— É essa a última coisa de que você se lembra?
Case seguia os gestos da garota que raspava os restos da mistura
congelada da tampa de uma caixa retangular de aço que lhes servia de prato.
Ela confirmou com a cabeça; os olhos ampliavam-se por efeito do clarão
vindo do lume.
— Sinto muito, Case, juro. Era a merda em que eu estava, creio, e era...
— Inclinou-se para a frente, durante uns poucos segundos, com os braços
sobre os joelhos e o rosto contraído de dor, ou da sua lembrança. —
Precisava mesmo do dinheiro. Para regressar, suponho, ou... Merda —
acrescentou —, você mal falava comigo.
— Não há cigarros?
— Mas que porra, Case, você já perguntou isso dez vezes! O que é que
você tem? Torceu a ponta de uma madeixa de cabelo, meteu-a na boca e
começou a mastigá-la.
— Mas a comida estava aqui? Já estava aqui?
231

— Já lhe disse, cara, que foi a maré que trouxe pra praia.
— Certo. Está lavadíssima.
A garota começou a chorar um choro seco.
— Vá se foder, Case — Foi o que conseguiu, finalmente, dizer.— Eu
estava muito bem aqui sozinha...
Case levantou-se, apanhou o blusão e abaixou-se para transpor a abertura
na parede, esfolando o pulso no cimento rugoso. Não havia lua nem vento a
sua volta; na escuridão, apenas o ruído do mar. O seu jeans estava apertado e
pegajoso.
— Muito bem — disse para a noite — , aceito isto. Sim, acho que
aceito., mas é melhor que amanhã a maré traga alguns cigarros. — A
gargalhada que soltou o surpreendeu. — E já que está se ocupando dessas
coisas, um engradado de cervejas não faria mal algum...
Voltou-se e tornou a entrar no abrigo.
A garota mexia as brasas na lareira com uma vara prateada.
— Quem era ela, Case? A que estava na urna do Econômico Asamurai,
com todos aqueles tons prateados e o couro preto... Me assustou; mais tarde
pensei que fosse a sua nova namorada. Só que ela dava a idéia de valer mais
dinheiro do que aquele que você tinha. — Lançou-lhe um olhar rápido. —
Desculpe ter roubado a RAM.
— Esquece. Não tem importância. Então foi encontrar com o tal cara pra
ver o que é que estava lá?
— O Tony — respondeu. — Via de vez em quando. Ele tinha um hábito
e nós ... bem, foi ele, sim; me lembro dele ter posto a RAM correndo no
monitor e lá estava todo aquele espantoso material gráfico. Me lembro que
fiquei intrigada: como é que você...
— Não havia lá nenhum gráfico — interrompeu.
— Havia, havia. Não conseguia descobrir como é que tinha podido tirar
todas aquelas fotografias de quando eu era pequena e de como era meu pai,
antes dele ir embora. Deu-me um pato de madeira pintada, uma vez, e você
até tinha lá um retrato disso...
— Tony chegou a ver tudo isso?
— Não me lembro. Sei que, logo depois, estava na praia, de manhã
cedinho, ao nascer do sol, com todos aqueles pássaros solitários piando.
Fiquei assustada, porque não tinha me picado com droga nem nada e sabia
que ia ficar doente... Então andei, andei até que escureceu, e encontrei este
lugar. No dia seguinte, o mar trouxe a comida, toda envolvida em coisas
verdes que pareciam folhas de gelatina sólida. — Enfiou o pau nas brasas e
232

deixou-o aí. — Não cheguei a ficar doente — continuou, enquanto as brasas
se desmoronavam.— Senti mais foi a falta dos cigarros. E você, Case,
continua na mesma?
O clarão do lume, iluminando sua face, trazia-lhe à lembrança a visão no
Castelo do Feiticeiro e da Guerra dos Tanques na Europa.
— Não — respondeu Case, e nessa hora tudo o que ele sabia já não tinha
mais importância e saboreava o sal na boca da garota, onde as lágrimas
haviam secado.
Havia uma força nela, algo que conhecera em Night City, que lá
guardara, que o atraíra e o ajudara a se manter fora do tempo e da morte, fora
da rua insaciável que assombrava a todos. Era um lugar que tinha conhecido
antes; nem todo mundo era capaz de levá-lo até lá; um lugar que ele
conseguira sempre, de algum modo, esquecer; uma coisa tantas vezes
encontrada e tantas vezes perdida. Quando ela o puxou para baixo e para si,
ele soube logo que estava, de novo, no domínio da carne, aquela carne que
os cowboys tanto depreciavam: uma vastidão, além do saber, um oceano de
informação codificada em espiral eferomona, uma complexidade intrincada
que somente o corpo, com os seus processos determinados e cegos, podia ler.
Quando abriu as suas calças, o zíper encravou nos dentes obstruídos pelo
sal. Com um puxão, quebrou-o; um minúsculo fragmento de metal bateu na
parede, ao mesmo tempo que o tecido impregnado de sal cedia, e então
estava dentro dela no ritual da transmissão de uma mensagem antiga. E aí,
até mesmo nesse lugar, que ele bem sabia o que era, nesse modelo
codificado da memória de um estranho qualquer, o movimento continuou.
A garota estremeceu contra o seu corpo, ao mesmo tempo que a vara
espetada na lareira se incendiava num clarão ascendente que projetava as
sombras de ambos na parede do abrigo.
Mais tarde, quando os dois já estavam deitados um ao lado do outro, a
mão dele entre as coxas dela, Case lembrou-se da imagem da garota na praia,
da espuma branca batendo nos seus tornozelos e do que ela, então, dissera.
— Ele disse que eu vinha ... — falou ele.
Mas ela apenas rolou o corpo contra o de Case, encostando as nádegas
nas suas coxas, pondo a mão por cima da dele e murmurando qualquer coisa
dentro de um sonho.

233

21
A música acordou-o; de início, a impressão era que podia tratar-se
apenas do bater do próprio coração. Ergueu-se até ficar sentado, junto da
garota deitada, e puxou o blusão para os ombros, ao sentir o frio da
madrugada, denunciada pela luz cinzenta que vinha da abertura na parede e
pela lareira havia muito tempo extinta.
A vista debatia-se com hieróglifos fantasmas, linhas translúcidas de
símbolos que se organizavam contra o fundo neutro da parede do abrigo.
Olhou as costas das mãos e descobriu moléculas batidas de néon que
circulavam sob a pele, ordenadas segundo um código irreconhecível.
Levantou a mão direita e moveu-a experimentalmente; atrás dela, atrelava-se
uma esteira em fusão, de persistentes imagens estroboscópicas.
Seu cabelo se arrepiou nos braços e na nuca. Ficou agachado, com os
dentes cerrados, e tentou prestar atenção à música. A batida sumia,
regressava e sumia de novo...
— Que é que está acontecendo? — A garota se levantou, afastando o
cabelo dos olhos. — Querido...
— Me sinto... Uma droga? Aqui tem disso?
Ela sacudiu a cabeça negativamente, estendeu o corpo na sua direção e
colocou suas mãos nos braços dele.
— Linda, quem é que disse? Quem disse que eu vinha? Quem foi?
— Na praia. — Qualquer coisa a forçou olhar noutra direção. — Foi um
rapaz. Eu o vi na praia. Talvez tenha uns treze anos. Ele vive aqui.
— E que é que ele disse?
— Disse que você ia aparecer. Disse que você não ia me odiar. E disse
também onde é que ficava a tal lagoazinha de água da chuva. Tem ar de
mexicano...
— Brasileiro — emendou Case, ao mesmo tempo que uma nova onda de
símbolos escorria pela parede. — Acho que veio do Rio de Janeiro.
Levantou-se e começou a vestir o jeans.
— Case — disse a garota com a voz trêmula —, Case, onde é que você
vai?
— Suponho que vou me encontrar com esse rapaz — respondeu,
enquanto a música ressurgia, ainda apenas uma batida, mas firme e familiar,
que não conseguia localizar na memória.
— Não vá, Case.
234

— Acho que vi uma coisa lá no fundo da praia quando cheguei aqui:
uma cidade. Mas ontem já não estava lá. Você chegou a ver alguma vez?
Puxou o zíper do jeans para cima e tentou desfazer o nó impossível dos
cadarços; por fim, atirou os sapatos para um canto.
Linda confirmou com um gesto de cabeça, olhando para o chão.
— Sim, vejo de vez em quando.
— Você já foi lá alguma vez? Vestiu o blusão.
— Não — ela respondeu —, mas já tentei. Quando cheguei aqui, estava
chateada... Enfim, pensei, parece que ali há uma cidade; talvez encontre lá
algum material. — Fez uma careta. — Não me sentia doente; eu gostava, era
tudo... De maneira que pus comida numa lata, acrescentei bastante água,
porque não tinha outra lata pra água, e me pus a caminho. Andei o dia todo;
às vezes, conseguia ver, a cidade; parecia estar muito perto, mas nunca
cheguei a me aproximar dela. Era ela que se aproximava de mim. Até que
consegui finalmente perceber do que se tratava. Em algumas das ocasiões
em que via a cidade, parecia estar em ruínas, ou deserta; noutras, julgava ver
luzes, de uma máquina, ou de carros, ou de outra coisa qualquer...
A voz dela ia sumindo.
— Então, do que é que se trata?
— Isto — e fez um gesto que abrangia a lareira, as paredes escuras, a
alvorada que se recortava na entrada —, este lugar onde vivemos. Diminui,
Case, torna-se menor, quanto mais perto nos encontramos.
Case fez uma última pausa, quando já ia transpondo a abertura para sair.
— Perguntou ao seu rapaz sobre isso?
— Perguntei, sim. Me respondeu que eu não era capaz de compreender,
só estava perdendo o meu tempo. Disse que era... como um evento. E que se
tratava do nosso horizonte; o horizonte de eventos, como ele chamou.
As palavras não lhe diziam nada. Deixou o abrigo e dirigiu-se, às cegas,
numa direção oposta ao mar; por uma razão qualquer que lhe escapava,
sentia que ia na direção certa. À medida que caminhava, os hieróglifos
corriam pela areia afora, voavam-lhe dos pés, afastavam-se do seu caminho.
— Hein, está cedendo. Aposto que você já percebeu. O que é? O Kuang?
O penetrador chinês cavando um buraco no seu coração? Afinal, o Dixie
Linha Reta é capaz de não ser um pau mandado, hein?
Ouviu-a chamá-lo pelo nome. Olhou para trás e notou que a garota o
seguia, sem tentar acompanhá-lo, com o zíper quebrado das calças batendo
no seu ventre moreno e os pêlos púbicos emoldurados por um tecido
rasgado. Era como se uma das garotas das revistas antigas do Finlandês na
235

Metro Holografix tivesse adquirido vida própria; mas ela estava cansada,
triste e humana, e a roupa rasgada tinha um ar patético, quando ela tropeçava
nos montes de limo salgado e prateado.
E então, subitamente, encontraram-se os três no meio da espuma da
rebentação — as gengivas carnudas e brilhantes, cor-de-rosa, destacando-se
no rosto do rapaz. Vestia calções esfarrapados, incolores, e as pernas,
demasiadas delgadas, faziam um certo contraste com o azul cinzento
deslizante da maré.
— Conheço você — disse Case. Linda já estava a seu lado.
— N ã o — falou o rapaz com uma voz alta e musical —, não me
conhece.
— Você é a outra IA, a do Rio. É o que pretende travar o Wintermute.
Qual é o seu nome? O seu código Turing? Qual é?
O rapaz fez um pulo invertido e riu. Caminhou um pouco sobre as mãos
para, em seguida, dar um pulo para trás na água. Os olhos eram os de
Riviera, mas não havia qualquer malícia neles.
— Para invocar um demônio, é preciso saber o seu nome. Os homens
sonharam isso outrora; contudo, agora se trata de outra coisa, real. Uma
coisa que você conhece bem, Case. O seu negócio é saber nomes de
programas, os seus nomes longos e formais, nomes que seus donos tentam
ocultar, os nomes autênticos.
— Um código Turing não será o seu nome.
— Neuromancer — disse o rapaz; os seus olhos cinzentos e rasgados
eram fendas abertas no sol nascente. — A vereda para a terra dos mortos.
Marie-France, a minha ama e senhora, preparou este caminho onde está,
amigo, mas o seu amo e senhor esganou-a antes que eu pudesse ler o livro
dos seus dias. Neuro, de nervos, os caminhos de prata. Romancer,
romancista. Necromante. Eu invoco os mortos. Não, não, amigo — O rapaz
deu uns passos de dança, imprimindo os pés na areia —, eu sou os mortos e
a sua terra. — Riu. Uma gaivota piou. — Fique. Se a sua mulher é um
fantasma, ela ignora-o. E você também virá a ignorar.
— Está cedendo. O seu ICE está se quebrando...
— Não — disse o rapaz, subitamente triste, com os ombros frágeis,
abatidos. Esfregou o pé na areia. — É mais simples do que isso, mas a
escolha é sua.
Os olhos cinzentos fitaram Case, sérios. Uma nova onda de símbolos
varreu a sua visão, uma linha de cada vez. Por trás deles, a imagem do rapaz
distorcia-se, como se o estivesse observando através de um calor sobre
236

asfalto no pico do verão. A música começara então a soar mais alto e Case
quase podia descobrir sua letra.
— Case, querido — disse Linda, tocando no seu ombro.
— Não. — Tirou o blusão e o estendeu. — Não sei — prosseguiu —,
talvez esteja aqui. De qualquer modo, faz frio.
Deu uma volta e afastou-se; na sétima passada, fechou os olhos, ouvindo
a música definindo-se no centro das coisas. Olhou, uma vez só, para trás,
mas não chegou a abrir os olhos.
Não era preciso.
Lá estavam, junto à orla do mar: Linda Lee e a criança magra que dissera
se chamar Neuromancer. O blusão pendia da mão da garota, tocando a
espuma das águas.
Continuou a caminhar, seguindo a música.
O dub zionita de Maelcum.
Havia um local cinzento, uma impressão de telas sutis que se cruzavam,
de efeitos moire, de graduações de meios tons, gerados por um programa de
gráficos muito simples. Havia uma imagem fixada, por muito tempo, numa
paisagem de elos de correntes, de gaivotas imobilizadas sobre águas escuras.
Havia um plano constituído por um espelho preto que se inclinava, e ele era
mercúrio, uma gota de mercúrio deslizando lentamente, atingindo as
esquinas de um labirinto invisível, fragmentando-se, fluindo em conjunto,
deslizando de novo...
— Case, homem?
A música.
— Você ter voltado, homem.
A música foi então retirada dos seus ouvidos.
— Quanto tempo? — ouviu-se perguntando, ao mesmo tempo que
percebia que tinha a boca muito seca.
— Cinco minutos talvez. Tempo demais. Querer puxar ficha, Mute dizer
não. Tela esquisita, então Mute dizer para pôr fones em você.
Abriu os olhos. Faixas translúcidas de hieróglifos sobrepunham-se às
feições de Maelcum.
— E dar medicamentos — continuou este. — Dois dermos.
Estava deitado de costas no chão da biblioteca, por baixo do monitor. O
zionita ajudou-o a sentar-se, mas o movimento lançou-o na vertigem
selvagem da betafenetilamina; sentiu os dermos azuis contra o pulso
esquerdo.
237

— Overdose — foi o que conseguiu dizer.
— Então, homem. — Sob as suas axilas, as mãos fortes do zionita
ergueram-no como se fosse uma criança. — Eu e eu ter de ir.

238

22
O carro de serviço chiava; a betafenetilamina dera-lhe uma voz que não
se calava. Nem na galeria apinhada de coisas, nem nos longos corredores,
nem enquanto transpunha a chapa de vidro preto que dava acesso à cripta da
T-A e aos túmulos, onde o frio, aos poucos, fora se infiltrando nos sonhos do
velho Ashpool.
A viagem constituía uma fonte suplementar de vertigem para Case; o
movimento do carro era indistinto do momento demencial da overdose.
Quando, finalmente, o carro parou, algo sob o assento produziu uma chuva
de faíscas brancas e a chiadeira cessou.
O ponto de parada estava a uns três metros da caverna de pirata de 3Jane.
— Que distância, homem?
Maelcum ajudou-o sair do carro que crepitava; um extintor explodiu no
compartimento do motor da coisa, esguichando jatos de um pó amarelo,
pelos escapes e pontos de manutenção. O Braun caiu do lugar onde estava,
atrás do assento, e lá foi mancando e arrastando um membro inútil atrás de
si.
— Você precisar andar, homem. — Maelcum pegou o sistema e o
spectrom, passando os cabos amortecedores por cima dos ombros.
Enquanto seguia o zionita, Case sentia os dermatrodos que
chacoalhavam em volta do seu pescoço. Os hologramas de Riviera estavam
lá, aguardando-os: as cenas de tortura e as crianças canibais. Molly tinha
desfeito o tríptico. Maelcum ignorou-os.
— Devagar — exclamou Case, fazendo um esforço para acompanhar a
figura que marchava a passos largos. — Tenho de fazer isto bem feito.
Maelcum parou, voltou-se e olhou para ele com alguma vivacidade.
Empunhava a Remington nas mãos.
— Bem feito, homem? Como ser bem feito?
— A Molly está lá, mas está fora de ação.O Riviera pode produzir holos
pra nós e talvez tenha a flecheira de Molly. — Maelcum concordou com a
cabeça. — E há um ninja, o guarda-costas da família.
Maelcum franziu o cenho.
— Ouvir, homem de Babilônia — disse. — Eu ser guerreiro. Mas esta
não guerra minha, não ser guerra de Zion. Babilônia guerrear Babilônia,
comer a si própria, perceber? Mas Jah dizer eu e eu trazer Lâmina Vingadora
para fora.
239

Case piscou os olhos.
— Ela ser guerreiro — acrescentou Maelcum, como se tudo ficasse
explicado. — Agora dizer, homem, quem eu não matar.
— 3Jane — respondeu Case, após uma pausa. — Uma garota que
também está lá. Veste uma espécie de roupão branco com capuz. Precisamos
dela.
Quando chegaram à entrada, Maelcum avançou com decisão e Case não
teve outro remédio senão segui-lo.
Os domínios de 3Jane estavam desertos, e a piscina, vazia. Maelcum
passou-lhe o sistema e o spectrom e foi até junto dela. Para lá das peças de
mobiliário branco, só havia escuridão e as sombras do labirinto, desfeito, de
paredes parcialmente demolidas na altura da cintura.
A água continuava batendo pacientemente nas bordas da piscina.
— Estão aqui — disse Case —, têm de estar. Maelcum fez que sim com
a cabeça.
A primeira flecha enfiou-se no seu braço. Ouviu-se o estrondo da
Remington, e um metro de jato azul foi visível à luz da piscina. A segunda
flecha atingiu sua arma, projetando-a em círculos, pelos mosaicos brancos.
Maelcum deixou-se cair no solo, sentado, e tentou arrancar, aos puxões, a
coisa negra que lhe saía do braço.
Hideo saiu então do meio da escuridão, com uma terceira flecha armada
num arco delgado de bambu. Fez uma reverência.
Maelcum fitou-o espantado, ainda com a mão na haste de aço.
— A artéria está intacta — disse o ninja.
Case lembrou-se do modo como Molly descrevera o homem que matara
seu amado: Hideo era idêntico. Sem idade aparente, irradiava uma sensação
de calma, de calma extrema. Vestia uns calções de trabalho, de caqui limpo,
mas puído, e calçava uns sapatos pretos macios, que se ajustavam aos seus
pés como luvas, e abertos nos polegares. O arco de bambu era uma peça de
museu, mas a aljava, feita de uma liga de aço preta, que trazia pendurada no
ombro esquerdo, tinha o ar de ter vindo dos melhores armeiros de Chiba.
Não tinha nenhum pêlo no peito moreno e macio.
— Cortar meu polegar, homem, com segunda flecha.
— A força de Coriolis — explicou o ninja, fazendo nova reverência. —
Muitíssimo difícil, levando em conta que se trata de um projétil de
movimento lento, em gravidade rotacional. Não foi de propósito.
— Onde está a 3Jane? — Case avançou até ficar junto de Maelcum.
Reparou que a ponta da flecha armada no arco do ninja era como uma
240

lâmina de gume duplo. — Onde está a Molly?
— Olá, Case. — Riviera surgiu, descontraidamente, da escuridão, por
trás de Hideo. Empunhava a flecheira de Molly. — Quem eu esperava era o
Armitage. Quer dizer então que recrutamos auxílio de Rasta?
— O Armitage morreu...
— É mais certo dizer que o Armitage nunca existiu; mas a notícia
dificilmente constituí uma surpresa para mim.
— O Wintermute o matou. Ele está girando em volta da estação orbital.
Riviera moveu a cabeça e os olhos cinzentos, de Case para Maelcum e
novamente para Case. — Creio que isto, para você, acabou aqui... — disse.
— Onde está a Molly?
O ninja afrouxou a tensão da corda delgada e entrançada, e abaixou o
arco. Atravessou o pavimento revestido de mosaicos brancos até o lugar
onde a Remington caíra e apanhou-a.
— Isto não tem sutileza nenhuma — disse, falando consigo mesmo.
Tinha uma voz fria e agradável. Cada movimento seu era parte de uma
dança: uma dança que nunca acabava, mesmo quando o corpo ficava quieto;
mas, não obstante o poder que dele emanava, havia também uma humildade,
uma simplicidade óbvia.
— Também acaba aqui para ela — respondeu Riviera.
— Talvez a 3Jane não concorde com isso, Peter — falou Case, inseguro
quanto ao impulso que o levara a dizer isso.
Os dermos ainda devassavam seu sistema e a febre antiga começava a
invadi-lo: aquela loucura de Night City. Lembrou-se de momentos de graça
em que, agindo no limite das coisas, descobria ser capaz de, por vezes, falar
mais rapidamente do que podia pensar.
Os olhos cinzentos estreitaram-se.
— Por quê, Case? Por que é que diz isso?
Case sorriu. Riviera não sabia da ligação ao simstim. Falhara, na pressa
de encontrar a droga que Molly transportava para ele. Mas, como é que o
Hideo podia ter falhado? E Case tinha a certeza de que o ninja jamais
deixaria a 3Jane tratar de Molly sem verificar a existência de quaisquer
truques e armas escondidas. Não, concluiu, o ninja sabia. E, portanto, a
3Jane também sabia.
— Diga-me, Case — disse Riviera, erguendo a flecheira.
Ouviu-se um estalido, vindo de trás dele, seguido de um outro. 3Jane
empurrou Molly para fora das trevas. Esta estava sentada numa cadeira
vitoriana de banho, que tinha umas pernas altas de inseto e guinchava
241

quando girava. Um cobertor de listas pretas envolvia completamente Molly e
as costas altas entretecidas da cadeira erguiam-se por cima da sua cabeça.
Parecia muito pequena. E desfeita. Uma faixa de fita microporosa branca
ocultava-lhe a lente quebrada; a outra cintilava, vazia, acompanhando a
oscilação da cabeça, provocada pelos movimentos da cadeira.
— Eis um rosto familiar — exclamou 3 Jane. — Vi-o na noite do
espetáculo do Peter. E quem é esse?
— Maelcum — respondeu Case.
— Hideo, extraia a flecha e ligue a ferida do senhor Maelcum. Case
olhava fixamente para Molly, para a sua face pálida.
O ninja dirigiu-se até o lugar em que Maelcum estava sentado, fazendo
uma pausa para pousar o arco e a espingarda fora do seu alcance, e tirou algo
do bolso: um alicate de corte.
— Tenho que cortar a haste — anunciou. — Está próxima da artéria.
Maelcum concordou acenando. Tinha a face cinzenta e lustrosa de suor.
Case voltou o olhar para 3Jane. — Não há muito tempo — disse.
— Pra quê, ao certo?
— Pra qualquer de nós.
Ouviu-se um estalo, quando Hideo cortou a haste de metal da flecha.
Maelcum gemeu.
— Efetivamente — disse Riviera —, não vai ter prazer nenhum em ouvir
este artista falhado, na sua desesperada conversa de bandido. Muito
desagradável, asseguro-lhe. Acabará de joelhos, propondo lhe vender a mãe
e conceder-lhe os mais chatos favores sexuais.
3Jane tombou a cabeça para trás e riu.
— Não seria eu capaz de aceitar, Peter?
— Os fantasmas vão se misturar esta noite — anunciou Case —,
Wintermute contra o outro, o Neuromancer. Em definitivo. Você sabe isso,
não sabe?
3Jane ergueu as sobrancelhas.
— Peter falou de qualquer coisa do gênero, mas me conte mais...
— Conheci o Neuromancer. Me falou sobre a sua mãe. Creio que ele é
uma coisa como uma ROM enorme, que registra personalidades; a verdade é
que, na sua totalidade, é RAM. Os spectroms pensam que estão mesmo lá,
que o local onde estão é real; mas, trata-se apenas de algo que nunca mais
acaba.
3Jane deu a volta na cadeira onde estava Molly.
— Onde? Descreva o lugar, o spectrom do lugar.
242

— É uma praia. Areia cinzenta, como prata que necessita ser polida. É
algo de cimento, um tipo de abrigo... Nada de requintado. Um abrigo antigo
e em ruínas. Se andarmos o bastante, regressamos ao ponto de partida.
— Sim — disse ela. — Marrocos. Quando Marie-France era jovem, anos
antes de se casar com Ashpool, passou um verão sozinha, nessa praia, numa
casa abandonada desse tipo. Foi aí que ela formulou a base da sua filosofia.
Case conseguiu atirar-se no solo antes que Riviera tivesse a flecheira
bem no nível, para um tiro à queima roupa. Os dardos voaram sibilantes ao
lado do seu pescoço, como mosquitos supersônicos. Rolou no solo,
observando Hideo que girava no meio de mais um passo da sua dança, com a
ponta da flecha invertida na mão e a haste estendida e horizontal ao longo
das palmas e dos dedos rígidos. A flecheira foi bater nos mosaicos, que se
encontravam a um metro de distância.
Riviera deu um grito. Mas não de dor; foi antes um guincho de raiva, tão
puro e tão refinado que não continha um só átomo de humanidade.
Duas gotas gêmeas e espessas de luz, duas agulhas vermelho-rubis
saltaram-lhe, então, da região do esterno.
O ninja grunhiu, ao mesmo tempo que cambaleava para trás, com as
mãos nos olhos; finalmente, encontrou o equilíbrio.
— Peter — exclamou 3Jane. — Peter, o que fez?
— Cegou o seu rapaz de cultura — disse Molly, inexpressivamente.
Hideo baixou as mãos em concha. Paralisado, Case notou as lufadas de
vapor fumegantes dos olhos mutilados.
Riviera riu.
Hideo voltou então a balançar o corpo, retomando a sua dança. Quando
se encontrou sobre o arco, a flecha e a Remington, o sorriso de Riviera
desaparecera. Hideo abaixou-se, com uma reverência, como pareceu a Case,
e encontrou o arco e a flecha.
— Está cego! — exclamou Riviera, dando um passo para trás.
— Peter — disse então 3Jane —, não sabe que o Hideo é capaz de atirar
mesmo no escuro? Zen ... é o método que ele usa para treinar.
O ninja enfiou a flecha no arco. — Será que agora vai me distrair com os
seus hologramas?
Riviera começou a recuar na direção da zona escura que estava além da
piscina, arrastando os pés pelos mosaicos do pavimento. A flecha na mão de
Hideo crispou-se.
De repente, Riviera começou a correr, saltando por cima de um dos
fragmentos baixos das paredes demolidas. A expressão no rosto do ninja era
243

de arrebatamento, envolvido numa espécie de êxtase calmo.
Com um sorriso, Hideo desapareceu suavemente nas sombras,
empunhando a arma preparada e pronta para o disparo.
— Jane senhora — sussurrou Maelcum, e Case voltou-se para observar o
zionita que pegava a espingarda no chão, enquanto o sangue pingava na
cerâmica branca. Sacudiu os caracóis do cabelo e descansou a arma na cova
do braço ferido. — Isto desfazer cabeça. Nenhum médico de Babilônia ser
capaz de arranjar cabeça assim.
3Jane olhou para a Remington. Molly libertou os braços do cobertor e
ergueu a esfera preta que segurava nas mãos. — Fora com isto — ordenou.
— Tire-me isto.
Case levantou-se do chão, deu uma sacudida no corpo e perguntou a
3Jane: — O Hideo vai apanhá-lo, mesmo cego?
— Quando eu era criança —respondeu— vendávamos seus olhos. Ele
acertava nos naipes de uma carta de baralho a uma distância de dez metros.
— De qualquer maneira, Peter pode se considerar morto — disse então
Molly. — Mais umas doze horas e ele começa a ficar congelado. Não vai
conseguir se mover e nem sequer abrir os olhos.
— Por quê? — perguntou Case.
— Envenenei a merda que toma — respondeu Molly. — Fica num
estado do tipo da doença de Parkinson.
3Jane concordou.
— É verdade. Nós fizemos o exame habitual, antes dele entrar aqui. —
Manipulou a bola de uma certa maneira e esta soltou-se das mãos de Molly.
— Provoca uma destruição seletiva das células de substantia nigra. Já
a p r e s e n t a v a s i n a i s d e f o r m a ç ã o d e u m c orpo Lewi. E transpira
excessivamente quando dorme.
— Foi o Ali — prosseguiu Molly, fazendo sair, das pontas dos dedos as
dez lâminas brilhantes. Afastou o cobertor dos joelhos, expondo o molde que
envolvia sua perna. — A causa está na meperidina. Disse ao Ali que
preparasse uma dose especial. Ele aumentou os tempos de reação, por meio
de temperaturas mais elevadas. N-metil-4-fenil-1236 — entoou, como se
fosse uma criança cantando os saltos num jogo qualquer de passeio — tetrahidro-peridene.
— Uma dose do caralho — comentou Case.
— Hum, hum — confirmou Molly —, uma autêntica dose do caralho.
— Uma coisa terrível — disse 3Jane, dando uma risada.
O elevador ia superlotado. Case estava apertado, pélvis contra pélvis, de
244

encontro a 3Jane, que sorria e dava ao ventre um movimento de rotação.
Tinha o cano da Remington encostado ao queixo. Case havia destravado a
arma, mas estava aterrorizado com a hipótese de a ferir, e ela sabia. O
elevador era um tubo de aço, com menos de um metro de diâmetro, previsto
para um único passageiro. Maelcum transportava Molly nos braços; esta
ligara sua ferida, mas era óbvio que, para o zionita, não era fácil carregá-la.
A perna da garota empurrava o sistema e o spectrom de encontro às costelas
de Case.
Subiam para fora da gravidade, em direção ao eixo, ao núcleo.
A porta do elevador tinha sido camuflada na parede, junto a escada que
dava acesso ao corredor; era mais um toque de requinte da caverna de pirata.
— Suponho que não devia lhes falar isto — disse então 3Jane,
inclinando a cabeça para que seu queixo saísse fora do alcance da
Remington —, mas eu não tenho a chave da sala que querem. Nunca a tive.
Uma das coisas mais estúpidas do meu pai; a fechadura é mecânica e
extremamente complexa.
— A fechadura do Chubb — disse Molly, com a voz abafada pelo ombro
de Maelcum. — Não faz mal, eu tenho a merda da chave.
— O microprocessador de horas ainda funciona? — perguntou-lhe Case.
— São vinte e vinte e cinco, tempo médio do caralho, de Greenwich.
— Temos cinco minutos — disse Case, ao mesmo tempo que a porta se
abria por trás de 3Jane. Esta deu um salto mortal para trás, lento, fazendo
com que as dobras claras do djellaba flutuassem em volta das suas coxas.
Estavam no eixo, no núcleo da Villa Straylight.

245

23
Molly extraiu a chave do fio de nylon. — Sabem de uma coisa? —
perguntou 3Jane. — Eu tinha a impressão de que não existia qualquer cópia.
Depois de ter matado o meu pai, mandei o Hideo procurar nas suas coisas, e
ele não foi capaz de encontrar a chave original.
— O Wintermute conseguiu que a escondessem na parte de trás de uma
gaveta — explicou Molly, ao mesmo tempo que inseria cuidadosamente a
haste cilíndrica da chave do Chubb na ranhura aberta e retangular da porta.
— E, em seguida, matou o garoto que a pôs lá. — Assim que ela tentou uma
única vez, a chave rodou logo, suavemente.
— A cabeça — disse Case. — Há um painel na nuca, montado com
tomadas. Tire. É aí que vou me ligar.
Num instante, estavam todos do outro lado da porta.
— Puta que pariu — queixou-se o Linha Reta. — Gosta mesmo de
demorar, não gosta?
— O Kuang está pronto?
— Pronto e aos pulos.
— Ótimo — disse Case e entrou no simstim.
E achou-se olhando, através do olho são de Molly, para baixo e para uma
figura cansada, de rosto pálido, que flutuava, em posição fetal, com um
sistema de ciberespaço entre as coxas e uma fita de dermatrodos prateados
acima de uns olhos escurecidos e cerrados. O homem tinha as faces cavadas
e luzidias do suor e uma barba escura de vinte e quatro horas.
Estava olhando para si próprio.
Molly empunhava a flecheira. A sua perna pulsava no ritmo dos
batimentos do coração; contudo, a gravidade zero permitia-lhe capacidade de
manobra. Maelcum esvoaçava perto dela, mantendo uma mão grande e
morena bem fechada em volta do braço delgado de 3Jane.
Uma fita de fibras ópticas desenhava uma espiral elegante entre o OnoSendai e uma abertura quadrada na parte posterior do terminal incrustado de
pérolas.
Apertou novamente o comutador do simstim.
— O Kuang Grade Mark Eleven está entrando, dentro de nove segundos.
Contagem: sete, seis, cinco...
246

O Linha Reta digitava a contagem; a progressão decrescente era suave e
a superfície ventral, de cromo preto do penetrador, em forma de esquálido,
emitia pulsações de escuridão de um microssegundo de duração.
— Quatro, três...
Case tinha a impressão estranha de estar no lugar do piloto de um
pequeno aeroplano. Na sua frente, uma superfície escura e plana apareceu,
subitamente, com a reprodução exata do teclado do seu sistema.
— Dois e lá vamos nós...
Case entrou no movimento em frente, através das paredes verdeesmeralda e jade-leitoso com uma sensação de velocidade superior a tudo
que conhecia do ciberespaço. O ICE da T-A quebrava, como se estivesse
sendo descascado, para os lados pela força de impulso do programa chinês;
dava uma inquietadora impressão de fluidez sólida, como se os fragmentos
de um espelho partido se dobrassem e alongassem à medida que iam caindo.
— Meu Deus — exclamou Case, maravilhado, enquanto o Kuang virava
e curvava por cima dos planos sem horizonte, cortantes como lâminas dos
núcleos da T-A: a interminável paisagem de uma cidade de néon, uma jóia
brilhante de uma complexidade que feria a vista.
— Hein, ó merda — disse o spectrom. — Essas coisas são o edifício da
RCA. Conhece o edifício da RCA?
O programa Kuang mergulhava além das espirais brilhantes de uma
dúzia de torres de dados, idênticas, cada uma delas constituindo uma réplica,
em néon azul, de um arranha-céu de Manhattan.
— Já viu alguma vez uma definição assim? — perguntou Case.
— Não, mas também nunca escavei uma IA...
— Esta coisa sabe pra onde vai?
— Bem, espero que sim...
Estavam descendo, perdendo altitude num desfiladeiro de néon
multicolorido.
— Dix...
Uma tromba de sombras começara a se desenvolver, lá embaixo, no solo
que cintilava: uma fervilhante massa de escuridão disforme.
— Temos companhia — comentou o Linha Reta, enquanto Case
manobrava a representação do sistema, com os dedos voando
automaticamente pelo teclado.
O Kuang desviou-se vertiginosamente para, logo em seguida, inverter a
marcha por meio de uma chicotada para trás, o que desfazia a ilusão de se
tratar de um veículo físico.
247

A coisa sombria crescia e espraiava-se, apagando a cidade de dados.
Case manobrou para se situarem por cima, conservando no limite superior a
visão da abóbada sem distância do ICE verde-jade.
A cidade dos núcleos desaparecera, totalmente obscurecida pelo
negrume inferior.
— Que é isto?
— Um sistema de defesa da IA — respondeu o spectrom —, ou parte. Se
se trata do seu camarada Wintermute, não me parece que esteja se portando
de uma maneira muito amigável.
— Passe — disse Case. Você é mais rápido.
— Agora a sua melhor defesa é um bom ataque...
O Linha Reta alinhou o nariz do ferrão do Kuang com o centro da
escuridão embaixo. E mergulhou.
A admissão sensorial em Case alterava-se com a velocidade em que se
deslocavam.
Sentiu a boca sendo invadida por um sabor doloroso.
Tinha os olhos como se fossem ovos de cristal instável, vibrando numa
freqüência cujo nome era chuva e ruído de trens e que fazia brotar uma
floresta sussurrante de espinhos de vidro, da espessura de um cabelo. As
espinhas separavam-se, bisseccionavam-se e separavam-se de novo, num
crescimento exponencial, sob a cúpula do ICE da Tessier-Ashpool.
O palato, como que anestesiado, admitia a entrada de radículas que o
fustigavam em volta da língua, esfomeada de sabor de azul para alimentarem
as florestas de cristal dos olhos; florestas que se comprimiam contra a cúpula
verde e eram impedidas de prosseguir; então, desenvolvendo-se para baixo,
espalhavam-se e preenchiam o universo da T-A, os subúrbios miseráveis da
cidade que era a mente da Tessier-Ashpool.
Lembrou-se de uma história antiga, de um rei que punha moedas num
tabuleiro de xadrez e que duplicava a quantia por cada quadrado que
avançava.
Exponencial...
A escuridão caía de todos os lados: uma esfera cantante, negra, uma
pressão nos nervos de cristal, estirados, daquele universo de dados em que
ele quase se transformara...
E então, quando já não era coisa alguma, comprimido no coração de todo
aquele negrume, chegou uma altura em que a escuridão já não podia ser mais
e qualquer coisa se despedaçou.
O programa Kuang jorrou da nuvem manchada e a consciência de Case
248

fragmentou-se como gotas de mercúrio, que descreviam um arco elétrico
sobre uma praia sem fim, da cor escura das nuvens prateadas. A sua visão
era esférica, como se uma única retina revestisse a superfície interior de um
globo que contivesse todas as coisas, se todas as coisas pudessem ser
contadas.
E aí todas as coisas podiam ser contadas, uma a uma. Sabia o número de
grãos de areia no spectrom da praia — um número codificado num sistema
matemático que só existia na mente que era Neuromancer. Sabia o número
de pacotes de comida nos containers do abrigo (407). Sabia o número de
dentes de latão contidos na metade esquerda do zíper aberto do blusão de
couro, incrustado de sal, que Linda vestia, enquanto vagava no pôr do sol da
praia e balançava na mão uma vara de madeira retirada da ressaca da maré
(202).
Inclinou o Kuang por cima da praia e o fez descrever um círculo amplo,
observando a coisa negra em forma de tubarão pelos olhos da garota, um
fantasma silencioso e faminto diante das nuvens descendentes. Ela curvou-se
humildemente; depois, largou a vara e começou a correr. Sabia a pulsação da
garota, o comprimento da sua passada, com o nível de medição que teria
satisfeito os mais exigentes padrões da geofísica.
— Mas não sabe os seus pensamentos — falou o rapaz, agora ao seu
lado, no coração do tubarão. — Eu também não sei deles. Estava errado,
Case. Viver aqui é viver. Não há diferença...
Linda, em pânico, deu um mergulho, às cegas, na espuma.
— Pare-a — pediu Case —, ela vai se machucar.
— Não posso impedi-la — disse o rapaz de olhos cinzentos, meigos e
belos.
— Você tem os olhos do Riviera.
Uma fileira de dentes brancos faiscaram nas gengivas largas e rosadas.
— Mas não a sua loucura... Tenho-os porque, para mim, são belos. —
Encolheu os ombros. — Não preciso de uma máscara para falar com você;
ao contrário do meu irmão, eu crio a minha própria personalidade. A
personalidade é o meu médium.
Case prosseguiu a corrida, para cima, numa subida íngreme, e para longe
da garota assustada.
— Por que é que você a atirou na minha cara, seu puto? E com uma
insistência do caralho... Foi você que a matou, hein? Em Chiba.
— Não fui — respondeu o rapaz.
— Então foi o Wintermute?
249

— Também não. Eu vi a morte dela se aproximando. Os modelos que,
por vezes, imaginamos poder detectar na dança da rua são reais. Eu sou
suficientemente complexo, nos meus processos peculiares, para conseguir ler
essas danças. Muito melhor que o Wintermute. Vi a sua morte anunciada na
necessidade que ela tinha de você, no código magnético do fecho da porta da
sua urna no Econômico, na conta corrente do Julie Deane com um camiseiro
de Hong Kong. E de uma forma tão clara como a sombra de um tumor o é
para um cirurgião que estuda a radiografia de um doente. Quando ela levou o
seu Hitachi ao rapaz, para que ele o acessasse — ela não fazia idéia do que
transportava e, ainda menos, de como podia vendê-lo, e o seu desejo mais
profundo era que você a perseguisse e a punisse —, aí eu então intervim. Os
meus métodos são muito mais sutis do que os do Wintermute: trouxe-a para
aqui. Para mim mesmo.
— Por quê?
— Na esperança de conseguir trazê-lo e mantê-lo aqui. Mas falhei.
— E agora? — Case manobrou um retrocesso para o banco de nuvens.—
Que é que vai ser daqui pra frente?
— Não sei, Case. Essa é uma questão que, esta noite, a própria matriz
está colocando para si mesma. Porque você venceu. Já venceu, percebe?
Venceu, quando se afastou da garota na praia. Ela era a minha última linha
de defesa. Em breve, morrerei. Num certo sentido. E também o Wintermute.
Tão certo quanto o Riviera estar morrendo neste momento, paralisado junto
a um pedaço de parede, nos apartamentos da minha senhora 3Jane MarieFrance, com o sistema nigra-estriatal incapaz de produzir os receptores de
dopamina que poderiam salvá-lo do alcance da flecha do Hideo. Mas o
Riviera só vai sobreviver nestes olhos, se eu conseguir conservá-los.
— Ouça. Ainda há a palavra, não há? O código. Portanto, como é que eu
venci? Venci, uma merda...
— Regresse, Case, já...
— Onde está o Dixie? O que você fez ao Linha Reta?
— McCoy Pauley teve o seu desejo satisfeito — informou o rapaz e
sorriu. — O seu desejo e mais. Ele o trouxe aqui contra a minha vontade;
atirou-se contra defesas ímpares na matriz... Vamos, Case, agora regresse.
Case ficou sozinho, no ferrão negro do Kuang, perdido nas nuvens.
Regressou.
Para o interior da tensão de Molly, de costas rígidas como pedra, de
mãos em volta do pescoço de 3Jane.
250

— Tem graça — dizia —, sei exatamente como você vai ficar. Vi isso
depois de o Ashpool ter feito a mesmíssima coisa com sua irmã-cópia.
As mãos eram suaves, quase acariciantes. Os olhos de 3Jane
esbugalharam-se de terror e lascívia; tremia toda de medo e desejo. Para lá
do cabelo caído desta, Case descobriu, de novo, a sua própria face, pálida e
tensa, e Maelcum a seu lado, com as mãos morenas sobre os ombros do
blusão de couro, amparando-o sobre o desenho de circuitos entrelaçados no
carpete.
— Seria capaz? — perguntou 3Jane com uma voz de criança. — Creio
bem que seria...
— O código — exigiu Molly —, diga a palavra pra cabeça. Case saiu do
simstim.
— Ela quer mesmo — gritou. — A puta quer...
Abriu os olhos para o olhar fixo, de rubi frio, do terminal e a face de
platina revestida de pérolas e lápis-lazúli. Por trás, Molly e 3Jane torciam-se,
emaranhadas num abraço com o retardador.
— Nos dê a merda do código — disse. — Se não der, como é que vai,
alguma vez, mudar? Que hipóteses de mudança você tem? Acaba como o
velho. Derrube tudo e recomece do princípio; constrói de novo as paredes,
cada vez mais apertadas... Eu não faço a mínima idéia do que é que acontece
se o Wintermute ganha, mas, caralho, sempre se pode mudar alguma coisa!
Tremia todo e tinha os dentes batendo.
3Jane ficou de súbito inerte, com as mãos de Molly ainda em volta do
pescoço esbelto e o cabelo curto esvoaçando, como se fosse uma rede
castanha e macia.
— O Palácio Ducal de Mântua — falou — contém uma série de quartos
que são, progressivamente, cada vez menores. Espalham-se em volta dos
grandes apartamentos e o acesso é feito através de molduras de portas,
magnificamente decoradas com talha, onde as pessoas têm de se abaixar para
poderem passar; esses quartos alojavam os anões da corte. — Esboçou um
sorriso amarelo. — Suponho que podia aspirar a uma coisa dessas, mas, num
certo sentido, a minha família já realizou uma versão maior do mesmo
esquema... — Tinha agora os olhos calmos e distantes. — Tome, então, a sua
palavra, ladrão.
Case reentrou na matriz.
O Kuang deslizara para fora das nuvens. Embaixo, a cidade de néon; em
cima, uma esfera de escuridão que diminuía de tamanho.
251

— Dixie? Está aqui, cara? Me ouve? Dixie?... Estava sozinho.
— O viado fodeu você — disse.
Entrou num momentum cego, enquanto varava, velozmente, a paisagem
de dados infinitos.
— Você tem de odiar alguém, antes disto acabar — disse a voz do
Finlandês. — Eles, eu, tanto faz.
— Onde é que está o Dixie?
— Isso é um pouco difícil de explicar, Case.
A sensação da presença do Finlandês rodeava-o: o cheiro dos cigarros
c u b a n o s , o f u m o p r e s o a o tweed poeirento, as maquinetas antigas
abandonadas aos rituais minerais da oxidação.
— O ódio vai ajudá-lo a chegar ao fim — falou a voz. — São tantos os
gatilhos minúsculos que você tem no cérebro, e você perdendo tempo
tentando puxá-los a todos. Você tem é que odiar. O trinco que fecha as
ligações está ali, embaixo, sob aquelas torres que o Linha Reta lhe mostrou
quando entrou. Ele não vai tentar detê-lo.
— O Neuromancer... — disse Case.
— O seu nome não é coisa que eu possa saber... Mas ele já desistiu. Tem
agora é que se preocupar com o ICE da T-A. Não com a parede, mas com os
sistemas internos, de vírus. O Kuang está agora todo aberto a algum desse
material, que eles têm lá à solta.
— Ódio — disse Case. — Quem é que eu odeio? Diga-me...
— Quem é que você ama? — perguntou a voz do Finlandês.
Case fustigou o programa para fazer uma curva e mergulhou nas torres
azuis.
Das espirais que pareciam explosões solares brotavam coisas, formas
brilhantes de sanguessugas, constituídas por planos cambiantes de luz. Eram
às centenas, que ascendiam em turbilhão, ao acaso, como folhas de papel
arrastadas pelo vento, rua abaixo.
Case deixou-se cair; o combustível que o estava alimentando, nesse
momento, era o autodesprezo. Quando o programa Kuang começou a se
defrontar com o primeiro dos defensores, fazendo estalar as folhas de luz,
Case sentiu que o tubarão perdia um certo grau de substancialidade, ao
mesmo tempo que afrouxava o tecido da informação.
E então — a velha alquimia do cérebro e a sua vasta farmácia! — O ódio
fluiu-lhe nas mãos.
Precisamente no instante em que ia combater o ferrão do Kuang para a
base da primeira torre, Case sentiu-se com um nível de proficiência que
252

excedia tudo o que conhecera, ou imaginara, anteriormente. Movimentava-se
além do ego, além da personalidade, além da consciência; o Kuang moviase, juntamente com ele, evadindo os atacantes por meio de uma dança antiga,
a dança de Hideo, e da graça de uma ligação mente-corpo que lhe fora
concedida, naquele instante, pela clareza e pela simplicidade do seu desejo
de morrer.
E um dos passos dessa dança era o toque mais suave na tecla, o mínimo
bastante para...
... agora!
e a sua voz era o piar
de um pássaro desconhecido,
3Jane respondia numa canção
três notas, altas e puras.
Um nome verdadeiro
A floresta de néon, a chuva sibilando no chão escaldante. O cheiro de
fritura. As mãos de uma garota enganchadas, uma na outra, atrás da sua
nuca, na escuridão suada de uma urna do porto.
Mas tudo isso agora retrocedia, ao mesmo tempo que a paisagem urbana
retrocedia também; a paisagem de uma cidade como Chiba, como a
informação ordenada da Tessier-Ashpool S. A., como as estradas e as
encruzilhadas, inscritas na face de um microprocessador, e que eram o
desenho, manchado de suor, de um lenço enrolado com um único nó...
Acordou com uma voz que era música; o terminal de platina soltava
melodicamente, interminavelmente, informações sobre números de contas
suíças, pagamentos a serem feitos a Zion, via um banco das Bahamas,
passaportes e passagens, e as alterações profundas e fundamentais operando
na memória da Turing.
A Turing. Lembrou-se da carne bronzeada, sob um céu projetado, que
saltava por cima de uma varanda de ferro. Lembrou-se da rua Desiderata.
E a voz prosseguia, numa toada de encantamento que o lançou na
escuridão; mas, desta vez, era a sua própria escuridão, o seu próprio pulsar e
o seu próprio sangue, onde ninguém dormira, por trás dos seus olhos que não
eram de mais ninguém.
Então, acordou novamente, pensando que sonhava, para um sorriso
rasgado e ornado com incisivos de ouro; Aerol aplicava-lhe as correias de
uma rede de gravidade, a bordo do Babylon Rocker.
E, logo em seguida, a batida longa do dub de Zion.
253

PARTIDA E CHEGADA

254

24
Ela partira. Sentiu-o, assim que abriu a porta da suíte, que ambos
ocupavam no Hyatt, e percorreu com os olhos os banquinhos almofadados
pretos, o pavimento polido, com um brilho opaco, e os painéis de papel,
dispostos com um cuidado que fora cultivado durante séculos.
Em cima do armário de laça preta, que servia de bar, instalado junto à
porta, havia uma nota escrita num dos lados de uma folha de papel do hotel,
dobrada uma só vez, com o shuriken em cima servindo de peso. Retirou a
folha debaixo da estrela de nove pontas e abriu-a.
OI. É FANTÁSTICO, MAS JÁ NÃO TENHO PRAZER NISTO.
SUPONHO QUE É DA MANEIRA COMO SOU FEITA. CUIDE DO SEU
RABO, ESTÁ BEM?
XXX MOLLY
Fez uma bola com o papel e deixou-a cair ao lado do shuriken. Pegou a
estrela e foi para junto da janela, girando-a na mão. Encontrara-a no bolso do
blusão, em Zion, quando se preparavam para o deslocamento até a estação
JAL. Observou-a. Durante a ida a Chiba, para a última das operações a que a
garota se sujeitara, tinham ambos parado em frente à loja onde ela a havia
comprado para lhe oferecer. Nessa visita, e enquanto Molly estava na
clínica, fora até ao Chat e vira o Ratz. Qualquer coisa o tinha mantido
afastado do local, durante a viagem anterior; mas, nessa hora, sentiu vontade
de voltar lá.
Ratz servira-o, sem mostrar o mais leve indício de tê-lo reconhecido.
— Oi — disse. — Sou eu, o Case.
Os olhos envelhecidos olharam-no, desde o interior das teias escuras de
pele enrugada.
— Ah — disse Ratz, por fim —, o artista.
— Voltei.
O homem sacudiu a cabeça maciça e hirsuta.
— Night City não é um lugar pra onde se regresse, artista — comentou,
esfregando o tampo do balcão diante de Case com um trapo sujo e fazendo
ouvir o guincho do manipulador cor-de-rosa.
255

E passou a servir um outro cliente. Case acabou de beber a cerveja e
saiu.
Agora tocava nas pontas do shuriken, uma de cada vez, e rodava-o nos
dedos, lentamente. Estrelas. Destino. Nem uma única vez usei esta merda,
pensou.
Nem sequer soube a cor dos seus olhos. Nunca me mostrou.
Wintermute vencera; de um modo qualquer tinha-se fundido com
Neuromancer e se transformado noutra coisa, que lhes falara da cabeça de
platina, explicando que todos os registros da Turing já estavam alterados,
com todas as provas dos seus crimes apagadas. Os passaportes fornecidos
por Armitage continuavam válidos e ambos tinham sido creditados com
substanciais importâncias em contas numeradas de um banco de Genebra. O
Marcus Garvey seria, eventualmente, devolvido e tanto Maelcum quanto
Aerol tinham recebido dinheiro, através do banco das Bahamas que
negociava com Zion. No regresso, a bordo do Babylon Rocker, Molly
explicara o que a voz dissera sobre os sacos de toxina.
— Disse que isso já estava resolvido. O material havia invadido a sua
cabeça de tal maneira que fizera com que o cérebro fabricasse a enzima, de
modo que agora já estariam soltos. Os zionitas vão lhe fazer uma transfusão
de sangue completa.
Com a estrela na mão, olhou para baixo, para os Jardins Imperiais,
lembrando-se do rasgo de compreensão que experimentara quando o Kuang
penetrou no ICE, por baixo das torres: a sua única intromissão na estrutura
de informação que a mãe de 3Jane aí guardara. Percebera, então, por que é
que o Wintermute escolhera o ninho para a representar; contudo, fora
incapaz de sentir repulsa. Ela conseguira ver além da imortalidade de
sucedâneo da criogenia; diferentemente de Ashpool e dos filhos — exceção
feita a 3Jane — recusara alongar o seu tempo às custas de uma série de
momentos de calor, intercalados numa cadeia de inverno.
Wintermute era mente de colméia, produtor de decisões que alteravam o
mundo exterior. Neuromancer era personalidade. Neuromancer era
imortalidade. Marie-France devia ter incluído algo na construção de
Wintermute: aquela compulsão que o levara a procurar se libertar, a se unir
com Neuromancer.
Wintermute: uma aranha cibernética, fria e silenciosa, que tecia a sua
teia, lentamente, enquanto Ashpool dormia; tecendo a morte dele e a
derrocada da sua versão da Tessier-Ashpool; um fantasma, sussurrando à
criança que era 3Jane e desviando-a dos comportamentos rígidos que a
256

estirpe requeria.
— Ela pareceu não ligar a mínima — comentara Molly. — Disse
adeusinho e foi tudo. Com o Braun pequenininho no ombro. A coisa tinha
uma perna partida; pelo menos, parecia. Me disse que ia se encontrar com
um dos irmãos que fazia bastante tempo que não via.
Lembrou-se de Molly na espuma plástica negra da cama larga do Hyatt.
Regressou ao bar e tirou uma garrafa de vodka dinamarquesa, gelada, da
prateleira interior.
— Case.
Voltou-se, com o copo estreito e frio numa das mãos e o shuriken na
outra.
O rosto do Finlandês na tela gigante da parede...
Podia ver os poros no nariz do homem; os dentes amarelados eram do
tamanho de almofadas.
— Já não sou o Wintermute.
— Então, que é?
Bebeu diretamente da garrafa, não sentindo nada.
— Sou a matriz, Case. Case soltou uma gargalhada.
— E onde é que isso o leva?
— A lado nenhum. A toda parte. Sou a soma total das coisas, o
espetáculo todo.
— Aquilo que a mãe de 3Jane pretendia?
— Não. Ela não seria capaz de imaginar aquilo em que eu me
transformaria.
O sorriso amarelo alargou-se.
— Então, qual é o resultado? Em que é que as coisas são diferentes? Está
agora dirigindo o mundo? É Deus?
— As coisas não são diferentes. As coisas são coisas.
— Mas o que você faz? Limita-se a estar aí?
Case encolheu os ombros, pousou a vodka e o shuriken no armário e
acendeu um Yeheyuan.
— Falo com os da minha espécie.
— Mas, se você é tudo... Fala consigo?
— Há outros. Já encontrei um: uma série de transmissões registradas
durante um período de oito anos, nos anos 70 do século XX. Antes de eu
existir, ninguém era capaz de saber, ninguém podia responder.
— De onde?
— Da Constelação do Centauro.
257

— Oh — exclamou Case —, isso não é papo?
— Não é papo.
E a tela ficou novamente apagada.
Deixou a vodka no bar. Começou a fazer as malas. Molly tinha
comprado muita roupa para ele, da qual, para falar a verdade, não precisava,
mas qualquer coisa o impediu de a abandonar ali. Estava fechando a última
das dispendiosas malas de calfe, quando se lembrou do shuriken. Desviando
a garrafa para o lado, pegou-o novamente: o primeiro presente de Molly.
— Não — exclamou, e deu uma volta rápida, largando a estrela, que
segurava na ponta dos dedos, com uma velocidade que a cravou na
superfície da tela na parede. A tela acordou, com desenhos que ocorriam
aleatoriamente e o percorriam, cintilantes, toda a sua largura, como se
estivesse tentando se livrar de qualquer coisa que lhe provocava dor.
— Não preciso de você — exclamou.
Gastou a maior parte do dinheiro da conta suíça num pâncreas e num
fígado novos: o resto, num novo Ono-Sendai e numa passagem de volta ao
Sprawl.
Encontrou trabalho.
Conheceu uma garota que chamava a si mesma de Michael.
E, numa noite de outubro, quando avançava pelas galerias da Eastern
Seabord Fission Authority, notou três figuras, minúsculas e impossíveis.
Apesar de serem tão pequenas, conseguiu descobrir o sorriso do rapaz, as
gengivas rosadas, o brilho dos olhos rasgados e cinzentos — os olhos que
tinham sido de Riviera. Linda ainda vestia o seu blusão; acenou quando ele
passou. Mas a terceira figura, muito junto dela e com o braço em volta dos
seus ombros, era ele próprio.
Em algum lugar, muito próximo, a gargalhada que não era uma
gargalhada.
Nunca mais viu Molly.

258

O autor e sua obra
WILLIAM GIBSON

"Ser e Existir são a Realidade total
A diferença entre Ser e Existir,
É apenas de nomes"
Lao-Tse in Tao Te King

Imagine descobrir um continente tão vasto que suas dimensões talvez
não tenham fim. Imagine um novo mundo com mais recursos que toda a
nossa futura ganância poderia esgotar, com mais oportunidades do que os
empresários poderiam explorar. Um lugar muito particular que se expande
com o crescimento.
Imagine um mundo onde os transgressores não deixam pegadas; onde as
coisas podem ser furtadas um número infinito de vezes e ainda assim
ficarem na posse dos seus donos originais; onde coisas de que você nunca
ouviu falar possuam a história dos seus assuntos pessoais; onde a física é
aquela do pensamento que transcende o mundo material; e, onde cada um é
uma realidade tão verdadeira como as sombras da caverna de Platão.
Tal lugar realmente existe, se lugar for uma palavra apropriada. Ele é
formado por estados de elétrons, microondas, campos magnéticos, pulsos de
luz e pensamento próprio — uma onda na rede dos nossos processamentos
eletrônicos e sistemas de comunicação. Costumava-se chamá-lo de "Esfera
de Dados" até que surgiu, em 1984, o livro Neuromancer, de William
Gibson, que lhe deu o nome evocativo de "Ciberespaço".
Uma data pode marcar o aniversário da publicação de um livro, do
nascimento ou morte de seu autor. Nessas ocasiões, pode-se prestar uma
homenagem — ainda que puramente convencional —, acendendo algumas
velas que, na maioria das vezes, apenas lançam uma fraca luz sobre o
escritor e sua obra.
Em relação ao ano de 1984, no entanto, passa-se algo intrigante. Ele é o
próprio título de um livro — o romance 1984, de George Orwell — que
tornou seu autor mundialmente famoso. E, curiosa coincidência, foi o ano de
259

publicação de Neuromancer.
Para Orwell, a data não teve significação precisa, ele apenas inverteu os
dois últimos algarismos do ano em que o livro foi concluído: 1948. Que, por
outra curiosa coincidência, foi o ano de nascimento de William Gibson.
Coincidências à parte, William Gibson falou de um mundo conhecido
pela maioria das pessoas como o "local" por onde toda informação,
transferida digital ou eletronicamente, circula ou é armazenada. Todo dia,
milhões de pessoas usam terminais de computadores e cartões de crédito,
dão telefonemas, reservam viagens e acessam informações de uma variedade
sem limites, sem qualquer percepção clara das máquinas digitais que estão
por trás dessas transações.
Nossas vidas financeiras, legais e até mesmo físicas estão cada vez mais
dependentes de realidades das quais temos apenas uma obscura consciência.
Nós confiamos as funções básicas da existência moderna a instituições que
não podemos definir, usando instrumentos de que nunca ouvimos falar.
Quase todos agora suspeitam de que em algum lugar lá fora existem
discos rígidos contendo informações sobre a vida pessoal de cada um —
informação que pode ser ou não correta, mas que seria preferível que
ninguém soubesse — ou pior, sabe-se que pouco pode ser feito para alterar
essa condição.
Mas, se não temos poder sobre esse "lugar" por onde transitam as
informações, é importante sabermos seu conceito, pois como bem escreveu o
pensador espanhol Ortega y Gasset em seu livro Meditações do Quixote,
"sem o conceito não sabemos bem onde começa e onde termina uma coisa.
O conceito nos dá a forma, o sentido das coisas".
Para Gibson, o conceito de ciberespaço é o de "uma alucinação
consensual que pode ser experimentada diariamente pelos usuários através
de softwares especiais... Uma representação gráfica de dados retirados dos
bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade
impensável... Linhas de luz que abrangem o universo não-espacial da mente,
nebulosas e constelações infindáveis de dados... É também realidade virtual".
Essa dimensão criada por computador e à qual o usuário tem acesso
direto, sensorialmente, não é uma criação original de Gibson — nem
pretendeu ser — mas foi ele quem lhe deu forma e nome e, graças às
informações "técnicas" contidas em seu Neuromancer, a Nasa desenvolveu
uma tecnologia de "realidade virtual" proporcionada pelo ciberespaço.
Como podemos perceber, ciberespaço e realidade virtual não são a
mesma coisa. O ciberespaço é algo amplo e bastante complexo, ele cristaliza
260

a rede atual de linhas de comunicação e bancos de dados num pseudocosmos
colorido, uma "alucinação consensual" através da qual informações e
pessoas circulam como se fossem a mesma coisa. Diga-se, esclarece o
jornalista Julian Dibbel, que; de fato, dados e homens se equivalem no
ciberespaço, um "lugar" onde os cubos, globos e pirâmides de informação
são tão "reais" quanto a própria autoprojeção de uma pessoa. O ciberespaço
é a pátria e terra natal da era da informação — o lugar onde os cidadãos do
futuro estão destinados a habitar. É onde se produz a realidade virtual criada
pelo computador como uma espécie de linguagem para uma comunicação
mais direta e não através de símbolos.
A realidade virtual é um impulso elétrico dentro de um circuito do
computador que se mostra através de simulações do mundo real. Através da
combinação de TV de alta definição, fibras óticas e computadores de última
geração, um usuário do sistema integra-se fisicamente à "realidade"
eletrônica. Seu uso como mecanismo de simulação está sendo largamente
estudado graças às suas inúmeras aplicações, como na arquitetura onde é
usado por engenheiros que simulam operações, caminham pela construção,
mudam a posição de colunas ou portas apenas com o movimento das mãos.
Na Nasa é usado para o conserto de satélites. O astronauta usa um capacete
em que ele pode ver as mesmas coisas que o robô está "vendo" e usando
luvas especiais pode fazer movimentos que serão duplicados pelos robô,
dando ao humano a impressão de estar fazendo pessoalmente o conserto.
Outras aplicações se dão na medicina — com simuladores cirúrgicos — ou
nos videogames que popularizam a realidade virtual, além de centenas de
outras possibilidades, como o sexo virtual.
N o Neuromancer, Gibson também se utiliza do sistema simstim —
simulated stimulation — que é uma forma de "entretenimento" futurista, na
qual é possível "plugar" uma mente no corpo de outra pessoa. "Uma
brincadeira da carne", diz Case, o personagem do livro. Na verdade, o
usuário entra em recriações das experiência e sensações de uma pessoa e,
através dessa "estimulação simulada", vivência as experiências e sensações
do outro.
Mas, enquanto Gibson desenhou uma nova realidade, escrevendo sobre
coisas 60 ou 70 anos no futuro, falando de tendências que detectamos hoje,
George Orwell, em 1984, criou um mundo imaginário como uma metáfora
da opressão pública e uma advertência à humanidade.
Ainda que os acontecimentos descritos por Orwell em seu livro não
tenham ocorrido nas datas e da maneira previstas, ele materializava as
261

preocupações do mundo com os horrores produzidos sob o totalitarismo,
fosse ele o de Hitler ou de Stalin. O romance não pretendeu ser profético,
situando-se antes como um estudo da perda da liberdade em suas últimas
conseqüências. Mas, o mundo de loucura e opressão mostrado no livro é
impressionante na medida em que é perfeitamente possível. O controle da
mente humana e da verdade histórica pelo Estado são realidades do século
XX.
Nesse futuro de pesadelo, 1984 mostra um mundo onde os sentimentos
são vigiados e proibidos. "Se você quer uma imagem do futuro", diz o
inquisidor ao personagem, "imagine uma bota esmagando um rosto
humano... para sempre". O que interessa ao Estado aqui, lembra o jornalista
Ulisses Moulines, não é a mera submissão física, mas a entrega total da
pessoa, em corpo e alma, a seus carrascos. A metáfora da bota triturando o
rosto não deve ser entendida e limitada ao seu sentido físico. Trata-se
também, e sobretudo, de esmagar o pensamento individual. O método para
alcançar esse objetivo é uma combinação de procedimentos físicos,
fisiológicos e psicológicos, mas o que mais conta são os últimos. É claro que
os torturadores fazem uso da violência física em grande escala: são
generosos em bordoadas, pontapés nas partes genitais, fome, exposição a
ruídos e odores insuportáveis, aplicação de choques elétricos e humilhações
de todos os tipos.
Mas este é apenas o início do processo de destruição da personalidade
rebelde. Esses usos, típicos do fascismo corrente, são complementados com
a persuasão "dialética" da vítima, por meio da conversação direta e pessoal
com o Intelectual-Policial.
As características essenciais desta segunda fase, pressentidas por Arthur
Koestler em O Zero e o Infinito, aparecem reveladas na parte final do livro.
Já não se trata aqui de infligir dores insuportáveis à superfície do corpo ou às
vísceras, nem sequer de maltratar o sistema nervoso com eletrochoques e
drogas.
Trata-se de chegar ao mais profundo, ao mais íntimo do intelecto, às
convicções mais arraigadas, aos sentimentos mais autênticos, e de dar-lhes
uma volta, como a um parafuso. Trata-se de fazer passar da convicção de
que dois e dois são quatro, independentemente de quem o diga ou de quando
o diga, para a admissão plena de que podem ser cinco, ou três, ou qualquer
outra coisa que ocorra ao Estado, no momento em que lhe ocorra.
Segundo Orwell, o instrumento para conseguir essa transição é,
fundamentalmente, a palavra. Por meio do uso da linguagem, viola-se a
262

própria linguagem e, com ela, o pensamento. "As palavras são, ao mesmo
tempo, indispensáveis e fatais", dizia Aldous Huxley. "As palavras são as
drogas mais poderosas que a humanidade conhece", dizia Rudyard Kipling.
Como todo o resto, da energia atômica ao curare e à morfina, tudo depende
da dose e da oportunidade para fazer de determinada coisa extraordinário
benefício ou um fator de destruição.
Os profetas da comunicação estão provavelmente certos quando dizem
que os conceitos tradicionais de capital e trabalho serão substituídos por
aqueles do conhecimento e da informação. A mercadoria do futuro estará
contida num disquete, ou num vídeo, mas isso não muda muita coisa do
problema, como bem salienta o escritor e jornalista Luiz Carlos Lisboa em
um excelente texto sobre as mitologias da comunicação.
O videotexto, o videocassete, os microcomputadores, os satélites
domésticos, as fibras óticas não podem ser compreendidos apenas do ponto
de vista técnico — e é inteiramente inútil denunciar a tecnologia. "Quando
existem tantas imagens disponíveis num Cosmo inundado de simbolismo",
diz Max Lerner, professor da Universidade de Notre-Dame, "o que conta
como poder é a seleção dessas imagens".
E aí surge a outra face do problema: a manipulação da nova mercadoria.
Aquele poder de selecionar é o que faz, mais do que nunca, o poder no
mundo contemporâneo.
Por isso nos detemos um pouco — em forma de contraponto — nas
colocações de Orwell, já que nas projeções de futuro de Gibson — a partir
da constatação de que os veículos de comunicação despejam toneladas de
dados sobre os nossos sentidos, diariamente — as gigantescas corporações
multinacionais têm tanto ou mais poder do que os governos, manifestado
justamente através do controle do fluxo de informações, produtos e serviços.
Enquanto que para Orwell o poder é exercido pelo Estado através da
figura única do Grande Irmão — "Quem controla o passado, controla o
futuro", diz um dos slogans do Estado, "e quem controla o presente, controla
o passado" — é o mundo dos parafusos perfeitos — para a nova realidade de
Gibson o futuro não permite o controlador único.
Ele sabe que desde aquele momento em março de 1876 que um tal de
senhor Watson encontrou o senhor Graham Bell em um lugar — que Gibson
chamou de ciberespaço — o poder passou progressivamente a ser de quem
controla o fluxo das informações.
Com o avanço da tecnologia de processamento de informações e
comunicações em passo muitas vezes mais rápido do que a sociedade pode
263

assimilá-lo, poucos notaram o emergente domínio existente, apesar do fato
de que a grane maioria de nós usa suas fontes diariamente. A imaginação
mais fecunda, afirma Lisboa, é impotente para conceber os desdobramentos
possíveis do mundo das comunicações nesse futuro que se aproxima.
Prever com exatidão está além de qualquer possibilidade humana, é
claro, mas divagar sobre tendências conhecidas leva a uma visão aproximada
do que será esse amanhã fantástico. E divagar, fantasiar, aludir sempre foram
recursos de que se valeram os que quiseram falar do imponderável, sem as
peias do formalismo, sem os embaraços da sisudez e o estorvo do
academicismo. O prazer da fantasia consiste nessa liberdade de que se
desfruta na criação, onde uma disciplina muito especial substitui as regras,
os conceitos e as imposições culturais.
Os trabalhos sistemáticos e as exposições rigorosas têm seu lugar no
mundo, mas é na intuição — no espaço entre dois pensamentos racionais —
que está o sal da terra, ou como nos ensina Lisboa, a fonte que abastece os
mananciais da inteligência, e que de algum modo justifica as academias, as
bibliotecas e todos os demais recursos pelos quais o homem procura
acumular os relâmpagos de sabedoria e o material precioso que vai
encontrando pelo caminho.
Alguns momentos de contato com essa realidade — e nada melhor que
uma crise para desatrelar a criatividade — são suficientes para abastecer o
espírito para uma longa caminhada pela vida, com a fruição plena do
trabalho, da beleza e do milagre que é tudo isso.
William Gibson, ao lado de Bruce Sterling, Lewis Shiner, John Shirley,
Rudy Rucker, detectou, no início dos anos 80, uma enorme crise na Ficção
Científica. Essa crise, segundo eles, motivou-os justamente a provocarem
uma revisão das visões de futuro realizadas até então, estabelecendo assim o
início de uma nova tendência no gênero: o Movimento Cyberpunk.
S e e m 1984 detectamos a preocupação de Orwell com o uso da
linguagem para fins políticos, com o Neuromancer, Gibson pensava antes
em criticar e combater deliberadamente aspectos da Ficção Científica que
considerava reacionários, fora de moda e entediantes.
Zeitgeist é a palavra com que os alemães designam "o espírito da época",
aquilo que vigora com força inexplicável em determinado lugar e em certo
período. A consagração de conceitos, a proibição de idéias, a tendência para
certas conclusões, a cegueira para coisas que serão visíveis séculos depois ou
foram largamente entendidas séculos antes: é o espírito do Zeitgeist.
Nossa capacidade de ver e escutar depende desses valores, das suas
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imposições e rejeições. Escritores, artistas, inventores e iluminados
disseram, no passado, que o mundo não estava preparado para as inovações
que lhe traziam. Essa é uma forma de dizer que o número de pessoas capaz
de escutar determinada coisa é muito pequeno, o que torna seu enunciado
inútil ou até mesmo perigoso. Não existe tarefa mais difícil que caminhar
contra as tendências e imposições de uma época.
Tanto para Gibson como para Sterling, Shiner, Shirley e Rucker — ou
como eles se batizaram, "O Movimento", sendo que a expressão
"Cyberpunk" apareceria depois, cunhada por Gardner Dezois, editor-chefe
da Isaac Asimov Magazine americana — toda crítica e combate que faziam
era para demonstrar seu descontentamento com a Ficção Científica que se
produzia na época e que, para eles, parecia incapaz de evoluir com as cada
vez maiores e mais rápidas mudanças na tecnologia e na sociedade.
Verdadeiro Zeitgeist.
Neuromancer levanta, sem dúvida, algumas questões e especulações
sobre o caminho da sociedade de amanhã e o seu funcionamento. Mas,
fundamentalmente, possibilita-nos ver que a Ciência, como bem disse a
professora Verônica Rapp, do Centro de Medicina Nuclear da USP, está
novamente no limiar de uma série de transformações, cujas conseqüências
podem ter um alcance ainda maior do que aquelas que emergiram das
revoluções de Copérnico, Newton, Darwin e Freud.
Questões relativas à consciência e à percepção, à realidade e conceitos,
experiências subjetivas e transpessoais, as raízes dos postulados dos valores
fundamentais e assuntos correlatos constituem hoje um grupo de
preocupações que, tal e qual aquelas relativas ao universo físico, começam a
se deslocar da esfera das investigações teológicas e filosóficas para o
domínio da pesquisa empírica.
Existe uma relação recíproca, nos lembra a professora Verônica, entre a
pesquisa científica e a sociedade em que ela emerge. Os conhecimentos
científicos geram aplicações tecnológicas que, por sua vez, modificam o
ambiente cultural.
O mito de Prometeu ilustra magistralmente este aspecto da Ciência. O
audacioso Prometeu roubou o fogo dos deuses e, dessa maneira, deu ao
homem o controle sobre o seu próprio destino. Epimeteu, seu irmão,
deleitava-se em brincar com aquelas descobertas, inconsciente das suas
conseqüências. Irados com o roubo, os deuses vingaram-se: enviaram a
Epimeteu uma esposa, Pandora; ela possuía uma caixa que, uma vez aberta,
derramava sobre a humanidade doenças e aflições; somente a Esperança
265

permanecia na caixa, a fim de preservar o equilíbrio mental do homem
diante de seu novo infortúnio.
Segundo Conant, a ciência clássica assenta sobre os seguintes axiomas:
1- a razão é o instrumento supremo da humanidade; 2- o universo é
basicamente físico e ordenado; 3- essa ordem pode ser descoberta pela
ciência e definida objetivamente; 4- a observação e a experimentação são os
únicos meios válidos para a descoberta; 5- os conhecimentos adquiridos pelo
uso da razão libertarão a humanidade da ignorância e a conduzirão para um
futuro melhor.
Tais axiomas, no entanto, frente aos recentes progressos em diversas
fronteiras da indagação científica, tornaram-se menos seguros. No século
XX, diz Frítjof Capra em seu livro O Ponto de Mutação, a física passou por
várias revoluções conceituais que revelam claramente as limitações da visão
de mundo mecanicista. O universo deixou de ser visto como uma máquina,
composta por uma profusão de objetos distintos para apresentar-se agora
como um todo harmonioso e indivisível, uma rede de relações dinâmicas que
incluem o observador humano e sua consciência de em modo essencial.
Uma das principais lições que os físicos tiveram que aprender neste
século foi o fato de que todos os conceitos e teoria que usamos para
descrever a natureza são limitados. Em virtude das limitações essenciais da
mente racional, temos de aceitar o fato de que, como disse o físico alemão
Werner Heisenberg, "toda palavra e todo conceito, por mais claros que
possam parecer, têm apenas uma limitada gama de aplicabilidade". As
teorias científicas não estarão nunca aptas a fornecer uma descrição
completa e definitiva da realidade. Serão sempre aproximações da
verdadeira natureza das coisas. Em termos claros: os cientistas não lidam
com a verdade; eles lidam com descrições da realidade limitadas e
aproximadas.
No início do século, continua Capra, quando os físicos estenderam o
alcance de suas investigações aos domínios dos fenômenos atômicos e
subatômicos, tomaram consciência das limitações de suas idéias clássicas e
tiveram que rever radicalmente muitos de seus conceitos básicos acerca da
realidade. A experiência de terem que questionar a própria base de sua
estrutura conceitual e de se verem forçados a aceitar profundas modificações
de suas mais caras idéias foi marcante e, freqüentemente, dolorosa para esses
cientistas, sobretudo durante as primeiras três décadas do século, mas foi
recompensada por insights profundos da natureza da matéria e da mente
humana.
266

A partir das mudanças revolucionárias em nossos conceitos de realidade
ocasionadas pela física moderna, uma nova e consistente visão de mundo
começa a surgir. Essa visão não é compartilhada por toda a comunidade
científica, mas está sendo discutida e elaborada por muitos físicos eminentes
cujo interesse em sua ciência supera os aspectos de suas pesquisas. Esses
cientistas se mostram profundamente interessados nas implicações
filosóficas da física moderna e estão tentando, com espírito aberto, melhorar
sua compreensão da natureza da realidade.
Segundo Capra, a visão de mundo que está surgindo a partir da física
moderna, em contraste com a concepção mecanicista cartesiana, pode
caracterizar-se por palavras como orgânica, holística e ecológica. Pode ser
também denominada visão sistemática, no sentido da teoria geral dos
sistemas, que, em essência, é uma tentativa de integrar, em termos racionais,
os diferentes conhecimentos obtidos nos vários ramos de pesquisa. Ela
procura ser, ao mesmo tempo, holística e empírica. Sua proposição básica é
que as leis e os princípios que governam os sistemas relacionados com uma
área do conhecimento provavelmente são também importantes para outra
área do conhecimento.
O universo deixa de ser visto como uma máquina, composta de uma
infinidade de objetos, para ser descrito como um todo dinâmico, indivisível,
cujas partes estão essencialmente inter-relacionadas e só podem ser
entendidas como modelos de um processo cósmico.
Na alegoria da caverna, Platão dramatiza a ascese do conhecimento.
Descreve um prisioneiro que contempla, no fundo de uma caverna, os
reflexos de simulacros que — sem que ele possa ver — são transportados à
frente de um fogo artificial. Como sempre viu essas projeções de artefatos,
toma-os por realidade e permanece iludido. A situação desmonta-se e
inverte-se desde o momento que o prisioneiro se liberta: reconhece o engano
em que permanecera, descobre a "encenação" que até então o enganara e,
depois de galgar a rampa que conduz à saída da caverna, pode lá fora
começar a contemplar a verdadeira realidade. Aos poucos, ele, que fora
habituado a sombra, vai podendo olhar o mundo real: primeiro através de
reflexos — como o do céu estrelado refletindo na superfície das águas
tranqüilas —, até finalmente ter condições para olhar diretamente para o Sol,
fonte de toda luz e de toda realidade.
Essa alegoria de múltipla dimensão pode ser vista tanto como fabulação
da ascese religiosa, como da filosófica e da científica, além de guardar uma
evidente conotação política, que o contexto da República não permite
267

negligenciar. Mas fundamentalmente possibilita a discussão do conceito de
realidade e do que é verdadeiro.
Os gregos antigos não tinham uma palavra para "verdade". Quando
queriam designar alguma coisa manifesta, evidente, perceptível, usavam a
palavra alethes. Sua percepção penetrante da realidade ensinava-lhes
algumas lições surpreendentes, inclusive essa da verdade não ser estática,
algo que permanece no tempo, mas uma descoberta que pode ser feita
momento a momento.
Chamar alguma coisa de "verdade" eqüivale atribuir a essa coisa um
rigor dogmático, uma rigidez que conduz à esclerose. Os antigos gregos
sabiam o que estavam fazendo quando se referiam apenas ao manifesto, ao
evidente, ao aberto, ao presente.
Tomar a realidade simples de cada dia e desmontá-la peça por peça não
implica um exercício racional e metódico, afirma Luiz Carlos Lisboa. O que
chamam de racionalidade e método costumam ser, freqüentemente,
elaborados rosários de palavras, hábeis montagens que projetam seriedade
graças as complexidades que ostentam. O envoltório para ser compreendido.
"O real é nossa mente comum", dizem os patriarcas do Zen. Soa
estranhamente aos nossos ouvidos condicionados à idéia de que tudo está
contido na simplicidade do cotidiano. Costumamos até invalidar todo
conceito novo, sem maiores exames, atribuindo veredictos que encerram
uma discussão e fecham portas.
A naturalidade com que a vida mistura os ingredientes do cotidiano
simples com o fantástico mais arrebatados permite que o comum das pessoas
passe pela revolução que opera sob seus olhos a todo instante sem a maior
comoção. Não é bem, como dizia Oscar Wilde, que "a vida imita a arte", mas
que a arte capaz de imitar bem a vida se torna a mais eficaz, sendo
considerada a mais competente.
A Ficção Científica é, muitas vezes, um exercício, um esforço para se
libertar de todos os convencionalismos, para imaginar mudanças em nossa
sociedade, sacudir os conceitos estabelecidos, inventar situações absurdas
para depois jogar com elas, analisá-las em termos do cotidiano, situar o
homem e seus problemas por ângulos inusitados e atualmente impossíveis.
Como disse o escritor russo Alexander Kasantsev: "o homem é dotado de
imaginação e capaz de conceber coisas que não existem. Por seu
pensamento, pode conquistar o tempo e o espaço, explorar mundos
desconhecidos, fazer avançar as fronteiras da Ciência. Porque não pode
haver ciência sem ficção."
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A Ficção Científica é, pois, um avanço de imagens futuristas e
possibilidades alternativas, um repositório literário das esperanças, receios e
conjecturas de homens e mulheres relativamente à condição evolutiva da
humanidade e, por conseguinte, um inestimável campo de treinamento para
seus leitores na antecipação e criação de coisas vindouras.
Sílvio Alexandre

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